Mas, mas, mas...

E não se esqueçam, vocês pensam que me estão a ler em segredo, mas eu sei exactamente onde andam... MUAHAHAHAHAA!!!!!!!!!!!

Diz-me, espelho, meu reflexo, o que torna os homens grandes? Vejo-me aqui, alto, e pergunto-te: o que nos torna grandes? Teremos de ser ricos? Famosos? Extraordinariamente reconhecidos cada vez que saímos de casa e fazemos aquilo que os homens pequenos fazem? Diz-me, terei de abandonar toda e qualquer vontade que não sirva para me tornar grande, mesmo que essa vontade me faça feliz? E os homens pequenos? São-no porque abandonam a vida do sucesso, porque preferem ser desconhecidos? Já sei, meu reflexo, tu que és eu, não devo separar felicidade e sucesso. Seria o mesmo que separar amor e sexo, que, ainda que diferentes, sabem melhor em conjunto. Mas diz-me, espelho, esta vida que levo, este caminho percorrido como homem pequeno à procura de crescer, tornar-me-á ele grande? E mais ainda, tu que és eu, diz-me, é realmente meu, teu, nosso o caminho da grandiosidade? Lembras-te, meu eu, quando dissemos, naquela tarde tão longínqua, que a felicidade era o amor e uma cabana? Lembras-te como só realmente acreditamos nisso depois de o termos dito? Percebes que, apesar de tudo, continuamos a acreditar realmente nisso? Percebes que, se o homem grande é aquele com sucesso, com dinheiro, com reconhecimento, então o homem pequeno poderá ser aquele que nunca sai da sombra? Percebes que eu, tu, nós poderemos nunca sair da sombra? Não quando o que mais queremos é segurar numa mão apaixonada, cheirar cabelos apaixonados, sentir uma cabeça apaixonada pousada no nosso peito enquanto adormecemos? Percebes o que te digo, enquanto nos olhamos olhos nos olhos e fazemos esta barba mal amanhada? A ti, a mim, a nós nos digo, meu eu, meu espelho, meu reflexo, alto como possa ser, serei e quererei ser sempre o mais pequeno dos homens.
Acordo, sobressaltado, assustado, sem saber onde estou ou quem sou. A casa está vazia, o meu corpo é o único presente. Levanto-me à pressa, encharcado, desorientado, à espera de um tremor de terra ou talvez de um tiro, não sei. Encosto-me à parede, sem forças, os joelhos esmagados de encontro ao chão. Respiro com dificuldade, como se me apertassem o pescoço, mãos invisíveis que me puxam para mundos invisíveis. Não me lembro do que sonhei, não sei ao certo onde estou, apesar de me parecer o meu quarto. Passo os dedos pelos olhos, a mão pela cabeça, os cabelos escorrem de suor. Ainda não me encontrei. Murmuro um nome, cego pela luz do sol que entra por entre as frinchas da janela. Não sei por quem chamei, não me reconheço e ninguém me responde. Aos poucos, lembro-me de uma anedota que vi em tempos num filme.
Dois homens entram num bar, sentam-se ao balcão. O empregado aproxima-se e pergunta-lhes o que vão querer. Ambos pedem cerveja. Bebem um gole, pousam o copo e olham em frente, para um espelho. Um deles começa a pensar na vida, em tudo o que sempre quis, mas que nunca conseguiu ou pelas quais nunca teve coragem de lutar. Nesse momento, abre-se um buraco no chão e ele cai lá dentro. O outro vê a cena, mas nada faz, acaba de beber a cerveja, paga as duas bebidas e sai do bar.
- Uma hora. Mais uma hora e tudo se precipita. – Júlio remexe o saco; passa por óculos de sol, livro e maços de lenços – De que é que estou à procura? – pára um instante – De nada, quero é guardar o que tenho.
Apesar do travessão, esta frase não foi dita, foi, sim, pensada, sentida, acima de tudo. Este é o último dia das férias que passou em Cabo Verde, ironicamente, o dia mais azul e limpo da semana. O vento sopra, como de costume, mas a falta de nuvens faz com que o calor que se imagina típico de África se faça sentir com mais intensidade. É de manhã cedo, tão cedo que os pais do jovem provavelmente ainda nem acordaram. Júlio está num frenesim, amachuca roupa, como se fossem pedaços de papel, e atira-a para a mala. Tem o olhar fixo naquilo que está a fazer, mas, não o admitindo, pensa no que se aproxima: o adeus a Eva, perdão, a Diana, é do hábito. Sabe que isso é inevitável, como se sentisse que a cada movimento dos ponteiros do relógio, que hoje em dia são os píxeis do telemóvel, Diana se afasta mais e mais. Pensando melhor, Adão e Eva dá uma ideia muito melhor de amor ingénuo e de tragédia inevitável do que Júlio e Diana, por isso, voltemos aos nomes ficcionais do casal, se não se importam. Adão, portanto, está a arrumar tudo para o regresso a Portugal, mais precisamente para o Porto, enquanto que Eva, se não está, deveria estar a preparar o regresso também a Portugal, mas mais precisamente para Lisboa. A distância, à partida, não seria um problema, não, o problema é algo mais complexo. Adão sabe o nome verdadeiro de Eva e sabe que é de Lisboa, a questão é que, à excepção de algumas marcas de nascença e sinais em sítios mais recônditos do corpo, não sabe mais nada sobre a jovem. Não se imagina, claro está, a percorrer cada rua da capital a perguntar a quem quer que passe se conhece uma rapariga chamada Diana que tem uma marca de nascença em forma de cogumelo logo abaixo da nádega esquerda... Adão esvazia por completo a mente, não pensa em nada porque sabe que não pode pensar o que está a sentir: ama Eva, ainda que não a conheça, ainda que se tenha determinado a não se apaixonar por ela, Adão ama Eva de uma forma quase infantil, como se amasse o céu azul simplesmente por ele existir. A única coisa que lhe passa pela cabeça é “Mais uma hora…”
E tem razão. Depois dessa hora, em que os pais lhe bateram à porta e se admiraram de o filho já estar completamente pronto para sair, tudo se precipita a uma velocidade desconcertante: o pequeno-almoço, as últimas despedidas ao hotel e aos empregados, o check-out, as malas atiradas para a camioneta ferrugenta que os trouxe ao hotel, que os levou a passear pela ilha e que agora arranca para os levar de volta ao aeroporto, o check-in, a revista, a espera pelo avião, o embarque, descolagem, o Atlântico imperceptível por baixo das nuvens. Só agora o tempo parece abrandar, Adão adormeceu nas primeiras três de quatro horas de viagem. Acorda sobressaltado, atirado para o lado pela turbulência. Sente a mãe apertar-lhe a mão com força, com medo. Balbucia-lhe, de forma quase automática, que se acalme, que foi só um solavanco, nada de mais. Pestaneja o sono dos olhos e espreita pela janela. É a primeira vez que Eva, imediatamente atrás, o vê mexer-se desde que o avião levantou voo. Apetece-lhe debruçar-se sobre o assento do jovem e dar-lhe um beijo na cara, perguntar se está tudo bem, mas não o faz. Também ela sente que o ama, mas, tal como ele, recusa-se a pensá-lo, optando por racionalizar o que não há como racionalizar. Classifica, cataloga o que sente como uma atracção física, só e apenas, daquelas que se sente todos os dias. Também ela espreita pela janela. Acabam por adormecer ao mesmo tempo, próximos, como na noite anterior, mas agora separados por roupa e por uma cadeira de avião. Chegam a Portugal.
Eva segue com a mãe para procurarem as malas, Adão, logo atrás, quase puxa os pais para se despacharem, ainda têm outro voo à espera. O tapete começa a rodar, ouvem-se os primeiros tombos, as primeiras malas, os primeiros “Olha, é a nossa!”, mas as de Adão e Eva, e dos respectivos familiares, ainda demoram, tanto que Adão quase fica branco quando a mãe de Eva se vira para ele e lhe diz, com um sorriso:
- Já viu, querem estragar-nos as férias, vamos ser mesmo os últimos!
Adão sorri de volta e acena com a cabeça, incapaz de soletrar uma palavra que seja, ao mesmo tempo que Eva engole em seco e começa a corar. Ambos respiram de alívio quando as malas finalmente aparecem e, num movimento digno de natação sincronizada, precipitam-se ao encontro delas, deixando os pais perplexos. Adão tira a sua mala e a dos pais, Eva faz o mesmo em relação à sua, mas a da mãe é um pouco pesada de mais para os seus braços. De repente, sente o corpo de Adão encostado ao seu, mais uma vez, a mão dele sobre a dela, a boca encostada ao ouvido enquanto o jovem lhe sussurra para ter calma, que ele trata disso. Por momentos, estão no quarto de hotel de Adão, ele a segurar-lhe a mão com força e ela a encostar a cabeça no ombro dele. Despertam de imediato, lembrando-se de onde estão e de com quem estão. Feliz e inexplicavelmente, pensam ambos, os progenitores conversam animadamente entre eles, falando do que gostaram mais, de como gostavam de lá voltar e outras palavras de circunstância.
- Diana… – Adão assume uma postura grave, como se fosse dizer algo que faria o mundo desabar nesse preciso momento, mas, quando a jovem se vira para o enfrentar, diz simplesmente – foi… foi bom conhecer-te. Espero que consigas... bem, que consigas recuperar da morte do teu pai e que…
- Júlio, por favor não digas mais nada.
Adão consente com a cabeça, com os olhos a dizerem adeus. Arrasta as malas pelas rodas e os próprios pés pelo chão e avança na direcção dos pais. Eva fica para trás, mas segue logo a seguir e ainda consegue ouvi-lo dizer à mãe que os desculpe, mas que ainda precisam de apanhar outro avião de regresso. Ainda chega a tempo de dizer um último adeus ao trio, mas já nem conseguiu ver os olhos de Adão.
- Que rapaz tão simpático, não achas? Tens de arranjar um namorado assim! – brinca a mãe de Eva.
- Vamos? – é a única palavra que sai da boca de Eva desde o aeroporto até casa.
…
O avião com destino ao Porto descola, iniciando uma subida que dá a sensação de não chegar a concluir, começando quase de seguida a descer. A viagem de avião pode ser encarada como um capricho, mas foi apenas uma questão de conforto e de rapidez, principalmente se se pensar nas três horas de inferno de Adão no Alfa pendular… Em meia hora, chegam ao Aeroporto Sá Carneiro, levantam as malas e dirigem-se para a entrada. O jovem faz sinal a um táxi. Vira-se para os pais.
- Vamos? – é a única palavra que sai da boca de Adão desde o aeroporto até casa.
Ao contrário do que dizia no final da parte anterior, na prática este é realmente o último dia em Cabo Verde, se tivermos em conta que amanhã, ao meio-dia, já as duas criaturas que temos vindo a conhecer como Adão e Eva vão estar a sobrevoar o Atlântico. Vamos continuar a tratá-los assim, como os dois supostos primeiros seres humanos a habitar a Terra. Continuemos a tratá-los assim, agora, sem dúvida, por uma questão de birra, porque já que se aguentou até aqui, sofre-se mais um bocado e descobre-se o nome de ambos quando se apresentarem. Avancemos.
Adão acorda. Eva já há muito regressou ao quarto, silenciosamente para não acordar a mãe. Ainda estremunhado pelo sono, parece-lhe sentir uma presença a seu lado, o que o leva a virar-se para abraçar Eva, pensa ele. Não. Era apenas uma almofada. As horas que o telemóvel indica mostram que daí a instantes os pais do jovem vão bater-lhe à porta e perguntar-lhe se vai tomar o pequeno-almoço. Ora tratando-se do último dia, Adão está decidido a ver tudo o que já vira antes, mas agora com olhos de quem sabe que vai partir e tão cedo não volta. Assim, a ânsia parece acelerar o tempo. As horas passam a um ritmo vertiginoso. Tão depressa está a ser abordado por empregados que oferecem champanhe em jeito de despedida, como está a bebericar um cocktail junto à piscina ou uma cerveja na praia. Aparentemente, a ideia que Adão tem de aproveitar bem o último dia é, basicamente, embebedar-se e tentar, sendo "tentar" a palavra-chave da acção, fazer exactamente o mesmo que nos outros dias. Poder-se-ia dizer que esta é uma atitude estúpida, por isso vamos lá: é uma atitude estúpida. E no entanto:
- Não achas que já chega? – finalmente uma linha de diálogo da mãe de Adão.
- Mãe, deixa lá, estamos de férias, certo? Deixa aproveitar, daqui a uns dias volta tudo ao mesmo, as chatices no trabalho, as chatices nas relações, as chatices em casa…
- Sim, mas não gosto de te ver assim. Mas já percebi pela tua cara que não adianta de nada... Olha, ao menos põe-te direito, vem aí a tua amiga... – a mãe de Adão, que a ter um nome teria de ser Deus, faz um sorriso trocista. É Eva que se aproxima e o sexto sentido de mãe já há uns dias que percebeu os olhares do filho em relação à jovem. Adão não protesta, não contesta, não esboça sequer um desmentido, simplesmente estaca na cadeira e fica a observar Eva a avançar à sua frente. Observa-lhe os passos calmos, o olhar distraído, irradiando toda uma aura de descontracção. Parece-lhe que a pessoa que passa diante de si é ou está algo diferente da pessoa que aterrou em Cabo Verde. Já não lhe distingue o ar abatido ou a pose pedante dos primeiros dias, como quando insinuou que Adão a estaria a seguir… “Afinal, só estava a precisar de uma queca!” pensam os neurónios levemente tocados pelo álcool.
Mas Eva não estava a precisar simplesmente de uma queca (sim, o narrador devia ter mais juízo do que as personagens, mas a palavra queca é irresistível demais!), estava a precisar de sentir. Sentir, simplesmente, física e emocionalmente. E se é verdade que a parte sentimental tem sofrido em detrimento da parte física, também não deixa de ser verdade que os pequenos desabafos, birras e brincadeiras com Adão foram dos poucos momentos de descontracção (esta palavra mais uma vez, para mostrar o verdadeiro sentimento da jovem) que teve no último ano. Uma pena que não tenham tentado recuperar um pouco dessa arte quase perdida que é o diálogo, teria sido curioso ouvir Eva falar do pai e Adão falar do avô que nunca conheceu, mas que tanto o ajudou através do tio. Mas enfim, é a vida. Adão continua a observar Eva até esta desaparecer ao longe. Algo que não admite nem sequer a si próprio é o facto de começar a sentir saudades da jovem.
À noite, quando Eva lhe bate à porta, Adão está deitado na cama. Dorme como se de uma criança se tratasse. Não está, nem de longe nem de perto, bêbedo, mas realmente a cabeça começava a pesar-lhe quando se deitou a fazer horas à espera de quem lhe bate agora à porta (e que não obtém resposta). Temendo denunciar-se ao quarto ao lado (ocupado pelos pais de Adão), Eva desiste, sem saber muito bem o que pensar. Diz a si própria que não quer saber, ele é que perde, se calhar até foi para a discoteca e está neste preciso momento a fazer-se a alguma mulata. Sai do edifício, avança para o jardim de areia (que, na manhã seguinte, denunciará o seu percurso ao jardineiro de areia) e procura a varanda de Adão. A janela está aberta, o vento faz voar as cortinas, Adão está na cama, a ressonar, Eva sorri e, não o admitindo nunca, suspira de alívio.
- Ei! – Adão nem se mexe – Ei! – isto seria mais fácil se soubessem o nome um do outro, mas já lá vamos – EI! – Adão estremece – Ei, ei! Na janela!
Adão esfrega os olhos e tenta sacudir o sono. Pareceu-lhe ouvir alguém dentro do quarto, mas quando olha para a janela desperta imediatamente todos os sentidos. Principalmente o do sarcasmo…
- Oh bela donzela, viestes salvar-me da clausura? – declama Adão, gesticulando exageradamente.
- Deixa-te de disparates e abre-me a porta!
- A porta? Mas de que serve a porta se tu estás aí fora? – debruça-se no parapeito, Eva pensa que ele procura um beijo e levanta o rosto. Adão não se apercebe do gesto, agarra-a pelas ancas, levanta-a e puxa-a para dentro – Vês? Elevador privado e tudo! Espectáculo! – agora sim, beija-a - Olá.
- Ui, antes de mais – ela fala com um olhar algo enojado – vais lavar a boca!
- Hum… É justo…
Eva está sentada na cama enquanto observa Adão a lavar os dentes. Em pequena, costumava correr para o quarto dos pais e escondia-se debaixo da cama. Pouco depois, entrava o pai, fingindo não saber que a pequenita lá estava, e começava a fazer as coisas mais rotineiras. Debruçava-se sobre o espelho do quarto de banho a olhar para a barba, fazia caretas à procura de rugas, puxava o cabelo para trás à procura dos primeiros sinais de calvície e fingia que não se apercebia da filha a esgueirar-se para o assustar. Invariavelmente, antecipava-se e agarrava pela cintura, como momentos antes fizera Adão, e levantava-a no ar, como se fosse um avião. Mesmo durante a adolescência, mesmo nos tempos de faculdade, esse era um ritual que pai e filha repetiam quando tinham oportunidade, até que, nos últimos anos, por causa da doença que lhe foi corroendo o corpo, o homem a quem Eva tratava por Papá não conseguiu levantar os braços. A atracção de Eva por Adão nada tinha a ver com uma qualquer semelhança com o pai, não, os dois homens eram diferentes como água para o vinho. A atracção de Eva explica-se pela vontade que Adão mostrou em querer conhecer a jovem, em querer dar-lhe atenção. Sente necessidade de lhe pedir desculpa pela forma como o tratou nos primeiros dias, mas não o faz. Adão sai da casa de banho.
- Ora vamos lá a isto… – ele segura-a pelos braços e beija-a durante muito tempo.
- Hum, estás cheio de vontade!
- Fiquei com vontade de te agarrar desde que passaste por mim, de tarde, junto à piscina. Tens um andar muito engraçado, com o rabo a abanar de um lado para o outro! E a tua mãe também não está nada mal. Vê-se bem a quem tu sais… – o sorriso trocista é indescritível…
- Ei! – Eva sente vontade de rir, mas finge má cara por uns momentos, uns segundos apenas, não resiste e solta uma gargalhada. Por momentos, riem-se juntos, quase abraçados. Pouco depois olham-se, em silêncio, como fizeram várias vezes, nas noites anteriores. Adão tem vontade de dizer que a ama e Eva tem vontade de o ouvir e de o repetir. Mas nenhum dos dois toma esse passo, optam antes por se despir e por se entregarem, mais uma vez, ao corpo um do outro. Nesse momento, Eva vira-se de costas para Adão. Ele encosta-se a ela, a barriga junto às costas, a cara na nuca, o pénis nas nádegas. Penetra-a. Eva não consegue deixar de estremecer. Adão passa-lhe o braço direito por baixo da cabeça, ficando a servir-lhe de almofada e a usar essa posição como base de apoio. Ele faz força para a frente, ela trinca-lhe o antebraço. Adão passa-lhe o braço esquerdo por cima da anca, a mão esquerda desce-lhe pelos pêlos e acaricia-a. Ele faz força para a frente, ela beija-lhe o antebraço. E prosseguem, ele a fazer força para a frente, uma e outra vez e outra vez e outra vez, primeiro devagar, depois com um vigor crescente, enquanto lhe acaricia os seios com a mão direita e o clítoris com a mão esquerda e lhe beija a nuca, o pescoço, os ombros, ela a sentir o corpo quente dele encostado ao seu, o braço esquerdo por cima do braço dele, a mão esquerda a puxá-lo pelas nádegas, guiando-o de encontro a si, o braço direito paralelo ao dele, a mão direita sobre a mão dele, enquanto ele se puxa para a frente e depois para trás e depois para a frente outra vez, até ao clímax final, ela arrebatada e ele embriagado pela sensação de poder. Abrandam progressivamente a pressão um sobre o outro, suados, quentes de encontro um ao outro, ele ainda dentro dela, em volta dela, num abraço de serpente.
Ficam assim, durante um tempo, até que ela se desprende dele e se volta na cama, o nariz de encontro ao dele. Eva olha-o nos olhos, Adão olha-a nos olhos, e assim ficam, sem saber o que dizer, sem saber se devem dizer alguma coisa, até que Eva o beija, num simples tocar de lábios, e lhe diz:
- Chamo-me Diana.
- Eu sou o Júlio.
É a última noite das férias, amanhã será, obviamente, o último dia. Adormecem, abraçados.
Acordam de madrugada. Tomam banho juntos e aí fazem amor uma última vez. Depois, ela veste-se e sai, volta para o quarto onde a mãe dorme sem sobressaltos, ele deita-se, nu, adormece sozinho.
- O que é que estavas a ler de tarde? – o dia já passou e já estamos na noite seguinte. Adão e Eva, nomes unidos por uma fé inexplicável, estão nus, tal como, supostamente, os seus homólogos, milénios antes. Mas não estão no Paraíso, estão no quarto de Adão. É Eva quem pergunta.
- Como sabes que estive a ler?
- Oh, vi-te na varanda…
Adão franze o sobrolho.
- Andas a espiar-me?
- Oh, não sejas parvo! Simplesmente ia a passar e reparei. Até foi a minha mãe que chamou a atenção para o “meu amigo”…
- Ah, ela já percebeu que a filha se mete na cama com um desconhecido todas as noites? – abre um sorriso desafiador.
- Oh, não sejas parvo!
- Que engraçado, estás a ficar tão nervosa que não paras de dizer “oh”…
- Oh!
Eva, numa birra fingida, volta-se na cama e fica de costas para Adão, que se afasta ligeiramente para observar melhor o corpo da jovem diante dele. Conta-lhe os fios de cabelo da nuca, desce-lhe pela linha da coluna, rejubila com o redondo das nádegas e detém-se numa marca de nascimento da coxa direita de Eva.
- Estava a ler o “Cemitério de Pianos”, já tinhas visto. – Adão aproxima-se de Eva e abraça-a pelas costas.
- Mentiroso. Eu reparei que era uma folha solta.
- Ah, isso… – Adão larga-a outra vez e vira-se de barriga para cima.
- O que era? Parecias muito sério a …
- Olha, não quero falar nisso, ok? Desculpa, mas não vás por aí.
Eva engole em seco. O tom foi mais severo do que esperava. Os seus pensamentos precipitam-se numa cascata de hipóteses, mas tornou-se mais do que óbvio que não é suposto fazer perguntas. Está quase a adormecer quando:
- É uma carta.
- Desculpa? – a sua voz feminina soa ainda mais fraca com o sono.
- O papel que me viste a ler. É uma carta.
- De quem, da tua namorada? – a pergunta, numa voz fraca e lenta, tem segundas intenções óbvias…
- Subtil, sem dúvida. Não, eu não namoro. E a carta, nem fui eu que escrevi, nem foi escrita para mim.
- Mas então…?
- Foi o meu tio que escreveu. Para o avô dele, meu bisavô.
- E como é que és tu que a tens? – Eva já mal consegue abrir a boca.
- Porque ele escreveu-a pouco tempo depois de o meu bisavô morrer. A minha mãe soube que estava grávida de mim uns dois ou três meses depois do funeral. Segundo o meu tio, o meu nome magnífico foi uma homenagem. A minha avó desatou a chorar quando soube.
A pergunta de Eva devia ser a mais óbvia, mas, em vez de perguntar qual era o tal nome magnífico, balbucia apenas:
- Mas por que é que o teu tio te deu a cart… – a pergunta já não é feita até ao fim. Eva adormece.
Adão deixa-a dormir e fica sozinho, entregue à carta. O tio deu-lha quando fez dezoito anos, dando a entender que achava que só então Adão teria maturidade para entender o que lhe queria transmitir. Como todos os adolescentes, os dezoito anos do jovem foram conturbados. De forma quase clássica, a relação com os pais, e principalmente com a mãe, não era fácil. O tio compreendia-o, as discussões que tivera com a irmã, enquanto cresciam, davam-lhe uma noção perfeita do que se passava. Mas insistia com ele que devia ter paciência. E então, um dia, deu-lhe a carta. Não eram mais do que algumas linhas, mas, mal as leu, Adão percebeu imediatamente a intenção do tio.
“Adeus, avô. Morreste, não sei com que idade. Nunca te conheci bem, por culpa minha; sabia o teu nome e o que fazias, mas não soube e nunca saberei agora quem eras. Lembro-me que uma vez me bateste e eu odiei-te por isso. Lembro-me que nunca te procurei para nada e tu nunca me deste nada. Lembro-me que nos sorríamos quase por obrigação nas poucas vezes em que nos encontrávamos, invariavelmente no Natal. Mas nunca mais sorriremos um para o outro, mesmo que por obrigação. Vi-te, nos últimos dias, deitado na cama do hospital, com os olhos e a pele amarelecidos e os pés inchados. Eram os teus últimos dias, avô, soube-o no momento em que te vi a lutar para te ergueres na cama e olhar-me de frente. Morreste, já todos o esperávamos. Carreguei-te, avô, o teu corpo inerte dentro do caixão frio, brutalmente pesado, pisou-me a palma da mão. Os teus netos choraram, avô, os teus filhos gritaram, avô, e eu não percebia, não sentia, não chorava. E então pregaram a tampa que te cobriu e ainda hoje te cobre, avô. E levaram-te e pousaram-te e taparam-te com terra, avô, e então chorei, como o mais novo dos meus primos, os teus netos, agarrados uns aos outros porque nunca mais te veríamos, avô, e eu nunca te iria conhecer. Adeus, avô, perdoa-me.”
Adão fecha os olhos e adormece. Eva tem um braço pousado no peito dele. O jovem começa a sonhar. Vê o tio, sentado num café, a conversar com o bisavô, viu-o em fotografias, o homem de quem herdou o nome. Numa mesa, um pouco atrás destes, está Eva, sozinha. Adão serve-lhe um café. Não trocam palavras, sorrisos ou olhares. São desconhecidos. Amanhã é o penúltimo dia em Cabo Verde.
Adão é o primeiro a acordar. A secura da boca prova que ressonou, sem dúvida por estar virado de barriga para cima. Eva está deitada ao lado dele, aliás, quase em cima dele, a cabeça pousada no seu peito. “Pelo menos não se foi logo embora… Bolas, dói-me os tomates…” Adão interrompe os próprios pensamentos para levantar, suave e silenciosamente, o telemóvel. “Três da manhã? Bem, ainda é cedo, acho eu. A que horas é que ela disse que a mãe acordava? Bah, quando acordar que se preocupe ela com isso!” Eva parece ter-lhe ouvido os pensamentos. Começa a acordar, lentamente. A mão pousada sobre o peito dele estremece e começa a mover-se na direcção da barriga, desenhando-lhe riscos esbranquiçados na pele morena. Com alguma maldade e muita provocação, arranha-lhe suavemente o mamilo.
- Au. – protesta Adão, com um sorriso.
- É para aprenderes. – retribui Eva – Que horas são?
- Três da manhã, vi mesmo agora. A que horas tens de ir?
- Já me queres pôr daqui para fora? – Eva mantém-se imóvel.
- Bem… – Adão tem um sorriso trocista nos lábios e um certo temor nos olhos – A julgar pelas últimas noites, tu não precisas da minha ajuda para saíres à pressa…
Eva ergue-se na cama, passa uma perna por cima de Adão, senta-se sobre a sua barriga e debruça-se sobre ele, prendendo-lhe, ou tentando, os pulsos. Adão não consegue deixar de sorrir perante o movimento dos seios dela.
- Tu gostas mesmo de ser um filho da mãe sacana, não gostas?
- Querida, uma mulher nua em cima de mim faz e diz o que quiser de mim, mas isto de ter os pulsos presos... – com dois movimentos rápidos, Adão solta os pulsos e inverte as posições, ficando ele em cima dela, a prender-lhe as mãos – … não é para mim.
Ficam a fitar-se durante uns segundos, como se medissem as palavras antes de as dizerem. Por fim, é Adão que avança:
- Queres falar do que se tem passado ou nem por isso? É que estas últimas noites não têm sido muito normais e nem estou a falar do sexo com uma desconhecida, com isso posso eu bem, é mesmo do facto de, bem, de tu fugires a sete pés pouco depois de acabarmos e das duas uma, ou tu finges realmente bem os orgasmos e afinal ficas desiludida ou então tens um problemazinho qualquer no sótão. – Adão aponta com o queixo para a testa de Eva, aproveitando para respirar – Ora tendo em conta que tens voltado para repetir a dose, deixa-me ser convencido e deduzir que tens gostado, o que significa que o Tico e o Teco não estão a carburar a 100%...
- Uau… – é a resposta de Eva, passado algum tempo depois de Adão se calar.
- Que foi?
- Estou a tentar decifrar tudo o que disseste, seu gajo do Norte!
- Ah, sua… – Adão solta-lhe as mãos e passa-lhe rapidamente os dedos pelas ancas e pela barriga, levando-a a soltar um par de gargalhadas incontroladas – Goza agora, anda, goza! – pára quando a cara de Eva está tão vermelha que parece que vai explodir - Bom, mas afinal queres falar ou não?
- … Espera, deixa-me recuperar o fôlego… Parvo… Bem, é assim, na primeira noite, quando acabamos, adormeceste e não quis acordar-te, por isso fui embora. E ontem não gostei nada do que me disseste no fim. Pronto, foi isso.
- No fim? Mas eu disse alguma coisa no fim?
- Vês?! Por isso é que fui embora!
- Mas o que é que eu disse?! Não me digas que perguntei se gostaste, isso é do pior e se foi isso, atiro-me já da janela!
- Não.
- Mas então o quê?
- Pensa.
- Pá, são três da manhã, estou a precisar de um banho, aliás, estamos os dois e o sangue acabou de me escorrer todo para o outro cérebro, se é que me percebes, por isso não comeces com coisas...
- Amo-te… – diz Eva, insegura.
- Hum… Ok, tudo bem, mas diz-me o que foi que te disse que te enfur…
- Foi isso que me disseste, estúpido! – interrompe ela.
- O quê?!
- Tu disseste “Amo-te”.
- Eu?! – Adão tem o ar mais incrédulo que consegue fazer neste momento.
- Sim, tu!
- Mas, mas… Ouve, eu… Pá, mas qual é o problema?
- O problema é que, primeiro, disseste sem sentir, o que é óbvio, tendo em conta que nem te lembras, e, segundo, porque, quando disseste, deu para perceber que é algo que te sai com frequência, ou seja, fizeste-me sentir como uma pêgazinha qualquer que tu engatas por aí!
O silêncio torna-se desconfortável para ambos, mas nenhum sabe o que dizer ao certo.
- Olha, eu não estou à espera de nada nesta relação ou lá o que isto é, – começa Eva, por fim – mas há duas coisas que eu não quero: magoar-me e sentir-me uma pêga.
- Quanto ao pêga, ok, tens razão e peço desculpa. Sim, é verdade que o digo com alguma frequência e nunca com sentimento. Ou raramente com sentimento. Mas, quanto ao magoar-te… – Adão aproxima o seu rosto do de Eva – Aquilo que nós andamos a fazer, tendo em conta que vamos embora daqui a duas noites, não deve dar tempo para magoar, certo? – prende o olhar nos olhos dela, como se tentasse ler a resposta directamente da sua alma. Eva não responde, nem com o olhar, nem com a boca.
Acabam por se beijar, em silêncio, e por fazer amor, perdão, por fazer sexo, não amor, que isso pode magoar.
- Olá a todos, eu sou o Edson e sou o vosso guia na excursão à ilha. Vamos partir já, só tamos à espera de duas pessoas que tão ali na recepção.
Adão sabe de quem se trata. Já está sentado no banco de trás da camioneta há uns bons quinze minutos. Foi dos primeiros a entrar e reconheceu quase toda a gente que chegou no mesmo dia que ele. Faltam duas pessoas, Eva e a mãe desta. “Nem sequer penses nela, ignora-a, não fales com ela, não olhes para ela, não respires sequer na direcção dela. Ignora-a. Ela é doida, só pode, é doida!” Adão abre a janela para afastar o calor. “Ignora-a, esquece-a, foi só uma queca. Ok, duas.” Está absolutamente decidido a ignorar Eva, como se pode ver pelos seus pensamentos. O problema é que não está a contar com a roupa de Eva desse dia. Olha na direcção da entrada do hotel no preciso momento em que Eva e a mãe saem. O queixo cai-lhe. Eva traz uma saia branca quase transparente, revelando, por baixo, o biquini preto às bolinhas brancas. Mas é a parte de cima que deixa Adão perdido em imagens das noites anteriores. O top esverdeado à sua frente não é transparente, mas é como se fosse: Eva não vestiu a parte de cima do biquini e o vento empurra o tecido fino de encontro ao seu corpo, revelando cada contorno, cada saliência. Apercebendo-se da própria figura, a boca aberta, a cara encostada ao vidro, Adão pigarreia e olha em frente. Não o admitindo, sente um ligeiro ciúme em relação aos outros homens que também se aperceberam na roupa de Eva. “Tarados! Cabrões! E com as mulheres ao lado! Eu ao menos estou solteiro!”. As duas mulheres entram pela porta de trás da camioneta, passando mesmo em frente a Adão e à família.
- Bom dia, bom dia! – começa a mãe de Eva – Desculpem, estávamos a pedir água na recepção e nem reparamos no tempo a passar!
Eva olha de soslaio para Adão, que repara no olhar fugidio e fica a observar o movimento das ancas dela à medida que procura lugar para se sentar. Vão separados por cinco, seis lugares.
- Bom, já tamos todos, vamos partir. Nós agora vamos pra Santa Maria, a cidade mais importante e maior do Sal. Fica aqui pertinho, quase dá pra ir a pé, mas não vale a pena levantarem-se. – Adão ouve tudo com meio ouvido, todos os sentidos virados para o banco de Eva. Quase lhe sente o cheiro. Nem se apercebe do tempo passar. – Como podem ver, as cidades no Sal são simples, as casas maiores normalmente são de emigrantes, maioria italianos. 
- Ali podem ver distribuição de água potável. A água da torneira não se pode beber, já devem saber disso. É que aqui já não chove a sério… – Adão interrompe, no seu cérebro, o discurso de Edson. Já sabe que na ilha já não chove a sério há mais de quinze anos, só chuvisca de longe a longe. E, por momentos, esquece também Eva. Agora só consegue reparar nas famílias diante de si, nos garrafões, nas latas, nos alguidares.
Ao longe, à sombra de uma árvore, sentada ao lado de um cão com diversas peladas a descobrir-lhe o corpo, vê uma criança a chorar. A esta distância não consegue percebe se se trata de um rapaz ou de uma rapariga, mas passa-lhe pela cabeça que a criança chora, não por causa de desgraça ou da necessidade, mas porque queria estar ao lado (nem à beira, nem ao pé…) da mãe e dos irmãos mais velhos, entretidos na fila, enquanto aguardam vez para encherem o máximo de recipientes que conseguirem depois carregar. Passa-lhe pela cabeça que devia ter pedido uma garrafa de água extra na recepção, seria fácil, pela janela da camioneta, dar essa garrafa a alguém. A camioneta prossegue, mais umas voltas, umas curvas e Edson recomeça – Bom, agora vamos pra Norte, pra Espargos, perto do aeroporto.
Espargos chama-se assim porque italianos chegaram lá e começaram a plantar espargos. Daí o nome. Depois vamos pra Palmeira, a Oeste. É na Palmeira que se faz o tratamento da água do mar e também lá fica a central eléctrica da ilha. Vamos só passar lá pra ir pra Buracona. O caminho aí nem é terra batida, é pedra batida, vamos dar muitos saltos! – o sorriso de Edson leva os turistas a pensar que se trata de uma brincadeira. Pouco mais de meia hora depois, já ninguém se ri, simplesmente seguram-se o melhor que podem – Eu avisei! – conclui Edson, ainda a sorrir.
A Buracona fica encostada ao mar. De um lado, o deserto, pedras, terra, um dos poucos montes da ilha, do outro, simplesmente, o mar. O nome vem de um buraco no meio das rochas, um poço natural que o mar e a erosão trataram de escavar.
Até à água, segundo Edson, são cerca de nove metros, até ao fundo são cerca de vinte e cinco. É habitual ver mergulhadores a explorarem a gruta que dá acesso ao mar. É um percurso que lhes demora quinze minutos, por isso, obviamente só mesmo com botijas de oxigénio se pode lá ir. Mesmo ao lado, há uma piscina, também ela natural. Edson convida os turistas a mergulharem, mas com cuidado, há partes bastante fundas e que normalmente são usadas para aqueles que querem mergulhar das rochas mais altas. Adão apressa-se a despir-se até aos calções de praia, deixando-se levar pela beleza do local e pelo calor que se faz sentir, apesar do vento. Atira-se, sem hesitação. Já lá dentro, vê Eva, a nadar a uns metros de si. Fecha os olhos a imaginá-la a vestir o biquini às escondidas. Alguns minutos depois, o guia chama os turistas para se secarem porque têm de partir para Este, vão atravessar o deserto e ver a Miragem.
Pó. Muito pó. Há várias camionetas carregadas de turistas a atravessar o deserto. Todos os motoristas tentam ultrapassar os demais para fugir à nuvem de areia que as rodas levantam. É um autêntico bailado. As camionetas param quase em uníssono, no meio de nada. Edson faz-se ouvir:
- Como podem ver, tamos no meio do deserto. Aqui só há areia. Esta zona é conhecida como Terra Boa, porque antes fazia-se agricultura. Toda a gente da ilha tinha campo próprio, mas quando a água acabou, foi tudo embora. Agora olhem para trás. – todos se viraram para Norte – Tão a ver aquele monte ali e a árvore? Não tem nada lá, mas parece que tão metidas na água! – As máquinas desatam a disparar, ainda que incertas de que conseguirem captar a ilusão de óptica. Adão fotografa também e fica por uns instantes a admirar o vazio à sua volta. Então, fecha os olhos e tenta imaginar como seria a ilha há duas, há três décadas, coberta de verde, amarelo e vermelho de uma ponta à outra. Quando volta a abrir os olhos, Eva está de frente para ele, a observá-lo e, como que se lhe lesse os pensamentos, sorri-lhe.
Já na camioneta, seguem para Este, para Pedra Lume, uma cidade que quase não o é, já que as casas se contam pelos dedos de uma mão. Edson é daqui, conta, com um brilho nos olhos. A cidade só serve para a distribuição de sal para o arquipélago de Cabo Verde. É aqui que fica a cratera do vulcão que criou a ilha do Sal, que passou a ser usada como salina para a extracção do sal. É já depois do almoço, oferecido por um restaurante na praia, a cinco metros do mar, que atravessam o túnel, escavado à mão por escravos cabo-verdianos há séculos atrás, que dá acesso à cratera. Edson aponta para os postes velhos que serviam de base para o teleférico que, há muitos anos, facilitava o transporte do sal até às refinarias. Deixou de se usar porque agora só se extrai sal quando alguma ilha do arquipélago encomenda.
O grupo avança na direcção do centro da cratera. Ao longe, vê-se uma estreita ponte de areia que separa dois pequenos lagos, um de água azul, directa do mar, e outro de água cor-de-rosa, tonalidade dada pelo sal que se forma no fundo.
É esta água que Edson descreve, orgulhosamente, como sendo 25 vezes mais salgada do que a do mar, tão salgada que é fácil flutuar livremente nela, até dá para ler o jornal. Diversos turistas experimentam essa sensação de flutuar livremente, sem o menor esforço de se manterem à superfície da água. O único inconveniente é que esta água, ao mínimo arranhão que se possa ter no corpo, arde como se fosse álcool e, mesmo sem arranhões, torna-se irritante na pele e é por isso que, por um preço simbólico, é possível tomar banho em chuveiros construídos de propósito para esse efeito. Adão sorri quando ouve “preço simbólico”, mas sua expressão assume imediatamente um ar mais sério: lembra-se que o “preço simbólico” é mais um meio de subsistência. Apesar de pele que começa a arder e a tornar-se branca de sal, Adão afasta-se um pouco do restante grupo e dirige-se a um monte branco, de sal, claro. Tem curiosidade em tocar no sal bruto, mas as pontas dos dedos raspam imediatamente na dureza do monte; o sal parece petrificado.
O caminho de volta para o hotel é estranho. Seguem sempre junto ao mar. Passam por outras cidades, Feijoal, por exemplo, mas são cidades minúsculas, com casas por acabar e miúdos a brincar na rua. Na camioneta ninguém fala, nem sequer o guia, limitam-se a olhar pelas janelas e a admirar tudo, desde a barbearia “Benfica”, à mercearia da esquina, sem placa a indicar o nome. Cerca de meia hora depois, chegam ao hotel. Edson despede-se com um sorriso, espera que todos tenham gostado da excursão.
Adão, já no quarto, acaba de se vestir, depois de tomar banho. Bate à porta dos pais e saem os três, para jantar. Vêem o espectáculo dessa noite, cómico, e depois recolhem aos quartos.
É já meia-noite quando alguém bate à porta de Adão. Com um sorriso, este abre a porta e confronta Eva.
- Tive esperanças que trouxesses esse top... – sussurra ele.
- Eu calculei, reparei na tua cara quando me viste. – brinca ela.
- Pena não teres trazido a saia. Mas isso também é tudo para tirar, por isso… – nesta altura, já Adão aperta Eva contra o seu corpo.
Adão acorda, nu, em cima de uma cama quase sem lençóis. Não fosse o preservativo – que nem se lembra de ter posto, mas que, felizmente, ali está – tombado ao lado da cama, teria a certeza que a noite anterior tinha sido apenas um sonho. Um sonho confuso, absolutamente estranho, mas “agradável, impecável, digno de contar”, pensa ele a sorrir enquanto coça uma virilha. Levanta-se e apressa-se a ir à casa de banho, a bexiga já não suporta mais demoras por disparates. Depois volta para junto da cama, apanha o preservativo e, como é óbvio e desnecessário dizer, deita-o ao lixo. Olha-se ao espelho. Tem ainda os olhos vermelhos do sono, está despenteado e precisa de fazer a barba. Começa por esta última necessidade, depois lava os dentes e enfia-se no chuveiro. Eva acorda nesse instante.
A mãe ainda dorme pesadamente na cama ao lado. Nem estremeceu nessa noite, quando Eva chegou e se despiu para tomar banho, lavando-se com muito mais empenho do que o necessário, por algum motivo queria tirar o cheiro de Adão do próprio corpo. Levanta-se, abre ligeiramente as cortinas e, já na casa de banho, debruça-se sobre o lavatório para lavar a cara. Quando o cabelo lhe cai sobre o rosto, sente um misto de incredulidade e de espanto. O cabelo ficara com o cheiro da noite anterior. Apressa-se a entrar no chuveiro, lava a cabeça ainda com mais empenho do que umas horas antes.
…
Adão já está fora do quarto, com os pais ao lado. Caminham na direcção do restaurante do hotel, para o pequeno-almoço. Embora não o admita, embora tente nem pensar nisso, leva a cabeça levantada, como se procurasse alguém. E, claro, está mesmo à procura de alguém. Mas não vai ter sorte, ou, pelo menos, não a sorte que queria ter. A mãe de Eva – que até poderia ter nome, não fosse o facto de ser absolutamente irrelevante para a história e de não haver nomes bíblicos anteriores a Adão e Eva – só agora acorda, zonza com o efeito dos medicamentos, tão zonza que até lhe parece que a filha está às voltas com o cabelo, penteia, despenteia, volta a pentear, mas isso é um disparate, Eva “nunca foi tão vaidosa ao ponto de vir de férias e estar tanto tempo a tratar do cabelo”, pensa ela, espreguiçando-se na cama para sacudir o sono.
…
Quando Eva chega ao restaurante, já Adão vem a sair. As duas famílias cumprimentam-se, um simples “bom-dia” e o sorriso da praxe, nada de muito íntimo, nada de muito caloroso, apenas a cordialidade suficiente para que nenhuma das partes se sinta ofendida. Ao passarem um pelo outro, Adão não resiste e “escorrega” na direcção de Eva, num movimento tão subtil que mais parece que estavam a interpretar o “Lago dos Cisnes”… Mas sem os tutus. Eva sente-se estúpida por corar, ainda que ligeiramente, Adão sente-se grandioso, ainda que estupidamente.
…
Hoje é domingo, não há nada para fazer. A única diferença em relação aos outros dias é que hoje realmente é suposto não se fazer nada. Ainda assim, Adão sente um bichinho a começar a roer. Nunca foi pessoa de estar muito tempo parada, já desde criança. Naquela altura, quando era pequeno e inocente, não havia crianças hiper-activas; havia crianças sossegadas e crianças irrequietas. Adão caía na última categoria. Assim, passou o dia a nadar, primeiro no mar, depois na piscina do hotel, cheio de uma energia que vinha não sabia bem de onde. Talvez a recordação da noite anterior o deixasse excitado, em todos os sentidos. Sem dúvida que a expectativa de que a noite anterior se pudesse repetir o deixava excitado, em todos os sentidos.
…
A noite chegou. O jantar passou. Adão está no quarto, parado há meia hora na mesma página do livro. Nos seus pensamentos, as personagens misturam-se com as imagens do corpo de Eva. Os seus dedos esfregam o papel das folhas como se percorressem a pele de Eva. A tinta preta das letras do livro enrolam-se como os pêlos de Eva. Se mudasse de página, o som das folhas fariam o mesmo som que os gemidos de Eva. Eva. É tudo o que ele vê nesse momento, quando leva, calmamente, a mão para dentro dos calções e se começa a tocar. É, no entanto, interrompido por um bater na porta. De um salto, está de pé, nem se deu ao trabalho de procurar o marcador de páginas, atirou o livro para cima da mesa e abriu a porta. Era o pai.
- Já viste? A mouraria empatou!
Adão sente-se desconsolado.
- Ah sim? – tentou disfarçar – E o jogo valeu alguma coisa?
- Podes ver logo, vai dar na RTP África. Mas vê lá se te deitas cedo, que amanhã vamos à excursão, lembras-te?
- Sim, sim, já sei. Não te preocupes… – Adão nunca teve paciência para estas preocupações com horas, porque na verdade nunca chegava atrasado ao que quer que fosse.
- Até amanhã.
- Até amanhã. – Adão fecha a porta devagar. Volta a pegar no livro e ainda não tinham passado cinco minutos, voltam a bater à porta – Outra vez? Chato…
Era Eva.
Desta vez, não falaram, não houve espanto, não houve surpresa, não houve hesitação. Adão agarrou Eva e puxou-a para dentro do quarto, sentindo-se uma espécie de Neandertal dos tempos modernos. Eva não esboçou ponta de resistência. Deixou-se levar, cedeu a todas as vontades do corpo, o seu e o dele. Se ontem era Adão que se sentia arder com desejo, hoje ardem os dois, numa pira de suor, beijos e fricção. E quando por fim param, com Adão a pensar se as sessões de natação desse dia não o deixaram mais cansado do que pensava, ficam deitados, desta vez de frente um para o outro e os braços e pernas entrelaçados. Hoje olham-se, observam-se. Ele acaba por dizer:
- Amo-te.
Eva fica calada, por um instante, menos de um instante, para dizer a verdade. Levanta-se de repente, sem que Adão reaja por não perceber o que se está a passar, – Que foi?! Onde vais?! – veste-se, – Ei, anda cá! – e sai do quarto. Adão vem à porta, mas a súbita aragem que sente nos genitais lembra-o que está nu.
- É doida… Olha, até deixou aqui as cuecas…
Eva entra, antes mesmo de ser convidada e perante o total assombro de Adão. Este, de olhos arregalados como se acabasse de ver o rosto de um qualquer deus (ou deusa, neste caso), quase não consegue segurar o queixo. Eva acaba de entrar no seu quarto. Adão não consegue acreditar. O espanto passa, aos poucos.
- Hum... Sim? Precisas de alguma coisa? Eu por acaso estava ocupado. - Adão ainda se lembra demasiado bem dessa tarde.
- Ah sim? – Eva pega no livro pousado em cima da cama – “O Cemitério de Pianos”, José Luís Peixoto. Sim, percebo, ocupadíssimo…
- Ei, isso é problema meu, ok? Afinal, que queres? – Adão tira-lhe, com uma calma calculada, o livro da mão e pousa-o na mesinha de cabeceira – Que estás aqui a fazer a estas horas? - Sente-se ridículo e, acima de tudo, velho: em Portugal, meia-noite seria mais ou menos a hora em que começava a escolher um filme para ver noite dentro, mas aqui, Cabo Verde, África, o tempo e a noção que se tem dele é completamente diferente.
- Hum… – Eva hesita, também com uma calma calculada, por breves momentos; olha em volta; senta-se num canto da cama – Falar. Sim, queria falar contigo.
Ao olhar para aquele cabelo castanho claro, para aquela cara ainda demasiado vermelha e, subtilmente (pelo menos assim o pensa), para aquele decote, Adão não consegue deixar de sorrir para dentro e de pensar em diversas outras coisas que incluem a boca sim, mas não propriamente falar. Para tentar disfarçar a cara e, principalmente, os olhos de desejo, vira-se e caminha em direcção a uma garrafa de água, pousada numa mesa ao lado da cama. E é ainda de costas que responde:
- Falar? Pois, pois, se correr tão bem como esta tarde…
- Isso foi diferente!
- Ai sim? E por quê? – de garrafa na mão, faz um gesto a oferecer um copo.
- Não, obrigada. E foi diferente porque eu estava mal disposta e porque apareceu um tipo atrás de mim que eu não conheço de lado nenhum a seguir-m…
- Eu disse-te que não te estava a seguir! – interrompeu Adão – E além disso, se fui eu que te segui, como é que tu é que me vens bater à porta? – o sorriso de lado e a sobrancelha erguida denunciam-lhe uma arrogância momentânea.
- Porque eu reparei nos teus olhos de cãozinho maltratado quando ias a entrar no quarto. – agora é Eva que sorri, percebendo que com esta frase acabou de pisar a arrogância do jovem em frente a ela – E porque não queria que o menino fosse para a cama com peso na consciência.
- O quê?! Olha, já percebi que a tua mãe te faz as vontades todas, isso vê-se à distância. – Adão começou a disparar – Já calculei que os teus pais devem estar separados e por isso é que vocês estão aqui as duas sozinhas. E imagino que a tua mãe anda contigo ao colo para, sei lá, tentar que não te sintas mal com o divórcio, mas eu não tenho nada com is…
- O meu pai morreu.
- O quê?!
- O meu pai morreu. Fez ontem um ano que o meu pai morreu. A minha mãe quis sair de Portugal para não ter de passar pelas missas, pelas recordações, pelo manter das aparências com a família. Não há divórcio nenhum, o meu pai morreu. – Eva ainda estava a falar quando se levantou e se começou a dirigir para a porta. Adão tem, mais uma vez, os olhos arregalados, sem saber onde se meter. Eva leva uma mão ao puxador, Adão agarra-a pela outra.
- Espera! Desculpa. Desculpa, ok? Foi estúpido da minha parte. Foi… Pronto, fui estúpido.
Eva não se vira. Se olhada de longe, pareceria um espantalho, os braços abertos, agarrada a uma porta e agarrada por uma mão. Adão tenta olhá-la nos olhos. Eva enfrenta-o; não chora, mas os olhos brilham.
- Estúpido. – diz simplesmente. Afasta-se da porta, em direcção à janela. Espreita, por momentos, a lua a brilhar – Dás-me água?
- Sim, claro! – Adão apressa-se a encher um copo e aproxima-se de Eva – Toma. – agora, sim, ela chora – Ei, então? Anda, vá, calma... – pousa o copo, abraça-a, diz-lhe – Pronto, tem calma… – e beija-lhe a testa. Ela mete as mãos por dentro dos calções dele e aperta-lhe as nádegas. – Ei?! Que estás a fazer?!
- Cala-te. Por favor, cala-te e faz amor comigo.
- O quê?!
- Faz amor, faz sexo, fode-me, como lhe quiseres chamar, mas, por favor, o meu pai morreu há um ano, a minha mãe está totalmente drogada com anti-depressivos e soporíferos e eu sinto-me completamente sozinha! Por favor, faz am... – Adão não a deixa acabar a frase. Beija-a. Despem-se. Deitam-se. Tocam-se. Ele penetra-a. Não o faz por amor. Não o faz por pena. Fá-lo por desejo. Fá-lo porque a quer desde o primeiro momento em que a viu, no avião. Fá-lo porque o maldito calor de África a isso obriga, como se soltasse raios de luxúria em vez de luz. Fá-lo até o corpo de ambos estar tão dorido que já não aguentam mais. E então deitam-se um ao lado do outro, sem falar, sem se olharem, quase sem se tocarem. A ventoinha que gira no tecto, mesmo por cima dos seus corpos nus, alivia-lhes, lentamente, o calor. Adão acaba por adormecer. Eva veste-se, bebe o copo de água que ficou à espera em cima da mesa e sai do quarto.
Adão acorda. Hoje é Sábado, este é já o terceiro dia que passa em Cabo Verde. Ontem pôde confirmar o que o guia disse no dia da chegada, o tempo custa muito a passar. São sete da manhã e já se sente o calor pelas cortinas fechadas. A luz que paira lá fora aquece, chega mesmo a queimar, apesar de filtrada pelos vidros. Do outro lado, o lado de fora do conforto, do ar-condicionado, do mini-bar e da cama desfeita, há um jardineiro de areia. A água é o bem mais precioso da ilha e mesmo a da torneira, não potável como já tínhamos visto, é poupada, não tanto pela (im)possível escassez do mar, mas talvez mais pelo simbolismo de não desperdiçar água. O jardineiro alisa e organiza a areia que o vento empurrou durante a noite e só depois se dirige aos pequenos canteiros espalhados pelos jardins amarelos do hotel. Adão vem à janela, sente o vento na cara, no corpo, nas cortinas que esvoaçam quarto adentro e cerra os olhos, ainda mal habituados ao sol. Leva a mão à testa, para conseguir ver melhor, e o jardineiro, vendo nisto um cumprimento, solta um olá. Adão acena-lhe e baixa a cabeça numa vénia. Sorriem um para o outro. Depois, cada um prossegue, o cabo-verdiano retoma o que estava a fazer, a ajeitar areia e a regar cactos e palmeiras e outras plantas que são o único verde do hotel, e o turista olha para o céu, à procura de nuvens, por pequenas que sejam, para que o dia seja suportável. Volta para o quarto. Fecha a janela. Eva sai para a varanda. A mãe dorme ainda, pesadamente, os comprimidos ajudam. Debruça-se, casualmente, sobre o parapeito, olha para um lado, depois olha para o lado do quarto de Adão, ninguém, olha em frente, o jardineiro diz-lhe olá e ela retribui-lhe com um bom-dia. Senta-se na varanda, em biquini, virada para o sol, coloca os óculos de sol, liga o leitor de mp3 e fecha os olhos, à espera. A mãe só acorda daí a uma hora ou duas. Adão volta a sair para a varanda, traz um livro na mão, despe a t-shirt que lhe serviu de pijama e senta-se, a ler. O cabo-verdiano sorri para os turistas. Nenhum dos dois se apercebe.
…
Na praia, o vento no corpo e as nuvens no céu arrefecem Adão. Está esticado numa espreguiçadeira, de barriga para cima, mãos atrás da cabeça a servir de almofada. A cabeça, ou melhor, o pensamento está na água. Sente calor, sim, tem vontade de ir para a água, sem dúvida, mas o tempo custa muito a passar. A preguiça é muita, a vontade de a combater é nula. Foi isto que Luís quis dizer no outro dia, mas o respeito – e a necessidade de emprego – forçou o eufemismo. Adão decide-se. Levanta-se, tira os óculos de sol e vira-se para o mar. Desafia o pai para ir dar um mergulho.
Eva, sem saber, está alguns metros afastada de Adão. Esqueceu-se, ou fez por se esquecer, do protector nessa manhã, na varanda. Tem o corpo vermelho, os lábios estalados e secos e a cabeça lateja. A mãe obrigou-a a ficar à sombra, mesmo junto ao bar da praia. A música irrita-a, a mãe irrita-a, a dor irrita-a. Pede à mãe a chave do quarto.
Adão sai do mar, vai para a toalha, os pais já foram tomar banho para almoçar, ele vai agora. Vê Eva ao longe, sozinha. Sai disparado na direcção dela.
…
- Olá, então tudo bem?
Eva quase não o reconhece. Pára, vira-se na direcção dele e responde:
- Sim, está tudo óptimo como se pode ver pela minha cara!
- Eh pá, esse look de camarão… Ui, isso normalmente é mais coisa de ingleses! – Adão sorri e leva uma mão à nuca.
- Olha que simpático… – Eva está sem paciência, recomeça a andar. Adão revira os olhos e recomeça a andar também. Vão a uma pequena distância um do outro, como já tínhamos visto, os respectivos quartos são próximos. Eva não percebe isso e dispara:
- Queres alguma coisa?
- Muitas coisas, para dizer a verdade, mas a que te referes em concreto? – agora é Adão quem começa a perder a paciência.
- Que vens fazer atrás de mim? – empina-se Eva.
- O quê?! Olha, quem não sabe o que tu queres sou eu, mas, pelo que percebi, o teu quarto fica à beira do meu…
- À beira? – Eva sorri pela primeira vez no dia – És do Porto, não és?
- Oh bolas… O teu quarto é AO PÉ do meu e sim, sou do Porto… Sim, já sei, nós dizemos coisas de maneira diferente, mas não, antes que perguntes, não digo cimbalino e, praticamente, já ninguém no Porto diz isso! – Adão não queria soar brusco, mas a verdade é que roçou a aspereza no discurso.
Eva vira-lhe as costas. Ele leva a mão à testa. Só se voltam a enfrentar quando estão a entrar nos quartos. Adão olha-a fixamente, diz que lamenta com o olhar. Eva devolve-lhe o olhar por uns segundos. É a primeira a entrar no quarto.
…
Anoitece, finalmente. A tarde passou muito lenta, muito mais lenta do que a manhã ou o dia anterior inteiro. Custou tanto a passar que Adão acabou um livro e está já a começar outro. Custou tanto, tanto que nem vale a pena dar a menor descrição do que aconteceu. Mas agora vai ser tudo mais rápido. Já jantou, já esteve no bar com os pais, já viu o espectáculo nocturno do hotel, já vestiu a espécie de pijama que trouxe e já está sentado na cama a ler. É quase meia-noite e Adão já está de rastos. Alguém bate à porta, levemente. Adão revira os olhos e pensa “O que é que ele quer agora?”, presumindo que “ele” é o pai. Abre a porta.
Eva sorri-lhe.
- Olá a todos, chamo-me Luís e estou aqui pra explicar algumas coisas de Cabo Verde. Tamos na ilha do Sal e vamos agora partir pra sul, pro hotel, que fica perto de Santa Maria. É uma viagem de duas horas. – a camioneta tem capacidade para não mais de vinte pessoas. É uma camioneta velha, ferrugenta e, como é fácil de prever, sem ar condicionado. Ao ouvir as palavras do guia, os quase vinte passageiros levantaram a cabeça, em desespero – Tou a brincar, a ilha só tem 28 km de comprimento e 11 km de largura, o aeroporto fica a meio da ilha, daqui a 15 minutos chegamos ao hotel.
Ele, o tipo da primeira parte e de quem, propositadamente, ainda não se sabe o nome, sorriu com a forma relaxada como o guia falava. Sorriu porque reconheceu a maneira de ser típica dos povos que passam dificuldades, quanto menos têm, mais alegres se mostram. No entanto, o Luís, como insistiu em ser tratado, parecia ter algo de mais genuíno, não de uma simpatia forçada, mas sim por estar a receber visitantes, a famosa hospitalidade. Mas, tentando resolver um problema relativo a narração, o tipo, obviamente uma personagem central deste conto, tem nome. A questão é que esse nome deverá permanecer em segredo até quase ao final da história, não por uma questão de birra, mas sim para escapar à tal batota de que já falamos. Vai daí, chamemos-lhe Adão. E como todo o Adão tem que ter a sua Eva, a passageira que o deslumbrou e que vai sentada uns lugares à sua frente, passa a ser conhecida como Eva.
Na verdade, demoraram 20 minutos a chegar. Nada de alarmante, abriram-se janelas, espreitaram-se as primeiras paisagens, as primeiras planícies de pó, as primeiras planícies de lixo, as primeiras construções e o mar, claro. O que o Luís não disse é que a parte onde o hotel fica é a parte mais estreita da ilha, que não tem mais de 6 km de largura, o que significa que, tendo em conta que a estrada fica quase a meio, se vê o mar dos dois lados, quase como se se estivesse a atravessar uma ponte larga. A ideia que Adão tinha de Cabo Verde era de um país quente, seco e acolhedor. Não sabia que esta ilha em concreto só sobrevivia graças ao turismo.
- Aqui, na ilha do Sal, não há agricultura. Chove 2 ou 3 vezes por ano e é coisa pouca, não molha nada. Se forem na excursão, vão ver onde eram os campos, mas agora é tudo deserto. – Luís já faz isto há bastante tempo. Sabe que os turistas querem ver tudo, sabe que fotografam tudo, desde as escolas dos miúdos aos próprios miúdos. Desde que trouxessem dinheiro, iam e viam tudo o que quisessem – Chegamos ao hotel. Façam o check in e vão ter autocolantes com o número do quarto, depois tirem as malas da camioneta e colem os autocolantes e depois o bagageiro trata de tudo. Bom, agora são três menos um quarto, como eu aprendi a dizer com os portugueses; vão aos quartos se quiserem e tentem voltar aqui na recepção às cinco pra vos explicar algumas coisas. Não esqueçam que aqui é menos duas horas do que em Portugal. Ah e não bebam água da torneira, nem ponham na boca.
Adão empurrou os pais atrás de Eva e da mãe desta, na fila para o check in. Viajavam as duas sozinhas. Quando a questão dos quartos e dos autocolantes estava tratada, Adão, como um adolescente na puberdade, apressou-se a oferecer ajuda às duas mulheres para tirarem a bagagem da camioneta. A conversa foi esperta, deu para descobrir que iam ficar à distância de algumas portas. Conseguiu perceber que eram de Lisboa. Não lhes conseguiu apanhar o nome.
…
- Há pouco disse pra não beberem água da torneira porque não é potável. Aqui não temos água potável, só engarrafada, a água de torneira é água do mar tratada. Se a água do mar acabar, temos que ir embora. – dizia esta piada a todos os grupos, sabia que funcionava sempre. Repetiu-lhes que há já bastante tempo que a ilha não tinha agricultura, tudo o que era fruta e legumes vinha das outras ilhas, Santo Antão e Santiago, principalmente, onde chovia e onde a paisagem era mais verde. Quando as ilhas foram descobertas, eram todas verdes, daí o “Cabo Verde”, mas depois o clima foi alterando e tiveram de se adaptar. Avisou contra o sol, que queimava mesmo, que ele próprio tinha nascido branco e que tinha sido o sol a escurecê-lo, outra piada que sabia que funcionava sempre – O sol aqui queima mesmo sem dar fé. Pra perceberem, lá em Portugal vocês têm temperaturas de 40º graus e passam mal, aqui no Verão se chega aos 30º caímos pro lado. Nós mesmo, os cabo-verdianos. – depois falou-lhes do hotel. Deu mais alguns conselhos. Por fim, falou na tal excursão, que seria daí a 4 dias. O dia acabou. – Aqui anoitece cedo e amanhece muito cedo. E o tempo custa muito a passar pra vocês.
Adão sorriu. Eva reparou.