24/03/2008

Alguns quilómetros de mar

1 comments

Tenho os olhos abertos e vejo a tua ilha. Estamos os dois na praia, mas há um mar de 7 quilómetros entre nós. Quase que te vejo, ao longe, um pontinho escuro perdido na areia, os pés metidos na água, o olhar na minha direcção. Sim, sou eu aqui, de telemóvel na mão a dizer que te amo, com essas letras tão insignificantes, tão disparatadas e melodramáticas que te fazem rir. Amo-te. Vejo-te nessa ilha, com a montanha atrás de ti e amo-te. Há horas que estamos aqui, a olhar um para o outro, a imaginar que estamos juntos, de mão dada, de lábios dados, de corpos dados. Vi o sol nascer atrás de ti. Vi o teu contorno a surgir, o cabelo que penteaste para mim, o corpo que vestiste para mim, esse corpo que quero despir e amar, sentir próximo, quente junto a mim. E senti-me quente, sim, a ver-te, graças a esse grande astro amarelo que te ilumina e faz brilhar como a mais ninguém no mundo. Sim, eu sei, sou disparatado, exagero tudo contigo. Eu sei. Dá-me gozo fazê-lo. Amo-te.

Os meus olhos estão contigo. Penteei-me para ti, vesti-me para ti e quero despir-me também para ti. Quero sentir os teus lábios no meu peito, na minha barriga. Quero que me ames como amas quando estamos juntos e este mar não nos separa. O teu toque aquece-me, muito mais do que o astro amarelo, como lhe chamas. O sol vai pôr-se por trás de ti, agora. O laranja espalha-se pela tua ilha neste nosso arquipélago. Trazes-me sempre a noite, o frio das estrelas que se espalha sobre o céu sem piedade, numa calma que asfixia sem a tua respiração no meu pescoço, nas minhas costas, entre as minhas pernas. Amas-me. Assim o dizes, que me amas. Amas-me com as tuas palavras, os teus olhos, as tuas mãos, o teu corpo. Amas-me à distância. És exagerado e disparatado, sim. Vês em mim o que mais ninguém vê, o que talvez não esteja lá, mas amas-me. Eu sei. Dá-te gozo fazê-lo. Amas-me.

06/03/2008

Quero amar-te, mulher

3 comments

Quero amar-te, mulher.

Não preciso que me ames,

Quero amar-te eu, mulher,

Gorda,

Magra,

Feia,

Bonita,

Quero amar-te, mulher,

Quero amar todas as mulheres,

Segurar-vos pelo coração, pelo peito,

Prender-vos com todas as forças,

Agarrar-vos pelos pés, pelos braços, pelo rabo, pela alma,

Quero amar-vos, mulheres,

Quero amar-te, mulher,

Loira, ruiva, morena,

Branca, negra, asiática,

Quero amar-te,

De cabelo castanho, pintado, tingido ou rapado,

Quero amar-te, mulher,

Quero estar dentro de ti, à tua volta,

Em todo o lado, em todos os lugares, mulher,

Quero amar-te como se ama a praia, mulher,

Quero cheirar-te, tocar-te, correr e estender-me em ti,

Quero fazer um castelo contigo, mergulhar,

Enroscar-me em ti, sentir-me quente em ti,

Porra, quero amar-te, mulher!

20/02/2008

Ser

3 comments

Ser um peixe, perdido no mar,
Ser a gaivota, que por ele mergulha.
Ser uma onda, alta e espumante,
Branca de perfeição,
Ser a pedra em que ela bate
Ou a areia que embrulha.
Ser o mar, ser a praia,
Ser o sargaço ou ser o ar.
Ser tudo, menos aquilo que sou.

14/02/2008

Mini-poema ou Um poema mais pequeno do que o próprio título

3 comments

Nenhum poema me fala
Como os teus olhos me brilham.

04/02/2008

Somos como gatos

3 comments

Andamos como gatos pela casa,

Nus em pêlo, vagueando entre paredes.

Roçamo-nos um no outro –

Pequenos encostos e embates rasantes,

Despertando carícias na pele,

Com o pêlo eriçado em riste.

Deitamo-nos enroscados num nó,

Não sabendo que corpo lavamos,

Lambemos, esfregamos, cheiramos,

Luzidios, brilhantes em frente à lareira,

Procuramo-nos.

Tocamo-nos.

Rodeamo-nos.

Ronronamos.

Arfamos.

Berramos,

Como os gatos que no telhado se agitam

E se mordem e se exploram,

Amando-se até à exaustão,

Como se as telhas exalassem um qualquer afrodisíaco,

Agarrando-os, forçando-os para baixo,

De encontro um ao outro, pêlo com pêlo,

Pele com pele, saliva com saliva

E aqui já somos nós, no chão em frente à lareira,

Na cama, na cozinha, na banheira,

Amamo-nos como gatos no cio,

Com força, com paixão,

Amamo-nos até as forças nos abandonarem!

E depois… amamo-nos mais um pouco.

Enroscamo-nos um no outro.

Trocamos olhares esguios e turras de afecto.

Como se fossemos… gatos…

10/01/2008

3 comments

Sufoco. Sufoco porque me aperto, seguro-me, prendo-me encolhido a um canto. Não tenho qualquer complexo de Peter Pan. Sou só um miúdo. Sou só um miudinho com medo de crescer porque não sei se consigo lidar com a vida.

15/12/2007

9 de Dezembro de 2007

6 comments

Fui tio neste dia, uma menina de 2,5 kg em 45 cms de altura. Uma franguinha, portanto. Daí que ande um pouco desaparecido, entre montagens de berço, boleias a cunhado sem carta e visitas de surpresa, já para nao falar em testes para trabalho... ufa... Felizmente, ao contrário da crença popular, o parto não custa nadinha, eu pelo menos não senti nada, foi uma maravilha! :)
E falando para um amigo meu (que nem sequer cá vem), perguntaste-me há uns anos por que raio se dizia "dar à luz" e fiquei na mesma; pois bem, acho que hoje te posso dizer que é por causa do brilhozinho que se vê quando se olha para o sangue do nosso sangue em ponto minúsculo...

05/12/2007

(Título de conto ainda por dar - parte seis)

3 comments

O dia seguinte amanheceu cinzento. Luís viu o sol nascer ténue, reflectido nas janelas do “Refúgio”, enquanto limpava mesas. As marcas de uma noite mal dormida estavam lá todas: os olhos vermelhos, as olheiras, o cabelo penteado com pouco cuidado e até o mau humor. Rogério foi o primeiro a vê-lo.

- Ui, então, pá? Já tiveram noite louca? Que artista que tu me saíste, pá!

Luís ignorou-o. Continuou a empurrar o trapo desinfectado para um lado e para o outro, absorto nos mesmos pensamentos que o mantiveram acordado durante boa parte da noite. Se uns dias antes era Inês que lhe assaltava o espírito, agora eram os seus próprios sentimentos que o angustiavam. Não sabia o que se passava. Lera inúmeros livros que falavam de romance, de luxúria, alguns até de amor, mas a verdade é que tinha passado mais de metade da sua vida enfiado num orfanato, com dezenas de rapazes em seu redor, e o resto da vida dividira-a entre o trabalho e a casa. As pessoas que conhecia e que tratava como amigos contavam-se, literalmente, pelos dedos de uma mão: Rogério, Beatriz e o Sr. Ramiro. A D. Rosa sempre o olhou de lado, desconfiada, nunca lhe deu grande confiança. Tinha, portanto, três amigos e sobravam-lhe dois dedos. Areias e Inês seriam fortes candidatos a preencherem a mão, mas o primeiro era um gato, fazia companhia, sim, mas Luís dificilmente poderia depender dele em caso de necessidade, e a segunda, bem, quanto à segunda não sabia o que pensava, nem o que sentia, mas parecia-lhe cedo demais para contar com Inês para o que quer que fosse. Luís era uma pessoa estranha: já tinha passado por bastante na vida, mas, na realidade, a sua experiência com pessoas reduzia-se a quase nada. Era por isso que não percebia o que se passava consigo quando pensava em Inês. Era por isso que não percebia os suspiros secretos e solitários de Rogério. Não percebia a fixação do Sr. Ramiro em manter a campa da mulher limpa. Não percebia a preocupação de Beatriz em assegurar-se de que tanto ele como Rogério fossem felizes. Percebia que gostava deles e que queria que estivessem bem, mas os sentimentos mais profundos, aqueles que fossem para lá do óbvio eram desconhecidos.

- Acho que essa mesa já está limpa, pá, se calhar passavas para outra…

Luís acordou com o gracejo de Rogério e sorriu-lhe quase sem mexer os lábios. O amigo tinha a habitual bandeja do pequeno-almoço a três, o Sr. Ramiro já assomava à porta. Sentaram-se a fazer companhia uns aos outros, mas da boca de Luís não saiu uma palavra que fosse.

- Jovem, sente-se bem? Pela cara, pelo silêncio, pela falta de apetite… Parece-me que a saída ontem correu bem demais… – Ramiro sorriu e piscou um olho a Rogério. Luís continuou sem falar.

As nuvens dessa manhã passaram da ameaça à concretização, à hora do almoço já os céus descarregavam uma chuva contínua. Aparte isso, o ar estava absolutamente calmo, não se sentia o mínimo sopro de vento. O movimento foi muito fraco, como se quase todos os clientes temessem que o velho telhado do “Refúgio” não fosse aguentar. Luís quase agradeceu: teria de ficar até ao fecho, um dos outros empregados sentira-se mal. Já perto do fim do dia de trabalho, quando o jovem se preparava para virar a primeira cadeira de pernas para o ar, Inês entrou, abrigada apenas por um pequeno caderno – portanto, encharcada até aos ossos –, e dirigiu-se rapidamente para o balcão. Rogério preparou de imediato um chá, que Inês agradeceu.

- Acho que isto me vai saber como se estivesse a nascer… Estou gelada!

- Guarda-chuva…? – Rogério apercebeu-se da idiotice da pergunta, se a jovem se encontrava naquele estado, então obviamente não tinha com que se abrigar.

- Pois, eu sei… Olha, posso fazer uma chamada? Estou sem saldo e já me fecharam a porta do escritório… Precisava de pedir que me fossem buscar à estação.

Luís seguia a conversa ao longe, quase invisível aos olhos de Inês. Talvez sentindo os olhos do empregado na nuca, virou-se, à procura.

- Oh, olá, Luís, nem te vi aí!

- Olá… – a resposta saiu bastante mais seca do que queria, mas, felizmente, Rogério acabava de lhe estender o telefone. Continuou o que estava a fazer e tentou não prestar atenção a mais nada. Só quando ouviu o clique do auscultador se apercebeu que o tempo passara.

- Pronto, agora é uma corridinha rápida até à estação e acaba o dia! – Inês forçava um sorriso enquanto pagava o chá e via o pagamento do telefonema ser recusado.

- Nada disso. Luís, pega naquele guarda-chuva ali e leva aqui a menina até à estação. Vá, sê um cavalheiro.

Luís ficou parado, com uma cadeira suspensa no ar. Perante a relutância do jovem, Inês preparava-se para recusar gentilmente, mas o empregado não lhe deu tempo.

- Ok. Ficas à minha espera para depois fecharmos tudo?

- Se quiseres, mas não te preocupes com isso, quase não veio ninguém hoje, não há nada a fazer. Podes ir directo para casa depois.

Ouvindo isto, Luís desceu à pressa até à sala dos empregados e trocou-se. Em menos de cinco minutos, já o par saía do “Refúgio” e enfrentava a chuva, encostados um ao outro, numa espécie de bailado desajeitado e pouco à vontade. Felizmente, o guarda-chuva era grande o suficiente para abrigar ambos e, ainda mais felizmente, a estação não ficava assim tão longe do café.

- Qual é o teu comboio?

- Hum, deixa ver… É o que está na linha 2. Mas só sai daqui a 15, 20 minutos… – o comentário de Inês parecia carregar um pedido. Luís pensou que percebera…

- Posso esperar aqui contigo, faço-te companhia. Não tenho nada para fazer, como já viste… – ele sorriu-lhe como conseguiu, algo nervoso por continuar a sentir-se esquisito perto dela.

- Ei, se não te fizer diferença, seria óptimo! – ela sorriu, despreocupada – Olha ali! São os dois de ontem!

Luís voltou-se para ver os dois a que Inês se referia. Lá estavam eles, a falar sem saberem bem de quê, com a tal porta que teimava em fechar e que eles teimavam em manter aberta. O estranho parecia desconfortável com qualquer coisa que estava a ouvir, mas, quando falava, sorria com toda a franqueza. A porta começou a fechar, para não se voltar a abrir, com ele a dizer ainda qualquer coisa. Esmurrou o botão da porta, mas o comboio arrancou e limitaram-se a acenar um para o outro. O estranho baixou a cara para o chão e abanou a cabeça, depois olhou para o ar como se procurasse alguma coisa. Acabou por entrar no café da estação. Luís sorriu com a cena e voltou a confrontar Inês.

- Porque é que estás a fazer isto? - a pergunta de Inês foi como um soco de que não estava à espera e quase o deitava por terra.

- Desculpa, não percebi... – Luís quase que gaguejava.

- Acho que foi isso que ela lhe perguntou, mesmo antes da porta se fechar. Não me digas que pensavas que só tu e o Rogério se davam ao trabalho de tentar ler os lábios! – Inês sorriu-lhe, algo trocista.

- Ah, sim! – Luís quase suspirou de alívio – Pois, não sei, não consegui ver bem daqui… – quase sem se aperceber, seguiu a jovem até um banquinho mesmo ao lado da linha 2 e sentaram-se.

Nenhum dos dois saberia explicar o que aconteceu em seguida. Caíram no mais absoluto silêncio, um silêncio digno de um túmulo. Ela sentia-se algo desconfortável com aquilo, olhava em volta e para o ar, procurando algo de que falar. Ele olhava-a fixamente, como se nada mais existisse que lhe chamasse a atenção. Por fim, falou.

- Não sei o que raio se passa comigo.

Não ia dizer mais nada, mas essa frase foi o suficiente para que Inês voltasse a cabeça e o olhasse de frente. Nesse instante, olhos nos olhos, Luís teve vontade de não parar de falar.

- Por algum motivo, tu fascinas-me. Não sei mesmo o que se passa, mas sinto vontade de te tocar, de…

- Luís, eu tenho namorado. – Inês interrompeu-o – É verdade que também tenho pensado um pouco em ti, mas suponho que seja por causa do Areias. Desculpa, mas eu não estou interessada em ti. Eu namoro…

Luís ficou a olhá-la durante uns segundos, depois passou a mão pela cabeça, esfregando o cabelo como se tentasse amenizar a dor de uma pancada. Voltou a olhá-la.

- Então tenho de pedir desculpa…

- Não tem mal, não me peças desculpa, tu não sabias…

- Não. – desta vez foi Luís que a interrompeu – Tenho de pedir desculpa ao teu namorado.

Inclinou-se sobre ela e beijou-a, na boca. Não um beijo carnal ou ardente, mas um simples roçar de lábios. Inês levantou-se, vermelha. O estalo, sonoro e doloroso, que deu a Luís deixou-o a ele também vermelho. Apressou-se a entrar no comboio, deixando o jovem sozinho e à mercê dos risos alheios. O comboio arrancou pouco depois. Luís levantou-se, devagar, como se carregasse o peso do mundo aos ombros, e, quando se voltou para a saída, viu-se frente a frente com o estranho que momentos antes observara.

- É tramado, não é? – disse-lhe o estranho.

02/12/2007

nenhum título faria sentido

7 comments

nas palavras de uma personagem da série "Heroes", hurts like a mother fucker!

26/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte cinco)

2 comments

Dezembro começou como um dia de final de Primavera, sem chuva nem frio, mas também sem um calor real. Luís, em dia de folga forçada, acordou com Areias junto à cabeça. Olharam-se e Areias tocou com o nariz no nariz do dono e amigo. Luís sorriu e virou-se para cima, pegando no gato e pousando-o no peito, enquanto fitava as manchas de humidade do tecto.

- Hoje vais voltar a ver a Inês, Areias… Lembras-te dela? Aquela rapariga que te levou ao veterinário e depois te trouxe aqui…

Areias, obviamente, não respondeu. Em vez disso, limitou-se a cravar as unhas ao de leve no peito de Luís e ronronou. Luís deixou-se levar pelas recordações do dia anterior, quando Inês entrou no “Refúgio” apenas para lhe perguntar se estava livre na tarde do dia seguinte, podiam tomar qualquer coisa e ele levava Areias. Sem pensar, o jovem assentiu de imediato. Quando Inês se foi embora, Rogério lembrou-se, como que por artes mágicas, de que Luís realmente já há muito que não tinha uma folga e estava com ar cansado. Sorriram um para o outro e Luís agradeceu com a escuridão dos seus olhos.

Combinaram encontrar-se num café quase em frente ao “Refúgio”, Luís queria evitar embaraços e sabia que, mesmo que chovesse, aquele café tinha uma esplanada abrigada e um daqueles aquecedores de exteriores que não sabia como se chamavam. Inês ia acabar por adorar a ideia, porque o dia estava realmente bonito. Ele chegou mais cedo do que o combinado, Areias parecia assustado com o movimento todo que via, mas acabou por adormecer antes de ela chegar.

- Olá, já chegaste há muito?

- Uns cinco minutos… – mentiu Luís – Senta-te, senta-te. Está tudo bem?

- Ui, estou um pouco cansada… Sou um bocado pau para toda a obra lá no escritório. Passo o dia a fazer recados, a ir ao notário, aos correios, de um lado para o outro. A semana passada até me ofereci para limpar o chão… Não que me tenham pressionado, mas confesso que já tinha nojo de andar lá.

- Mas que fazes tu lá, então? Pensei que fosses mesmo advogada…

- Não, longe disso! – Inês sorriu com um misto de desilusão e resignação – digamos que sou uma tradutora não muito bem sucedida que teve de se agarrar a um trabalho de que não gosta, mas que não podia recusar… Mas e tu? Não tens ideia de vir a ser mais do que empregado de mesa? – Inês arrependeu-se no instante em que acabou a pergunta. Temia que Luís se fosse sentir ofendido. No entanto, o jovem, que nunca pensara sequer no que queria ser, nem pestanejou.

- Não, eu gosto do que faço. Francamente, nem me imagino a sair de lá… O Rogério e a mãe dele, a Beatriz, são toda a família que tenho… – Luís pareceu ficar pensativo, por uns segundos, também ele com um sorriso desiludido e resignado, mas acabou por acrescentar – e o Areias, claro!

- Ah, sim! Deixa cá ver essa bola de pêlo!

Inês nem pensou que o gato poderia saltar para a rua, quando o tirou da gaiola. Felizmente, Areias lembrava-se dela e num ápice se agarrou às suas roupas e começou a roçar a cabeça no queixo dela.

- Isto é uma autêntica fera que aqui tens, Luís… – brincou Inês, não reparando que o jovem olhava para uma mesa onde acabara de sentar um indivíduo de óculos.

- Hum? Ah sim, um verdadeiro gato de guarda! – Luís continuava a observar o estranho e sorriu quando o viu tirar um livro do saco que trazia ao ombro. Inês reparou nisso e fez-lhe sinal com a cabeça a perguntar o que se passava. Luís aproximou-se dela e falou-lhe baixinho – Estás a ver aquele tipo que está ali naquela mesa? Ele vem aqui quase todos os dias. Fica a ler durante meia hora, sempre certinho, sem tirar os olhos do livro. Depois disso, começa a levantar os olhos para a rua de 10 em 10 segundos… – tiveram de tentar disfarçar cumplicidade de casal porque o estranho, pressentindo que falavam dele, olhou-os de soslaio – Depois passa uma rapariga que trabalha ali ao lado e ele aborda-a. É óbvio que não consigo perceber o que lhe diz, mas eu e o Rogério já tentamos ler-lhes os lábios e parece-nos que ele lhe pergunta sempre se ela quer tomar qualquer coisa, mas ela diz sempre que tem de ir. Ele então levanta-se, guarda o livro e vai com ela, não sei para onde…

- Mas não serão amigos?

- Não me parece, pelas atitudes de um e de outro…

- Isso é giro! Mas olha lá, vocês não trabalham lá no café? Não têm mais para fazer que não seja meterem-se na vida dos outros? – Inês fez um sorriso trocista.

- Oh, sabes como é, uma pessoa passa o dia metido numa sala, a ouvir disparates como “a manteiga da torrada estava demasiado derretida”, precisamos de uma novela de vez em quando para distrair…

Sorriram um para o outro e continuaram a conversar calmamente, como se de amigos se tratassem. Inês falou de si e do que a levou a aceitar um emprego que não queria. Não conseguia encontrar nada que se relacionasse com tradução e os poucos documentos que lhe vinham parar à mão eram ridiculamente pequenos e insuficientes para ganhar a vida. O pai falou com um amigo, o advogado que abrira o escritório onde ela trabalhava, a perguntar se não precisavam de uma secretária com conhecimentos de tradução. Ao tubarão cheirou logo a sangue e disse que sim, mas que não podia pagar muito mais do que um salário mínimo, sem fazer descontos, porque ela não tinha o curso de secretária… Luís ouvia e quase gravava toda aquela conversa. Quando chegou a sua vez de falar, pouco adiantou ao que Rogério já tinha contado sobre ele, disse apenas que gostava muito de ler, mas que só tinha dinheiro para comprar livros em alfarrabistas. E tentava estar sempre a ler, primeiro, porque não tinha televisão e era a única forma de se distrair e, segundo, porque no orfanato os livros não abundavam, o que o tinha feito crescer com uma curiosidade enorme em relação a tudo o que fosse literatura. A conversa – e o fascínio mútuo – desenrolou-se, até que, uns metros ao lado deles, ouviram:

- Olá, tudo bem? Queres tomar qualquer coisa? Um chá, que já sei que não tomas café… – o leitor estranho sorria e tentava não mostrar que tremia.

- Olá. Não, desculpa, mas tenho mesmo de ir apanhar o comboio, tenho gente à minha espera na estação para me darem boleia para casa…

- Tudo bem, vamos lá então…

O estranho levantou-se, guardou o livro à pressa e certificou-se de que já tinha pago a despesa. Depois avançaram lado a lado, a conversar como se se conhecessem há anos. Inês e Luís olharam um para o outro e sorriram com a cena. Luís segredou-lhe que já o via fazer isto há mais de um mês. Inês continuou a sorrir. Já os tinha visto na estação, a falarem, por vezes separados por uma porta de comboio que teimava em fechar e que eles teimavam em manter aberta, mas, mesmo nunca lhes tendo visto qualquer contacto físico, nunca pensou que estivessem ainda na fase de se conhecerem. Ficaram a pensar naquele estranho par durante uns segundos e depois continuaram a conversa. Por esta altura, Areias já era dono e senhor do colo de Inês…

21/11/2007

(escrito a verde, em cima de um livro de Poe)

0 comments

gostava de escrever sobre o mar, para ti, falar-te da sua vida, da sua alma, de todos os sons que produz. gostava de te mostrar o medo e o fascínio que o mar desperta em mim. gostava de to descrever como a Sophia o faz e tu tanto gostas, mas as palavras não me sairão nunca como a ela. gostava que percebesses que és como o mar para mim e como me sinto pequeno diante do enorme mar que és tu. gostava de mergulhar em ti e partir por aí, andar à deriva por aí, ao sabor das tuas marés, das tuas ondas e declives, do teu sal e dos sons que tu produzes. gostava de me afogar em ti. gostava tanto que me afogo.

19/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte quatro)

0 comments

Inês voltou ao “Refúgio” no dia seguinte. E no outro. E no outro. E no outro. Durante duas semanas, voltou lá e sentou-se sempre na mesma mesa, na mesma cadeira, na mesma posição. Luís vivia num misto de confusão e deslumbramento. Cada vez que olhava para os olhos dela, via aquele brilho estranho que o deixava imerso em pensamentos. Quem era ela? Do que gostava ela? De onde vinha? O que queria ela dali? Esta última pergunta atormentava-o de tal modo que chegou a pedir a um colega que a atendesse. Inês fingia não reparar, ou não reparava mesmo, limitava-se a pedir o invariável chá, tomava-o, pagava-o e saía. Chegou a procurar o contacto com Luís, mas nem sempre conseguia. Despedia-se sempre de Rogério, que lhe respondia com um sorriso, um acenar de cabeça e um olhar de soslaio para o empregado e amigo.

- Olha lá, tu és doido, estúpido ou as duas coisas? – Rogério estava claramente zangado.

- Que foi que eu fiz agora? – Luís estava atónito.

- Tu? Nada! Por isso mesmo! A rapariga vem cá e tu nem um olá lhe dizes?! Idiota! É óbvio que queres falar com ela e foges? Escondes-te?! Imaginava-te com mais garra, Luís!

- Não te metas nisso, está bem? Além do mais, nem sabes do que falas…

- Não sei do que falo? Pois tu não sabes o que fazes, não pareces saber viver!

Luís virou-se, saiu e bateu com a porta da sala dos empregados. Rogério ficou sozinho diante de um espelho e lamentou que o amigo não tivesse percebido o abanão que lhe tentou dar. O Sr. Ramiro, que ia a passar na rua quando Luís saiu do café, admirou-se com o ar do jovem, vendo-o lançar-se sem abrigo pela chuva, avançando furiosamente rua abaixo. Espreitou pela janela do “Refúgio” a tentar perceber o que se passava, mas só viu cadeiras empilhadas em mesas. Franziu um sobrolho e voltou a casa.

Luís atirou uma pequena bola de borracha contra a parede, apanhou-a no ar quando ela ressaltou e voltou a atirar. O tempo passou. Luís continuou com esse ritual noite dentro. Os seus olhos pareciam mais vazios do que nunca e quase não seguiam o movimento da bola. O olhar dele estava noutro lado, na sala dos empregados, e revia a conversa com Rogério. Areias observava tudo placidamente como quem sabe que não pode ajudar. Luís ardia de fúria por dentro, não contra Rogério, mas contra si mesmo. As palavras do patrão e amigo foram curtas, mas certeiras demais.

Inês voltou no dia seguinte. Luís viu-a entrar quando se preparava para atender um cliente numa mesa, mas levantou a cabeça para Rogério, que, com o olhar, lhe disse para ir em frente. Fez sinal a um colega para ir atender o cliente que já lhe começara a fazer o pedido e avançou para a mesa 11. Tremia como varas verdes.

- Olá, tudo bem? Então que sabor de chá vais querer hoje? – Luís sorriu, tentando mostrar calma.

- Olá, Luís! Finalmente! Andava a querer perguntar-te pelo Areias. Será que um dia o posso ver? Gostei muito do bichinho…

- Hum… Sim, claro, quando quiseres empresto-te as chaves para lá ires…

- Pois… Obrigado, mas acho que não me sinto muito à vontade de entrar em casa de um desconhecido… Olha, desculpa, mas temos de combinar isso noutro dia, tenho alguma pressa, preciso de apanhar o comboio. Trazes-me um chá verde, por favor?

- Já de seguida!

Luís virou-se e quase correu para o balcão, por cima do qual só não saltou porque Rogério, à escuta a ver o que amigo dizia, começou logo a preparar tudo. Em menos de dois minutos, já Inês soprava uma chávena de chá fumegante.

- Quando ela vier pagar, diz que ofereces… – Rogério inclinou-se sobre o balcão e sussurrou ao ouvido do amigo.

- Não, já da outra vez foi isso, deixa-me pensar...

- Olha, ela vem aí! – Rogério voltou-se à pressa e começou a passar revista às prateleiras de copos à sua frente, achando que estava a disfarçar bem… Inês achou a cena um pouco estranha, mas não pensou muito nisso.

- Queria a conta, por favor. Amanhã passo aqui outra vez e combinamos aquilo de ver o Areias, pode ser? – Inês estendeu-lhe o dinheiro do chá.

- Sim, claro. Nós estamos abertos das 7 da manhã às 7 da tarde.

- Eu sei, Luís, já cá venho há alguns dias… – a jovem sorriu-lhe e Rogério levou a mão à boca, abafando uma gargalhada. Luís limitou-se a engolir em seco – Então até amanhã. Adeus, Rogério.

- Adeus, adeus, até amanhã – Rogério encarou Inês ainda a fingir que não estava a ouvir nada. Luís ficou quieto e mudo, de olhos fechados, a pensar no embaraço em que acabara de se meter. Quando ouviu a porta fechar, olhou para Rogério que se ria sem pudor.

- Estúpido… – rosnou o empregado.

- Esquece, ao menos já tens um encontro… – Rogério afastou-se a assobiar, a estalar os dedos e a andar como se dançasse o bolero. Nem viu o sorriso rasgado de Luís.

14/11/2007

sonhar antes do sono

1 comments

Quis deitar-me cedo esta noite, dormir como não durmo há semanas, sem conversas que caem no esquecimento digital ou monólogos que nunca se tornam diálogos. Deitei-me, cobri-me, ordenei-me que dormisse, mas o sono não surgiu. Armei-me em intelectual e li, outra vez a ler, sempre a ler a fingir, como se realmente lesse o que quer que fosse e não usasse as páginas como relógio para contar as horas que demoro a adormecer. Uma hora e o sono não vem. Já os sonhos, esses assombram-me noite e dia, como se tentassem martelar-me a clareza de espírito e fazer de mim um homem feliz a fingir, como a leitura. Não durmo, mas sonho. Talvez seja isso que me permite manter a sanidade, por discutível que seja. Não oiço vozes, talvez não veja vultos e falo com quem não está presente, é verdade, mas falo sempre com quem existe, com quem me pode responder, com quem eu quero que me responda, talvez, um dia, se o destino assim o quiser. E o destino, ou um simples acaso fortuito da vida, trouxe-me sonhos, sonhos em que sou um homem feliz e não um simples miúdo que escreve uns desabafos na hora de dormir. Outubro trouxe-me o sonho, o meu pequeno e insignificante sonho do Outubro Vermelho. E ainda que não durma, não quero acordar deste sonho de Outubro, quero ficar para sempre parado no tempo e no espaço, como uma pedra caída no chão e que ninguém chuta. Quero sonhar. Quero sonhar que vivo. Quero viver. Quero que me deixes sonhar contigo. Quero que me deixes viver contigo.

11/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte três)

3 comments

Eram cinco da tarde e o café estava vazio. Rogério limpava e arrumava copos enquanto Luís, com a cabeça longe dali, ainda que não soubesse bem onde, limpava e arrumava mesas. O dia estava limpo e luminoso, apesar da chuva dessa manhã, mas as obras, onde Areias quase morrera soterrado, tinham avançado até bem perto do “Refúgio”, o que afastara quase por completo a clientela habitual. Apenas o Sr. Ramiro se mantinha fiel, mas mesmo esse tinha saído a meio da tarde. Era o aniversário da mulher, queria levar-lhe flores à campa. Umas horas antes, piscara um olho a Rogério e a Luís quando estes mostraram vontade em acompanhá-lo, mas o café impedia-os de o fazerem. “Não se preocupem, da vossa amizade estou eu certo – dissera-lhes o idoso – e vou falar de vocês à minha Maria”. O pensamento de Luís, na verdade, estava no Sr. Ramiro e no amor que este ainda parecia sentir pela mulher, desaparecida há mais de cinco anos. Luís tinha 26 anos e nunca tinha amado. Cresceu e viveu num orfanato até aos 18 anos, altura em que teve de deixar para trás os amigos e as paredes que tão familiares lhe eram. Nesse dia, tomou a decisão de rejeitar toda e qualquer ajuda que lhe ofereceram os funcionários da instituição. Queria começar a vida a partir do zero, sentir que tudo o que viesse a conseguir tinha sido fruto do seu empenho e da sua coragem. Foi graças a essa decisão que conheceu Rogério. Os primeiros dias depois do orfanato não foram fáceis. Passava os dias em busca de alguma forma de fazer dinheiro, ajudava comerciantes nas descargas diárias em troca de comida ou de alguns trocos. As noites passava-as ao relento, aquecendo-se com cartões que encontrava no lixo. Uma semana depois, quando estava quase decidido a voltar e pedir ajuda a quem o vira crescer, deu de caras com o "Refúgio" e um sinal de “Precisa-se de empregado”. Foi amor à primeira vista.

Luís acabava de limpar a última mesa quando Rogério rasgou um sorriso de orelha a orelha ao olhar pela janela.

- Luís, pá, toma aí conta das coisas que eu vou lá atrás ver o que é preciso encomendar para amanha. Já venho. Boa sorte…

- Boa sorte? Boa sorte para quê? – Luís virou-se para o balcão, mas Rogério já tinha desaparecido pela porta da cozinha – Mas que raio…?

Inês entrou no “Refúgio”. Luís virou-se para ver quem entrava e estacou. Inês sorriu-lhe e acenou-lhe um olá com a cabeça. Sentou-se numa mesa a um canto junto à janela, “mesa 11”, pensou mecanicamente o empregado. Em gestos igualmente mecânicos, pousou o pano com que limpava as mesas, desinfectou as mãos e levou um cinzeiro à jovem.

- Não, obrigado, eu não fumo. Está tudo bem?

- Hum… Sim, está…. Olá. E contigo? Está tudo bem? Que vais querer?

Inês voltou a sorrir-lhe. Os olhos de Luís continuavam tão negros e frios como da primeira vez em que reparou neles, mas o olhar estava visivelmente mais atrapalhado.

- Sim, também está tudo bem comigo. E o nosso menino, como está? Tem dado muitos problemas?

- O nosso menino?! Ah, o Areias! Sim, ele é meiguinho. Ou isso ou então os medicamentos deixam-no completamente atordoado... – sorriram um para o outro.

- Areias? Engraçado. Engraçado e apropriado, sem dúvida…

- Sim…

Ficaram a fitar-se uns segundos, sem saber o que dizer a seguir. Claro que esses segundos pareciam tornar-se minutos, horas…

- Queria um chá, por favor. De menta.

- O quê? – Luís ainda estava perdido no olhar castanho de Inês.

- Um chá, de menta, se faz favor…

- Ah sim! Claro, vou já buscar. – Luís deu dois passos na direcção do balcão, parou e voltou-se de repente – E para comer, não queres, hum quer dizer, não quer nada?

- Não, só o chá mesmo. E podes tratar-me por tu, por favor.

Luís acenou com a cabeça, passou para trás do balcão e começou a preparar o chá. Nessa altura, surgiu Rogério, com um avental encharcado e o andar como se dançasse o bolero acelerado.

- Eh pá, ó Luís, o cano da torneira da cozinha rebentou outra vez! Podes lá ir, depressa? – nessa altura espreitou pelo café e viu Inês a observar os dois – Eh pá, desculpa lá, mas aquilo está mesmo a inundar tudo…

- Não há problema… – Luís estava visivelmente desiludido – Vou já tratar disso. Leva um chá de menta à mesa 11…

- Onde, à única mesa que está ocupada? – a graçola era uma espécie de pedido de desculpa.

- Pois, pois… – Luís virou-lhe as costas e começou a arregaçar as mangas.

Rogério pegou no bule com água quente, na chávena, numa colher, num saco de chá de menta e em dois pacotes de açúcar. Por prevenção, levou também o adoçante, já estava habituado a servir jovens como Inês.

- Olá, eu sou o Rogério. Desculpa, o Luís teve uma emergência na cozinha, não te pôde vir atender. Mas ele avisou-me que não era para cobrar nada, é por conta dele...

- Ah, ele chama-se Luís… – Inês ficou suspensa por uma fracção de segundo e depois reagiu – Espera, por conta dele? Não, não, eu quero pagar! Não é justo!

- Justo? Então se ele disse que tinha todo o prazer em oferecer o chá! Vá, não lhe faças essa desfeita… – Rogério piscou-lhe um olho e percebeu que Inês aceitara a oferta – Já agora, ele não me disse como te chamas…

- Ele não sabe, em princípio. Ainda não lho disse. Inês, chamo-me Inês.

- Ah, muito prazer. Ele fica muito contente de te conhecer, de certeza… Sabes, tenho a impressão que ele andava há uns tempos a ver se voltavas cá. Acho que não te chegou a agradecer a história do gato. Ele comentou comigo que te tinha achado muito simpática… – Rogério mentia com quantos dentes tinha. Luís não tinha comentado o que quer que fosse, apesar de ter muita vontade disso.

- Ah… Pois… ele também parece muito simpático…

- O Luís? Uma jóia de rapaz! E prestável até dizer chega! Olha, ainda agora está ali atrás na cozinha, encharcado em água, a reparar um cano. É muito habilidoso. Aprendeu tudo no orfanato. Pena que não se abre muito com as pessoas.

- Ele é órfão?

- Não se sabe. Foi abandonado em bebé. Se calhar foi pelo melhor, ninguém capaz de abandonar um bebé à nascença ia ser grande coisa como pai…

- Pois… Ele já trabalha aqui há muito tempo?

- Há oito anos. Apareceu aqui uma semana depois… depois de o meu pai morrer. Eu fiquei a tomar conta disto, mas na altura estava sozinho, a minha mãe não podia ajudar e ele entrou-me porta adentro, com uma barba enorme e a cheirar mal, e pediu-me o emprego que estava a anunciar na altura. Disse que fazia o que fosse preciso, mesmo que fosse só nas limpezas. A minha mãe saiu nesse momento do escritório do meu pai, ali nas traseiras, e ouviu tudo. Percebeu-lhe o desespero nos olhos e a fome no corpo. Mandou-o sentar e servimos-lhe um prato de comida. Depois levamo-lo à casa da D. Rosa a ver se ela tinha um quarto para alugar. Depois disso… Olha, acho que nunca nos vamos ver livres daquele, para ser sincero!

- Imagino, deve ter ficado muito… – Inês calou-se quando ia dizer a palavra “grato”. Luís voltava da cozinha, as calças encharcadas até aos joelhos.

- Pronto, já está tudo em ordem…

Rogério deixou Inês, na esperança de que Luís fosse tomar o seu lugar. O jovem, no entanto, limitou-se a descer até à sala dos empregados para trocar de roupa. Fez por nem olhar para Inês, tinha vergonha do próprio aspecto. Inês bebeu o chá, agradeceu a Rogério e pediu-lhe que agradecesse a Luís e saiu do café. Nessa altura, Luís voltou e ainda a viu por uma janela, ficando parado, na esperança de que ela talvez se tivesse esquecido de algo e fosse obrigada a voltar para trás. Não voltou.

- Chama-se Inês – disse Rogério, sorrindo perante o ar de assombro do empregado – e tu deves-me um euro pelo chá que acabaste de lhe oferecer… – piscou-lhe um olho.

06/11/2007

Querer y amor no es lo mismo...

1 comments

Decidi interromper a corrente do conto ainda sem nome para comentar esta frase, que vi no nick de msn de uma amiga, escrita exactamente assim, na língua da Isabel Allende (e de muitos outros, mas calem-se!).
Não faço a mínima ideia de para quem era dirigido, não conheço minimamente o contexto que levou essa minha amiga a escrever isso (se calhar devia ter perguntado...), mas concordo, é verdade, querer e amor estão longe de serem sinónimos. A questão é que o segundo pressupõe o primeiro e o primeiro facilmente se torna no segundo...

05/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte dois)

3 comments

Passaram duas semanas desde que Luís ganhou um inquilino. O jovem chamou-lhe “Areias”, cedeu na vontade felina em dormir junto à sua cabeça, partilhando a mesma almofada, e habituou-se a ler-lhe histórias curtas até ele adormecer. Luís vivia quase sozinho naquele prédio de três andares, a única outra moradora era a D. Rosa, a senhoria, que vivia no rés-do-chão. Tratava-se de um edifício minúsculo, estreito e perdido entre dois prédios maiores. Daí a uns anos, quando Luís e Areias se forem embora e D. Rosa se despedir da vida, o número 117 será demolido e no seu lugar surgirá um magnífico parque de estacionamento para os trabalhadores mais importantes dos prédios ao lado… Mas, por agora, para humanos e gato, o 117 é sinónimo de “casa”.

Inês ainda não voltou ao “Refúgio” desde que devolveu as chaves de casa a Luís, mas este, não o admitindo, voltava a cabeça cada vez que a porta do café se abria. Não sabia o nome dela, não sabia onde morava, quem era, apenas o que fazia, e mesmo isso não era certo. Lembrava-se bem das suas palavras, “trabalho num escritório de advogados”, mas isso não significava que fosse advogada, podia ser secretária ou recepcionista, ou… Areias prestou atenção durante algumas noites. Depois começou a ignorar e adormecia, já seguro de que o amigo não lhe ia ler nenhuma história. Luís deitava-se na cama, os braços atrás da cabeça, a olhar para as manchas de humidade no tecto e pensava em Inês. Não se conseguia lembrar da cara dela. Por algum motivo, a única coisa que conseguiu memorizar foram os seus olhos, o tal brilho castanho que lhe parecera tão estranho. Não tardava a adormecer, cansado do dia de passos apressados enquanto servia as mesmas caras de sempre. A almofada era, então, partilhada, de um lado um jovem a ressonar, do outro um gato a ronronar.

O dia amanheceu chuvoso. O Inverno aproximava-se, apesar de quase não se ter dado pelo Outono. Luís abriu o “Refúgio”, recebeu os fornecedores de bebidas e preparou as máquinas. Rogério chegou quando faltavam 30 minutos para o café abrir. Como dono e herdeiro, preferia trabalhar desde a abertura até ao fecho, mas a amizade com Luís proporcionava-lhe mais uns minutos de sono.

- Então, correu tudo bem? Trouxeram tudo, desta vez?

- Sim. – respondeu-lhe Luís – Já moí o café, as máquinas já estão ligadas, as mesas limpas e a porta pronta a abrir. Vamos a isso?

- Claro!

Rogério e Luís prepararam torradas, sumo de laranja e café. Sentaram-se a uma mesa num canto, a tomar o pequeno-almoço, a ler os jornais e a conversar. Este ritual começara anos antes e mantinha-se, quase religiosamente, sempre que Luís tinha de fazer o turno da manhã.

- Olha, ontem ao fim da tarde esteve cá aquela tipa da semana passada… – começou Rogério.

- Qual tipa? – Luís estava genuinamente confuso.

- Oh, qual tipa… Pensas que não reparei como estacaste a olhar para ela…

- Mas estás a falar de qu… Espera… A advogada? – a escuridão dos olhos do jovem pareceu iluminar-se, por momentos.

- Sim, a do gato. Veio cá tomar café…

- E não me disseste nada?!

- Luís, pá, foi ontem ao fim da tarde, estou a dizer-te agora… – por trás do jornal, Rogério exibia um riso trocista de orelha a orelha.

- E então??

- E então? E então o quê, pá? Tomou café, pagou e saiu. Que querias que fizesse? Ainda perguntei se queria umas bolachinhas, mas ela nada… – Rogério começava a rir-se mais abertamente.

- Oh!

Luís levantou-se e espreitou pela janela. O relógio da loja em frente mostrava que faltavam 5 minutos para a hora de abertura, mas ao fundo da rua já se aproximava o primeiro cliente.

- Vem aí o Sr. Ramiro…

- O costume… Abre-lhe a porta e ele que se sente aqui connosco.

- Bom dia, Sr. Ramiro. Então como está? Entre, entre, saia da chuva. – Ramiro era um velhote nos seus 65 anos, o cabelo completamente branco tapado por uma boina preta. Trazia um guarda-chuva fechado pendurado no braço. Sacudiu as gotas de chuva presas ao casaco, tirou a boina e sentou-se ao lado de Rogério.

- Então, jovens, já começaram sem mim? A juventude é sempre a mesma coisa, sempre cheia de pressa com medo de morrer a dormir! Vá, quem é que vai já começar a trabalhar e me vai servir o cafezinho? Hum, torradas hoje, que bom… – Ramiro era um dos mais antigos frequentadores do “Refúgio”, quase desde a inauguração, 30 anos antes. Era um conhecido do pai de Rogério e lembrava-se perfeitamente de onde tinha vindo a ideia do nome do café. A casa onde agora os três tomavam calmamente o pequeno-almoço tinha visto muito luta enquanto ponto de encontro de jovens de ideais comunistas, na altura do Estado Novo. Ramiro nunca chegou a ter a coragem de aderir também ele à luta activa, mas por diversas vezes guardou em casa exemplares do “Avante”, à espera de serem distribuídos na clandestinidade. Conhecia de cor o nome de todos os que se esconderam entre as quatro paredes do “Refúgio” e aquele sítio trazia-lhe recordações da juventude, de um tempo antes de ser viúvo. Via em Rogério e em Luís os rostos dos seus amigos desse passado, mas eram rostos mais calmos, rostos que não passaram pela opressão, olhos que não tiveram de disfarçar o medo e, ao mesmo tempo, a força de vontade para mudar um país.

- Quer leite, Sr. Ramiro? – a voz, agora calma, de Luís trouxe-o de volta.

- Sim, pode ser… Obrigado, rapaz, agora senta-te e acaba lá de tomar o café.

- Ó Sr. Ramiro, nem lhe diga nada que ele ainda há pouco me ia bater!

- Ui, ai sim? E que é que você lhe fez? – Ramiro já conhecia bem as discussões pouco inflamadas dos dois amigos.

- Então não é que me esqueci de lhe dizer que ontem esteve cá a namorada dele?

Luís sentia-se aquecer por dentro, como uma caldeira prestes a rebentar. Mantinha-se sentado, de olhos fixos no jornal, mas cada vez mais perto de explodir.

- Ai, você namora? Pois faz muito bem. Tem é de ver se sorri mais com os olhos. Veja lá o que lhe digo, elas querem é ver sorrir com os olhos, cá isso de sorrir com os dentes pode correr mal, principalmente na minha idade…

Nenhum dos três conseguiu deixar de rir e o primeiro cliente que entrou encontrou três amigos bem-dispostos. Luís e Rogério assumiram as suas posições, Ramiro continuou a ler o jornal e a recordar os tempos em que o “Refúgio” era realmente um refúgio. Luís pensou se nesse dia veria Inês, apesar de se referir a ela como a Advogada. Rogério não pensou em nada, preparou pão para as torradas.

Inês não apareceu.

30/10/2007

(Título de conto ainda por dar - parte um)

5 comments

Às vezes, acontecem as coisas mais surpreendentes na vida de alguém. Por vezes, são coisas complexas, rebuscadas, piadas cósmicas do destino que, de tão remotas, passam ao lado de quem é atingido por elas. Outras vezes, são tão óbvias, tão claramente colocadas diante da pessoa que esta não tem outro remédio que não agir. Manhã de um qualquer dia de Outubro...

- Ei! Não! Esperem aí! - ele dirige-se para um camião prestes a descarregar areia numa obra na rua. Não se apercebendo completamente do que se estava a passar, os trabalhadores deram início à descarga e só pararam quando viram o jovem, quase todo vestido de preto, lançar-se à vala que estavam a tapar.

- Olha! É doido! Ei, sai daí que ainda ficas todo partido! – gritou-lhe alguém. Não lhe deu ouvidos. Com areia pelos joelhos, começou a cavar furiosamente com as mãos. Quase nem ouviu a voz feminina que o defendeu.

- Deixem-no estar, não descarreguem mais nada! Rápido, consegues vê-lo?

Os trabalhadores entreolhavam-se, perplexos. No espírito de alguns, formou-se a imagem de alguém que teria descido à vala, sem que eles vissem, e que estaria agora soterrado. O espanto foi geral quando o jovem, de nome Luís, conseguiu resgatar um gato preto do monte de areia que acabavam de despejar.

- Tanta merda por causa de um gato?! Nós temos horários a cumprir! Desapareçam os dois daqui antes que vos corra à paulada! – gritou um dos trabalhadores, depois de passado o espanto inicial.

Luís, segurando o gato entre os braços, saltou de imediato para a rua, com a jovem que o tentara ajudar momentos antes a segui-lo.

- Onde vais? Temos que o levar ao veterinário! Ele está a respirar? – perguntou ela, de seu nome Inês.

- Acho que não! Estou a ver se o faço cuspir a areia, mas ele não está a reagir! Espera… – num acto de desespero, o jovem agarrou o pobre animal pelas patas de trás e sacudiu-o no ar. O gesto, apesar de ter angustiado Inês, surtiu efeito, fazendo o gato cuspir uma boa porção de areia, soltando um miado enfraquecido logo de seguida – Funcionou! – exclamou, surpreendido.

- Sim! Mas e agora? É preciso levá-lo na mesma ao veterinário, ver se ele está bem…

- Pois… Mas eu estou atrasado para o trabalho… E já não é a primeira vez esta semana…

- Dá-mo cá. Eu levo-o. Tenho um horário mais flexível, ninguém me vai dizer nada se me atrasar. Além disso, nem que ligue do consultório enquanto espero. Onde trabalhas?

- Vês aquela esquina ali em cima? – Luís apontou para o cimo da rua íngreme onde estavam – Um pouco mais adiante há lá um café, o “Refúgio”. Sou empregado de mesa lá…

- Ok, vai lá então, a ver se nos despachamos os dois. Adeus.

- Adeus.

Luís sentia-se estranho a falar com uma desconhecida daquela maneira. No entanto, tinha um longo dia pela frente e suspeitava que ia começar com uma discussão, por isso sacudiu a areia da roupa o melhor que pôde e começou a subir a rua, quase em corrida.

- Ó Luís, pá, tu és sempre a mesma coisa, pá! Como é? Vou ter de começar a cortar-te no salário, pá?! – o gorducho bonacheirão que censurou Luís mexia-se como um louco a tentar atender três mesas ao mesmo tempo – Despacha-te e vai trocar de roupa. Espera lá, que figura é essa, pá?! As calças cheias de areia, as mãos todas sujas, que aconteceu, pá?! – Rogério, mostrando preocupação genuína depois da descompostura inicial, dirigiu-se ao amigo, andando como se dançasse o bolero – Estás bem, pá?

- Sim… É que houve ali um… acidente numa obra e eu fui ajudar… – nessa altura, embora não o admitissem nunca, os três clientes que Rogério estava a atender fitaram as orelhas a tentar perceber se havia feridos.

- Um acidente? Mas que foste tu fazer?

- Hum… Foi… um gato… que ficou soterrado…

- Luís, pá… Vai-te vestir que nem quero ouvir mais nada… – Rogério estava vermelho de fúria e a estranha dança de bolero que fazia ao andar parecia mais mexida que o habitual.

Já fardado, Luís acorreu aos clientes que ainda estavam por servir. Àquela hora da manhã, havia muita gente a querer tomar o pequeno-almoço e Rogério não tinha mãos a medir com torradas, tostas e queques, enquanto Luís tratava dos cafés e dos copos de leite. A hora da confusão do pequeno-almoço passou e estavam a preparar-se para a hora da confusão do almoço quando Inês entrou no “Refúgio”, com uma gaiola a miar.

- Olá! – disse ela ao reconhecer Luís.

- Tu?! Mas aconteceu alguma coisa? – Luís ajoelhou-se em frente à jovem, a espreitar para a gaiola que miava. Lá dentro, o gatito preto que umas horas antes tinha sido sacudido pelas patas, parecia reconhecer Luís e procurava brincar com ele, deitando uma pata pelas grades.

- Não, ele está bem, ficou um bocado assustado, está subnutrido, devia estar abandonado, mas um par de boas refeições e fica como novo, segundo o médico. Só receitou aqui uns comprimidos para os parasitas e levou uma injecção, mas nada de extraordinário, tendo em conta tudo o que se passou… – Inês sentia-se algo ridícula a tagarelar daquela forma com um estranho, mas não conseguia evitar.

- Mas… porque é que o trouxeste para aqui?

- Bem, tu estavas atrasado de manhã, por isso fui eu ao veterinário, logo parece-me justo que agora fiques tu com ele enquanto eu vou para o trabalho…

- Eu não quero esse bicho aqui! – meteu-se Rogério – Despacha-o, ó Luís!

Luís olhou para Inês e pela primeira vez reparou-lhe no brilho dos olhos. Eram castanhos e seriam banalíssimos se não tivessem um brilho de um castanho como nunca antes vira. Sentiu que passaram horas desde a ordem de Rogério e o momento em que finalmente se conseguiu abstrair do brilho de Inês. Na verdade, passaram apenas alguns segundos…

- Olha, o Rogério não é má pessoa, mas nós realmente podemos ter problemas com a inspecção por causa do gato. Não podes mesmo ficar com ele?

- Não, desculpa, mas não. Trabalho num escritório de advogados, não posso aparecer assim com um gato…

Luís pensou por uns momentos a fitar uma janela ao lado de Inês e agora foi ela que se apercebeu dos olhos dele. Eram de um preto absoluto, sem íris, sem brilho, de uma total ausência de sentimentos, a contrastar com o fervor com que, nessa manhã, se lançara à vala por causa de um simples gato.

- Espera aqui uns segundos… – Luís dirigiu-se à sala dos empregados, foi ao bolso das calças e tirou de lá uma chave. Voltou para junto de Inês – Eu moro no primeiro andar do número 117, perto do sítio onde nos encontramos hoje. Será que o podes deixar lá e depois, quando puderes, vens cá trazer a chave?

Inês, algo surpreendida, aceitou. Saiu do café, voltou a descer a rua e encontrou o número 117. Abriu a porta, entrou. Era um pequeno T0, com um biombo velho a separar a cama do resto da casa, que mais não era do que uma cozinha e uma sala. A única porta visível, para além da da entrada, dava para o quarto de banho. Tinha uma pequena aparelhagem a um canto e um monte de cd’s ao lado. A cama estava feita, de forma impecável. Não se viam fotografias ou quadros em lado nenhum, mas havia livros velhos empilhados um pouco por todo o lado. Inês decidiu soltar o gato no quarto de banho. Saiu e trancou a porta.

24/10/2007

Não me digam as horas...

2 comments

Carros e vozes agitam-me os tímpanos por cima da música que insisto em pôr baixa. O ar empurra-me gelo para os pulmões, espalhando-me o frio pela carne. As mãos só não tremem por teimosia do orgulho e os pés esfregam-se um no outro para se manterem quentes. O "Eva Luna", que comprei à pressa para te conhecer melhor, abana-se nos dedos com o vento, que aproveita para me sacudir também o cabelo, de um lado para o outro. O café, que pedi apenas para me poder sentar e esperar, já há muito que arrefeceu no estômago. Vejo as horas, olho para a rua. Procuro a frase que estava a ler e releio-a. Avanço uma página e o ritual repete-se. Os minutos passam. As horas passam. O dia passa. O sol, fazendo-me sinais nas janelas em frente, começa a pôr-se, grita-me que está na hora, que já chega por hoje, que tenho de me meter a caminho de mais uma viagem desconsolada, de mais um dia desfalcado de te ver. E eu tremo, a acreditar nele, mas tremo ainda mais ao cerrar os dentes, mantendo-me fixo onde estou, quieto, com os olhos na rua e no “Eva Luna”, que realmente comprei à pressa para te conhecer melhor. Mais cinco minutos, só mais uma página e depois vou. Prometo…

22/10/2007

Porquê tu?

2 comments

Porque sim. Porque te vi. Porque senti curiosidade. Porque os teus olhos por vezes são de um castanho como não me lembro de ver. Porque cada visão tua me faz sorrir. Porque conto cada passo dado a teu lado e porque tento encurtar as passadas e prolongar os 500 metros até São Bento. Porque a tua voz me traz silêncio. Porque estou quase sempre bem, mas é ao teu lado que o mundo quase desaparece. Porque não sei o que sinto, mas quero descobrir. E porque o teu brilho não encandeia, o teu brilho aquece.

19/10/2007

Ufa...

3 comments

Abençoado trabalho de fim de semana que não me vai deixar pensar demasiado nesta tarde (que foi em tudo positiva). Para a semana, maratona e, bolas, nada a perder MESMO, tiraram-me o açaime...
Na semana seguinte, começa novo conto, com título ainda a definir, mas talvez "Uma história de amor a sério". Sugestões aceitam-se. Tema anda à volta de duas pessoas e um (ou vários) amor(es). Ficou o teaser feito...
(Já agora aproveito para pedir desculpa por usar o meu blog para desabafos...
Ei, espera lá! É exactamente para isso que ele serve!!!)