05/11/2007

(Título de conto ainda por dar - parte dois)

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Passaram duas semanas desde que Luís ganhou um inquilino. O jovem chamou-lhe “Areias”, cedeu na vontade felina em dormir junto à sua cabeça, partilhando a mesma almofada, e habituou-se a ler-lhe histórias curtas até ele adormecer. Luís vivia quase sozinho naquele prédio de três andares, a única outra moradora era a D. Rosa, a senhoria, que vivia no rés-do-chão. Tratava-se de um edifício minúsculo, estreito e perdido entre dois prédios maiores. Daí a uns anos, quando Luís e Areias se forem embora e D. Rosa se despedir da vida, o número 117 será demolido e no seu lugar surgirá um magnífico parque de estacionamento para os trabalhadores mais importantes dos prédios ao lado… Mas, por agora, para humanos e gato, o 117 é sinónimo de “casa”.

Inês ainda não voltou ao “Refúgio” desde que devolveu as chaves de casa a Luís, mas este, não o admitindo, voltava a cabeça cada vez que a porta do café se abria. Não sabia o nome dela, não sabia onde morava, quem era, apenas o que fazia, e mesmo isso não era certo. Lembrava-se bem das suas palavras, “trabalho num escritório de advogados”, mas isso não significava que fosse advogada, podia ser secretária ou recepcionista, ou… Areias prestou atenção durante algumas noites. Depois começou a ignorar e adormecia, já seguro de que o amigo não lhe ia ler nenhuma história. Luís deitava-se na cama, os braços atrás da cabeça, a olhar para as manchas de humidade no tecto e pensava em Inês. Não se conseguia lembrar da cara dela. Por algum motivo, a única coisa que conseguiu memorizar foram os seus olhos, o tal brilho castanho que lhe parecera tão estranho. Não tardava a adormecer, cansado do dia de passos apressados enquanto servia as mesmas caras de sempre. A almofada era, então, partilhada, de um lado um jovem a ressonar, do outro um gato a ronronar.

O dia amanheceu chuvoso. O Inverno aproximava-se, apesar de quase não se ter dado pelo Outono. Luís abriu o “Refúgio”, recebeu os fornecedores de bebidas e preparou as máquinas. Rogério chegou quando faltavam 30 minutos para o café abrir. Como dono e herdeiro, preferia trabalhar desde a abertura até ao fecho, mas a amizade com Luís proporcionava-lhe mais uns minutos de sono.

- Então, correu tudo bem? Trouxeram tudo, desta vez?

- Sim. – respondeu-lhe Luís – Já moí o café, as máquinas já estão ligadas, as mesas limpas e a porta pronta a abrir. Vamos a isso?

- Claro!

Rogério e Luís prepararam torradas, sumo de laranja e café. Sentaram-se a uma mesa num canto, a tomar o pequeno-almoço, a ler os jornais e a conversar. Este ritual começara anos antes e mantinha-se, quase religiosamente, sempre que Luís tinha de fazer o turno da manhã.

- Olha, ontem ao fim da tarde esteve cá aquela tipa da semana passada… – começou Rogério.

- Qual tipa? – Luís estava genuinamente confuso.

- Oh, qual tipa… Pensas que não reparei como estacaste a olhar para ela…

- Mas estás a falar de qu… Espera… A advogada? – a escuridão dos olhos do jovem pareceu iluminar-se, por momentos.

- Sim, a do gato. Veio cá tomar café…

- E não me disseste nada?!

- Luís, pá, foi ontem ao fim da tarde, estou a dizer-te agora… – por trás do jornal, Rogério exibia um riso trocista de orelha a orelha.

- E então??

- E então? E então o quê, pá? Tomou café, pagou e saiu. Que querias que fizesse? Ainda perguntei se queria umas bolachinhas, mas ela nada… – Rogério começava a rir-se mais abertamente.

- Oh!

Luís levantou-se e espreitou pela janela. O relógio da loja em frente mostrava que faltavam 5 minutos para a hora de abertura, mas ao fundo da rua já se aproximava o primeiro cliente.

- Vem aí o Sr. Ramiro…

- O costume… Abre-lhe a porta e ele que se sente aqui connosco.

- Bom dia, Sr. Ramiro. Então como está? Entre, entre, saia da chuva. – Ramiro era um velhote nos seus 65 anos, o cabelo completamente branco tapado por uma boina preta. Trazia um guarda-chuva fechado pendurado no braço. Sacudiu as gotas de chuva presas ao casaco, tirou a boina e sentou-se ao lado de Rogério.

- Então, jovens, já começaram sem mim? A juventude é sempre a mesma coisa, sempre cheia de pressa com medo de morrer a dormir! Vá, quem é que vai já começar a trabalhar e me vai servir o cafezinho? Hum, torradas hoje, que bom… – Ramiro era um dos mais antigos frequentadores do “Refúgio”, quase desde a inauguração, 30 anos antes. Era um conhecido do pai de Rogério e lembrava-se perfeitamente de onde tinha vindo a ideia do nome do café. A casa onde agora os três tomavam calmamente o pequeno-almoço tinha visto muito luta enquanto ponto de encontro de jovens de ideais comunistas, na altura do Estado Novo. Ramiro nunca chegou a ter a coragem de aderir também ele à luta activa, mas por diversas vezes guardou em casa exemplares do “Avante”, à espera de serem distribuídos na clandestinidade. Conhecia de cor o nome de todos os que se esconderam entre as quatro paredes do “Refúgio” e aquele sítio trazia-lhe recordações da juventude, de um tempo antes de ser viúvo. Via em Rogério e em Luís os rostos dos seus amigos desse passado, mas eram rostos mais calmos, rostos que não passaram pela opressão, olhos que não tiveram de disfarçar o medo e, ao mesmo tempo, a força de vontade para mudar um país.

- Quer leite, Sr. Ramiro? – a voz, agora calma, de Luís trouxe-o de volta.

- Sim, pode ser… Obrigado, rapaz, agora senta-te e acaba lá de tomar o café.

- Ó Sr. Ramiro, nem lhe diga nada que ele ainda há pouco me ia bater!

- Ui, ai sim? E que é que você lhe fez? – Ramiro já conhecia bem as discussões pouco inflamadas dos dois amigos.

- Então não é que me esqueci de lhe dizer que ontem esteve cá a namorada dele?

Luís sentia-se aquecer por dentro, como uma caldeira prestes a rebentar. Mantinha-se sentado, de olhos fixos no jornal, mas cada vez mais perto de explodir.

- Ai, você namora? Pois faz muito bem. Tem é de ver se sorri mais com os olhos. Veja lá o que lhe digo, elas querem é ver sorrir com os olhos, cá isso de sorrir com os dentes pode correr mal, principalmente na minha idade…

Nenhum dos três conseguiu deixar de rir e o primeiro cliente que entrou encontrou três amigos bem-dispostos. Luís e Rogério assumiram as suas posições, Ramiro continuou a ler o jornal e a recordar os tempos em que o “Refúgio” era realmente um refúgio. Luís pensou se nesse dia veria Inês, apesar de se referir a ela como a Advogada. Rogério não pensou em nada, preparou pão para as torradas.

Inês não apareceu.

30/10/2007

(Título de conto ainda por dar - parte um)

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Às vezes, acontecem as coisas mais surpreendentes na vida de alguém. Por vezes, são coisas complexas, rebuscadas, piadas cósmicas do destino que, de tão remotas, passam ao lado de quem é atingido por elas. Outras vezes, são tão óbvias, tão claramente colocadas diante da pessoa que esta não tem outro remédio que não agir. Manhã de um qualquer dia de Outubro...

- Ei! Não! Esperem aí! - ele dirige-se para um camião prestes a descarregar areia numa obra na rua. Não se apercebendo completamente do que se estava a passar, os trabalhadores deram início à descarga e só pararam quando viram o jovem, quase todo vestido de preto, lançar-se à vala que estavam a tapar.

- Olha! É doido! Ei, sai daí que ainda ficas todo partido! – gritou-lhe alguém. Não lhe deu ouvidos. Com areia pelos joelhos, começou a cavar furiosamente com as mãos. Quase nem ouviu a voz feminina que o defendeu.

- Deixem-no estar, não descarreguem mais nada! Rápido, consegues vê-lo?

Os trabalhadores entreolhavam-se, perplexos. No espírito de alguns, formou-se a imagem de alguém que teria descido à vala, sem que eles vissem, e que estaria agora soterrado. O espanto foi geral quando o jovem, de nome Luís, conseguiu resgatar um gato preto do monte de areia que acabavam de despejar.

- Tanta merda por causa de um gato?! Nós temos horários a cumprir! Desapareçam os dois daqui antes que vos corra à paulada! – gritou um dos trabalhadores, depois de passado o espanto inicial.

Luís, segurando o gato entre os braços, saltou de imediato para a rua, com a jovem que o tentara ajudar momentos antes a segui-lo.

- Onde vais? Temos que o levar ao veterinário! Ele está a respirar? – perguntou ela, de seu nome Inês.

- Acho que não! Estou a ver se o faço cuspir a areia, mas ele não está a reagir! Espera… – num acto de desespero, o jovem agarrou o pobre animal pelas patas de trás e sacudiu-o no ar. O gesto, apesar de ter angustiado Inês, surtiu efeito, fazendo o gato cuspir uma boa porção de areia, soltando um miado enfraquecido logo de seguida – Funcionou! – exclamou, surpreendido.

- Sim! Mas e agora? É preciso levá-lo na mesma ao veterinário, ver se ele está bem…

- Pois… Mas eu estou atrasado para o trabalho… E já não é a primeira vez esta semana…

- Dá-mo cá. Eu levo-o. Tenho um horário mais flexível, ninguém me vai dizer nada se me atrasar. Além disso, nem que ligue do consultório enquanto espero. Onde trabalhas?

- Vês aquela esquina ali em cima? – Luís apontou para o cimo da rua íngreme onde estavam – Um pouco mais adiante há lá um café, o “Refúgio”. Sou empregado de mesa lá…

- Ok, vai lá então, a ver se nos despachamos os dois. Adeus.

- Adeus.

Luís sentia-se estranho a falar com uma desconhecida daquela maneira. No entanto, tinha um longo dia pela frente e suspeitava que ia começar com uma discussão, por isso sacudiu a areia da roupa o melhor que pôde e começou a subir a rua, quase em corrida.

- Ó Luís, pá, tu és sempre a mesma coisa, pá! Como é? Vou ter de começar a cortar-te no salário, pá?! – o gorducho bonacheirão que censurou Luís mexia-se como um louco a tentar atender três mesas ao mesmo tempo – Despacha-te e vai trocar de roupa. Espera lá, que figura é essa, pá?! As calças cheias de areia, as mãos todas sujas, que aconteceu, pá?! – Rogério, mostrando preocupação genuína depois da descompostura inicial, dirigiu-se ao amigo, andando como se dançasse o bolero – Estás bem, pá?

- Sim… É que houve ali um… acidente numa obra e eu fui ajudar… – nessa altura, embora não o admitissem nunca, os três clientes que Rogério estava a atender fitaram as orelhas a tentar perceber se havia feridos.

- Um acidente? Mas que foste tu fazer?

- Hum… Foi… um gato… que ficou soterrado…

- Luís, pá… Vai-te vestir que nem quero ouvir mais nada… – Rogério estava vermelho de fúria e a estranha dança de bolero que fazia ao andar parecia mais mexida que o habitual.

Já fardado, Luís acorreu aos clientes que ainda estavam por servir. Àquela hora da manhã, havia muita gente a querer tomar o pequeno-almoço e Rogério não tinha mãos a medir com torradas, tostas e queques, enquanto Luís tratava dos cafés e dos copos de leite. A hora da confusão do pequeno-almoço passou e estavam a preparar-se para a hora da confusão do almoço quando Inês entrou no “Refúgio”, com uma gaiola a miar.

- Olá! – disse ela ao reconhecer Luís.

- Tu?! Mas aconteceu alguma coisa? – Luís ajoelhou-se em frente à jovem, a espreitar para a gaiola que miava. Lá dentro, o gatito preto que umas horas antes tinha sido sacudido pelas patas, parecia reconhecer Luís e procurava brincar com ele, deitando uma pata pelas grades.

- Não, ele está bem, ficou um bocado assustado, está subnutrido, devia estar abandonado, mas um par de boas refeições e fica como novo, segundo o médico. Só receitou aqui uns comprimidos para os parasitas e levou uma injecção, mas nada de extraordinário, tendo em conta tudo o que se passou… – Inês sentia-se algo ridícula a tagarelar daquela forma com um estranho, mas não conseguia evitar.

- Mas… porque é que o trouxeste para aqui?

- Bem, tu estavas atrasado de manhã, por isso fui eu ao veterinário, logo parece-me justo que agora fiques tu com ele enquanto eu vou para o trabalho…

- Eu não quero esse bicho aqui! – meteu-se Rogério – Despacha-o, ó Luís!

Luís olhou para Inês e pela primeira vez reparou-lhe no brilho dos olhos. Eram castanhos e seriam banalíssimos se não tivessem um brilho de um castanho como nunca antes vira. Sentiu que passaram horas desde a ordem de Rogério e o momento em que finalmente se conseguiu abstrair do brilho de Inês. Na verdade, passaram apenas alguns segundos…

- Olha, o Rogério não é má pessoa, mas nós realmente podemos ter problemas com a inspecção por causa do gato. Não podes mesmo ficar com ele?

- Não, desculpa, mas não. Trabalho num escritório de advogados, não posso aparecer assim com um gato…

Luís pensou por uns momentos a fitar uma janela ao lado de Inês e agora foi ela que se apercebeu dos olhos dele. Eram de um preto absoluto, sem íris, sem brilho, de uma total ausência de sentimentos, a contrastar com o fervor com que, nessa manhã, se lançara à vala por causa de um simples gato.

- Espera aqui uns segundos… – Luís dirigiu-se à sala dos empregados, foi ao bolso das calças e tirou de lá uma chave. Voltou para junto de Inês – Eu moro no primeiro andar do número 117, perto do sítio onde nos encontramos hoje. Será que o podes deixar lá e depois, quando puderes, vens cá trazer a chave?

Inês, algo surpreendida, aceitou. Saiu do café, voltou a descer a rua e encontrou o número 117. Abriu a porta, entrou. Era um pequeno T0, com um biombo velho a separar a cama do resto da casa, que mais não era do que uma cozinha e uma sala. A única porta visível, para além da da entrada, dava para o quarto de banho. Tinha uma pequena aparelhagem a um canto e um monte de cd’s ao lado. A cama estava feita, de forma impecável. Não se viam fotografias ou quadros em lado nenhum, mas havia livros velhos empilhados um pouco por todo o lado. Inês decidiu soltar o gato no quarto de banho. Saiu e trancou a porta.

24/10/2007

Não me digam as horas...

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Carros e vozes agitam-me os tímpanos por cima da música que insisto em pôr baixa. O ar empurra-me gelo para os pulmões, espalhando-me o frio pela carne. As mãos só não tremem por teimosia do orgulho e os pés esfregam-se um no outro para se manterem quentes. O "Eva Luna", que comprei à pressa para te conhecer melhor, abana-se nos dedos com o vento, que aproveita para me sacudir também o cabelo, de um lado para o outro. O café, que pedi apenas para me poder sentar e esperar, já há muito que arrefeceu no estômago. Vejo as horas, olho para a rua. Procuro a frase que estava a ler e releio-a. Avanço uma página e o ritual repete-se. Os minutos passam. As horas passam. O dia passa. O sol, fazendo-me sinais nas janelas em frente, começa a pôr-se, grita-me que está na hora, que já chega por hoje, que tenho de me meter a caminho de mais uma viagem desconsolada, de mais um dia desfalcado de te ver. E eu tremo, a acreditar nele, mas tremo ainda mais ao cerrar os dentes, mantendo-me fixo onde estou, quieto, com os olhos na rua e no “Eva Luna”, que realmente comprei à pressa para te conhecer melhor. Mais cinco minutos, só mais uma página e depois vou. Prometo…

22/10/2007

Porquê tu?

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Porque sim. Porque te vi. Porque senti curiosidade. Porque os teus olhos por vezes são de um castanho como não me lembro de ver. Porque cada visão tua me faz sorrir. Porque conto cada passo dado a teu lado e porque tento encurtar as passadas e prolongar os 500 metros até São Bento. Porque a tua voz me traz silêncio. Porque estou quase sempre bem, mas é ao teu lado que o mundo quase desaparece. Porque não sei o que sinto, mas quero descobrir. E porque o teu brilho não encandeia, o teu brilho aquece.

19/10/2007

Ufa...

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Abençoado trabalho de fim de semana que não me vai deixar pensar demasiado nesta tarde (que foi em tudo positiva). Para a semana, maratona e, bolas, nada a perder MESMO, tiraram-me o açaime...
Na semana seguinte, começa novo conto, com título ainda a definir, mas talvez "Uma história de amor a sério". Sugestões aceitam-se. Tema anda à volta de duas pessoas e um (ou vários) amor(es). Ficou o teaser feito...
(Já agora aproveito para pedir desculpa por usar o meu blog para desabafos...
Ei, espera lá! É exactamente para isso que ele serve!!!)

17/10/2007

Silêncio

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Não há silêncio. A cabeça pousada na almofada não tem silêncio. O burburinho dos bichos que roem lentamente a madeira soa a chuva que cai ao de leve. Não há silêncio. A chuva cai-me nos tímpanos, trazendo prenúncios de tristeza, de planos estragados pelo fim de uma esplanada do tempo e da leitura quase forçada pela espera voluntária. Os ponteiros movem-se, bramindo os braços e vociferando as suas pesadas súplicas pelos ares, anunciando a demora, o atraso, a falta, batendo lentamente e marcando o passo da minha saudade. Passos. Inúmeros passos, apressados, vagarosos, incertos, conscientes, inúmeros passos que rodam e rodam sem parar, sem irem para lado nenhum, passos que não sigo e que não os faço os meus passos. Vozes. Roucas, suaves, solitárias, acompanhadas, vozes que sabem o que dizem e vozes que blasfemam loucuras, vozes que se indignam e vozes que pedem, que imploram, vozes que não oiço e que não peço para ouvir. Não há silêncio. Não durmo, não há silêncio. A tua ausência tira-me o silêncio, o silêncio que a tua voz me dá.

16/10/2007

Cara Pinky,

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Desculpa. Julguei que seria capaz de realmente incendiar este blog até à última das palavras. Fantasiei a noite em que, inebriado de emoção, me sentaria nesta cadeira, em frente a este teclado que tantas vezes usei para te falar, e escreveria sem parar, sem pensar, a sentir apenas. Não me sinto capaz. Não sou capaz. Os dedos não conseguem, neste momento, reflectir a explosão que me agitou de um lado para o outro, sem cessar, como o movimento basculante de um qualquer comboio que parte com destino a uma qualquer estação de uma qualquer terra. Entrei nesse comboio, corri para o apanhar e ainda não saí dele, ainda é cedo, o destino nem no horizonte se vê. Mas foi o comboio em que escolhi entrar, cara Pinky. Um comboio que disseste que devia apanhar, tantas e tantas vezes mo disseste e eis-me nele, finalmente, eis-me nele, com a cabeça de fora da janela, o cabelo empurrado para trás pelo vento, os olhos fechados pela luz do sol, eis-me, finalmente, nele…

Consegues ver-me o sorriso rasgado?

08/10/2007

Estado de espírito 2

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"Um pequeno passo para o Estranho, um passo gigantesco para a comunidade totó"
Camarada totó, se fui capaz de fazer o impensável para o comum totó, também tu serás! Vem e junta-te ao movimento "Abordar uma desconhecida na rua". Verás que dormes melhor...
:P
SSSSSIIIIIMMMMM!!!!!

04/10/2007

Estado de espírito

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Sim. Sim? Sim... Sim?! Sim! Sim, sim. Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim!
SSSSSSSSSSSSIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!
Para quem possa pensar que foi desta que enlouqueci... Digamos que é bem possível...
SSSIIIMMM!!!

02/10/2007

Amor num dois cavalos

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Deito-me, com relutância. Apago a luz, puxo os lençóis, ajeito a almofada e fico à espera. A cama parece-me enorme, um deserto imenso de algodão, linho e molas rangentes. Rapidamente, os meus olhos habituam-se à escuridão e a fraca luz lançada pelos números do despertador ilumina-me o quarto com uma ténue neblina verde. Viro-me, deitado a um canto do deserto de algodão e fito a outra ponta da cama. Estendo um braço, mas só com dificuldade, com a ponta dos dedos, consigo tocar na madeira, áspera, por lixar desde que a cortei por não gostar do estilo. Parece-me ainda maior, este deserto, por não o conseguir alcançar de ponta a ponta. Viro-me de barriga para cima, a fitar o tecto, como tantas vezes faço. Oiço passos, o soalho que range aqui mesmo ao lado, madeira que estala com o arrefecimento da noite, talvez, mas não me preocupa. Começo a pestanejar, devagar, arrastado cada vez mais para o outro lado, para o subconsciente.

Acordo, devagar, sei que estou a sonhar. Estou no banco de trás de um carro, a olhar para o tejadilho, enquanto nos afastamos do mar. A lua cheia passa, ou melhor, arrasta-se pelo vidro, rodeada de estrelas. No rádio, cantam os The Killers, o “Sam's Town” pode ser deixado em modo repetição durante horas, não me importo. Conheço o álbum de cor, não a letra, mas os sons, as notas que se seguem umas às outras num jogo harmonioso da apanhada. Alguém fala, nos bancos da frente, mas não é para mim ou então não exigem resposta. Cansado, como se não conseguisse sequer encher o peito para inspirar, deixo-me cair calmamente sobre o colo de alguém ao meu lado. Ela afaga-me a cabeça, passando os dedos pelo meu cabelo. Balbucio que devia ser ao contrário, ela é que acabou de trabalhar e devia ser eu a afagar-lhe os cabelos loiritos, mas não me mexo um centímetro que seja. Sorri e sussurra-me que não tem importância, com uma voz quase rouca pelos cigarros que devora, uns atrás dos outros. Debruça-se sobre mim e beija-me a testa primeiro, depois a boca. Volto a sentar-me direito e levanto um braço, ofereço-lhe o meu peito. A sua cabeça loira move-se devagar com a minha respiração e eu sinto a dela cada vez mais fraca, relaxada. Coloco-lhe uma mão na barriga, directamente na pele, por baixo da camisola, e afago-lhe o umbigo. Adormece. Eu sigo-a, pouco depois.

Acordo depressa, desta vez, já não estou a sonhar. Ergo-me e admiro o deserto de algodão, já não me parece tão grande. Com o sono ainda por sacudir, vejo a forma dela gravada a meu lado, talvez tenha ido à casa de banho, talvez esteja a fumar, sei que saiu há pouco, a cama ainda está quente e o meu braço ainda adormecido. Volto a deitar-me. Amanhã, tudo volta ao normal.

22/09/2007

Para onde é o caminho?

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Para onde é o caminho? O vento sopra de encontro à minha pele, a chuva escorre-me pelo cabelo, usando o meu corpo como o leito de um rio. Sim, estou nu, à chuva. Sinto a lama entre os dedos dos pés enquanto me afundo, aos poucos, por entre a terra do meu jardim. Tenho os olhos fechados há horas e deixo-me estar. Baixo o rosto e tento ouvir, distinguir as gotas que caem: as mais pesadas batem no chão e explodem em mil pequenas gotas; as mais pequenas entram directamente no solo, à procura de sementes para fecundar. Sinto a água entrar-me pela pele e fundir-se comigo. Ainda não sei o caminho. Levanto a cabeça e inspiro com força; chegam-me os cheiros de rosas, de laranjas, de relva, do meu próprio corpo, da lama debaixo dos meus pés. Sinto o cheiro que a água não tem. Ainda não sei o caminho. Abro os olhos, por fim. A luz, ténue, mas presente, fere-me a visão, mas não deixo de olhar em volta. O dia está cinzento, o céu coberto de nuvens, a chuva dança com o vento no ar, avançando em rodopios e envolvendo tudo em que toca. Olho em frente. Ao longe, um gato esconde-se da tempestade debaixo de um abrigo para a lenha. Também ele fita a chuva e ouve o vento. Ajoelho-me de encontro à lama e enterro as mãos até aos pulsos, agarrando a terra pelos cabelos e puxando-a até mim. Espalho-a pelo corpo, as pernas, os braços, o tronco, o sexo e a cara. Castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. O gato ainda lá está, debaixo do abrigo, mas já não está só. Um outro gato, ou uma gata – prefiro acreditar – enrosca-se agora no primeiro. Sei qual é o caminho. O meu corpo está coberto com a Terra, já não estou nu. Ao perto, pareceria um louco que já há muito tempo desistiu de tentar passar despercebido. Ao longe, sou apenas um monte de terra no meio de um jardim. E é para lá que começo a correr, para longe, porque é lá que está o caminho. Salto muros, atravesso campos, firo os pés nas silvas, nos seixos, no chão, mas é isso que quero, correr para longe, como o meu pai corre todos os dias. Ninguém me vê quando passo, estou protegido, camuflado, castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. E vou a caminho.

E um dia talvez volte encarnado num gato.

15/09/2007

Becoming Vampire

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I remember the day when night became everlasting.

Like a pair of ice shards,

She plunged her teeth into my chest,

Promising me a kiss,

Giving nothing, but timeless death.

I remember her cold breath,

As her lips touched my skin,

Her hands holding my own,

Imprisoning me forever by her side.

My heart stopped in that moment,

As my blood flowed more and more into her body,

Feeding her, helping her, becoming her,

Making her my mistress and I her eternal slave.

Oh, but the most painful of memories is the night

My mistress, my dead life, was robbed from me.

Long I howled her name at the moon,

The bright full moon, white as the top of her head.

Long I cried blasphemies, yelled curses at the petty,

Soulless, mortal scum that robbed her from me.

Long I sat there, in their homes, at their tables,

Carving, chopping my pain from out their flesh.

And long was the time I took to realize

That my mistress had not drunken my soul from me,

Instead, her death was the hammer that crushed

All humanity from out my heart.

12/09/2007

Ego Builder!!!

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Diz a Polegar que eu mereço este prémio honorário. Diz também que isto é qualquer coisa como v. intr.to converse casually, especially in order to gain an advantage or make a social connection."to chat intimately," 1897, from Yiddish shmuesn "to chat," from shmues "idle talk, chat," from Heb. shemu'oth "news, rumors." Schmooozer is from 1909.
Ora tendo em conta que sou um zero em gramática, daqueles bem à esquerda, vou confiar e aceitar e ficar "supéconvencido". Mas também, olha, "supéconvencido" já sou eu há muito tempo! Só que ninguém me leva a sério... Incluindo eu próprio... Pelos vistos, não interessa, sou um gajo com montes de comunicação. Mas... espera... Eh pá, eu não comunico assim por aí além! Eu ouço e tal, mando as minhas postas, mas comunicar? Pá... Não. Mas aceito e acho que está bem entregue. Sem dúvida! Mas não a mim... :P

09/09/2007

Verdes são os espinafres...

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Perdi as palavras quando te vi, esqueci-me do seu som, do seu valor, da sua força. Esqueci-me da minha própria força, incapaz de me mover, de desviar sequer o olhar de ti. E outros falaram para mim, chamaram, pediram respostas, mas eu nada disse, fiquei-me, mudo e quieto, porque te vi e não tentei desviar o olhar de ti. Tu não me viste. Eu, que nunca deixei de te ver, fechei os olhos e tudo ficou negro, só os sons me perturbavam, mas também esses bloqueei. Depois tentei ver-te, seguir-te o rosto na escuridão, guiado por uma qualquer voz que nunca antes ouvira e que te descrevia. Queixo. Boca. Nariz. Orelhas. Bochechas. Cabelo. Sobrancelhas. Pestanas. Olhos. E eu tentei ver-te, sim, mas não consegui. Vi-te uma e outra vez, observei-te, decorei cada gesto, cada movimento, cada tique e ainda assim não consegui ver-te. Voltei a fechar os olhos. A voz voltou para te descrever, mas desta vez não lhe obedeci, bloqueei também o seu som. E então sim, vi-te. Surgiste como uma luz ténue, um pirilampo, quase como se te visse ao longe e estivesses a correr para mim como um comboio desenfreado. E o pirilampo foi crescendo, mais e mais, sempre a correr para mim, e eu só via aquela luz, verde, como se o sol reflectisse num campo de relva fresca pelo orvalho da manhã, e tornaste-te maior e maior, e cegaste-me como se fosses um farol, ainda que tivesse os olhos fechados. Abri-os. Vejo agora o teu rosto, perfeitamente, mas não consigo dizer se é perfeito. Perfeita é sim a tua aura, verde, de esperança, de frescura, de espinafres, e sim, é realmente a tua pessoa, o teu brilho, o teu ser que eu vejo, mesmo de olhos fechados.

05/09/2007

Desnecessário

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Em (quase) 26 anos, fiz e disse coisas que eram desnecessárias. Algumas por estupidez, outras por inocência, mas não deixaram de ser desnecessárias. Houve alturas em que constatei que estava a chover, algo que qualquer tartaruga que pusesse a cabeça de fora da carapaça se aperceberia, portanto foi desnecessário. Já me debrucei sobre o ouvido de uma amiga que ia partir para longe para lhe dizer "tu vais ficar bem", mas como ela sabia que ia voltar, então, obviamente, isso foi desnecessário. Já barafustei e berrei por ninharias e isso é sempre desnecessário. Em diversas ocasiões, mostrei o rabo perante pequenas multidões e isso foi enjoativamente desnecessário. Disse "Amo-te" um sem números de vezes em alturas em que os meus olhos brilhavam essa palavra, esse sentimento, sendo, portanto, desnecessário.
Hoje apercebi-me de algo que temia há já algum tempo: tornei-me desnecessário no café onde trabalhava. Não sei porquê (ou até sei), isso mexeu comigo por uma série de razões. Algumas estúpidas, outras compreensíveis, outras que se tornam desnecessárias de tão simples...

29/08/2007

Mas, mas, mas...

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Ora bem, o mundo dos blogs está em decadência vertiginosa. É a única explicação para um blog como este, que só tem material novo de semana a semana, ter recebido um prémio. Claro que as más línguas vão atacar logo e dizer que nem há concurso e que os vencedores são determinados pelas amizades e que este gajo (eu) só ganhou porque conhece fulano e fulana e até é amigo da fulana. E vão ter razão. Mas que se lixe. Esta imagem que se segue já ninguém ma tira!!!! Eheheheheheh
Ainda assim, confesso que fiquei num certo espanto quando confrontei a entregadora do prémio (que nunca ninguém me acuse de não inventar expressões!) e esta me disse, entre outras coisas - como, por exemplo, "és lindo", "és sensual" e "só te falta o fato de borracha para seres como o Batman" -, que este blog é muito mais lido do que penso. Confesso que não é difícil, uma vez que a ideia que tenho é que, tirando duas jovens de Lisboa, mais duas ou três jovens de paradeiro desconhecido (para mim, pelo menos) e mais dois ou três amigos, ninguém lê este blog. Bem, fazendo as contas, ao menos sou lido por gajas, o que significa que realmente devo ser lindo e sensual e parecido com o Batman excepto na roupa que uso. Mas, vai daí, e lá me convenceu a pôr uma coisinha gira que se chama sitemeter. E não é que o sacana me assustou?! Então queres ver que sou lido em Vitria, Espírito Santo, que, ao que tudo indica, fica no Brasil?! E tenho fãs no Alentejo?! E em Coimbra?! Eh pá, quem é esta gente e serão as suas vidas tão miseráveis que tenham de cá vir ler loucuras, devaneios febris e ilusões dignas do rei dos totós???
Bem, sejam bem-vindos ao interior da minha cabeça. Por favor não roubem nenhum cinzeiro, pode fazer-me falta. E à malta de Moscavide, FORÇA, OLIVAIS!!!!!!


E não se esqueçam, vocês pensam que me estão a ler em segredo, mas eu sei exactamente onde andam... MUAHAHAHAHAA!!!!!!!!!!!

23/08/2007

Homem grande (?)

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Diz-me, espelho, meu reflexo, o que torna os homens grandes? Vejo-me aqui, alto, e pergunto-te: o que nos torna grandes? Teremos de ser ricos? Famosos? Extraordinariamente reconhecidos cada vez que saímos de casa e fazemos aquilo que os homens pequenos fazem? Diz-me, terei de abandonar toda e qualquer vontade que não sirva para me tornar grande, mesmo que essa vontade me faça feliz? E os homens pequenos? São-no porque abandonam a vida do sucesso, porque preferem ser desconhecidos? Já sei, meu reflexo, tu que és eu, não devo separar felicidade e sucesso. Seria o mesmo que separar amor e sexo, que, ainda que diferentes, sabem melhor em conjunto. Mas diz-me, espelho, esta vida que levo, este caminho percorrido como homem pequeno à procura de crescer, tornar-me-á ele grande? E mais ainda, tu que és eu, diz-me, é realmente meu, teu, nosso o caminho da grandiosidade? Lembras-te, meu eu, quando dissemos, naquela tarde tão longínqua, que a felicidade era o amor e uma cabana? Lembras-te como só realmente acreditamos nisso depois de o termos dito? Percebes que, apesar de tudo, continuamos a acreditar realmente nisso? Percebes que, se o homem grande é aquele com sucesso, com dinheiro, com reconhecimento, então o homem pequeno poderá ser aquele que nunca sai da sombra? Percebes que eu, tu, nós poderemos nunca sair da sombra? Não quando o que mais queremos é segurar numa mão apaixonada, cheirar cabelos apaixonados, sentir uma cabeça apaixonada pousada no nosso peito enquanto adormecemos? Percebes o que te digo, enquanto nos olhamos olhos nos olhos e fazemos esta barba mal amanhada? A ti, a mim, a nós nos digo, meu eu, meu espelho, meu reflexo, alto como possa ser, serei e quererei ser sempre o mais pequeno dos homens.

21/08/2007

O despertar estranho

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Acordo, sobressaltado, assustado, sem saber onde estou ou quem sou. A casa está vazia, o meu corpo é o único presente. Levanto-me à pressa, encharcado, desorientado, à espera de um tremor de terra ou talvez de um tiro, não sei. Encosto-me à parede, sem forças, os joelhos esmagados de encontro ao chão. Respiro com dificuldade, como se me apertassem o pescoço, mãos invisíveis que me puxam para mundos invisíveis. Não me lembro do que sonhei, não sei ao certo onde estou, apesar de me parecer o meu quarto. Passo os dedos pelos olhos, a mão pela cabeça, os cabelos escorrem de suor. Ainda não me encontrei. Murmuro um nome, cego pela luz do sol que entra por entre as frinchas da janela. Não sei por quem chamei, não me reconheço e ninguém me responde. Aos poucos, lembro-me de uma anedota que vi em tempos num filme.

Dois homens entram num bar, sentam-se ao balcão. O empregado aproxima-se e pergunta-lhes o que vão querer. Ambos pedem cerveja. Bebem um gole, pousam o copo e olham em frente, para um espelho. Um deles começa a pensar na vida, em tudo o que sempre quis, mas que nunca conseguiu ou pelas quais nunca teve coragem de lutar. Nesse momento, abre-se um buraco no chão e ele cai lá dentro. O outro vê a cena, mas nada faz, acaba de beber a cerveja, paga as duas bebidas e sai do bar.

29/07/2007

Não sei que título dar

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Ora bem, este é o primeiro post terminado que está o conto em Cabo Verde, um conto de uma mísera dúzia de páginas (ou menos até) e que demorou mais de um mês a escrever. Basicamente, bem, digamos que a preguiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiça (com muitos iis para perceberem que deixei o dedo a descansar na tecla...) andou à solta por aí e veio parar aqui, mas enfim, acabou e com o grandioso ponto alto que foi o último capítulo e do qual podemos retirar a melhor frase: "Nunca mais se voltaram a ver." Por esta altura, o caro leitor já terá percebido que este não é um texto de ficção, é mesmo uma carta aberta do Estranho, eu. Claro que tendo em conta a minha ocasional demência, isto pode subitamente tornar-se num texto fictício, mas para já não, é mesmo um desabafar que "comichava" aqui na ponta dos dedos e que eu associo não só à famosa demência ocasional, mas também à súbita e recente (de há uma semana) percepção de que, bem, I'm full of shit. Não, leitor/a, não sou tratador de porcos nem agricultor, sou sim, ou tornei-me num gajo cheio de bazófia. É verdade, admito aqui e em escrito (sem qualquer valor legal porque falta o belo carimbo do notário e passa pra cá 30 euros), sou um gajo cheio de bazófia, daqueles chatinhos saudosistas do passado (primeiro erro, viver no passado) que afirmam "ah se soubesse na altura o que sei hoje..." (segundo erro, fantasiar em alterar o passado). Pois bem, aqui o bazófias fartou-se. Não sei, talvez seja da inalação recente de pó de café (o link ao lado, que, se ainda não aparece, há-de aparecer, deve explicar que arranjei um part-time para sacudir o espectro da pobreza...), talvez seja porque estou a cerca de mês e meio de fazer 26 anos, mas fartei-me da bazófia. Fartei-me e acabou. Para quem ainda não percebeu (aqueles que perceberam que estou a admitir publicamente isto e a revelar ao mundo que descobri onde pousei os tomates, podem fechar a boca e saltar esta parte...), aqui o Estranho fartou-se de ser um, digamos, songa-monga, um pitosga totó, um sonhador fantasista que não sabe a que tomate se deve agarrar para ir ao encontro daquilo que quer. Pronto, já disse. Não estou com isto a dizer que sou o maior e que agora o céu é o limite e que faço e aconteço, não, ainda longe disso, mas os primeiros passos estão dados. Encontrei os tomates, afastei um certo tufo de pêlo e ei-los. Não os vou descrever, vou só dizer que os desgraçados até estavam mirradinhos, mas uma massagem vigorosa tratou de reeniciar a irrigação sanguínea devida. Olha que giro, acabei de fazer uma figura triste a sugerir que massagei os tomates... Serve esta, que já vai bastante longa e enfadonha e a fugir ao assunto, que me fartei de querer alguma coisa e não ter a coragem de dar aquele passinho, de fazer aquele movimentozinho, de tentar. Num mês, ou pouco menos, tornei-me empregado de mesa no café Progresso, desenvolvi um à vontade que tantas vezes me faltou para falar com estranhos que não eu, descobri os tomates e senti-me útil e minimamente produtivo (afinal de contas, é só um part-time). Nada mau para Julho. No entanto, as férias dos outros levaram a que tenha férias forçadas. Ora este forçar de férias estragam-me os planos. Primeiro o dinheiro que não entra no mês de Agosto. Segundo, e passo a apresentar, o pressing, o forcing, o apalpar terreno, o bater de couros a uma certa cliente que lá vai almoçar e que será, talvez, fiscal ou engenheira ou arquitecta (e eu que sempre sonhei com arquitectura, mas fui sempre demasiado preguiçoso e receoso de não acabar o curso...), tendo em conta que a dita cliente passa o dia de um lado para o outro nas obras do metro na zona de Cedofeita. Por esta altura, quem me conhece pessoalmente estará a levar as mãos à cabeça e a gritar "Ele está doido!!!". E têm razão. Ora bem, da dita jovem, nada sei. Nem idade, nem nome, nem profissão, nem situação matrimonial sequer. Sei que (ai...) estou apanhadinho. E o melhor da situação? Mostrei-lhe exactamente isso. Ok, estava de avental de cintura, ok, tinha acabado de lhe levantar o prato sujo da mesa, mas mostrei-lhe isso. Diversas vezes. Ok, pode parecer pouco, mas confiem em mim, grande passo à frente meter-me com desconhecidas. Ora o objectivo desta treta toda é o belo do apelo.
Café Progresso, na zona de Cedofeita no Porto. Obras do Metro mesmo ao lado. Jovem fiscal/engenheira/arquitecta que trabalha lá (a quem, carinhosamente, chamo Trolha). Se desse lado houver algum cliente assíduo do já referido café e que conheça a criatura em questão, informações precisam-se. Probabilidade de fim de obras antes de eu voltar ao trabalho pode significar o adeus mais inglório da história dos engates entre desconhecidos. Ajudem lá, dou café à borla durante um ano (ou o tempo que lá ficar a trabalhar...).
A partir de agora antes um "não" que um "se soubesse na altura o que sei hoje..." (acho que vou tatuar esta frase no interior das pálpebras para enviar mensagens subliminares constantes enquanto durmo...)

27/07/2007

Conto em Cabo Verde - última parte

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Nunca mais se voltaram a ver.