07/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte II

- Olá a todos, chamo-me Luís e estou aqui pra explicar algumas coisas de Cabo Verde. Tamos na ilha do Sal e vamos agora partir pra sul, pro hotel, que fica perto de Santa Maria. É uma viagem de duas horas. – a camioneta tem capacidade para não mais de vinte pessoas. É uma camioneta velha, ferrugenta e, como é fácil de prever, sem ar condicionado. Ao ouvir as palavras do guia, os quase vinte passageiros levantaram a cabeça, em desespero – Tou a brincar, a ilha só tem 28 km de comprimento e 11 km de largura, o aeroporto fica a meio da ilha, daqui a 15 minutos chegamos ao hotel.

Ele, o tipo da primeira parte e de quem, propositadamente, ainda não se sabe o nome, sorriu com a forma relaxada como o guia falava. Sorriu porque reconheceu a maneira de ser típica dos povos que passam dificuldades, quanto menos têm, mais alegres se mostram. No entanto, o Luís, como insistiu em ser tratado, parecia ter algo de mais genuíno, não de uma simpatia forçada, mas sim por estar a receber visitantes, a famosa hospitalidade. Mas, tentando resolver um problema relativo a narração, o tipo, obviamente uma personagem central deste conto, tem nome. A questão é que esse nome deverá permanecer em segredo até quase ao final da história, não por uma questão de birra, mas sim para escapar à tal batota de que já falamos. Vai daí, chamemos-lhe Adão. E como todo o Adão tem que ter a sua Eva, a passageira que o deslumbrou e que vai sentada uns lugares à sua frente, passa a ser conhecida como Eva.

Na verdade, demoraram 20 minutos a chegar. Nada de alarmante, abriram-se janelas, espreitaram-se as primeiras paisagens, as primeiras planícies de pó, as primeiras planícies de lixo, as primeiras construções e o mar, claro. O que o Luís não disse é que a parte onde o hotel fica é a parte mais estreita da ilha, que não tem mais de 6 km de largura, o que significa que, tendo em conta que a estrada fica quase a meio, se vê o mar dos dois lados, quase como se se estivesse a atravessar uma ponte larga. A ideia que Adão tinha de Cabo Verde era de um país quente, seco e acolhedor. Não sabia que esta ilha em concreto só sobrevivia graças ao turismo.

- Aqui, na ilha do Sal, não há agricultura. Chove 2 ou 3 vezes por ano e é coisa pouca, não molha nada. Se forem na excursão, vão ver onde eram os campos, mas agora é tudo deserto. – Luís já faz isto há bastante tempo. Sabe que os turistas querem ver tudo, sabe que fotografam tudo, desde as escolas dos miúdos aos próprios miúdos. Desde que trouxessem dinheiro, iam e viam tudo o que quisessem – Chegamos ao hotel. Façam o check in e vão ter autocolantes com o número do quarto, depois tirem as malas da camioneta e colem os autocolantes e depois o bagageiro trata de tudo. Bom, agora são três menos um quarto, como eu aprendi a dizer com os portugueses; vão aos quartos se quiserem e tentem voltar aqui na recepção às cinco pra vos explicar algumas coisas. Não esqueçam que aqui é menos duas horas do que em Portugal. Ah e não bebam água da torneira, nem ponham na boca.

Adão empurrou os pais atrás de Eva e da mãe desta, na fila para o check in. Viajavam as duas sozinhas. Quando a questão dos quartos e dos autocolantes estava tratada, Adão, como um adolescente na puberdade, apressou-se a oferecer ajuda às duas mulheres para tirarem a bagagem da camioneta. A conversa foi esperta, deu para descobrir que iam ficar à distância de algumas portas. Conseguiu perceber que eram de Lisboa. Não lhes conseguiu apanhar o nome.

- Há pouco disse pra não beberem água da torneira porque não é potável. Aqui não temos água potável, só engarrafada, a água de torneira é água do mar tratada. Se a água do mar acabar, temos que ir embora. – dizia esta piada a todos os grupos, sabia que funcionava sempre. Repetiu-lhes que há já bastante tempo que a ilha não tinha agricultura, tudo o que era fruta e legumes vinha das outras ilhas, Santo Antão e Santiago, principalmente, onde chovia e onde a paisagem era mais verde. Quando as ilhas foram descobertas, eram todas verdes, daí o “Cabo Verde”, mas depois o clima foi alterando e tiveram de se adaptar. Avisou contra o sol, que queimava mesmo, que ele próprio tinha nascido branco e que tinha sido o sol a escurecê-lo, outra piada que sabia que funcionava sempre – O sol aqui queima mesmo sem dar fé. Pra perceberem, lá em Portugal vocês têm temperaturas de 40º graus e passam mal, aqui no Verão se chega aos 30º caímos pro lado. Nós mesmo, os cabo-verdianos. – depois falou-lhes do hotel. Deu mais alguns conselhos. Por fim, falou na tal excursão, que seria daí a 4 dias. O dia acabou. – Aqui anoitece cedo e amanhece muito cedo. E o tempo custa muito a passar pra vocês.

Adão sorriu. Eva reparou.

3 comentários:

pinky disse...

maravilhoso relato! será que o adão ni fim vira béléleu dos africa e com pele preta?
curiosidadeeeeeeeeeeee
e será que a eva.....disse bom dia ao mokambo? hihihihihihihii
cá estou esperando a parte III.
pinky kisses

Anónimo disse...

:) Vidas..

O Estranho disse...

Pinky: nada de béléleu, mas como ainda não há fim, vamos ver o que acontece.
Just a grill (eheheheh): hum, ainda tenho que estudar um diálogo onde possa meter essa frase...;)