19/10/2007
17/10/2007
Silêncio
Não há silêncio. A cabeça pousada na almofada não tem silêncio. O burburinho dos bichos que roem lentamente a madeira soa a chuva que cai ao de leve. Não há silêncio. A chuva cai-me nos tímpanos, trazendo prenúncios de tristeza, de planos estragados pelo fim de uma esplanada do tempo e da leitura quase forçada pela espera voluntária. Os ponteiros movem-se, bramindo os braços e vociferando as suas pesadas súplicas pelos ares, anunciando a demora, o atraso, a falta, batendo lentamente e marcando o passo da minha saudade. Passos. Inúmeros passos, apressados, vagarosos, incertos, conscientes, inúmeros passos que rodam e rodam sem parar, sem irem para lado nenhum, passos que não sigo e que não os faço os meus passos. Vozes. Roucas, suaves, solitárias, acompanhadas, vozes que sabem o que dizem e vozes que blasfemam loucuras, vozes que se indignam e vozes que pedem, que imploram, vozes que não oiço e que não peço para ouvir. Não há silêncio. Não durmo, não há silêncio. A tua ausência tira-me o silêncio, o silêncio que a tua voz me dá.
16/10/2007
Cara Pinky,
Desculpa. Julguei que seria capaz de realmente incendiar este blog até à última das palavras. Fantasiei a noite em que, inebriado de emoção, me sentaria nesta cadeira, em frente a este teclado que tantas vezes usei para te falar, e escreveria sem parar, sem pensar, a sentir apenas. Não me sinto capaz. Não sou capaz. Os dedos não conseguem, neste momento, reflectir a explosão que me agitou de um lado para o outro, sem cessar, como o movimento basculante de um qualquer comboio que parte com destino a uma qualquer estação de uma qualquer terra. Entrei nesse comboio, corri para o apanhar e ainda não saí dele, ainda é cedo, o destino nem no horizonte se vê. Mas foi o comboio em que escolhi entrar, cara Pinky. Um comboio que disseste que devia apanhar, tantas e tantas vezes mo disseste e eis-me nele, finalmente, eis-me nele, com a cabeça de fora da janela, o cabelo empurrado para trás pelo vento, os olhos fechados pela luz do sol, eis-me, finalmente, nele… Consegues ver-me o sorriso rasgado?
08/10/2007
Estado de espírito 2
"Um pequeno passo para o Estranho, um passo gigantesco para a comunidade totó"
Camarada totó, se fui capaz de fazer o impensável para o comum totó, também tu serás! Vem e junta-te ao movimento "Abordar uma desconhecida na rua". Verás que dormes melhor...
:P
SSSSSIIIIIMMMMM!!!!!
04/10/2007
Estado de espírito
Sim. Sim? Sim... Sim?! Sim! Sim, sim. Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim!
SSSSSSSSSSSSIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!
Para quem possa pensar que foi desta que enlouqueci... Digamos que é bem possível...
SSSIIIMMM!!!
02/10/2007
Amor num dois cavalos
Deito-me, com relutância. Apago a luz, puxo os lençóis, ajeito a almofada e fico à espera. A cama parece-me enorme, um deserto imenso de algodão, linho e molas rangentes. Rapidamente, os meus olhos habituam-se à escuridão e a fraca luz lançada pelos números do despertador ilumina-me o quarto com uma ténue neblina verde. Viro-me, deitado a um canto do deserto de algodão e fito a outra ponta da cama. Estendo um braço, mas só com dificuldade, com a ponta dos dedos, consigo tocar na madeira, áspera, por lixar desde que a cortei por não gostar do estilo. Parece-me ainda maior, este deserto, por não o conseguir alcançar de ponta a ponta. Viro-me de barriga para cima, a fitar o tecto, como tantas vezes faço. Oiço passos, o soalho que range aqui mesmo ao lado, madeira que estala com o arrefecimento da noite, talvez, mas não me preocupa. Começo a pestanejar, devagar, arrastado cada vez mais para o outro lado, para o subconsciente.
Acordo, devagar, sei que estou a sonhar. Estou no banco de trás de um carro, a olhar para o tejadilho, enquanto nos afastamos do mar. A lua cheia passa, ou melhor, arrasta-se pelo vidro, rodeada de estrelas. No rádio, cantam os The Killers, o “Sam's Town” pode ser deixado em modo repetição durante horas, não me importo. Conheço o álbum de cor, não a letra, mas os sons, as notas que se seguem umas às outras num jogo harmonioso da apanhada. Alguém fala, nos bancos da frente, mas não é para mim ou então não exigem resposta. Cansado, como se não conseguisse sequer encher o peito para inspirar, deixo-me cair calmamente sobre o colo de alguém ao meu lado. Ela afaga-me a cabeça, passando os dedos pelo meu cabelo. Balbucio que devia ser ao contrário, ela é que acabou de trabalhar e devia ser eu a afagar-lhe os cabelos loiritos, mas não me mexo um centímetro que seja. Sorri e sussurra-me que não tem importância, com uma voz quase rouca pelos cigarros que devora, uns atrás dos outros. Debruça-se sobre mim e beija-me a testa primeiro, depois a boca. Volto a sentar-me direito e levanto um braço, ofereço-lhe o meu peito. A sua cabeça loira move-se devagar com a minha respiração e eu sinto a dela cada vez mais fraca, relaxada. Coloco-lhe uma mão na barriga, directamente na pele, por baixo da camisola, e afago-lhe o umbigo. Adormece. Eu sigo-a, pouco depois.
Acordo depressa, desta vez, já não estou a sonhar. Ergo-me e admiro o deserto de algodão, já não me parece tão grande. Com o sono ainda por sacudir, vejo a forma dela gravada a meu lado, talvez tenha ido à casa de banho, talvez esteja a fumar, sei que saiu há pouco, a cama ainda está quente e o meu braço ainda adormecido. Volto a deitar-me. Amanhã, tudo volta ao normal.
22/09/2007
Para onde é o caminho?
Para onde é o caminho? O vento sopra de encontro à minha pele, a chuva escorre-me pelo cabelo, usando o meu corpo como o leito de um rio. Sim, estou nu, à chuva. Sinto a lama entre os dedos dos pés enquanto me afundo, aos poucos, por entre a terra do meu jardim. Tenho os olhos fechados há horas e deixo-me estar. Baixo o rosto e tento ouvir, distinguir as gotas que caem: as mais pesadas batem no chão e explodem em mil pequenas gotas; as mais pequenas entram directamente no solo, à procura de sementes para fecundar. Sinto a água entrar-me pela pele e fundir-se comigo. Ainda não sei o caminho. Levanto a cabeça e inspiro com força; chegam-me os cheiros de rosas, de laranjas, de relva, do meu próprio corpo, da lama debaixo dos meus pés. Sinto o cheiro que a água não tem. Ainda não sei o caminho. Abro os olhos, por fim. A luz, ténue, mas presente, fere-me a visão, mas não deixo de olhar em volta. O dia está cinzento, o céu coberto de nuvens, a chuva dança com o vento no ar, avançando em rodopios e envolvendo tudo em que toca. Olho em frente. Ao longe, um gato esconde-se da tempestade debaixo de um abrigo para a lenha. Também ele fita a chuva e ouve o vento. Ajoelho-me de encontro à lama e enterro as mãos até aos pulsos, agarrando a terra pelos cabelos e puxando-a até mim. Espalho-a pelo corpo, as pernas, os braços, o tronco, o sexo e a cara. Castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. O gato ainda lá está, debaixo do abrigo, mas já não está só. Um outro gato, ou uma gata – prefiro acreditar – enrosca-se agora no primeiro. Sei qual é o caminho. O meu corpo está coberto com a Terra, já não estou nu. Ao perto, pareceria um louco que já há muito tempo desistiu de tentar passar despercebido. Ao longe, sou apenas um monte de terra no meio de um jardim. E é para lá que começo a correr, para longe, porque é lá que está o caminho. Salto muros, atravesso campos, firo os pés nas silvas, nos seixos, no chão, mas é isso que quero, correr para longe, como o meu pai corre todos os dias. Ninguém me vê quando passo, estou protegido, camuflado, castanho, escuro e húmido, da cabeça aos pés. E vou a caminho.
E um dia talvez volte encarnado num gato.
15/09/2007
Becoming Vampire
I remember the day when night became everlasting.
Like a pair of ice shards,
She plunged her teeth into my chest,
Promising me a kiss,
Giving nothing, but timeless death.
I remember her cold breath,
As her lips touched my skin,
Her hands holding my own,
Imprisoning me forever by her side.
My heart stopped in that moment,
As my blood flowed more and more into her body,
Feeding her, helping her, becoming her,
Making her my mistress and I her eternal slave.
Oh, but the most painful of memories is the night
My mistress, my dead life, was robbed from me.
Long I howled her name at the moon,
The bright full moon, white as the top of her head.
Long I cried blasphemies, yelled curses at the petty,
Soulless, mortal scum that robbed her from me.
Long I sat there, in their homes, at their tables,
Carving, chopping my pain from out their flesh.
And long was the time I took to realize
That my mistress had not drunken my soul from me,
Instead, her death was the hammer that crushed
All humanity from out my heart.
12/09/2007
Ego Builder!!!
09/09/2007
Verdes são os espinafres...
Perdi as palavras quando te vi, esqueci-me do seu som, do seu valor, da sua força. Esqueci-me da minha própria força, incapaz de me mover, de desviar sequer o olhar de ti. E outros falaram para mim, chamaram, pediram respostas, mas eu nada disse, fiquei-me, mudo e quieto, porque te vi e não tentei desviar o olhar de ti. Tu não me viste. Eu, que nunca deixei de te ver, fechei os olhos e tudo ficou negro, só os sons me perturbavam, mas também esses bloqueei. Depois tentei ver-te, seguir-te o rosto na escuridão, guiado por uma qualquer voz que nunca antes ouvira e que te descrevia. Queixo. Boca. Nariz. Orelhas. Bochechas. Cabelo. Sobrancelhas. Pestanas. Olhos. E eu tentei ver-te, sim, mas não consegui. Vi-te uma e outra vez, observei-te, decorei cada gesto, cada movimento, cada tique e ainda assim não consegui ver-te. Voltei a fechar os olhos. A voz voltou para te descrever, mas desta vez não lhe obedeci, bloqueei também o seu som. E então sim, vi-te. Surgiste como uma luz ténue, um pirilampo, quase como se te visse ao longe e estivesses a correr para mim como um comboio desenfreado. E o pirilampo foi crescendo, mais e mais, sempre a correr para mim, e eu só via aquela luz, verde, como se o sol reflectisse num campo de relva fresca pelo orvalho da manhã, e tornaste-te maior e maior, e cegaste-me como se fosses um farol, ainda que tivesse os olhos fechados. Abri-os. Vejo agora o teu rosto, perfeitamente, mas não consigo dizer se é perfeito. Perfeita é sim a tua aura, verde, de esperança, de frescura, de espinafres, e sim, é realmente a tua pessoa, o teu brilho, o teu ser que eu vejo, mesmo de olhos fechados.
05/09/2007
Desnecessário
29/08/2007
Mas, mas, mas...

E não se esqueçam, vocês pensam que me estão a ler em segredo, mas eu sei exactamente onde andam... MUAHAHAHAHAA!!!!!!!!!!!
23/08/2007
Homem grande (?)
Diz-me, espelho, meu reflexo, o que torna os homens grandes? Vejo-me aqui, alto, e pergunto-te: o que nos torna grandes? Teremos de ser ricos? Famosos? Extraordinariamente reconhecidos cada vez que saímos de casa e fazemos aquilo que os homens pequenos fazem? Diz-me, terei de abandonar toda e qualquer vontade que não sirva para me tornar grande, mesmo que essa vontade me faça feliz? E os homens pequenos? São-no porque abandonam a vida do sucesso, porque preferem ser desconhecidos? Já sei, meu reflexo, tu que és eu, não devo separar felicidade e sucesso. Seria o mesmo que separar amor e sexo, que, ainda que diferentes, sabem melhor em conjunto. Mas diz-me, espelho, esta vida que levo, este caminho percorrido como homem pequeno à procura de crescer, tornar-me-á ele grande? E mais ainda, tu que és eu, diz-me, é realmente meu, teu, nosso o caminho da grandiosidade? Lembras-te, meu eu, quando dissemos, naquela tarde tão longínqua, que a felicidade era o amor e uma cabana? Lembras-te como só realmente acreditamos nisso depois de o termos dito? Percebes que, apesar de tudo, continuamos a acreditar realmente nisso? Percebes que, se o homem grande é aquele com sucesso, com dinheiro, com reconhecimento, então o homem pequeno poderá ser aquele que nunca sai da sombra? Percebes que eu, tu, nós poderemos nunca sair da sombra? Não quando o que mais queremos é segurar numa mão apaixonada, cheirar cabelos apaixonados, sentir uma cabeça apaixonada pousada no nosso peito enquanto adormecemos? Percebes o que te digo, enquanto nos olhamos olhos nos olhos e fazemos esta barba mal amanhada? A ti, a mim, a nós nos digo, meu eu, meu espelho, meu reflexo, alto como possa ser, serei e quererei ser sempre o mais pequeno dos homens.
21/08/2007
O despertar estranho
Acordo, sobressaltado, assustado, sem saber onde estou ou quem sou. A casa está vazia, o meu corpo é o único presente. Levanto-me à pressa, encharcado, desorientado, à espera de um tremor de terra ou talvez de um tiro, não sei. Encosto-me à parede, sem forças, os joelhos esmagados de encontro ao chão. Respiro com dificuldade, como se me apertassem o pescoço, mãos invisíveis que me puxam para mundos invisíveis. Não me lembro do que sonhei, não sei ao certo onde estou, apesar de me parecer o meu quarto. Passo os dedos pelos olhos, a mão pela cabeça, os cabelos escorrem de suor. Ainda não me encontrei. Murmuro um nome, cego pela luz do sol que entra por entre as frinchas da janela. Não sei por quem chamei, não me reconheço e ninguém me responde. Aos poucos, lembro-me de uma anedota que vi em tempos num filme.
Dois homens entram num bar, sentam-se ao balcão. O empregado aproxima-se e pergunta-lhes o que vão querer. Ambos pedem cerveja. Bebem um gole, pousam o copo e olham em frente, para um espelho. Um deles começa a pensar na vida, em tudo o que sempre quis, mas que nunca conseguiu ou pelas quais nunca teve coragem de lutar. Nesse momento, abre-se um buraco no chão e ele cai lá dentro. O outro vê a cena, mas nada faz, acaba de beber a cerveja, paga as duas bebidas e sai do bar.
29/07/2007
Não sei que título dar
27/07/2007
25/07/2007
Conto em Cabo Verde - penúltima parte
- Uma hora. Mais uma hora e tudo se precipita. – Júlio remexe o saco; passa por óculos de sol, livro e maços de lenços – De que é que estou à procura? – pára um instante – De nada, quero é guardar o que tenho.
Apesar do travessão, esta frase não foi dita, foi, sim, pensada, sentida, acima de tudo. Este é o último dia das férias que passou em Cabo Verde, ironicamente, o dia mais azul e limpo da semana. O vento sopra, como de costume, mas a falta de nuvens faz com que o calor que se imagina típico de África se faça sentir com mais intensidade. É de manhã cedo, tão cedo que os pais do jovem provavelmente ainda nem acordaram. Júlio está num frenesim, amachuca roupa, como se fossem pedaços de papel, e atira-a para a mala. Tem o olhar fixo naquilo que está a fazer, mas, não o admitindo, pensa no que se aproxima: o adeus a Eva, perdão, a Diana, é do hábito. Sabe que isso é inevitável, como se sentisse que a cada movimento dos ponteiros do relógio, que hoje em dia são os píxeis do telemóvel, Diana se afasta mais e mais. Pensando melhor, Adão e Eva dá uma ideia muito melhor de amor ingénuo e de tragédia inevitável do que Júlio e Diana, por isso, voltemos aos nomes ficcionais do casal, se não se importam. Adão, portanto, está a arrumar tudo para o regresso a Portugal, mais precisamente para o Porto, enquanto que Eva, se não está, deveria estar a preparar o regresso também a Portugal, mas mais precisamente para Lisboa. A distância, à partida, não seria um problema, não, o problema é algo mais complexo. Adão sabe o nome verdadeiro de Eva e sabe que é de Lisboa, a questão é que, à excepção de algumas marcas de nascença e sinais em sítios mais recônditos do corpo, não sabe mais nada sobre a jovem. Não se imagina, claro está, a percorrer cada rua da capital a perguntar a quem quer que passe se conhece uma rapariga chamada Diana que tem uma marca de nascença em forma de cogumelo logo abaixo da nádega esquerda... Adão esvazia por completo a mente, não pensa em nada porque sabe que não pode pensar o que está a sentir: ama Eva, ainda que não a conheça, ainda que se tenha determinado a não se apaixonar por ela, Adão ama Eva de uma forma quase infantil, como se amasse o céu azul simplesmente por ele existir. A única coisa que lhe passa pela cabeça é “Mais uma hora…”
E tem razão. Depois dessa hora, em que os pais lhe bateram à porta e se admiraram de o filho já estar completamente pronto para sair, tudo se precipita a uma velocidade desconcertante: o pequeno-almoço, as últimas despedidas ao hotel e aos empregados, o check-out, as malas atiradas para a camioneta ferrugenta que os trouxe ao hotel, que os levou a passear pela ilha e que agora arranca para os levar de volta ao aeroporto, o check-in, a revista, a espera pelo avião, o embarque, descolagem, o Atlântico imperceptível por baixo das nuvens. Só agora o tempo parece abrandar, Adão adormeceu nas primeiras três de quatro horas de viagem. Acorda sobressaltado, atirado para o lado pela turbulência. Sente a mãe apertar-lhe a mão com força, com medo. Balbucia-lhe, de forma quase automática, que se acalme, que foi só um solavanco, nada de mais. Pestaneja o sono dos olhos e espreita pela janela. É a primeira vez que Eva, imediatamente atrás, o vê mexer-se desde que o avião levantou voo. Apetece-lhe debruçar-se sobre o assento do jovem e dar-lhe um beijo na cara, perguntar se está tudo bem, mas não o faz. Também ela sente que o ama, mas, tal como ele, recusa-se a pensá-lo, optando por racionalizar o que não há como racionalizar. Classifica, cataloga o que sente como uma atracção física, só e apenas, daquelas que se sente todos os dias. Também ela espreita pela janela. Acabam por adormecer ao mesmo tempo, próximos, como na noite anterior, mas agora separados por roupa e por uma cadeira de avião. Chegam a Portugal.
Eva segue com a mãe para procurarem as malas, Adão, logo atrás, quase puxa os pais para se despacharem, ainda têm outro voo à espera. O tapete começa a rodar, ouvem-se os primeiros tombos, as primeiras malas, os primeiros “Olha, é a nossa!”, mas as de Adão e Eva, e dos respectivos familiares, ainda demoram, tanto que Adão quase fica branco quando a mãe de Eva se vira para ele e lhe diz, com um sorriso:
- Já viu, querem estragar-nos as férias, vamos ser mesmo os últimos!
Adão sorri de volta e acena com a cabeça, incapaz de soletrar uma palavra que seja, ao mesmo tempo que Eva engole em seco e começa a corar. Ambos respiram de alívio quando as malas finalmente aparecem e, num movimento digno de natação sincronizada, precipitam-se ao encontro delas, deixando os pais perplexos. Adão tira a sua mala e a dos pais, Eva faz o mesmo em relação à sua, mas a da mãe é um pouco pesada de mais para os seus braços. De repente, sente o corpo de Adão encostado ao seu, mais uma vez, a mão dele sobre a dela, a boca encostada ao ouvido enquanto o jovem lhe sussurra para ter calma, que ele trata disso. Por momentos, estão no quarto de hotel de Adão, ele a segurar-lhe a mão com força e ela a encostar a cabeça no ombro dele. Despertam de imediato, lembrando-se de onde estão e de com quem estão. Feliz e inexplicavelmente, pensam ambos, os progenitores conversam animadamente entre eles, falando do que gostaram mais, de como gostavam de lá voltar e outras palavras de circunstância.
- Diana… – Adão assume uma postura grave, como se fosse dizer algo que faria o mundo desabar nesse preciso momento, mas, quando a jovem se vira para o enfrentar, diz simplesmente – foi… foi bom conhecer-te. Espero que consigas... bem, que consigas recuperar da morte do teu pai e que…
- Júlio, por favor não digas mais nada.
Adão consente com a cabeça, com os olhos a dizerem adeus. Arrasta as malas pelas rodas e os próprios pés pelo chão e avança na direcção dos pais. Eva fica para trás, mas segue logo a seguir e ainda consegue ouvi-lo dizer à mãe que os desculpe, mas que ainda precisam de apanhar outro avião de regresso. Ainda chega a tempo de dizer um último adeus ao trio, mas já nem conseguiu ver os olhos de Adão.
- Que rapaz tão simpático, não achas? Tens de arranjar um namorado assim! – brinca a mãe de Eva.
- Vamos? – é a única palavra que sai da boca de Eva desde o aeroporto até casa.
…
O avião com destino ao Porto descola, iniciando uma subida que dá a sensação de não chegar a concluir, começando quase de seguida a descer. A viagem de avião pode ser encarada como um capricho, mas foi apenas uma questão de conforto e de rapidez, principalmente se se pensar nas três horas de inferno de Adão no Alfa pendular… Em meia hora, chegam ao Aeroporto Sá Carneiro, levantam as malas e dirigem-se para a entrada. O jovem faz sinal a um táxi. Vira-se para os pais.
- Vamos? – é a única palavra que sai da boca de Adão desde o aeroporto até casa.
17/07/2007
Conto em Cabo Verde - parte IX
Ao contrário do que dizia no final da parte anterior, na prática este é realmente o último dia em Cabo Verde, se tivermos em conta que amanhã, ao meio-dia, já as duas criaturas que temos vindo a conhecer como Adão e Eva vão estar a sobrevoar o Atlântico. Vamos continuar a tratá-los assim, como os dois supostos primeiros seres humanos a habitar a Terra. Continuemos a tratá-los assim, agora, sem dúvida, por uma questão de birra, porque já que se aguentou até aqui, sofre-se mais um bocado e descobre-se o nome de ambos quando se apresentarem. Avancemos.
Adão acorda. Eva já há muito regressou ao quarto, silenciosamente para não acordar a mãe. Ainda estremunhado pelo sono, parece-lhe sentir uma presença a seu lado, o que o leva a virar-se para abraçar Eva, pensa ele. Não. Era apenas uma almofada. As horas que o telemóvel indica mostram que daí a instantes os pais do jovem vão bater-lhe à porta e perguntar-lhe se vai tomar o pequeno-almoço. Ora tratando-se do último dia, Adão está decidido a ver tudo o que já vira antes, mas agora com olhos de quem sabe que vai partir e tão cedo não volta. Assim, a ânsia parece acelerar o tempo. As horas passam a um ritmo vertiginoso. Tão depressa está a ser abordado por empregados que oferecem champanhe em jeito de despedida, como está a bebericar um cocktail junto à piscina ou uma cerveja na praia. Aparentemente, a ideia que Adão tem de aproveitar bem o último dia é, basicamente, embebedar-se e tentar, sendo "tentar" a palavra-chave da acção, fazer exactamente o mesmo que nos outros dias. Poder-se-ia dizer que esta é uma atitude estúpida, por isso vamos lá: é uma atitude estúpida. E no entanto:
- Não achas que já chega? – finalmente uma linha de diálogo da mãe de Adão.
- Mãe, deixa lá, estamos de férias, certo? Deixa aproveitar, daqui a uns dias volta tudo ao mesmo, as chatices no trabalho, as chatices nas relações, as chatices em casa…
- Sim, mas não gosto de te ver assim. Mas já percebi pela tua cara que não adianta de nada... Olha, ao menos põe-te direito, vem aí a tua amiga... – a mãe de Adão, que a ter um nome teria de ser Deus, faz um sorriso trocista. É Eva que se aproxima e o sexto sentido de mãe já há uns dias que percebeu os olhares do filho em relação à jovem. Adão não protesta, não contesta, não esboça sequer um desmentido, simplesmente estaca na cadeira e fica a observar Eva a avançar à sua frente. Observa-lhe os passos calmos, o olhar distraído, irradiando toda uma aura de descontracção. Parece-lhe que a pessoa que passa diante de si é ou está algo diferente da pessoa que aterrou em Cabo Verde. Já não lhe distingue o ar abatido ou a pose pedante dos primeiros dias, como quando insinuou que Adão a estaria a seguir… “Afinal, só estava a precisar de uma queca!” pensam os neurónios levemente tocados pelo álcool.
Mas Eva não estava a precisar simplesmente de uma queca (sim, o narrador devia ter mais juízo do que as personagens, mas a palavra queca é irresistível demais!), estava a precisar de sentir. Sentir, simplesmente, física e emocionalmente. E se é verdade que a parte sentimental tem sofrido em detrimento da parte física, também não deixa de ser verdade que os pequenos desabafos, birras e brincadeiras com Adão foram dos poucos momentos de descontracção (esta palavra mais uma vez, para mostrar o verdadeiro sentimento da jovem) que teve no último ano. Uma pena que não tenham tentado recuperar um pouco dessa arte quase perdida que é o diálogo, teria sido curioso ouvir Eva falar do pai e Adão falar do avô que nunca conheceu, mas que tanto o ajudou através do tio. Mas enfim, é a vida. Adão continua a observar Eva até esta desaparecer ao longe. Algo que não admite nem sequer a si próprio é o facto de começar a sentir saudades da jovem.
À noite, quando Eva lhe bate à porta, Adão está deitado na cama. Dorme como se de uma criança se tratasse. Não está, nem de longe nem de perto, bêbedo, mas realmente a cabeça começava a pesar-lhe quando se deitou a fazer horas à espera de quem lhe bate agora à porta (e que não obtém resposta). Temendo denunciar-se ao quarto ao lado (ocupado pelos pais de Adão), Eva desiste, sem saber muito bem o que pensar. Diz a si própria que não quer saber, ele é que perde, se calhar até foi para a discoteca e está neste preciso momento a fazer-se a alguma mulata. Sai do edifício, avança para o jardim de areia (que, na manhã seguinte, denunciará o seu percurso ao jardineiro de areia) e procura a varanda de Adão. A janela está aberta, o vento faz voar as cortinas, Adão está na cama, a ressonar, Eva sorri e, não o admitindo nunca, suspira de alívio.
- Ei! – Adão nem se mexe – Ei! – isto seria mais fácil se soubessem o nome um do outro, mas já lá vamos – EI! – Adão estremece – Ei, ei! Na janela!
Adão esfrega os olhos e tenta sacudir o sono. Pareceu-lhe ouvir alguém dentro do quarto, mas quando olha para a janela desperta imediatamente todos os sentidos. Principalmente o do sarcasmo…
- Oh bela donzela, viestes salvar-me da clausura? – declama Adão, gesticulando exageradamente.
- Deixa-te de disparates e abre-me a porta!
- A porta? Mas de que serve a porta se tu estás aí fora? – debruça-se no parapeito, Eva pensa que ele procura um beijo e levanta o rosto. Adão não se apercebe do gesto, agarra-a pelas ancas, levanta-a e puxa-a para dentro – Vês? Elevador privado e tudo! Espectáculo! – agora sim, beija-a - Olá.
- Ui, antes de mais – ela fala com um olhar algo enojado – vais lavar a boca!
- Hum… É justo…
Eva está sentada na cama enquanto observa Adão a lavar os dentes. Em pequena, costumava correr para o quarto dos pais e escondia-se debaixo da cama. Pouco depois, entrava o pai, fingindo não saber que a pequenita lá estava, e começava a fazer as coisas mais rotineiras. Debruçava-se sobre o espelho do quarto de banho a olhar para a barba, fazia caretas à procura de rugas, puxava o cabelo para trás à procura dos primeiros sinais de calvície e fingia que não se apercebia da filha a esgueirar-se para o assustar. Invariavelmente, antecipava-se e agarrava pela cintura, como momentos antes fizera Adão, e levantava-a no ar, como se fosse um avião. Mesmo durante a adolescência, mesmo nos tempos de faculdade, esse era um ritual que pai e filha repetiam quando tinham oportunidade, até que, nos últimos anos, por causa da doença que lhe foi corroendo o corpo, o homem a quem Eva tratava por Papá não conseguiu levantar os braços. A atracção de Eva por Adão nada tinha a ver com uma qualquer semelhança com o pai, não, os dois homens eram diferentes como água para o vinho. A atracção de Eva explica-se pela vontade que Adão mostrou em querer conhecer a jovem, em querer dar-lhe atenção. Sente necessidade de lhe pedir desculpa pela forma como o tratou nos primeiros dias, mas não o faz. Adão sai da casa de banho.
- Ora vamos lá a isto… – ele segura-a pelos braços e beija-a durante muito tempo.
- Hum, estás cheio de vontade!
- Fiquei com vontade de te agarrar desde que passaste por mim, de tarde, junto à piscina. Tens um andar muito engraçado, com o rabo a abanar de um lado para o outro! E a tua mãe também não está nada mal. Vê-se bem a quem tu sais… – o sorriso trocista é indescritível…
- Ei! – Eva sente vontade de rir, mas finge má cara por uns momentos, uns segundos apenas, não resiste e solta uma gargalhada. Por momentos, riem-se juntos, quase abraçados. Pouco depois olham-se, em silêncio, como fizeram várias vezes, nas noites anteriores. Adão tem vontade de dizer que a ama e Eva tem vontade de o ouvir e de o repetir. Mas nenhum dos dois toma esse passo, optam antes por se despir e por se entregarem, mais uma vez, ao corpo um do outro. Nesse momento, Eva vira-se de costas para Adão. Ele encosta-se a ela, a barriga junto às costas, a cara na nuca, o pénis nas nádegas. Penetra-a. Eva não consegue deixar de estremecer. Adão passa-lhe o braço direito por baixo da cabeça, ficando a servir-lhe de almofada e a usar essa posição como base de apoio. Ele faz força para a frente, ela trinca-lhe o antebraço. Adão passa-lhe o braço esquerdo por cima da anca, a mão esquerda desce-lhe pelos pêlos e acaricia-a. Ele faz força para a frente, ela beija-lhe o antebraço. E prosseguem, ele a fazer força para a frente, uma e outra vez e outra vez e outra vez, primeiro devagar, depois com um vigor crescente, enquanto lhe acaricia os seios com a mão direita e o clítoris com a mão esquerda e lhe beija a nuca, o pescoço, os ombros, ela a sentir o corpo quente dele encostado ao seu, o braço esquerdo por cima do braço dele, a mão esquerda a puxá-lo pelas nádegas, guiando-o de encontro a si, o braço direito paralelo ao dele, a mão direita sobre a mão dele, enquanto ele se puxa para a frente e depois para trás e depois para a frente outra vez, até ao clímax final, ela arrebatada e ele embriagado pela sensação de poder. Abrandam progressivamente a pressão um sobre o outro, suados, quentes de encontro um ao outro, ele ainda dentro dela, em volta dela, num abraço de serpente.
Ficam assim, durante um tempo, até que ela se desprende dele e se volta na cama, o nariz de encontro ao dele. Eva olha-o nos olhos, Adão olha-a nos olhos, e assim ficam, sem saber o que dizer, sem saber se devem dizer alguma coisa, até que Eva o beija, num simples tocar de lábios, e lhe diz:
- Chamo-me Diana.
- Eu sou o Júlio.
É a última noite das férias, amanhã será, obviamente, o último dia. Adormecem, abraçados.
Acordam de madrugada. Tomam banho juntos e aí fazem amor uma última vez. Depois, ela veste-se e sai, volta para o quarto onde a mãe dorme sem sobressaltos, ele deita-se, nu, adormece sozinho.
02/07/2007
Conto em Cabo Verde - parte VIII
- O que é que estavas a ler de tarde? – o dia já passou e já estamos na noite seguinte. Adão e Eva, nomes unidos por uma fé inexplicável, estão nus, tal como, supostamente, os seus homólogos, milénios antes. Mas não estão no Paraíso, estão no quarto de Adão. É Eva quem pergunta.
- Como sabes que estive a ler?
- Oh, vi-te na varanda…
Adão franze o sobrolho.
- Andas a espiar-me?
- Oh, não sejas parvo! Simplesmente ia a passar e reparei. Até foi a minha mãe que chamou a atenção para o “meu amigo”…
- Ah, ela já percebeu que a filha se mete na cama com um desconhecido todas as noites? – abre um sorriso desafiador.
- Oh, não sejas parvo!
- Que engraçado, estás a ficar tão nervosa que não paras de dizer “oh”…
- Oh!
Eva, numa birra fingida, volta-se na cama e fica de costas para Adão, que se afasta ligeiramente para observar melhor o corpo da jovem diante dele. Conta-lhe os fios de cabelo da nuca, desce-lhe pela linha da coluna, rejubila com o redondo das nádegas e detém-se numa marca de nascimento da coxa direita de Eva.
- Estava a ler o “Cemitério de Pianos”, já tinhas visto. – Adão aproxima-se de Eva e abraça-a pelas costas.
- Mentiroso. Eu reparei que era uma folha solta.
- Ah, isso… – Adão larga-a outra vez e vira-se de barriga para cima.
- O que era? Parecias muito sério a …
- Olha, não quero falar nisso, ok? Desculpa, mas não vás por aí.
Eva engole em seco. O tom foi mais severo do que esperava. Os seus pensamentos precipitam-se numa cascata de hipóteses, mas tornou-se mais do que óbvio que não é suposto fazer perguntas. Está quase a adormecer quando:
- É uma carta.
- Desculpa? – a sua voz feminina soa ainda mais fraca com o sono.
- O papel que me viste a ler. É uma carta.
- De quem, da tua namorada? – a pergunta, numa voz fraca e lenta, tem segundas intenções óbvias…
- Subtil, sem dúvida. Não, eu não namoro. E a carta, nem fui eu que escrevi, nem foi escrita para mim.
- Mas então…?
- Foi o meu tio que escreveu. Para o avô dele, meu bisavô.
- E como é que és tu que a tens? – Eva já mal consegue abrir a boca.
- Porque ele escreveu-a pouco tempo depois de o meu bisavô morrer. A minha mãe soube que estava grávida de mim uns dois ou três meses depois do funeral. Segundo o meu tio, o meu nome magnífico foi uma homenagem. A minha avó desatou a chorar quando soube.
A pergunta de Eva devia ser a mais óbvia, mas, em vez de perguntar qual era o tal nome magnífico, balbucia apenas:
- Mas por que é que o teu tio te deu a cart… – a pergunta já não é feita até ao fim. Eva adormece.
Adão deixa-a dormir e fica sozinho, entregue à carta. O tio deu-lha quando fez dezoito anos, dando a entender que achava que só então Adão teria maturidade para entender o que lhe queria transmitir. Como todos os adolescentes, os dezoito anos do jovem foram conturbados. De forma quase clássica, a relação com os pais, e principalmente com a mãe, não era fácil. O tio compreendia-o, as discussões que tivera com a irmã, enquanto cresciam, davam-lhe uma noção perfeita do que se passava. Mas insistia com ele que devia ter paciência. E então, um dia, deu-lhe a carta. Não eram mais do que algumas linhas, mas, mal as leu, Adão percebeu imediatamente a intenção do tio.
“Adeus, avô. Morreste, não sei com que idade. Nunca te conheci bem, por culpa minha; sabia o teu nome e o que fazias, mas não soube e nunca saberei agora quem eras. Lembro-me que uma vez me bateste e eu odiei-te por isso. Lembro-me que nunca te procurei para nada e tu nunca me deste nada. Lembro-me que nos sorríamos quase por obrigação nas poucas vezes em que nos encontrávamos, invariavelmente no Natal. Mas nunca mais sorriremos um para o outro, mesmo que por obrigação. Vi-te, nos últimos dias, deitado na cama do hospital, com os olhos e a pele amarelecidos e os pés inchados. Eram os teus últimos dias, avô, soube-o no momento em que te vi a lutar para te ergueres na cama e olhar-me de frente. Morreste, já todos o esperávamos. Carreguei-te, avô, o teu corpo inerte dentro do caixão frio, brutalmente pesado, pisou-me a palma da mão. Os teus netos choraram, avô, os teus filhos gritaram, avô, e eu não percebia, não sentia, não chorava. E então pregaram a tampa que te cobriu e ainda hoje te cobre, avô. E levaram-te e pousaram-te e taparam-te com terra, avô, e então chorei, como o mais novo dos meus primos, os teus netos, agarrados uns aos outros porque nunca mais te veríamos, avô, e eu nunca te iria conhecer. Adeus, avô, perdoa-me.”
Adão fecha os olhos e adormece. Eva tem um braço pousado no peito dele. O jovem começa a sonhar. Vê o tio, sentado num café, a conversar com o bisavô, viu-o em fotografias, o homem de quem herdou o nome. Numa mesa, um pouco atrás destes, está Eva, sozinha. Adão serve-lhe um café. Não trocam palavras, sorrisos ou olhares. São desconhecidos. Amanhã é o penúltimo dia em Cabo Verde.
18/06/2007
Conto em Cabo Verde - parte VII
Adão é o primeiro a acordar. A secura da boca prova que ressonou, sem dúvida por estar virado de barriga para cima. Eva está deitada ao lado dele, aliás, quase em cima dele, a cabeça pousada no seu peito. “Pelo menos não se foi logo embora… Bolas, dói-me os tomates…” Adão interrompe os próprios pensamentos para levantar, suave e silenciosamente, o telemóvel. “Três da manhã? Bem, ainda é cedo, acho eu. A que horas é que ela disse que a mãe acordava? Bah, quando acordar que se preocupe ela com isso!” Eva parece ter-lhe ouvido os pensamentos. Começa a acordar, lentamente. A mão pousada sobre o peito dele estremece e começa a mover-se na direcção da barriga, desenhando-lhe riscos esbranquiçados na pele morena. Com alguma maldade e muita provocação, arranha-lhe suavemente o mamilo.
- Au. – protesta Adão, com um sorriso.
- É para aprenderes. – retribui Eva – Que horas são?
- Três da manhã, vi mesmo agora. A que horas tens de ir?
- Já me queres pôr daqui para fora? – Eva mantém-se imóvel.
- Bem… – Adão tem um sorriso trocista nos lábios e um certo temor nos olhos – A julgar pelas últimas noites, tu não precisas da minha ajuda para saíres à pressa…
Eva ergue-se na cama, passa uma perna por cima de Adão, senta-se sobre a sua barriga e debruça-se sobre ele, prendendo-lhe, ou tentando, os pulsos. Adão não consegue deixar de sorrir perante o movimento dos seios dela.
- Tu gostas mesmo de ser um filho da mãe sacana, não gostas?
- Querida, uma mulher nua em cima de mim faz e diz o que quiser de mim, mas isto de ter os pulsos presos... – com dois movimentos rápidos, Adão solta os pulsos e inverte as posições, ficando ele em cima dela, a prender-lhe as mãos – … não é para mim.
Ficam a fitar-se durante uns segundos, como se medissem as palavras antes de as dizerem. Por fim, é Adão que avança:
- Queres falar do que se tem passado ou nem por isso? É que estas últimas noites não têm sido muito normais e nem estou a falar do sexo com uma desconhecida, com isso posso eu bem, é mesmo do facto de, bem, de tu fugires a sete pés pouco depois de acabarmos e das duas uma, ou tu finges realmente bem os orgasmos e afinal ficas desiludida ou então tens um problemazinho qualquer no sótão. – Adão aponta com o queixo para a testa de Eva, aproveitando para respirar – Ora tendo em conta que tens voltado para repetir a dose, deixa-me ser convencido e deduzir que tens gostado, o que significa que o Tico e o Teco não estão a carburar a 100%...
- Uau… – é a resposta de Eva, passado algum tempo depois de Adão se calar.
- Que foi?
- Estou a tentar decifrar tudo o que disseste, seu gajo do Norte!
- Ah, sua… – Adão solta-lhe as mãos e passa-lhe rapidamente os dedos pelas ancas e pela barriga, levando-a a soltar um par de gargalhadas incontroladas – Goza agora, anda, goza! – pára quando a cara de Eva está tão vermelha que parece que vai explodir - Bom, mas afinal queres falar ou não?
- … Espera, deixa-me recuperar o fôlego… Parvo… Bem, é assim, na primeira noite, quando acabamos, adormeceste e não quis acordar-te, por isso fui embora. E ontem não gostei nada do que me disseste no fim. Pronto, foi isso.
- No fim? Mas eu disse alguma coisa no fim?
- Vês?! Por isso é que fui embora!
- Mas o que é que eu disse?! Não me digas que perguntei se gostaste, isso é do pior e se foi isso, atiro-me já da janela!
- Não.
- Mas então o quê?
- Pensa.
- Pá, são três da manhã, estou a precisar de um banho, aliás, estamos os dois e o sangue acabou de me escorrer todo para o outro cérebro, se é que me percebes, por isso não comeces com coisas...
- Amo-te… – diz Eva, insegura.
- Hum… Ok, tudo bem, mas diz-me o que foi que te disse que te enfur…
- Foi isso que me disseste, estúpido! – interrompe ela.
- O quê?!
- Tu disseste “Amo-te”.
- Eu?! – Adão tem o ar mais incrédulo que consegue fazer neste momento.
- Sim, tu!
- Mas, mas… Ouve, eu… Pá, mas qual é o problema?
- O problema é que, primeiro, disseste sem sentir, o que é óbvio, tendo em conta que nem te lembras, e, segundo, porque, quando disseste, deu para perceber que é algo que te sai com frequência, ou seja, fizeste-me sentir como uma pêgazinha qualquer que tu engatas por aí!
O silêncio torna-se desconfortável para ambos, mas nenhum sabe o que dizer ao certo.
- Olha, eu não estou à espera de nada nesta relação ou lá o que isto é, – começa Eva, por fim – mas há duas coisas que eu não quero: magoar-me e sentir-me uma pêga.
- Quanto ao pêga, ok, tens razão e peço desculpa. Sim, é verdade que o digo com alguma frequência e nunca com sentimento. Ou raramente com sentimento. Mas, quanto ao magoar-te… – Adão aproxima o seu rosto do de Eva – Aquilo que nós andamos a fazer, tendo em conta que vamos embora daqui a duas noites, não deve dar tempo para magoar, certo? – prende o olhar nos olhos dela, como se tentasse ler a resposta directamente da sua alma. Eva não responde, nem com o olhar, nem com a boca.
Acabam por se beijar, em silêncio, e por fazer amor, perdão, por fazer sexo, não amor, que isso pode magoar.
