13/10/2011

mundo de sonhos

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Por vezes, a única coisa que somos capazes de fazer é pousar a cabeça na almofada e dormir. E muitas vezes (“vezes”, de novo, para continuar a usar a casualidade dos momentos) é aí que vemos a verdadeira vida a passar-nos diante dos olhos. Não que os sonhos sejam mais reais do que, bem, do que a realidade, nada disso. Simplesmente é aí que vemos a vida como gostaríamos que fosse.
Nos meus sonhos, vejo-te nua, diante de mim, não hesitante, mas encolhida. Talvez seja do frio, só pode ser do frio. É óbvio no meu corpo que nada do teu é feio ou imperfeito ou até menos belo. Não… Toda tu és de uma sinuosidade perfeita. Aqui uma curva, ali um declive, ali dois perfeitos e redondos montes de prazer cujo cume arrebitado acaricio e beijo.
Nos meus sonhos, cubro-te nua, debaixo de mim. Aperto-te contra o chão e tu apertas-te contra mim. Talvez te esteja a magoar, pelo gemido que soltas. Não… Todo eu sou um cobertor, que te aquece e protege do frio da noite e do mundo que está para lá dos sonhos. Um roçar. Calor, novo roçar. Tapo-te e escondo-me. Dentro de ti.
Nos meus sonhos, cobres-me nua, em cima de mim. Empurras-me o peito e a barriga. Talvez tudo tenha acabado e te queiras ir embora. Não… És a água que me limpa. Passas por mim numa torrente de redemoinhos e gotas de suor quente que me escorrem pelo rosto, pelo tronco, pelo tronco, por todo o meu corpo, parcialmente dentro de ti.
Nos meus sonhos, deitas-te ao meu lado, nua, eu igualmente nu. Olho para ti e rio. Não por gozo. Não por insatisfação. Mas porque sonho. E tu estás nua, ao meu lado, com gotas de mim dentro de ti, e eu estou nu, ao teu lado, com gotas de ti sobre mim. E então beijo-te.
Nos meus sonhos, tudo recomeça.

19/07/2011

bola de amor / bola de ódio

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Sinto-lhe o cheiro doce, intenso, a vibrar pela sala. Vejo-lhe os olhos brilhar. Não acendi velas, não baixei a luz. Quero vê-la, quero óbvia e cegamente vê-la. Sigo-lhe o pescoço, os ombros, os braços que descem até às mãos finas. Conduzo-me pelo rosto, pela garganta, pelo peito quase destapado que quero destapar por completo. Ouço-lhe as palavras, deixo-me guiar pelo que dizem e banho-me no som. Agora é ela que me segue o corpo, que se deixa inundar pelas minhas palavras. Vemos o brilho dos nossos olhos reflectidos uns nos outros. Vemo-nos um ao outro. Paro de falar e fito-a. O olhar dela está errante, percorre o meu, à esquerda e à direita, à espera que retome. Inclino-me para ela. Digo-lhe que é deslumbrante e que me apetece perder-me nela. O primeiro beijo desarma-me. Não sei de onde partiu, nem quando, mas perco-me neles, naqueles lábios grandes, de sorriso rasgado. A minha mão procura-lhe a nuca e afaga-a. A outra percorre-lhe as costas e pousa nas ancas. Agora sou eu que a beijo, encontrei-me na língua dela. Sinto o seu peito bater no meu. Forte, rápido, agitado. Como um comboio desgovernado. As nossas mãos percorrem-se, despem-se.


E eu entro.


Sem parar.


Uma vez.


E outra.


E mais outra.


É a minha carne que avança.


São os nossos sexos que convergem.


Somos nós que gememos. De prazer. De ardor. De desejo. E amor.


Somos nós que nos comprimimos, com o suor a escorrer como um rio.


Mais.


Mais um pouco, por favor.


Mais uma vez.


Mais.


Mais…

bola de ódio / bola de amor

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O primeiro murro parte-me a mão. Sinto os dedos contorcerem-se de dor contra a parede, desviados do seu rumo natural. O branco sujo pelos anos enche-se de sangue, num borrão vermelho. Sei que soltei um grito. Dois segundos depois, um outro murro acerta em cheio no tecto das águas-furtadas. A madeira estala, mas não a mão, esta aguentou o choque. Sem conseguir firmar um punho, agarro na televisão, no despertador, na impressora. Um a um, atiro-os a todos contra a mancha vermelha, como se de um alvo se tratasse. É o meu sangue que ali está, sou eu o alvo. Ao pontapé, destruo as portas do armário até sentir os dedos esfolar. É então que caio. Os joelhos acertam no chão com um baque mal abafado, o som a ecoar pelas paredes e pelos meus ouvidos. Aquele baque enlouquece-me. A mão esquerda, a que não está partida, acerta-me no peito, no rosto, nas costelas. A mão direita pede-me que pare, já chega, pára, pára, por favor, pára. E a mão esquerda obedece. Mas não totalmente. Agora esmurro o chão, como se da minha cara se tratasse, como se aquele soalho fosse a minha pele, os meus ossos e dentes, o meu ser.


E ela bate.


Sem parar.


Uma vez.


E outra.


E mais outra.


É a minha pele que rasga.


São os ossos da minha mão que partem.


Sou eu que grito. De dor. De mágoa. De ódio. E bato.


Sou eu que me imploro para parar, com as lágrimas a cair como chuva.


Pára.


Pára, por favor.


Já chega.


Pára.


Caio…

24/01/2011

Restos

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O carro vem silencioso. A meu lado, paira ainda o peso da tua presença. Oiço-te ao longe, muito para trás, com a voz suave, levemente aguda e completamente doce. Que cromo que sou por dizer estas coisas. O termos de chá verde que te levei e as migalhas das bolachas compradas em jeito de prenda de Natal tardia são os restos de ti que levo hoje para casa. E o rádio ainda insiste em não tocar o cd dos Deolinda, por despeito, por teimosia, por flagrante vontade em destruir aquele plano simples de te levar de novo ao concerto, por breves segundos que fossem. E por isso o carro vem ainda silencioso, com a memória tão, tão recente da tua voz. Procuro o termos às cegas, apalpando o banco onde minutos antes te sentaste, e abro-o. O vapor ainda cheira a quente e, a custo, fugindo ao susto do embate, sirvo-me com a caneca que usaste. Doce aroma a ti! O chá desaparece, o quente empalidece, são os teus lábios que sorvo, o teu aroma que consumo! Oh doce sabor a ti, que não nomeio para escapar à tua fúria divina, mas tu soas a carícia, uma doce e terna delícia e sim, eu calo-me, enquanto este chá durar, eu calo-me. E conduzo. Com o carro silencioso. A estrada vazia. E o ar cheio de ti.

25/10/2010

Regressos

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O tempo não interessa. Um dia, um mês, um ano, tudo passa. Não importa o quanto demorou este momento, este novo e primeiro olá, depois de tantos olás esquecidos, noutros tempos tão doces e agora tão, tão amargos, acres como um gelado fora do prazo. Não quero pensar em quanto tempo passou. Não quero perceber se foram meros dias que bateram ou os séculos que senti. Estou aqui. Sinto o cheiro da tua pele e sonho com a profundidade dos teus lábios, com os teus olhos redondos, e nada mais importa. Seguro-te o rosto, emoldurando-o por uns segundos, uns breves e fugidios segundos que passam a correr enquanto me dizes olá, tudo bem? e agimos como se nada tivesse alguma vez acontecido, como se o silêncio, as horas, a distância não tivessem existido. Estás aqui. Seguras-me as mãos que te seguram o rosto, afagas-me os dedos e vês o teu sorriso reflectido nos meus olhos, bem no fundo daquilo que será a minha alma, se tal ainda existir, se tal não for já/ainda teu. E ficamos calados, porque o tempo não importa, estamos aqui. Nada mais importa.

13/04/2010

Pensar em música de José Cid que mais se adequa (vocês sabem do que estou a falar!)

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Fim. Última paragem. The end.
Bem, isto não passa de uma confirmação, este blog deu tudo o que tinha a dar (há já MUITO tempo). Para A pessoa que cá vinha, foi um prazer. Para todos os outros milhares de milhões de pessoas fictícias que eu sabia que visitavam o blog, façam-se à vida! É assim, já chega de me enganar a mim próprio a dizer que vale a pena manter porque mais tarde ou mais cedo vai apetecer voltar a escrever. Tretas. É o fim.
E viveram felizes para sempre...

01/03/2010

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Absinto para te ver, whisky para te apagar. Bebo-os à vez. Apareces-me à frente, o cabelo num nó na nuca. Corto-to. As tuas mãos, de dedos esguios. Tapo-as. A tua barriga branca… A minha boca torna-se o copo, o estômago há-de tornar-se a garrafa. Ainda a tua barriga, a fervilhar de vida… Não sei qual engulo, se a bebida que me faz ver-te, se a que me faz apagar-te. Mais. Preciso de mais, muito mais. O Poe diz-me para ter calma. O Byron ri-se, do outro lado da mesa, a mão na perna da empregada. Sou muito novo ao pé deles. Se me perguntarem por que escrevo, vou mentir. Mas a verdade é que escrevo porque preciso que me vejam. Preciso de me lembrar que estou vivo. Escrevo porque não me resta mais nada. A barriga, cheia de vida…

23/02/2010

Camisa branca, gravata preta

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A tradição manda usar pelo menos essas duas peças, camisa branca, gravata preta, quando se vai a um funeral. Supostamente, mostra respeito. Hoje cumpri esse ritual, debaixo da ameaça da chuva, como parece sempre acontecer nestas alturas.
Adeus, avô. Fica bem.

24/01/2010

meias

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Disseram-me para andar até os pés sangrarem. Estou descalço, não demorou muito. Está a chover, tinha que estar a chover, não teria o mesmo impacto se fosse uma manhã de Verão. Tenho os pés a sangrar, além de estarem gelados. A chuva escorre-me pelo cabelo, percorrendo-me o rosto, dois rios separados pelo nariz. Quase não consigo ver. Talvez esteja a sorrir, talvez esteja a ranger os dentes. Impossível saber. Bem, eu sei que estou a sorrir. Vim ter aqui. A minha porta favorita do meu prédio favorito. A verdade é que não parei quando os pés sangraram. Continuei, mesmo descalço, e vim ter aqui. Preciso que me acendas a luz. Uma luzinha pequenina. Tenho de a ver para saber quando subir, quando entrar. Ei, se por mais nada, deixa-me entrar e secar por aí.

- Não sei por que estou aqui. Ok, risca isso, sei perfeitamente. Mas não te vou dizer, o motivo é óbvio, não é? Quer dizer, vim aqui ter descalço, à chuva, e só agora me estou a aperceber de que não trouxe casaco. Pois. É isso. É exactamente isso. Cometi muitos erros na vida. Não, espera, deixa-me falar. Cometi muitos erros. Ter vindo aqui, assim, pode ter sido um deles. Bolas, o mais certo é amanhã ter uma pneumonia diabólica, mesmo ao gosto do Poe. Mas o ter vindo aqui, só por si… está longe de ser um erro. Foi a minha vida, os meus erros, as minhas escolhas que me trouxeram até este momento, até ti. E se amanhã tiver realmente uma pneumonia, terá valido a pena. Porquê? Mesmo que seja efémero, ter-te aqui a ouvir terá valido a pena. O erro talvez tenha sido vir descalço, mas ei, ninguém é perfeito. Não sei do que estou à espera, simplesmente vim aqui. A andar com cuidado, a tentar ser corajoso, a esconder o medo a cada passo, as lágrimas a cada pingo de chuva. Sou só um tipo a tentar dar uma pena a um flamingo. Ridículo, não é? Mas que mais posso eu querer além dessas tuas asas, dessas tuas penas em cima de mim? Talvez umas peúgas, tamanho 46, tens?

19/01/2010

Tempestade

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Sopra, vento. Cai, chuva. Rebentem, ondas e trovões. As paredes escorrem de água, os cantos inundados. A cama estremece, como que viva. Os lençóis ensopados, húmidos do fervor febril. Soltam-se palavras trémulas, esbatidas, perdidas em tremores. A alma quente, ébria e descontrolada. Os corpos colam-se, não doentes, mas ardentes, fundem-se, confundem-se, a mão dele, o seio dela, a boca, a língua, um mar de pele e água, interminável e ondulante. Oh maravilhosa tempestade… sopra, bate, parte toda a noite, envolve-me no teu abraço turbulento, arrebata-me pelos ares em rodopio, parte-me o corpo até não restar nada! Que quente o teu vento, que doce a tua chuva…

17/01/2010

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Nada para dizer. Não tenho nada para dizer. Todos estes dias e nada. Fecho os olhos e vejo os meus dias. Vazios. Escuros. Nada. Não posso fingir que estou a voar, não dá para acreditar que estou a nadar, todo este vácuo, este frio. Será que estou vivo? Será que sou um morto-vivo, que ando lentamente, de braços para a frente, a tentar comer o cérebro de outras pessoas? Não. Não, não, não. Sou apenas um tipo a tentar não pensar no que faz pela vida. E ao tentar não penso. E ao não pensar não faço. E não tenho vida. Não tenho nada. Fui vandalizado.

13/08/2009

a delícia da morte

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Para quê essa faca

Junto ao meu peito?

Leva o coração, os olhos, a boca,

Tudo isso é teu.

Deixa-me apenas a alma e os dedos,

Para te poder escrever sem que me leias.

E mesmo que não me oiças

E não me leias

E não me sintas senão para me levar aos poucos,

É para viver que te escrevo

E para me matares devagar.

Mata-me.

Todos os dias, mata-me.

08/07/2009

Suor em lágrimas

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Os olhos transpiram
Nesta noite de calor, presos a ti.
Não são lágrimas, não;
É o suor de te amar,
De arder neste chão contigo.

28/06/2009

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Que só é a casa,

Sem ninguém a dormir ao lado.

Queria que estivesses aqui,

Mas hoje não é amanhã.

Acaba, Noite.

24/06/2009

Respirar (espécie de Tanka)

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De que me serve o ar e o nariz,
Se, para respirar,
Prefiro o teu sopro na minha boca?

23/06/2009

para que é que ainda me dou ao trabalho?

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Às vezes custa. Demasiadas vezes, custa. E não devia. Tudo devia ser simples e fácil. Inspira-se. Expira-se. Repete-se o processo até à exaustão. Tudo tão simples. Abrir os olhos. Inspirar. Fechar os olhos. Expirar. Comer. Beber. Dormir. Viver devia ser fácil. Simples.
Não é.
Gostava que me saísses da cabeça. Gostava de perder a tua imagem, de te apagar do meu corpo que queima ao toque de te imaginar. Gostava de não pensar em ti. É por pensar em ti que gosto de ti. Eu não gosto de ti, só gosto de pensar em ti. E que piada seria, ó deus, que piada seria ver as estrelas contigo, esse sonho meloso e pateta que me persegue de outros tempos, de outro Estranho que já não eu. Que comédia divina seria eu mais tu igual a nós. Que catástrofe planetária, que absurdo da natureza, que delícia de vida seria. Que sonho, o ter-te nos braços. Que pesadelo sonhar com isso. Pára, Estranho. Pára. Inspira. Expira. É isso que é viver. O resto, ela, o sonho dela e o pesadelo do sonho, tudo o mais é prazer. E tu, meu caro Estranho, é mais bolos.

12/04/2009

...

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a privação prolongada do sono é uma merda. nunca mais é amanhã às três da tarde?! Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

23/03/2009

O meu Porto

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Ó Porto, cidade de becos e ruelas, de estradas, caminhos, artérias de paralelo calcado e gasto que nos empurram para o rio. Ó cidade de gritos, despreocupados, grosseiros, talvez, mas genuínos, verdadeiros e humanos. E, ó cidade de prédios-ruínas, calcados e gastos como as estradas, antigos como o tempo e esquecidos como os velhos, áridos e abandonados ou ao abandono. Ó cidade pobre, sem respeito que não para com as suas gentes e para com as gentes que procuram simpatia, que procuram a quem tratar por “freguesa” ou “chefe” e dizemo-lo com sotaque, sim, mas quem o não tem? Ó cidade cinzenta e velha, efervescente de um orgulho mal contido, o que esperas? De que te serve a vergonha, o medo, o querer e não fazer? Quem te vai valer, ó cidade desgraçada, se não tu própria e os teus? Para quando o abanão, o grito e o clamor de que o teu nome veio antes de Portugal? Agarra as tuas gentes e prende-nos, amarra-nos a ti, mesmo que o mar nos engula. Prende-me, ó cidade suja e perdida, porque é assim que me sinto, do alto dos Clérigos, do fundo dos Aliados, a olhar para o rio, à espera do comboio, no (extinto) Palácio de Cristal, em toda a parte em ti, pequeno como um fungo, agarrado a ti como um cogumelo! E daqui nunca sairei! Antes a morte!

14/02/2009

Esse elástico branco com riscas pretas

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Tens um elástico no cabelo, a apanhá-lo num rabo-de-cavalo. Branco, com riscas pretas. O elástico, claro. Não sei de que cor é o cabelo, ainda não o vi. A dos olhos também não, nem da pele. Gosto do teu corpo, inevitavelmente. Gosto do teu toque, incontestavelmente. Tu sabes disso, obviamente. Olho para ti, sentada em frente a mim. Gosto mesmo do teu corpo, apesar de ainda não saber como é. Pouso uma mão no teu ombro, no pescoço, na nuca. Com a outra, toco-te na anca, na barriga, num seio. Tu sorris, com lábios e dentes que ainda não vi, e os teus olhos brilham, de uma forma que não conheço. Ficas com aquela expressão que ainda tenho de descobrir. Os teus lábios e saliva sabem a algo que desconheço. Não sei o teu nome, mas vou gostar de to dizer, ao ouvido, baixinho, enquanto fazemos amor. Vou delirar com o teu calor, o teu suor, o movimento do teu corpo. Vou olhar-te nos olhos, curvar-te para trás e beijar-te o peito. Vou… Vou ter de procurar-te por aí. Como é que tu te chamas mesmo?

Divagações, pois claro!

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Despacho halls, mel e limão, como se tivesse cinco anos e estivesse a comer sugus. Já nem sei se os comia, se os chupava, mas não interessa, passemos só a publicidade. O meu primeiro chocolate, daquelas barras individuais, foi o lion. Adorava chupa-chupas, rebuçados de mentol para a tosse e, claro, os inevitáveis sugus. Agora despacho halls, mel e limão, como se não houvesse amanhã. Vou trincando os cantos, arrancando pedacinhos que depois desfaço com os dentes da frente e separo o resto num dos lados da boca, ao ponto de quase adormecer a bochecha com a doçura. Quando trabalho, masco pastilhas elásticas, umas a seguir às outras, às vezes duas ao mesmo tempo, o sabor costuma ser indiferente. Chego ao ponto de me doer o maxilar. Em pequeno, era raro mascar, não me deixavam. Acordava cedo e via desenhos animados a manhã toda ou ia para a escola, esconder-me pelos cantos ou fazer rabiscos na terra e fingir que era o crocodile dundee a identificar os rastos de animais selvagens. Lembro-me que as cobras eram às ondas, os crocodilos arrastavam e as bicicletas deixavam furos no chão. A bicicleta, esse animal feroz. Já vou no segundo halls desde que comecei a escrever este texto. Não cresci nos cinco minutos que demorei a trincar o primeiro. Podia estar a ver wrestling, a novela para homens, como disse uma amiga (distante) minha. Podia ser isso os meus novos desenhos animados. Podia estar a ler bd, como ainda faço e como fazia em não tão pequeno, mais a puxar para o adolescente. Lembro-me que o meu primeiro livro de bd de super-heróis foi um do wolverine, numa luta sangrenta com o sabretooth, traduzida para o “brasileiro”. Tinha 13 anos e estava no Algarve. Ainda leio esse tipo de bd (e ZITS), mas agora em “americano”, sacado directamente da fonte todas as semanas. Sou maluco, já não sou pequeno. Continuo a adorar os playmobil. Já não vejo tantos desenhos animados, já não sou tão pequeno. Os meus desenhos animados agora são o cheque que me chega no correio, a transferência bancária, o dinheiro vivo em mão. Os meus desenhos animados são os livros, os filmes, as músicas, as mulheres, os amigos. E o trabalho. O estupor e inevitável trabalho. E vou para o terceiro halls. Já não sou pequeno. Continuo a não fazer sentido, mas já não sou pequeno. Acho que vou chamar a esta coisa “divagações”.