21/11/2007

(escrito a verde, em cima de um livro de Poe)

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gostava de escrever sobre o mar, para ti, falar-te da sua vida, da sua alma, de todos os sons que produz. gostava de te mostrar o medo e o fascínio que o mar desperta em mim. gostava de to descrever como a Sophia o faz e tu tanto gostas, mas as palavras não me sairão nunca como a ela. gostava que percebesses que és como o mar para mim e como me sinto pequeno diante do enorme mar que és tu. gostava de mergulhar em ti e partir por aí, andar à deriva por aí, ao sabor das tuas marés, das tuas ondas e declives, do teu sal e dos sons que tu produzes. gostava de me afogar em ti. gostava tanto que me afogo.

19/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte quatro)

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Inês voltou ao “Refúgio” no dia seguinte. E no outro. E no outro. E no outro. Durante duas semanas, voltou lá e sentou-se sempre na mesma mesa, na mesma cadeira, na mesma posição. Luís vivia num misto de confusão e deslumbramento. Cada vez que olhava para os olhos dela, via aquele brilho estranho que o deixava imerso em pensamentos. Quem era ela? Do que gostava ela? De onde vinha? O que queria ela dali? Esta última pergunta atormentava-o de tal modo que chegou a pedir a um colega que a atendesse. Inês fingia não reparar, ou não reparava mesmo, limitava-se a pedir o invariável chá, tomava-o, pagava-o e saía. Chegou a procurar o contacto com Luís, mas nem sempre conseguia. Despedia-se sempre de Rogério, que lhe respondia com um sorriso, um acenar de cabeça e um olhar de soslaio para o empregado e amigo.

- Olha lá, tu és doido, estúpido ou as duas coisas? – Rogério estava claramente zangado.

- Que foi que eu fiz agora? – Luís estava atónito.

- Tu? Nada! Por isso mesmo! A rapariga vem cá e tu nem um olá lhe dizes?! Idiota! É óbvio que queres falar com ela e foges? Escondes-te?! Imaginava-te com mais garra, Luís!

- Não te metas nisso, está bem? Além do mais, nem sabes do que falas…

- Não sei do que falo? Pois tu não sabes o que fazes, não pareces saber viver!

Luís virou-se, saiu e bateu com a porta da sala dos empregados. Rogério ficou sozinho diante de um espelho e lamentou que o amigo não tivesse percebido o abanão que lhe tentou dar. O Sr. Ramiro, que ia a passar na rua quando Luís saiu do café, admirou-se com o ar do jovem, vendo-o lançar-se sem abrigo pela chuva, avançando furiosamente rua abaixo. Espreitou pela janela do “Refúgio” a tentar perceber o que se passava, mas só viu cadeiras empilhadas em mesas. Franziu um sobrolho e voltou a casa.

Luís atirou uma pequena bola de borracha contra a parede, apanhou-a no ar quando ela ressaltou e voltou a atirar. O tempo passou. Luís continuou com esse ritual noite dentro. Os seus olhos pareciam mais vazios do que nunca e quase não seguiam o movimento da bola. O olhar dele estava noutro lado, na sala dos empregados, e revia a conversa com Rogério. Areias observava tudo placidamente como quem sabe que não pode ajudar. Luís ardia de fúria por dentro, não contra Rogério, mas contra si mesmo. As palavras do patrão e amigo foram curtas, mas certeiras demais.

Inês voltou no dia seguinte. Luís viu-a entrar quando se preparava para atender um cliente numa mesa, mas levantou a cabeça para Rogério, que, com o olhar, lhe disse para ir em frente. Fez sinal a um colega para ir atender o cliente que já lhe começara a fazer o pedido e avançou para a mesa 11. Tremia como varas verdes.

- Olá, tudo bem? Então que sabor de chá vais querer hoje? – Luís sorriu, tentando mostrar calma.

- Olá, Luís! Finalmente! Andava a querer perguntar-te pelo Areias. Será que um dia o posso ver? Gostei muito do bichinho…

- Hum… Sim, claro, quando quiseres empresto-te as chaves para lá ires…

- Pois… Obrigado, mas acho que não me sinto muito à vontade de entrar em casa de um desconhecido… Olha, desculpa, mas temos de combinar isso noutro dia, tenho alguma pressa, preciso de apanhar o comboio. Trazes-me um chá verde, por favor?

- Já de seguida!

Luís virou-se e quase correu para o balcão, por cima do qual só não saltou porque Rogério, à escuta a ver o que amigo dizia, começou logo a preparar tudo. Em menos de dois minutos, já Inês soprava uma chávena de chá fumegante.

- Quando ela vier pagar, diz que ofereces… – Rogério inclinou-se sobre o balcão e sussurrou ao ouvido do amigo.

- Não, já da outra vez foi isso, deixa-me pensar...

- Olha, ela vem aí! – Rogério voltou-se à pressa e começou a passar revista às prateleiras de copos à sua frente, achando que estava a disfarçar bem… Inês achou a cena um pouco estranha, mas não pensou muito nisso.

- Queria a conta, por favor. Amanhã passo aqui outra vez e combinamos aquilo de ver o Areias, pode ser? – Inês estendeu-lhe o dinheiro do chá.

- Sim, claro. Nós estamos abertos das 7 da manhã às 7 da tarde.

- Eu sei, Luís, já cá venho há alguns dias… – a jovem sorriu-lhe e Rogério levou a mão à boca, abafando uma gargalhada. Luís limitou-se a engolir em seco – Então até amanhã. Adeus, Rogério.

- Adeus, adeus, até amanhã – Rogério encarou Inês ainda a fingir que não estava a ouvir nada. Luís ficou quieto e mudo, de olhos fechados, a pensar no embaraço em que acabara de se meter. Quando ouviu a porta fechar, olhou para Rogério que se ria sem pudor.

- Estúpido… – rosnou o empregado.

- Esquece, ao menos já tens um encontro… – Rogério afastou-se a assobiar, a estalar os dedos e a andar como se dançasse o bolero. Nem viu o sorriso rasgado de Luís.

14/11/2007

sonhar antes do sono

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Quis deitar-me cedo esta noite, dormir como não durmo há semanas, sem conversas que caem no esquecimento digital ou monólogos que nunca se tornam diálogos. Deitei-me, cobri-me, ordenei-me que dormisse, mas o sono não surgiu. Armei-me em intelectual e li, outra vez a ler, sempre a ler a fingir, como se realmente lesse o que quer que fosse e não usasse as páginas como relógio para contar as horas que demoro a adormecer. Uma hora e o sono não vem. Já os sonhos, esses assombram-me noite e dia, como se tentassem martelar-me a clareza de espírito e fazer de mim um homem feliz a fingir, como a leitura. Não durmo, mas sonho. Talvez seja isso que me permite manter a sanidade, por discutível que seja. Não oiço vozes, talvez não veja vultos e falo com quem não está presente, é verdade, mas falo sempre com quem existe, com quem me pode responder, com quem eu quero que me responda, talvez, um dia, se o destino assim o quiser. E o destino, ou um simples acaso fortuito da vida, trouxe-me sonhos, sonhos em que sou um homem feliz e não um simples miúdo que escreve uns desabafos na hora de dormir. Outubro trouxe-me o sonho, o meu pequeno e insignificante sonho do Outubro Vermelho. E ainda que não durma, não quero acordar deste sonho de Outubro, quero ficar para sempre parado no tempo e no espaço, como uma pedra caída no chão e que ninguém chuta. Quero sonhar. Quero sonhar que vivo. Quero viver. Quero que me deixes sonhar contigo. Quero que me deixes viver contigo.

11/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte três)

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Eram cinco da tarde e o café estava vazio. Rogério limpava e arrumava copos enquanto Luís, com a cabeça longe dali, ainda que não soubesse bem onde, limpava e arrumava mesas. O dia estava limpo e luminoso, apesar da chuva dessa manhã, mas as obras, onde Areias quase morrera soterrado, tinham avançado até bem perto do “Refúgio”, o que afastara quase por completo a clientela habitual. Apenas o Sr. Ramiro se mantinha fiel, mas mesmo esse tinha saído a meio da tarde. Era o aniversário da mulher, queria levar-lhe flores à campa. Umas horas antes, piscara um olho a Rogério e a Luís quando estes mostraram vontade em acompanhá-lo, mas o café impedia-os de o fazerem. “Não se preocupem, da vossa amizade estou eu certo – dissera-lhes o idoso – e vou falar de vocês à minha Maria”. O pensamento de Luís, na verdade, estava no Sr. Ramiro e no amor que este ainda parecia sentir pela mulher, desaparecida há mais de cinco anos. Luís tinha 26 anos e nunca tinha amado. Cresceu e viveu num orfanato até aos 18 anos, altura em que teve de deixar para trás os amigos e as paredes que tão familiares lhe eram. Nesse dia, tomou a decisão de rejeitar toda e qualquer ajuda que lhe ofereceram os funcionários da instituição. Queria começar a vida a partir do zero, sentir que tudo o que viesse a conseguir tinha sido fruto do seu empenho e da sua coragem. Foi graças a essa decisão que conheceu Rogério. Os primeiros dias depois do orfanato não foram fáceis. Passava os dias em busca de alguma forma de fazer dinheiro, ajudava comerciantes nas descargas diárias em troca de comida ou de alguns trocos. As noites passava-as ao relento, aquecendo-se com cartões que encontrava no lixo. Uma semana depois, quando estava quase decidido a voltar e pedir ajuda a quem o vira crescer, deu de caras com o "Refúgio" e um sinal de “Precisa-se de empregado”. Foi amor à primeira vista.

Luís acabava de limpar a última mesa quando Rogério rasgou um sorriso de orelha a orelha ao olhar pela janela.

- Luís, pá, toma aí conta das coisas que eu vou lá atrás ver o que é preciso encomendar para amanha. Já venho. Boa sorte…

- Boa sorte? Boa sorte para quê? – Luís virou-se para o balcão, mas Rogério já tinha desaparecido pela porta da cozinha – Mas que raio…?

Inês entrou no “Refúgio”. Luís virou-se para ver quem entrava e estacou. Inês sorriu-lhe e acenou-lhe um olá com a cabeça. Sentou-se numa mesa a um canto junto à janela, “mesa 11”, pensou mecanicamente o empregado. Em gestos igualmente mecânicos, pousou o pano com que limpava as mesas, desinfectou as mãos e levou um cinzeiro à jovem.

- Não, obrigado, eu não fumo. Está tudo bem?

- Hum… Sim, está…. Olá. E contigo? Está tudo bem? Que vais querer?

Inês voltou a sorrir-lhe. Os olhos de Luís continuavam tão negros e frios como da primeira vez em que reparou neles, mas o olhar estava visivelmente mais atrapalhado.

- Sim, também está tudo bem comigo. E o nosso menino, como está? Tem dado muitos problemas?

- O nosso menino?! Ah, o Areias! Sim, ele é meiguinho. Ou isso ou então os medicamentos deixam-no completamente atordoado... – sorriram um para o outro.

- Areias? Engraçado. Engraçado e apropriado, sem dúvida…

- Sim…

Ficaram a fitar-se uns segundos, sem saber o que dizer a seguir. Claro que esses segundos pareciam tornar-se minutos, horas…

- Queria um chá, por favor. De menta.

- O quê? – Luís ainda estava perdido no olhar castanho de Inês.

- Um chá, de menta, se faz favor…

- Ah sim! Claro, vou já buscar. – Luís deu dois passos na direcção do balcão, parou e voltou-se de repente – E para comer, não queres, hum quer dizer, não quer nada?

- Não, só o chá mesmo. E podes tratar-me por tu, por favor.

Luís acenou com a cabeça, passou para trás do balcão e começou a preparar o chá. Nessa altura, surgiu Rogério, com um avental encharcado e o andar como se dançasse o bolero acelerado.

- Eh pá, ó Luís, o cano da torneira da cozinha rebentou outra vez! Podes lá ir, depressa? – nessa altura espreitou pelo café e viu Inês a observar os dois – Eh pá, desculpa lá, mas aquilo está mesmo a inundar tudo…

- Não há problema… – Luís estava visivelmente desiludido – Vou já tratar disso. Leva um chá de menta à mesa 11…

- Onde, à única mesa que está ocupada? – a graçola era uma espécie de pedido de desculpa.

- Pois, pois… – Luís virou-lhe as costas e começou a arregaçar as mangas.

Rogério pegou no bule com água quente, na chávena, numa colher, num saco de chá de menta e em dois pacotes de açúcar. Por prevenção, levou também o adoçante, já estava habituado a servir jovens como Inês.

- Olá, eu sou o Rogério. Desculpa, o Luís teve uma emergência na cozinha, não te pôde vir atender. Mas ele avisou-me que não era para cobrar nada, é por conta dele...

- Ah, ele chama-se Luís… – Inês ficou suspensa por uma fracção de segundo e depois reagiu – Espera, por conta dele? Não, não, eu quero pagar! Não é justo!

- Justo? Então se ele disse que tinha todo o prazer em oferecer o chá! Vá, não lhe faças essa desfeita… – Rogério piscou-lhe um olho e percebeu que Inês aceitara a oferta – Já agora, ele não me disse como te chamas…

- Ele não sabe, em princípio. Ainda não lho disse. Inês, chamo-me Inês.

- Ah, muito prazer. Ele fica muito contente de te conhecer, de certeza… Sabes, tenho a impressão que ele andava há uns tempos a ver se voltavas cá. Acho que não te chegou a agradecer a história do gato. Ele comentou comigo que te tinha achado muito simpática… – Rogério mentia com quantos dentes tinha. Luís não tinha comentado o que quer que fosse, apesar de ter muita vontade disso.

- Ah… Pois… ele também parece muito simpático…

- O Luís? Uma jóia de rapaz! E prestável até dizer chega! Olha, ainda agora está ali atrás na cozinha, encharcado em água, a reparar um cano. É muito habilidoso. Aprendeu tudo no orfanato. Pena que não se abre muito com as pessoas.

- Ele é órfão?

- Não se sabe. Foi abandonado em bebé. Se calhar foi pelo melhor, ninguém capaz de abandonar um bebé à nascença ia ser grande coisa como pai…

- Pois… Ele já trabalha aqui há muito tempo?

- Há oito anos. Apareceu aqui uma semana depois… depois de o meu pai morrer. Eu fiquei a tomar conta disto, mas na altura estava sozinho, a minha mãe não podia ajudar e ele entrou-me porta adentro, com uma barba enorme e a cheirar mal, e pediu-me o emprego que estava a anunciar na altura. Disse que fazia o que fosse preciso, mesmo que fosse só nas limpezas. A minha mãe saiu nesse momento do escritório do meu pai, ali nas traseiras, e ouviu tudo. Percebeu-lhe o desespero nos olhos e a fome no corpo. Mandou-o sentar e servimos-lhe um prato de comida. Depois levamo-lo à casa da D. Rosa a ver se ela tinha um quarto para alugar. Depois disso… Olha, acho que nunca nos vamos ver livres daquele, para ser sincero!

- Imagino, deve ter ficado muito… – Inês calou-se quando ia dizer a palavra “grato”. Luís voltava da cozinha, as calças encharcadas até aos joelhos.

- Pronto, já está tudo em ordem…

Rogério deixou Inês, na esperança de que Luís fosse tomar o seu lugar. O jovem, no entanto, limitou-se a descer até à sala dos empregados para trocar de roupa. Fez por nem olhar para Inês, tinha vergonha do próprio aspecto. Inês bebeu o chá, agradeceu a Rogério e pediu-lhe que agradecesse a Luís e saiu do café. Nessa altura, Luís voltou e ainda a viu por uma janela, ficando parado, na esperança de que ela talvez se tivesse esquecido de algo e fosse obrigada a voltar para trás. Não voltou.

- Chama-se Inês – disse Rogério, sorrindo perante o ar de assombro do empregado – e tu deves-me um euro pelo chá que acabaste de lhe oferecer… – piscou-lhe um olho.

06/11/2007

Querer y amor no es lo mismo...

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Decidi interromper a corrente do conto ainda sem nome para comentar esta frase, que vi no nick de msn de uma amiga, escrita exactamente assim, na língua da Isabel Allende (e de muitos outros, mas calem-se!).
Não faço a mínima ideia de para quem era dirigido, não conheço minimamente o contexto que levou essa minha amiga a escrever isso (se calhar devia ter perguntado...), mas concordo, é verdade, querer e amor estão longe de serem sinónimos. A questão é que o segundo pressupõe o primeiro e o primeiro facilmente se torna no segundo...

05/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte dois)

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Passaram duas semanas desde que Luís ganhou um inquilino. O jovem chamou-lhe “Areias”, cedeu na vontade felina em dormir junto à sua cabeça, partilhando a mesma almofada, e habituou-se a ler-lhe histórias curtas até ele adormecer. Luís vivia quase sozinho naquele prédio de três andares, a única outra moradora era a D. Rosa, a senhoria, que vivia no rés-do-chão. Tratava-se de um edifício minúsculo, estreito e perdido entre dois prédios maiores. Daí a uns anos, quando Luís e Areias se forem embora e D. Rosa se despedir da vida, o número 117 será demolido e no seu lugar surgirá um magnífico parque de estacionamento para os trabalhadores mais importantes dos prédios ao lado… Mas, por agora, para humanos e gato, o 117 é sinónimo de “casa”.

Inês ainda não voltou ao “Refúgio” desde que devolveu as chaves de casa a Luís, mas este, não o admitindo, voltava a cabeça cada vez que a porta do café se abria. Não sabia o nome dela, não sabia onde morava, quem era, apenas o que fazia, e mesmo isso não era certo. Lembrava-se bem das suas palavras, “trabalho num escritório de advogados”, mas isso não significava que fosse advogada, podia ser secretária ou recepcionista, ou… Areias prestou atenção durante algumas noites. Depois começou a ignorar e adormecia, já seguro de que o amigo não lhe ia ler nenhuma história. Luís deitava-se na cama, os braços atrás da cabeça, a olhar para as manchas de humidade no tecto e pensava em Inês. Não se conseguia lembrar da cara dela. Por algum motivo, a única coisa que conseguiu memorizar foram os seus olhos, o tal brilho castanho que lhe parecera tão estranho. Não tardava a adormecer, cansado do dia de passos apressados enquanto servia as mesmas caras de sempre. A almofada era, então, partilhada, de um lado um jovem a ressonar, do outro um gato a ronronar.

O dia amanheceu chuvoso. O Inverno aproximava-se, apesar de quase não se ter dado pelo Outono. Luís abriu o “Refúgio”, recebeu os fornecedores de bebidas e preparou as máquinas. Rogério chegou quando faltavam 30 minutos para o café abrir. Como dono e herdeiro, preferia trabalhar desde a abertura até ao fecho, mas a amizade com Luís proporcionava-lhe mais uns minutos de sono.

- Então, correu tudo bem? Trouxeram tudo, desta vez?

- Sim. – respondeu-lhe Luís – Já moí o café, as máquinas já estão ligadas, as mesas limpas e a porta pronta a abrir. Vamos a isso?

- Claro!

Rogério e Luís prepararam torradas, sumo de laranja e café. Sentaram-se a uma mesa num canto, a tomar o pequeno-almoço, a ler os jornais e a conversar. Este ritual começara anos antes e mantinha-se, quase religiosamente, sempre que Luís tinha de fazer o turno da manhã.

- Olha, ontem ao fim da tarde esteve cá aquela tipa da semana passada… – começou Rogério.

- Qual tipa? – Luís estava genuinamente confuso.

- Oh, qual tipa… Pensas que não reparei como estacaste a olhar para ela…

- Mas estás a falar de qu… Espera… A advogada? – a escuridão dos olhos do jovem pareceu iluminar-se, por momentos.

- Sim, a do gato. Veio cá tomar café…

- E não me disseste nada?!

- Luís, pá, foi ontem ao fim da tarde, estou a dizer-te agora… – por trás do jornal, Rogério exibia um riso trocista de orelha a orelha.

- E então??

- E então? E então o quê, pá? Tomou café, pagou e saiu. Que querias que fizesse? Ainda perguntei se queria umas bolachinhas, mas ela nada… – Rogério começava a rir-se mais abertamente.

- Oh!

Luís levantou-se e espreitou pela janela. O relógio da loja em frente mostrava que faltavam 5 minutos para a hora de abertura, mas ao fundo da rua já se aproximava o primeiro cliente.

- Vem aí o Sr. Ramiro…

- O costume… Abre-lhe a porta e ele que se sente aqui connosco.

- Bom dia, Sr. Ramiro. Então como está? Entre, entre, saia da chuva. – Ramiro era um velhote nos seus 65 anos, o cabelo completamente branco tapado por uma boina preta. Trazia um guarda-chuva fechado pendurado no braço. Sacudiu as gotas de chuva presas ao casaco, tirou a boina e sentou-se ao lado de Rogério.

- Então, jovens, já começaram sem mim? A juventude é sempre a mesma coisa, sempre cheia de pressa com medo de morrer a dormir! Vá, quem é que vai já começar a trabalhar e me vai servir o cafezinho? Hum, torradas hoje, que bom… – Ramiro era um dos mais antigos frequentadores do “Refúgio”, quase desde a inauguração, 30 anos antes. Era um conhecido do pai de Rogério e lembrava-se perfeitamente de onde tinha vindo a ideia do nome do café. A casa onde agora os três tomavam calmamente o pequeno-almoço tinha visto muito luta enquanto ponto de encontro de jovens de ideais comunistas, na altura do Estado Novo. Ramiro nunca chegou a ter a coragem de aderir também ele à luta activa, mas por diversas vezes guardou em casa exemplares do “Avante”, à espera de serem distribuídos na clandestinidade. Conhecia de cor o nome de todos os que se esconderam entre as quatro paredes do “Refúgio” e aquele sítio trazia-lhe recordações da juventude, de um tempo antes de ser viúvo. Via em Rogério e em Luís os rostos dos seus amigos desse passado, mas eram rostos mais calmos, rostos que não passaram pela opressão, olhos que não tiveram de disfarçar o medo e, ao mesmo tempo, a força de vontade para mudar um país.

- Quer leite, Sr. Ramiro? – a voz, agora calma, de Luís trouxe-o de volta.

- Sim, pode ser… Obrigado, rapaz, agora senta-te e acaba lá de tomar o café.

- Ó Sr. Ramiro, nem lhe diga nada que ele ainda há pouco me ia bater!

- Ui, ai sim? E que é que você lhe fez? – Ramiro já conhecia bem as discussões pouco inflamadas dos dois amigos.

- Então não é que me esqueci de lhe dizer que ontem esteve cá a namorada dele?

Luís sentia-se aquecer por dentro, como uma caldeira prestes a rebentar. Mantinha-se sentado, de olhos fixos no jornal, mas cada vez mais perto de explodir.

- Ai, você namora? Pois faz muito bem. Tem é de ver se sorri mais com os olhos. Veja lá o que lhe digo, elas querem é ver sorrir com os olhos, cá isso de sorrir com os dentes pode correr mal, principalmente na minha idade…

Nenhum dos três conseguiu deixar de rir e o primeiro cliente que entrou encontrou três amigos bem-dispostos. Luís e Rogério assumiram as suas posições, Ramiro continuou a ler o jornal e a recordar os tempos em que o “Refúgio” era realmente um refúgio. Luís pensou se nesse dia veria Inês, apesar de se referir a ela como a Advogada. Rogério não pensou em nada, preparou pão para as torradas.

Inês não apareceu.

30/10/2007

(Título de conto ainda por dar - parte um)

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Às vezes, acontecem as coisas mais surpreendentes na vida de alguém. Por vezes, são coisas complexas, rebuscadas, piadas cósmicas do destino que, de tão remotas, passam ao lado de quem é atingido por elas. Outras vezes, são tão óbvias, tão claramente colocadas diante da pessoa que esta não tem outro remédio que não agir. Manhã de um qualquer dia de Outubro...

- Ei! Não! Esperem aí! - ele dirige-se para um camião prestes a descarregar areia numa obra na rua. Não se apercebendo completamente do que se estava a passar, os trabalhadores deram início à descarga e só pararam quando viram o jovem, quase todo vestido de preto, lançar-se à vala que estavam a tapar.

- Olha! É doido! Ei, sai daí que ainda ficas todo partido! – gritou-lhe alguém. Não lhe deu ouvidos. Com areia pelos joelhos, começou a cavar furiosamente com as mãos. Quase nem ouviu a voz feminina que o defendeu.

- Deixem-no estar, não descarreguem mais nada! Rápido, consegues vê-lo?

Os trabalhadores entreolhavam-se, perplexos. No espírito de alguns, formou-se a imagem de alguém que teria descido à vala, sem que eles vissem, e que estaria agora soterrado. O espanto foi geral quando o jovem, de nome Luís, conseguiu resgatar um gato preto do monte de areia que acabavam de despejar.

- Tanta merda por causa de um gato?! Nós temos horários a cumprir! Desapareçam os dois daqui antes que vos corra à paulada! – gritou um dos trabalhadores, depois de passado o espanto inicial.

Luís, segurando o gato entre os braços, saltou de imediato para a rua, com a jovem que o tentara ajudar momentos antes a segui-lo.

- Onde vais? Temos que o levar ao veterinário! Ele está a respirar? – perguntou ela, de seu nome Inês.

- Acho que não! Estou a ver se o faço cuspir a areia, mas ele não está a reagir! Espera… – num acto de desespero, o jovem agarrou o pobre animal pelas patas de trás e sacudiu-o no ar. O gesto, apesar de ter angustiado Inês, surtiu efeito, fazendo o gato cuspir uma boa porção de areia, soltando um miado enfraquecido logo de seguida – Funcionou! – exclamou, surpreendido.

- Sim! Mas e agora? É preciso levá-lo na mesma ao veterinário, ver se ele está bem…

- Pois… Mas eu estou atrasado para o trabalho… E já não é a primeira vez esta semana…

- Dá-mo cá. Eu levo-o. Tenho um horário mais flexível, ninguém me vai dizer nada se me atrasar. Além disso, nem que ligue do consultório enquanto espero. Onde trabalhas?

- Vês aquela esquina ali em cima? – Luís apontou para o cimo da rua íngreme onde estavam – Um pouco mais adiante há lá um café, o “Refúgio”. Sou empregado de mesa lá…

- Ok, vai lá então, a ver se nos despachamos os dois. Adeus.

- Adeus.

Luís sentia-se estranho a falar com uma desconhecida daquela maneira. No entanto, tinha um longo dia pela frente e suspeitava que ia começar com uma discussão, por isso sacudiu a areia da roupa o melhor que pôde e começou a subir a rua, quase em corrida.

- Ó Luís, pá, tu és sempre a mesma coisa, pá! Como é? Vou ter de começar a cortar-te no salário, pá?! – o gorducho bonacheirão que censurou Luís mexia-se como um louco a tentar atender três mesas ao mesmo tempo – Despacha-te e vai trocar de roupa. Espera lá, que figura é essa, pá?! As calças cheias de areia, as mãos todas sujas, que aconteceu, pá?! – Rogério, mostrando preocupação genuína depois da descompostura inicial, dirigiu-se ao amigo, andando como se dançasse o bolero – Estás bem, pá?

- Sim… É que houve ali um… acidente numa obra e eu fui ajudar… – nessa altura, embora não o admitissem nunca, os três clientes que Rogério estava a atender fitaram as orelhas a tentar perceber se havia feridos.

- Um acidente? Mas que foste tu fazer?

- Hum… Foi… um gato… que ficou soterrado…

- Luís, pá… Vai-te vestir que nem quero ouvir mais nada… – Rogério estava vermelho de fúria e a estranha dança de bolero que fazia ao andar parecia mais mexida que o habitual.

Já fardado, Luís acorreu aos clientes que ainda estavam por servir. Àquela hora da manhã, havia muita gente a querer tomar o pequeno-almoço e Rogério não tinha mãos a medir com torradas, tostas e queques, enquanto Luís tratava dos cafés e dos copos de leite. A hora da confusão do pequeno-almoço passou e estavam a preparar-se para a hora da confusão do almoço quando Inês entrou no “Refúgio”, com uma gaiola a miar.

- Olá! – disse ela ao reconhecer Luís.

- Tu?! Mas aconteceu alguma coisa? – Luís ajoelhou-se em frente à jovem, a espreitar para a gaiola que miava. Lá dentro, o gatito preto que umas horas antes tinha sido sacudido pelas patas, parecia reconhecer Luís e procurava brincar com ele, deitando uma pata pelas grades.

- Não, ele está bem, ficou um bocado assustado, está subnutrido, devia estar abandonado, mas um par de boas refeições e fica como novo, segundo o médico. Só receitou aqui uns comprimidos para os parasitas e levou uma injecção, mas nada de extraordinário, tendo em conta tudo o que se passou… – Inês sentia-se algo ridícula a tagarelar daquela forma com um estranho, mas não conseguia evitar.

- Mas… porque é que o trouxeste para aqui?

- Bem, tu estavas atrasado de manhã, por isso fui eu ao veterinário, logo parece-me justo que agora fiques tu com ele enquanto eu vou para o trabalho…

- Eu não quero esse bicho aqui! – meteu-se Rogério – Despacha-o, ó Luís!

Luís olhou para Inês e pela primeira vez reparou-lhe no brilho dos olhos. Eram castanhos e seriam banalíssimos se não tivessem um brilho de um castanho como nunca antes vira. Sentiu que passaram horas desde a ordem de Rogério e o momento em que finalmente se conseguiu abstrair do brilho de Inês. Na verdade, passaram apenas alguns segundos…

- Olha, o Rogério não é má pessoa, mas nós realmente podemos ter problemas com a inspecção por causa do gato. Não podes mesmo ficar com ele?

- Não, desculpa, mas não. Trabalho num escritório de advogados, não posso aparecer assim com um gato…

Luís pensou por uns momentos a fitar uma janela ao lado de Inês e agora foi ela que se apercebeu dos olhos dele. Eram de um preto absoluto, sem íris, sem brilho, de uma total ausência de sentimentos, a contrastar com o fervor com que, nessa manhã, se lançara à vala por causa de um simples gato.

- Espera aqui uns segundos… – Luís dirigiu-se à sala dos empregados, foi ao bolso das calças e tirou de lá uma chave. Voltou para junto de Inês – Eu moro no primeiro andar do número 117, perto do sítio onde nos encontramos hoje. Será que o podes deixar lá e depois, quando puderes, vens cá trazer a chave?

Inês, algo surpreendida, aceitou. Saiu do café, voltou a descer a rua e encontrou o número 117. Abriu a porta, entrou. Era um pequeno T0, com um biombo velho a separar a cama do resto da casa, que mais não era do que uma cozinha e uma sala. A única porta visível, para além da da entrada, dava para o quarto de banho. Tinha uma pequena aparelhagem a um canto e um monte de cd’s ao lado. A cama estava feita, de forma impecável. Não se viam fotografias ou quadros em lado nenhum, mas havia livros velhos empilhados um pouco por todo o lado. Inês decidiu soltar o gato no quarto de banho. Saiu e trancou a porta.

24/10/2007

Não me digam as horas...

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Carros e vozes agitam-me os tímpanos por cima da música que insisto em pôr baixa. O ar empurra-me gelo para os pulmões, espalhando-me o frio pela carne. As mãos só não tremem por teimosia do orgulho e os pés esfregam-se um no outro para se manterem quentes. O "Eva Luna", que comprei à pressa para te conhecer melhor, abana-se nos dedos com o vento, que aproveita para me sacudir também o cabelo, de um lado para o outro. O café, que pedi apenas para me poder sentar e esperar, já há muito que arrefeceu no estômago. Vejo as horas, olho para a rua. Procuro a frase que estava a ler e releio-a. Avanço uma página e o ritual repete-se. Os minutos passam. As horas passam. O dia passa. O sol, fazendo-me sinais nas janelas em frente, começa a pôr-se, grita-me que está na hora, que já chega por hoje, que tenho de me meter a caminho de mais uma viagem desconsolada, de mais um dia desfalcado de te ver. E eu tremo, a acreditar nele, mas tremo ainda mais ao cerrar os dentes, mantendo-me fixo onde estou, quieto, com os olhos na rua e no “Eva Luna”, que realmente comprei à pressa para te conhecer melhor. Mais cinco minutos, só mais uma página e depois vou. Prometo…

22/10/2007

Porquê tu?

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Porque sim. Porque te vi. Porque senti curiosidade. Porque os teus olhos por vezes são de um castanho como não me lembro de ver. Porque cada visão tua me faz sorrir. Porque conto cada passo dado a teu lado e porque tento encurtar as passadas e prolongar os 500 metros até São Bento. Porque a tua voz me traz silêncio. Porque estou quase sempre bem, mas é ao teu lado que o mundo quase desaparece. Porque não sei o que sinto, mas quero descobrir. E porque o teu brilho não encandeia, o teu brilho aquece.

19/10/2007

Ufa...

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Abençoado trabalho de fim de semana que não me vai deixar pensar demasiado nesta tarde (que foi em tudo positiva). Para a semana, maratona e, bolas, nada a perder MESMO, tiraram-me o açaime...
Na semana seguinte, começa novo conto, com título ainda a definir, mas talvez "Uma história de amor a sério". Sugestões aceitam-se. Tema anda à volta de duas pessoas e um (ou vários) amor(es). Ficou o teaser feito...
(Já agora aproveito para pedir desculpa por usar o meu blog para desabafos...
Ei, espera lá! É exactamente para isso que ele serve!!!)

17/10/2007

Silêncio

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Não há silêncio. A cabeça pousada na almofada não tem silêncio. O burburinho dos bichos que roem lentamente a madeira soa a chuva que cai ao de leve. Não há silêncio. A chuva cai-me nos tímpanos, trazendo prenúncios de tristeza, de planos estragados pelo fim de uma esplanada do tempo e da leitura quase forçada pela espera voluntária. Os ponteiros movem-se, bramindo os braços e vociferando as suas pesadas súplicas pelos ares, anunciando a demora, o atraso, a falta, batendo lentamente e marcando o passo da minha saudade. Passos. Inúmeros passos, apressados, vagarosos, incertos, conscientes, inúmeros passos que rodam e rodam sem parar, sem irem para lado nenhum, passos que não sigo e que não os faço os meus passos. Vozes. Roucas, suaves, solitárias, acompanhadas, vozes que sabem o que dizem e vozes que blasfemam loucuras, vozes que se indignam e vozes que pedem, que imploram, vozes que não oiço e que não peço para ouvir. Não há silêncio. Não durmo, não há silêncio. A tua ausência tira-me o silêncio, o silêncio que a tua voz me dá.

16/10/2007

Cara Pinky,

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Desculpa. Julguei que seria capaz de realmente incendiar este blog até à última das palavras. Fantasiei a noite em que, inebriado de emoção, me sentaria nesta cadeira, em frente a este teclado que tantas vezes usei para te falar, e escreveria sem parar, sem pensar, a sentir apenas. Não me sinto capaz. Não sou capaz. Os dedos não conseguem, neste momento, reflectir a explosão que me agitou de um lado para o outro, sem cessar, como o movimento basculante de um qualquer comboio que parte com destino a uma qualquer estação de uma qualquer terra. Entrei nesse comboio, corri para o apanhar e ainda não saí dele, ainda é cedo, o destino nem no horizonte se vê. Mas foi o comboio em que escolhi entrar, cara Pinky. Um comboio que disseste que devia apanhar, tantas e tantas vezes mo disseste e eis-me nele, finalmente, eis-me nele, com a cabeça de fora da janela, o cabelo empurrado para trás pelo vento, os olhos fechados pela luz do sol, eis-me, finalmente, nele…

Consegues ver-me o sorriso rasgado?

08/10/2007

Estado de espírito 2

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"Um pequeno passo para o Estranho, um passo gigantesco para a comunidade totó"
Camarada totó, se fui capaz de fazer o impensável para o comum totó, também tu serás! Vem e junta-te ao movimento "Abordar uma desconhecida na rua". Verás que dormes melhor...
:P
SSSSSIIIIIMMMMM!!!!!

04/10/2007

Estado de espírito

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Sim. Sim? Sim... Sim?! Sim! Sim, sim. Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim!
SSSSSSSSSSSSIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!
Para quem possa pensar que foi desta que enlouqueci... Digamos que é bem possível...
SSSIIIMMM!!!

02/10/2007

Amor num dois cavalos

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Deito-me, com relutância. Apago a luz, puxo os lençóis, ajeito a almofada e fico à espera. A cama parece-me enorme, um deserto imenso de algodão, linho e molas rangentes. Rapidamente, os meus olhos habituam-se à escuridão e a fraca luz lançada pelos números do despertador ilumina-me o quarto com uma ténue neblina verde. Viro-me, deitado a um canto do deserto de algodão e fito a outra ponta da cama. Estendo um braço, mas só com dificuldade, com a ponta dos dedos, consigo tocar na madeira, áspera, por lixar desde que a cortei por não gostar do estilo. Parece-me ainda maior, este deserto, por não o conseguir alcançar de ponta a ponta. Viro-me de barriga para cima, a fitar o tecto, como tantas vezes faço. Oiço passos, o soalho que range aqui mesmo ao lado, madeira que estala com o arrefecimento da noite, talvez, mas não me preocupa. Começo a pestanejar, devagar, arrastado cada vez mais para o outro lado, para o subconsciente.

Acordo, devagar, sei que estou a sonhar. Estou no banco de trás de um carro, a olhar para o tejadilho, enquanto nos afastamos do mar. A lua cheia passa, ou melhor, arrasta-se pelo vidro, rodeada de estrelas. No rádio, cantam os The Killers, o “Sam's Town” pode ser deixado em modo repetição durante horas, não me importo. Conheço o álbum de cor, não a letra, mas os sons, as notas que se seguem umas às outras num jogo harmonioso da apanhada. Alguém fala, nos bancos da frente, mas não é para mim ou então não exigem resposta. Cansado, como se não conseguisse sequer encher o peito para inspirar, deixo-me cair calmamente sobre o colo de alguém ao meu lado. Ela afaga-me a cabeça, passando os dedos pelo meu cabelo. Balbucio que devia ser ao contrário, ela é que acabou de trabalhar e devia ser eu a afagar-lhe os cabelos loiritos, mas não me mexo um centímetro que seja. Sorri e sussurra-me que não tem importância, com uma voz quase rouca pelos cigarros que devora, uns atrás dos outros. Debruça-se sobre mim e beija-me a testa primeiro, depois a boca. Volto a sentar-me direito e levanto um braço, ofereço-lhe o meu peito. A sua cabeça loira move-se devagar com a minha respiração e eu sinto a dela cada vez mais fraca, relaxada. Coloco-lhe uma mão na barriga, directamente na pele, por baixo da camisola, e afago-lhe o umbigo. Adormece. Eu sigo-a, pouco depois.

Acordo depressa, desta vez, já não estou a sonhar. Ergo-me e admiro o deserto de algodão, já não me parece tão grande. Com o sono ainda por sacudir, vejo a forma dela gravada a meu lado, talvez tenha ido à casa de banho, talvez esteja a fumar, sei que saiu há pouco, a cama ainda está quente e o meu braço ainda adormecido. Volto a deitar-me. Amanhã, tudo volta ao normal.

22/09/2007

Para onde é o caminho?

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Para onde é o caminho? O vento sopra de encontro à minha pele, a chuva escorre-me pelo cabelo, usando o meu corpo como o leito de um rio. Sim, estou nu, à chuva. Sinto a lama entre os dedos dos pés enquanto me afundo, aos poucos, por entre a terra do meu jardim. Tenho os olhos fechados há horas e deixo-me estar. Baixo o rosto e tento ouvir, distinguir as gotas que caem: as mais pesadas batem no chão e explodem em mil pequenas gotas; as mais pequenas entram directamente no solo, à procura de sementes para fecundar. Sinto a água entrar-me pela pele e fundir-se comigo. Ainda não sei o caminho. Levanto a cabeça e inspiro com força; chegam-me os cheiros de rosas, de laranjas, de relva, do meu próprio corpo, da lama debaixo dos meus pés. Sinto o cheiro que a água não tem. Ainda não sei o caminho. Abro os olhos, por fim. A luz, ténue, mas presente, fere-me a visão, mas não deixo de olhar em volta. O dia está cinzento, o céu coberto de nuvens, a chuva dança com o vento no ar, avançando em rodopios e envolvendo tudo em que toca. Olho em frente. Ao longe, um gato esconde-se da tempestade debaixo de um abrigo para a lenha. Também ele fita a chuva e ouve o vento. Ajoelho-me de encontro à lama e enterro as mãos até aos pulsos, agarrando a terra pelos cabelos e puxando-a até mim. Espalho-a pelo corpo, as pernas, os braços, o tronco, o sexo e a cara. Castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. O gato ainda lá está, debaixo do abrigo, mas já não está só. Um outro gato, ou uma gata – prefiro acreditar – enrosca-se agora no primeiro. Sei qual é o caminho. O meu corpo está coberto com a Terra, já não estou nu. Ao perto, pareceria um louco que já há muito tempo desistiu de tentar passar despercebido. Ao longe, sou apenas um monte de terra no meio de um jardim. E é para lá que começo a correr, para longe, porque é lá que está o caminho. Salto muros, atravesso campos, firo os pés nas silvas, nos seixos, no chão, mas é isso que quero, correr para longe, como o meu pai corre todos os dias. Ninguém me vê quando passo, estou protegido, camuflado, castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. E vou a caminho.

E um dia talvez volte encarnado num gato.

15/09/2007

Becoming Vampire

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I remember the day when night became everlasting.

Like a pair of ice shards,

She plunged her teeth into my chest,

Promising me a kiss,

Giving nothing, but timeless death.

I remember her cold breath,

As her lips touched my skin,

Her hands holding my own,

Imprisoning me forever by her side.

My heart stopped in that moment,

As my blood flowed more and more into her body,

Feeding her, helping her, becoming her,

Making her my mistress and I her eternal slave.

Oh, but the most painful of memories is the night

My mistress, my dead life, was robbed from me.

Long I howled her name at the moon,

The bright full moon, white as the top of her head.

Long I cried blasphemies, yelled curses at the petty,

Soulless, mortal scum that robbed her from me.

Long I sat there, in their homes, at their tables,

Carving, chopping my pain from out their flesh.

And long was the time I took to realize

That my mistress had not drunken my soul from me,

Instead, her death was the hammer that crushed

All humanity from out my heart.

12/09/2007

Ego Builder!!!

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Diz a Polegar que eu mereço este prémio honorário. Diz também que isto é qualquer coisa como v. intr.to converse casually, especially in order to gain an advantage or make a social connection."to chat intimately," 1897, from Yiddish shmuesn "to chat," from shmues "idle talk, chat," from Heb. shemu'oth "news, rumors." Schmooozer is from 1909.
Ora tendo em conta que sou um zero em gramática, daqueles bem à esquerda, vou confiar e aceitar e ficar "supéconvencido". Mas também, olha, "supéconvencido" já sou eu há muito tempo! Só que ninguém me leva a sério... Incluindo eu próprio... Pelos vistos, não interessa, sou um gajo com montes de comunicação. Mas... espera... Eh pá, eu não comunico assim por aí além! Eu ouço e tal, mando as minhas postas, mas comunicar? Pá... Não. Mas aceito e acho que está bem entregue. Sem dúvida! Mas não a mim... :P

09/09/2007

Verdes são os espinafres...

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Perdi as palavras quando te vi, esqueci-me do seu som, do seu valor, da sua força. Esqueci-me da minha própria força, incapaz de me mover, de desviar sequer o olhar de ti. E outros falaram para mim, chamaram, pediram respostas, mas eu nada disse, fiquei-me, mudo e quieto, porque te vi e não tentei desviar o olhar de ti. Tu não me viste. Eu, que nunca deixei de te ver, fechei os olhos e tudo ficou negro, só os sons me perturbavam, mas também esses bloqueei. Depois tentei ver-te, seguir-te o rosto na escuridão, guiado por uma qualquer voz que nunca antes ouvira e que te descrevia. Queixo. Boca. Nariz. Orelhas. Bochechas. Cabelo. Sobrancelhas. Pestanas. Olhos. E eu tentei ver-te, sim, mas não consegui. Vi-te uma e outra vez, observei-te, decorei cada gesto, cada movimento, cada tique e ainda assim não consegui ver-te. Voltei a fechar os olhos. A voz voltou para te descrever, mas desta vez não lhe obedeci, bloqueei também o seu som. E então sim, vi-te. Surgiste como uma luz ténue, um pirilampo, quase como se te visse ao longe e estivesses a correr para mim como um comboio desenfreado. E o pirilampo foi crescendo, mais e mais, sempre a correr para mim, e eu só via aquela luz, verde, como se o sol reflectisse num campo de relva fresca pelo orvalho da manhã, e tornaste-te maior e maior, e cegaste-me como se fosses um farol, ainda que tivesse os olhos fechados. Abri-os. Vejo agora o teu rosto, perfeitamente, mas não consigo dizer se é perfeito. Perfeita é sim a tua aura, verde, de esperança, de frescura, de espinafres, e sim, é realmente a tua pessoa, o teu brilho, o teu ser que eu vejo, mesmo de olhos fechados.

05/09/2007

Desnecessário

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Em (quase) 26 anos, fiz e disse coisas que eram desnecessárias. Algumas por estupidez, outras por inocência, mas não deixaram de ser desnecessárias. Houve alturas em que constatei que estava a chover, algo que qualquer tartaruga que pusesse a cabeça de fora da carapaça se aperceberia, portanto foi desnecessário. Já me debrucei sobre o ouvido de uma amiga que ia partir para longe para lhe dizer "tu vais ficar bem", mas como ela sabia que ia voltar, então, obviamente, isso foi desnecessário. Já barafustei e berrei por ninharias e isso é sempre desnecessário. Em diversas ocasiões, mostrei o rabo perante pequenas multidões e isso foi enjoativamente desnecessário. Disse "Amo-te" um sem números de vezes em alturas em que os meus olhos brilhavam essa palavra, esse sentimento, sendo, portanto, desnecessário.
Hoje apercebi-me de algo que temia há já algum tempo: tornei-me desnecessário no café onde trabalhava. Não sei porquê (ou até sei), isso mexeu comigo por uma série de razões. Algumas estúpidas, outras compreensíveis, outras que se tornam desnecessárias de tão simples...