02/07/2007

Conto em Cabo Verde - parte VIII

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- O que é que estavas a ler de tarde? – o dia já passou e já estamos na noite seguinte. Adão e Eva, nomes unidos por uma fé inexplicável, estão nus, tal como, supostamente, os seus homólogos, milénios antes. Mas não estão no Paraíso, estão no quarto de Adão. É Eva quem pergunta.

- Como sabes que estive a ler?

- Oh, vi-te na varanda…

Adão franze o sobrolho.

- Andas a espiar-me?

- Oh, não sejas parvo! Simplesmente ia a passar e reparei. Até foi a minha mãe que chamou a atenção para o “meu amigo”…

- Ah, ela já percebeu que a filha se mete na cama com um desconhecido todas as noites? – abre um sorriso desafiador.

- Oh, não sejas parvo!

- Que engraçado, estás a ficar tão nervosa que não paras de dizer “oh”…

- Oh!

Eva, numa birra fingida, volta-se na cama e fica de costas para Adão, que se afasta ligeiramente para observar melhor o corpo da jovem diante dele. Conta-lhe os fios de cabelo da nuca, desce-lhe pela linha da coluna, rejubila com o redondo das nádegas e detém-se numa marca de nascimento da coxa direita de Eva.

- Estava a ler o “Cemitério de Pianos”, já tinhas visto. – Adão aproxima-se de Eva e abraça-a pelas costas.

- Mentiroso. Eu reparei que era uma folha solta.

- Ah, isso… – Adão larga-a outra vez e vira-se de barriga para cima.

- O que era? Parecias muito sério a …

- Olha, não quero falar nisso, ok? Desculpa, mas não vás por aí.

Eva engole em seco. O tom foi mais severo do que esperava. Os seus pensamentos precipitam-se numa cascata de hipóteses, mas tornou-se mais do que óbvio que não é suposto fazer perguntas. Está quase a adormecer quando:

- É uma carta.

- Desculpa? – a sua voz feminina soa ainda mais fraca com o sono.

- O papel que me viste a ler. É uma carta.

- De quem, da tua namorada? – a pergunta, numa voz fraca e lenta, tem segundas intenções óbvias…

- Subtil, sem dúvida. Não, eu não namoro. E a carta, nem fui eu que escrevi, nem foi escrita para mim.

- Mas então…?

- Foi o meu tio que escreveu. Para o avô dele, meu bisavô.

- E como é que és tu que a tens? – Eva já mal consegue abrir a boca.

- Porque ele escreveu-a pouco tempo depois de o meu bisavô morrer. A minha mãe soube que estava grávida de mim uns dois ou três meses depois do funeral. Segundo o meu tio, o meu nome magnífico foi uma homenagem. A minha avó desatou a chorar quando soube.

A pergunta de Eva devia ser a mais óbvia, mas, em vez de perguntar qual era o tal nome magnífico, balbucia apenas:

- Mas por que é que o teu tio te deu a cart… – a pergunta já não é feita até ao fim. Eva adormece.

Adão deixa-a dormir e fica sozinho, entregue à carta. O tio deu-lha quando fez dezoito anos, dando a entender que achava que só então Adão teria maturidade para entender o que lhe queria transmitir. Como todos os adolescentes, os dezoito anos do jovem foram conturbados. De forma quase clássica, a relação com os pais, e principalmente com a mãe, não era fácil. O tio compreendia-o, as discussões que tivera com a irmã, enquanto cresciam, davam-lhe uma noção perfeita do que se passava. Mas insistia com ele que devia ter paciência. E então, um dia, deu-lhe a carta. Não eram mais do que algumas linhas, mas, mal as leu, Adão percebeu imediatamente a intenção do tio.

“Adeus, avô. Morreste, não sei com que idade. Nunca te conheci bem, por culpa minha; sabia o teu nome e o que fazias, mas não soube e nunca saberei agora quem eras. Lembro-me que uma vez me bateste e eu odiei-te por isso. Lembro-me que nunca te procurei para nada e tu nunca me deste nada. Lembro-me que nos sorríamos quase por obrigação nas poucas vezes em que nos encontrávamos, invariavelmente no Natal. Mas nunca mais sorriremos um para o outro, mesmo que por obrigação. Vi-te, nos últimos dias, deitado na cama do hospital, com os olhos e a pele amarelecidos e os pés inchados. Eram os teus últimos dias, avô, soube-o no momento em que te vi a lutar para te ergueres na cama e olhar-me de frente. Morreste, já todos o esperávamos. Carreguei-te, avô, o teu corpo inerte dentro do caixão frio, brutalmente pesado, pisou-me a palma da mão. Os teus netos choraram, avô, os teus filhos gritaram, avô, e eu não percebia, não sentia, não chorava. E então pregaram a tampa que te cobriu e ainda hoje te cobre, avô. E levaram-te e pousaram-te e taparam-te com terra, avô, e então chorei, como o mais novo dos meus primos, os teus netos, agarrados uns aos outros porque nunca mais te veríamos, avô, e eu nunca te iria conhecer. Adeus, avô, perdoa-me.”

Adão fecha os olhos e adormece. Eva tem um braço pousado no peito dele. O jovem começa a sonhar. Vê o tio, sentado num café, a conversar com o bisavô, viu-o em fotografias, o homem de quem herdou o nome. Numa mesa, um pouco atrás destes, está Eva, sozinha. Adão serve-lhe um café. Não trocam palavras, sorrisos ou olhares. São desconhecidos. Amanhã é o penúltimo dia em Cabo Verde.

18/06/2007

Conto em Cabo Verde - parte VII

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Adão é o primeiro a acordar. A secura da boca prova que ressonou, sem dúvida por estar virado de barriga para cima. Eva está deitada ao lado dele, aliás, quase em cima dele, a cabeça pousada no seu peito. “Pelo menos não se foi logo embora… Bolas, dói-me os tomates…” Adão interrompe os próprios pensamentos para levantar, suave e silenciosamente, o telemóvel. “Três da manhã? Bem, ainda é cedo, acho eu. A que horas é que ela disse que a mãe acordava? Bah, quando acordar que se preocupe ela com isso!” Eva parece ter-lhe ouvido os pensamentos. Começa a acordar, lentamente. A mão pousada sobre o peito dele estremece e começa a mover-se na direcção da barriga, desenhando-lhe riscos esbranquiçados na pele morena. Com alguma maldade e muita provocação, arranha-lhe suavemente o mamilo.

- Au. – protesta Adão, com um sorriso.

- É para aprenderes. – retribui Eva – Que horas são?

- Três da manhã, vi mesmo agora. A que horas tens de ir?

- Já me queres pôr daqui para fora? – Eva mantém-se imóvel.

- Bem… – Adão tem um sorriso trocista nos lábios e um certo temor nos olhos – A julgar pelas últimas noites, tu não precisas da minha ajuda para saíres à pressa…

Eva ergue-se na cama, passa uma perna por cima de Adão, senta-se sobre a sua barriga e debruça-se sobre ele, prendendo-lhe, ou tentando, os pulsos. Adão não consegue deixar de sorrir perante o movimento dos seios dela.

- Tu gostas mesmo de ser um filho da mãe sacana, não gostas?

- Querida, uma mulher nua em cima de mim faz e diz o que quiser de mim, mas isto de ter os pulsos presos... – com dois movimentos rápidos, Adão solta os pulsos e inverte as posições, ficando ele em cima dela, a prender-lhe as mãos – … não é para mim.

Ficam a fitar-se durante uns segundos, como se medissem as palavras antes de as dizerem. Por fim, é Adão que avança:

- Queres falar do que se tem passado ou nem por isso? É que estas últimas noites não têm sido muito normais e nem estou a falar do sexo com uma desconhecida, com isso posso eu bem, é mesmo do facto de, bem, de tu fugires a sete pés pouco depois de acabarmos e das duas uma, ou tu finges realmente bem os orgasmos e afinal ficas desiludida ou então tens um problemazinho qualquer no sótão. – Adão aponta com o queixo para a testa de Eva, aproveitando para respirar – Ora tendo em conta que tens voltado para repetir a dose, deixa-me ser convencido e deduzir que tens gostado, o que significa que o Tico e o Teco não estão a carburar a 100%...

- Uau… – é a resposta de Eva, passado algum tempo depois de Adão se calar.

- Que foi?

- Estou a tentar decifrar tudo o que disseste, seu gajo do Norte!

- Ah, sua… – Adão solta-lhe as mãos e passa-lhe rapidamente os dedos pelas ancas e pela barriga, levando-a a soltar um par de gargalhadas incontroladas – Goza agora, anda, goza! – pára quando a cara de Eva está tão vermelha que parece que vai explodir - Bom, mas afinal queres falar ou não?

- … Espera, deixa-me recuperar o fôlego… Parvo… Bem, é assim, na primeira noite, quando acabamos, adormeceste e não quis acordar-te, por isso fui embora. E ontem não gostei nada do que me disseste no fim. Pronto, foi isso.

- No fim? Mas eu disse alguma coisa no fim?

- Vês?! Por isso é que fui embora!

- Mas o que é que eu disse?! Não me digas que perguntei se gostaste, isso é do pior e se foi isso, atiro-me já da janela!

- Não.

- Mas então o quê?

- Pensa.

- Pá, são três da manhã, estou a precisar de um banho, aliás, estamos os dois e o sangue acabou de me escorrer todo para o outro cérebro, se é que me percebes, por isso não comeces com coisas...

- Amo-te… – diz Eva, insegura.

- Hum… Ok, tudo bem, mas diz-me o que foi que te disse que te enfur…

- Foi isso que me disseste, estúpido! – interrompe ela.

- O quê?!

- Tu disseste “Amo-te”.

- Eu?! – Adão tem o ar mais incrédulo que consegue fazer neste momento.

- Sim, tu!

- Mas, mas… Ouve, eu… Pá, mas qual é o problema?

- O problema é que, primeiro, disseste sem sentir, o que é óbvio, tendo em conta que nem te lembras, e, segundo, porque, quando disseste, deu para perceber que é algo que te sai com frequência, ou seja, fizeste-me sentir como uma pêgazinha qualquer que tu engatas por aí!

O silêncio torna-se desconfortável para ambos, mas nenhum sabe o que dizer ao certo.

- Olha, eu não estou à espera de nada nesta relação ou lá o que isto é, – começa Eva, por fim – mas há duas coisas que eu não quero: magoar-me e sentir-me uma pêga.

- Quanto ao pêga, ok, tens razão e peço desculpa. Sim, é verdade que o digo com alguma frequência e nunca com sentimento. Ou raramente com sentimento. Mas, quanto ao magoar-te… – Adão aproxima o seu rosto do de Eva – Aquilo que nós andamos a fazer, tendo em conta que vamos embora daqui a duas noites, não deve dar tempo para magoar, certo? – prende o olhar nos olhos dela, como se tentasse ler a resposta directamente da sua alma. Eva não responde, nem com o olhar, nem com a boca.

Acabam por se beijar, em silêncio, e por fazer amor, perdão, por fazer sexo, não amor, que isso pode magoar.

29/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte VI

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- Olá a todos, eu sou o Edson e sou o vosso guia na excursão à ilha. Vamos partir já, só tamos à espera de duas pessoas que tão ali na recepção.

Adão sabe de quem se trata. Já está sentado no banco de trás da camioneta há uns bons quinze minutos. Foi dos primeiros a entrar e reconheceu quase toda a gente que chegou no mesmo dia que ele. Faltam duas pessoas, Eva e a mãe desta. “Nem sequer penses nela, ignora-a, não fales com ela, não olhes para ela, não respires sequer na direcção dela. Ignora-a. Ela é doida, só pode, é doida!” Adão abre a janela para afastar o calor. “Ignora-a, esquece-a, foi só uma queca. Ok, duas.” Está absolutamente decidido a ignorar Eva, como se pode ver pelos seus pensamentos. O problema é que não está a contar com a roupa de Eva desse dia. Olha na direcção da entrada do hotel no preciso momento em que Eva e a mãe saem. O queixo cai-lhe. Eva traz uma saia branca quase transparente, revelando, por baixo, o biquini preto às bolinhas brancas. Mas é a parte de cima que deixa Adão perdido em imagens das noites anteriores. O top esverdeado à sua frente não é transparente, mas é como se fosse: Eva não vestiu a parte de cima do biquini e o vento empurra o tecido fino de encontro ao seu corpo, revelando cada contorno, cada saliência. Apercebendo-se da própria figura, a boca aberta, a cara encostada ao vidro, Adão pigarreia e olha em frente. Não o admitindo, sente um ligeiro ciúme em relação aos outros homens que também se aperceberam na roupa de Eva. “Tarados! Cabrões! E com as mulheres ao lado! Eu ao menos estou solteiro!”. As duas mulheres entram pela porta de trás da camioneta, passando mesmo em frente a Adão e à família.

- Bom dia, bom dia! – começa a mãe de Eva – Desculpem, estávamos a pedir água na recepção e nem reparamos no tempo a passar!

Eva olha de soslaio para Adão, que repara no olhar fugidio e fica a observar o movimento das ancas dela à medida que procura lugar para se sentar. Vão separados por cinco, seis lugares.

- Bom, já tamos todos, vamos partir. Nós agora vamos pra Santa Maria, a cidade mais importante e maior do Sal. Fica aqui pertinho, quase dá pra ir a pé, mas não vale a pena levantarem-se. – Adão ouve tudo com meio ouvido, todos os sentidos virados para o banco de Eva. Quase lhe sente o cheiro. Nem se apercebe do tempo passar. – Como podem ver, as cidades no Sal são simples, as casas maiores normalmente são de emigrantes, maioria italianos.

- Ali podem ver distribuição de água potável. A água da torneira não se pode beber, já devem saber disso. É que aqui já não chove a sério… – Adão interrompe, no seu cérebro, o discurso de Edson. Já sabe que na ilha já não chove a sério há mais de quinze anos, só chuvisca de longe a longe. E, por momentos, esquece também Eva. Agora só consegue reparar nas famílias diante de si, nos garrafões, nas latas, nos alguidares. Ao longe, à sombra de uma árvore, sentada ao lado de um cão com diversas peladas a descobrir-lhe o corpo, vê uma criança a chorar. A esta distância não consegue percebe se se trata de um rapaz ou de uma rapariga, mas passa-lhe pela cabeça que a criança chora, não por causa de desgraça ou da necessidade, mas porque queria estar ao lado (nem à beira, nem ao pé…) da mãe e dos irmãos mais velhos, entretidos na fila, enquanto aguardam vez para encherem o máximo de recipientes que conseguirem depois carregar. Passa-lhe pela cabeça que devia ter pedido uma garrafa de água extra na recepção, seria fácil, pela janela da camioneta, dar essa garrafa a alguém. A camioneta prossegue, mais umas voltas, umas curvas e Edson recomeça – Bom, agora vamos pra Norte, pra Espargos, perto do aeroporto. Espargos chama-se assim porque italianos chegaram lá e começaram a plantar espargos. Daí o nome. Depois vamos pra Palmeira, a Oeste. É na Palmeira que se faz o tratamento da água do mar e também lá fica a central eléctrica da ilha. Vamos só passar lá pra ir pra Buracona. O caminho aí nem é terra batida, é pedra batida, vamos dar muitos saltos! – o sorriso de Edson leva os turistas a pensar que se trata de uma brincadeira. Pouco mais de meia hora depois, já ninguém se ri, simplesmente seguram-se o melhor que podem – Eu avisei! – conclui Edson, ainda a sorrir.

A Buracona fica encostada ao mar. De um lado, o deserto, pedras, terra, um dos poucos montes da ilha, do outro, simplesmente, o mar. O nome vem de um buraco no meio das rochas, um poço natural que o mar e a erosão trataram de escavar. Até à água, segundo Edson, são cerca de nove metros, até ao fundo são cerca de vinte e cinco. É habitual ver mergulhadores a explorarem a gruta que dá acesso ao mar. É um percurso que lhes demora quinze minutos, por isso, obviamente só mesmo com botijas de oxigénio se pode lá ir. Mesmo ao lado, há uma piscina, também ela natural. Edson convida os turistas a mergulharem, mas com cuidado, há partes bastante fundas e que normalmente são usadas para aqueles que querem mergulhar das rochas mais altas. Adão apressa-se a despir-se até aos calções de praia, deixando-se levar pela beleza do local e pelo calor que se faz sentir, apesar do vento. Atira-se, sem hesitação. Já lá dentro, vê Eva, a nadar a uns metros de si. Fecha os olhos a imaginá-la a vestir o biquini às escondidas. Alguns minutos depois, o guia chama os turistas para se secarem porque têm de partir para Este, vão atravessar o deserto e ver a Miragem.

Pó. Muito pó. Há várias camionetas carregadas de turistas a atravessar o deserto. Todos os motoristas tentam ultrapassar os demais para fugir à nuvem de areia que as rodas levantam. É um autêntico bailado. As camionetas param quase em uníssono, no meio de nada. Edson faz-se ouvir:

- Como podem ver, tamos no meio do deserto. Aqui só há areia. Esta zona é conhecida como Terra Boa, porque antes fazia-se agricultura. Toda a gente da ilha tinha campo próprio, mas quando a água acabou, foi tudo embora. Agora olhem para trás. – todos se viraram para Norte – Tão a ver aquele monte ali e a árvore? Não tem nada lá, mas parece que tão metidas na água! – As máquinas desatam a disparar, ainda que incertas de que conseguirem captar a ilusão de óptica. Adão fotografa também e fica por uns instantes a admirar o vazio à sua volta. Então, fecha os olhos e tenta imaginar como seria a ilha há duas, há três décadas, coberta de verde, amarelo e vermelho de uma ponta à outra. Quando volta a abrir os olhos, Eva está de frente para ele, a observá-lo e, como que se lhe lesse os pensamentos, sorri-lhe.

Já na camioneta, seguem para Este, para Pedra Lume, uma cidade que quase não o é, já que as casas se contam pelos dedos de uma mão. Edson é daqui, conta, com um brilho nos olhos. A cidade só serve para a distribuição de sal para o arquipélago de Cabo Verde. É aqui que fica a cratera do vulcão que criou a ilha do Sal, que passou a ser usada como salina para a extracção do sal. É já depois do almoço, oferecido por um restaurante na praia, a cinco metros do mar, que atravessam o túnel, escavado à mão por escravos cabo-verdianos há séculos atrás, que dá acesso à cratera. Edson aponta para os postes velhos que serviam de base para o teleférico que, há muitos anos, facilitava o transporte do sal até às refinarias. Deixou de se usar porque agora só se extrai sal quando alguma ilha do arquipélago encomenda. O grupo avança na direcção do centro da cratera. Ao longe, vê-se uma estreita ponte de areia que separa dois pequenos lagos, um de água azul, directa do mar, e outro de água cor-de-rosa, tonalidade dada pelo sal que se forma no fundo. É esta água que Edson descreve, orgulhosamente, como sendo 25 vezes mais salgada do que a do mar, tão salgada que é fácil flutuar livremente nela, até dá para ler o jornal. Diversos turistas experimentam essa sensação de flutuar livremente, sem o menor esforço de se manterem à superfície da água. O único inconveniente é que esta água, ao mínimo arranhão que se possa ter no corpo, arde como se fosse álcool e, mesmo sem arranhões, torna-se irritante na pele e é por isso que, por um preço simbólico, é possível tomar banho em chuveiros construídos de propósito para esse efeito. Adão sorri quando ouve “preço simbólico”, mas sua expressão assume imediatamente um ar mais sério: lembra-se que o “preço simbólico” é mais um meio de subsistência. Apesar de pele que começa a arder e a tornar-se branca de sal, Adão afasta-se um pouco do restante grupo e dirige-se a um monte branco, de sal, claro. Tem curiosidade em tocar no sal bruto, mas as pontas dos dedos raspam imediatamente na dureza do monte; o sal parece petrificado.

O caminho de volta para o hotel é estranho. Seguem sempre junto ao mar. Passam por outras cidades, Feijoal, por exemplo, mas são cidades minúsculas, com casas por acabar e miúdos a brincar na rua. Na camioneta ninguém fala, nem sequer o guia, limitam-se a olhar pelas janelas e a admirar tudo, desde a barbearia “Benfica”, à mercearia da esquina, sem placa a indicar o nome. Cerca de meia hora depois, chegam ao hotel. Edson despede-se com um sorriso, espera que todos tenham gostado da excursão.

Adão, já no quarto, acaba de se vestir, depois de tomar banho. Bate à porta dos pais e saem os três, para jantar. Vêem o espectáculo dessa noite, cómico, e depois recolhem aos quartos.

É já meia-noite quando alguém bate à porta de Adão. Com um sorriso, este abre a porta e confronta Eva.

- Tive esperanças que trouxesses esse top... – sussurra ele.

- Eu calculei, reparei na tua cara quando me viste. – brinca ela.

- Pena não teres trazido a saia. Mas isso também é tudo para tirar, por isso… – nesta altura, já Adão aperta Eva contra o seu corpo.

22/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte V

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Adão acorda, nu, em cima de uma cama quase sem lençóis. Não fosse o preservativo – que nem se lembra de ter posto, mas que, felizmente, ali está – tombado ao lado da cama, teria a certeza que a noite anterior tinha sido apenas um sonho. Um sonho confuso, absolutamente estranho, mas “agradável, impecável, digno de contar”, pensa ele a sorrir enquanto coça uma virilha. Levanta-se e apressa-se a ir à casa de banho, a bexiga já não suporta mais demoras por disparates. Depois volta para junto da cama, apanha o preservativo e, como é óbvio e desnecessário dizer, deita-o ao lixo. Olha-se ao espelho. Tem ainda os olhos vermelhos do sono, está despenteado e precisa de fazer a barba. Começa por esta última necessidade, depois lava os dentes e enfia-se no chuveiro. Eva acorda nesse instante.

A mãe ainda dorme pesadamente na cama ao lado. Nem estremeceu nessa noite, quando Eva chegou e se despiu para tomar banho, lavando-se com muito mais empenho do que o necessário, por algum motivo queria tirar o cheiro de Adão do próprio corpo. Levanta-se, abre ligeiramente as cortinas e, já na casa de banho, debruça-se sobre o lavatório para lavar a cara. Quando o cabelo lhe cai sobre o rosto, sente um misto de incredulidade e de espanto. O cabelo ficara com o cheiro da noite anterior. Apressa-se a entrar no chuveiro, lava a cabeça ainda com mais empenho do que umas horas antes.

Adão já está fora do quarto, com os pais ao lado. Caminham na direcção do restaurante do hotel, para o pequeno-almoço. Embora não o admita, embora tente nem pensar nisso, leva a cabeça levantada, como se procurasse alguém. E, claro, está mesmo à procura de alguém. Mas não vai ter sorte, ou, pelo menos, não a sorte que queria ter. A mãe de Eva – que até poderia ter nome, não fosse o facto de ser absolutamente irrelevante para a história e de não haver nomes bíblicos anteriores a Adão e Eva – só agora acorda, zonza com o efeito dos medicamentos, tão zonza que até lhe parece que a filha está às voltas com o cabelo, penteia, despenteia, volta a pentear, mas isso é um disparate, Eva “nunca foi tão vaidosa ao ponto de vir de férias e estar tanto tempo a tratar do cabelo”, pensa ela, espreguiçando-se na cama para sacudir o sono.

Quando Eva chega ao restaurante, já Adão vem a sair. As duas famílias cumprimentam-se, um simples “bom-dia” e o sorriso da praxe, nada de muito íntimo, nada de muito caloroso, apenas a cordialidade suficiente para que nenhuma das partes se sinta ofendida. Ao passarem um pelo outro, Adão não resiste e “escorrega” na direcção de Eva, num movimento tão subtil que mais parece que estavam a interpretar o “Lago dos Cisnes”… Mas sem os tutus. Eva sente-se estúpida por corar, ainda que ligeiramente, Adão sente-se grandioso, ainda que estupidamente.

Hoje é domingo, não há nada para fazer. A única diferença em relação aos outros dias é que hoje realmente é suposto não se fazer nada. Ainda assim, Adão sente um bichinho a começar a roer. Nunca foi pessoa de estar muito tempo parada, já desde criança. Naquela altura, quando era pequeno e inocente, não havia crianças hiper-activas; havia crianças sossegadas e crianças irrequietas. Adão caía na última categoria. Assim, passou o dia a nadar, primeiro no mar, depois na piscina do hotel, cheio de uma energia que vinha não sabia bem de onde. Talvez a recordação da noite anterior o deixasse excitado, em todos os sentidos. Sem dúvida que a expectativa de que a noite anterior se pudesse repetir o deixava excitado, em todos os sentidos.

A noite chegou. O jantar passou. Adão está no quarto, parado há meia hora na mesma página do livro. Nos seus pensamentos, as personagens misturam-se com as imagens do corpo de Eva. Os seus dedos esfregam o papel das folhas como se percorressem a pele de Eva. A tinta preta das letras do livro enrolam-se como os pêlos de Eva. Se mudasse de página, o som das folhas fariam o mesmo som que os gemidos de Eva. Eva. É tudo o que ele vê nesse momento, quando leva, calmamente, a mão para dentro dos calções e se começa a tocar. É, no entanto, interrompido por um bater na porta. De um salto, está de pé, nem se deu ao trabalho de procurar o marcador de páginas, atirou o livro para cima da mesa e abriu a porta. Era o pai.

- Já viste? A mouraria empatou!

Adão sente-se desconsolado.

- Ah sim? – tentou disfarçar – E o jogo valeu alguma coisa?

- Podes ver logo, vai dar na RTP África. Mas vê lá se te deitas cedo, que amanhã vamos à excursão, lembras-te?

- Sim, sim, já sei. Não te preocupes… – Adão nunca teve paciência para estas preocupações com horas, porque na verdade nunca chegava atrasado ao que quer que fosse.

- Até amanhã.

- Até amanhã. – Adão fecha a porta devagar. Volta a pegar no livro e ainda não tinham passado cinco minutos, voltam a bater à porta – Outra vez? Chato…

Era Eva.

Desta vez, não falaram, não houve espanto, não houve surpresa, não houve hesitação. Adão agarrou Eva e puxou-a para dentro do quarto, sentindo-se uma espécie de Neandertal dos tempos modernos. Eva não esboçou ponta de resistência. Deixou-se levar, cedeu a todas as vontades do corpo, o seu e o dele. Se ontem era Adão que se sentia arder com desejo, hoje ardem os dois, numa pira de suor, beijos e fricção. E quando por fim param, com Adão a pensar se as sessões de natação desse dia não o deixaram mais cansado do que pensava, ficam deitados, desta vez de frente um para o outro e os braços e pernas entrelaçados. Hoje olham-se, observam-se. Ele acaba por dizer:

- Amo-te.

Eva fica calada, por um instante, menos de um instante, para dizer a verdade. Levanta-se de repente, sem que Adão reaja por não perceber o que se está a passar, – Que foi?! Onde vais?! – veste-se, – Ei, anda cá! – e sai do quarto. Adão vem à porta, mas a súbita aragem que sente nos genitais lembra-o que está nu.

- É doida… Olha, até deixou aqui as cuecas…

14/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte IV

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Eva entra, antes mesmo de ser convidada e perante o total assombro de Adão. Este, de olhos arregalados como se acabasse de ver o rosto de um qualquer deus (ou deusa, neste caso), quase não consegue segurar o queixo. Eva acaba de entrar no seu quarto. Adão não consegue acreditar. O espanto passa, aos poucos.

- Hum... Sim? Precisas de alguma coisa? Eu por acaso estava ocupado. - Adão ainda se lembra demasiado bem dessa tarde.

- Ah sim? – Eva pega no livro pousado em cima da cama – “O Cemitério de Pianos”, José Luís Peixoto. Sim, percebo, ocupadíssimo…

- Ei, isso é problema meu, ok? Afinal, que queres? – Adão tira-lhe, com uma calma calculada, o livro da mão e pousa-o na mesinha de cabeceira – Que estás aqui a fazer a estas horas? - Sente-se ridículo e, acima de tudo, velho: em Portugal, meia-noite seria mais ou menos a hora em que começava a escolher um filme para ver noite dentro, mas aqui, Cabo Verde, África, o tempo e a noção que se tem dele é completamente diferente.

- Hum… – Eva hesita, também com uma calma calculada, por breves momentos; olha em volta; senta-se num canto da cama – Falar. Sim, queria falar contigo.

Ao olhar para aquele cabelo castanho claro, para aquela cara ainda demasiado vermelha e, subtilmente (pelo menos assim o pensa), para aquele decote, Adão não consegue deixar de sorrir para dentro e de pensar em diversas outras coisas que incluem a boca sim, mas não propriamente falar. Para tentar disfarçar a cara e, principalmente, os olhos de desejo, vira-se e caminha em direcção a uma garrafa de água, pousada numa mesa ao lado da cama. E é ainda de costas que responde:

- Falar? Pois, pois, se correr tão bem como esta tarde…

- Isso foi diferente!

- Ai sim? E por quê? – de garrafa na mão, faz um gesto a oferecer um copo.

- Não, obrigada. E foi diferente porque eu estava mal disposta e porque apareceu um tipo atrás de mim que eu não conheço de lado nenhum a seguir-m…

- Eu disse-te que não te estava a seguir! – interrompeu Adão – E além disso, se fui eu que te segui, como é que tu é que me vens bater à porta? – o sorriso de lado e a sobrancelha erguida denunciam-lhe uma arrogância momentânea.

- Porque eu reparei nos teus olhos de cãozinho maltratado quando ias a entrar no quarto. – agora é Eva que sorri, percebendo que com esta frase acabou de pisar a arrogância do jovem em frente a ela – E porque não queria que o menino fosse para a cama com peso na consciência.

- O quê?! Olha, já percebi que a tua mãe te faz as vontades todas, isso vê-se à distância. – Adão começou a disparar – Já calculei que os teus pais devem estar separados e por isso é que vocês estão aqui as duas sozinhas. E imagino que a tua mãe anda contigo ao colo para, sei lá, tentar que não te sintas mal com o divórcio, mas eu não tenho nada com is…

- O meu pai morreu.

- O quê?!

- O meu pai morreu. Fez ontem um ano que o meu pai morreu. A minha mãe quis sair de Portugal para não ter de passar pelas missas, pelas recordações, pelo manter das aparências com a família. Não há divórcio nenhum, o meu pai morreu. – Eva ainda estava a falar quando se levantou e se começou a dirigir para a porta. Adão tem, mais uma vez, os olhos arregalados, sem saber onde se meter. Eva leva uma mão ao puxador, Adão agarra-a pela outra.

- Espera! Desculpa. Desculpa, ok? Foi estúpido da minha parte. Foi… Pronto, fui estúpido.

Eva não se vira. Se olhada de longe, pareceria um espantalho, os braços abertos, agarrada a uma porta e agarrada por uma mão. Adão tenta olhá-la nos olhos. Eva enfrenta-o; não chora, mas os olhos brilham.

- Estúpido. – diz simplesmente. Afasta-se da porta, em direcção à janela. Espreita, por momentos, a lua a brilhar – Dás-me água?

- Sim, claro! – Adão apressa-se a encher um copo e aproxima-se de Eva – Toma. – agora, sim, ela chora – Ei, então? Anda, vá, calma... – pousa o copo, abraça-a, diz-lhe – Pronto, tem calma… – e beija-lhe a testa. Ela mete as mãos por dentro dos calções dele e aperta-lhe as nádegas. – Ei?! Que estás a fazer?!

- Cala-te. Por favor, cala-te e faz amor comigo.

- O quê?!

- Faz amor, faz sexo, fode-me, como lhe quiseres chamar, mas, por favor, o meu pai morreu há um ano, a minha mãe está totalmente drogada com anti-depressivos e soporíferos e eu sinto-me completamente sozinha! Por favor, faz am... – Adão não a deixa acabar a frase. Beija-a. Despem-se. Deitam-se. Tocam-se. Ele penetra-a. Não o faz por amor. Não o faz por pena. Fá-lo por desejo. Fá-lo porque a quer desde o primeiro momento em que a viu, no avião. Fá-lo porque o maldito calor de África a isso obriga, como se soltasse raios de luxúria em vez de luz. Fá-lo até o corpo de ambos estar tão dorido que já não aguentam mais. E então deitam-se um ao lado do outro, sem falar, sem se olharem, quase sem se tocarem. A ventoinha que gira no tecto, mesmo por cima dos seus corpos nus, alivia-lhes, lentamente, o calor. Adão acaba por adormecer. Eva veste-se, bebe o copo de água que ficou à espera em cima da mesa e sai do quarto.

11/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte III

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Adão acorda. Hoje é Sábado, este é já o terceiro dia que passa em Cabo Verde. Ontem pôde confirmar o que o guia disse no dia da chegada, o tempo custa muito a passar. São sete da manhã e já se sente o calor pelas cortinas fechadas. A luz que paira lá fora aquece, chega mesmo a queimar, apesar de filtrada pelos vidros. Do outro lado, o lado de fora do conforto, do ar-condicionado, do mini-bar e da cama desfeita, há um jardineiro de areia. A água é o bem mais precioso da ilha e mesmo a da torneira, não potável como já tínhamos visto, é poupada, não tanto pela (im)possível escassez do mar, mas talvez mais pelo simbolismo de não desperdiçar água. O jardineiro alisa e organiza a areia que o vento empurrou durante a noite e só depois se dirige aos pequenos canteiros espalhados pelos jardins amarelos do hotel. Adão vem à janela, sente o vento na cara, no corpo, nas cortinas que esvoaçam quarto adentro e cerra os olhos, ainda mal habituados ao sol. Leva a mão à testa, para conseguir ver melhor, e o jardineiro, vendo nisto um cumprimento, solta um olá. Adão acena-lhe e baixa a cabeça numa vénia. Sorriem um para o outro. Depois, cada um prossegue, o cabo-verdiano retoma o que estava a fazer, a ajeitar areia e a regar cactos e palmeiras e outras plantas que são o único verde do hotel, e o turista olha para o céu, à procura de nuvens, por pequenas que sejam, para que o dia seja suportável. Volta para o quarto. Fecha a janela. Eva sai para a varanda. A mãe dorme ainda, pesadamente, os comprimidos ajudam. Debruça-se, casualmente, sobre o parapeito, olha para um lado, depois olha para o lado do quarto de Adão, ninguém, olha em frente, o jardineiro diz-lhe olá e ela retribui-lhe com um bom-dia. Senta-se na varanda, em biquini, virada para o sol, coloca os óculos de sol, liga o leitor de mp3 e fecha os olhos, à espera. A mãe só acorda daí a uma hora ou duas. Adão volta a sair para a varanda, traz um livro na mão, despe a t-shirt que lhe serviu de pijama e senta-se, a ler. O cabo-verdiano sorri para os turistas. Nenhum dos dois se apercebe.

Na praia, o vento no corpo e as nuvens no céu arrefecem Adão. Está esticado numa espreguiçadeira, de barriga para cima, mãos atrás da cabeça a servir de almofada. A cabeça, ou melhor, o pensamento está na água. Sente calor, sim, tem vontade de ir para a água, sem dúvida, mas o tempo custa muito a passar. A preguiça é muita, a vontade de a combater é nula. Foi isto que Luís quis dizer no outro dia, mas o respeito – e a necessidade de emprego – forçou o eufemismo. Adão decide-se. Levanta-se, tira os óculos de sol e vira-se para o mar. Desafia o pai para ir dar um mergulho.

Eva, sem saber, está alguns metros afastada de Adão. Esqueceu-se, ou fez por se esquecer, do protector nessa manhã, na varanda. Tem o corpo vermelho, os lábios estalados e secos e a cabeça lateja. A mãe obrigou-a a ficar à sombra, mesmo junto ao bar da praia. A música irrita-a, a mãe irrita-a, a dor irrita-a. Pede à mãe a chave do quarto.

Adão sai do mar, vai para a toalha, os pais já foram tomar banho para almoçar, ele vai agora. Vê Eva ao longe, sozinha. Sai disparado na direcção dela.

- Olá, então tudo bem?

Eva quase não o reconhece. Pára, vira-se na direcção dele e responde:

- Sim, está tudo óptimo como se pode ver pela minha cara!

- Eh pá, esse look de camarão… Ui, isso normalmente é mais coisa de ingleses! – Adão sorri e leva uma mão à nuca.

- Olha que simpático… – Eva está sem paciência, recomeça a andar. Adão revira os olhos e recomeça a andar também. Vão a uma pequena distância um do outro, como já tínhamos visto, os respectivos quartos são próximos. Eva não percebe isso e dispara:

- Queres alguma coisa?

- Muitas coisas, para dizer a verdade, mas a que te referes em concreto? – agora é Adão quem começa a perder a paciência.

- Que vens fazer atrás de mim? – empina-se Eva.

- O quê?! Olha, quem não sabe o que tu queres sou eu, mas, pelo que percebi, o teu quarto fica à beira do meu…

- À beira? – Eva sorri pela primeira vez no dia – És do Porto, não és?

- Oh bolas… O teu quarto é AO PÉ do meu e sim, sou do Porto… Sim, já sei, nós dizemos coisas de maneira diferente, mas não, antes que perguntes, não digo cimbalino e, praticamente, já ninguém no Porto diz isso! – Adão não queria soar brusco, mas a verdade é que roçou a aspereza no discurso.

Eva vira-lhe as costas. Ele leva a mão à testa. Só se voltam a enfrentar quando estão a entrar nos quartos. Adão olha-a fixamente, diz que lamenta com o olhar. Eva devolve-lhe o olhar por uns segundos. É a primeira a entrar no quarto.

Anoitece, finalmente. A tarde passou muito lenta, muito mais lenta do que a manhã ou o dia anterior inteiro. Custou tanto a passar que Adão acabou um livro e está já a começar outro. Custou tanto, tanto que nem vale a pena dar a menor descrição do que aconteceu. Mas agora vai ser tudo mais rápido. Já jantou, já esteve no bar com os pais, já viu o espectáculo nocturno do hotel, já vestiu a espécie de pijama que trouxe e já está sentado na cama a ler. É quase meia-noite e Adão já está de rastos. Alguém bate à porta, levemente. Adão revira os olhos e pensa “O que é que ele quer agora?”, presumindo que “ele” é o pai. Abre a porta.

Eva sorri-lhe.

07/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte II

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- Olá a todos, chamo-me Luís e estou aqui pra explicar algumas coisas de Cabo Verde. Tamos na ilha do Sal e vamos agora partir pra sul, pro hotel, que fica perto de Santa Maria. É uma viagem de duas horas. – a camioneta tem capacidade para não mais de vinte pessoas. É uma camioneta velha, ferrugenta e, como é fácil de prever, sem ar condicionado. Ao ouvir as palavras do guia, os quase vinte passageiros levantaram a cabeça, em desespero – Tou a brincar, a ilha só tem 28 km de comprimento e 11 km de largura, o aeroporto fica a meio da ilha, daqui a 15 minutos chegamos ao hotel.

Ele, o tipo da primeira parte e de quem, propositadamente, ainda não se sabe o nome, sorriu com a forma relaxada como o guia falava. Sorriu porque reconheceu a maneira de ser típica dos povos que passam dificuldades, quanto menos têm, mais alegres se mostram. No entanto, o Luís, como insistiu em ser tratado, parecia ter algo de mais genuíno, não de uma simpatia forçada, mas sim por estar a receber visitantes, a famosa hospitalidade. Mas, tentando resolver um problema relativo a narração, o tipo, obviamente uma personagem central deste conto, tem nome. A questão é que esse nome deverá permanecer em segredo até quase ao final da história, não por uma questão de birra, mas sim para escapar à tal batota de que já falamos. Vai daí, chamemos-lhe Adão. E como todo o Adão tem que ter a sua Eva, a passageira que o deslumbrou e que vai sentada uns lugares à sua frente, passa a ser conhecida como Eva.

Na verdade, demoraram 20 minutos a chegar. Nada de alarmante, abriram-se janelas, espreitaram-se as primeiras paisagens, as primeiras planícies de pó, as primeiras planícies de lixo, as primeiras construções e o mar, claro. O que o Luís não disse é que a parte onde o hotel fica é a parte mais estreita da ilha, que não tem mais de 6 km de largura, o que significa que, tendo em conta que a estrada fica quase a meio, se vê o mar dos dois lados, quase como se se estivesse a atravessar uma ponte larga. A ideia que Adão tinha de Cabo Verde era de um país quente, seco e acolhedor. Não sabia que esta ilha em concreto só sobrevivia graças ao turismo.

- Aqui, na ilha do Sal, não há agricultura. Chove 2 ou 3 vezes por ano e é coisa pouca, não molha nada. Se forem na excursão, vão ver onde eram os campos, mas agora é tudo deserto. – Luís já faz isto há bastante tempo. Sabe que os turistas querem ver tudo, sabe que fotografam tudo, desde as escolas dos miúdos aos próprios miúdos. Desde que trouxessem dinheiro, iam e viam tudo o que quisessem – Chegamos ao hotel. Façam o check in e vão ter autocolantes com o número do quarto, depois tirem as malas da camioneta e colem os autocolantes e depois o bagageiro trata de tudo. Bom, agora são três menos um quarto, como eu aprendi a dizer com os portugueses; vão aos quartos se quiserem e tentem voltar aqui na recepção às cinco pra vos explicar algumas coisas. Não esqueçam que aqui é menos duas horas do que em Portugal. Ah e não bebam água da torneira, nem ponham na boca.

Adão empurrou os pais atrás de Eva e da mãe desta, na fila para o check in. Viajavam as duas sozinhas. Quando a questão dos quartos e dos autocolantes estava tratada, Adão, como um adolescente na puberdade, apressou-se a oferecer ajuda às duas mulheres para tirarem a bagagem da camioneta. A conversa foi esperta, deu para descobrir que iam ficar à distância de algumas portas. Conseguiu perceber que eram de Lisboa. Não lhes conseguiu apanhar o nome.

- Há pouco disse pra não beberem água da torneira porque não é potável. Aqui não temos água potável, só engarrafada, a água de torneira é água do mar tratada. Se a água do mar acabar, temos que ir embora. – dizia esta piada a todos os grupos, sabia que funcionava sempre. Repetiu-lhes que há já bastante tempo que a ilha não tinha agricultura, tudo o que era fruta e legumes vinha das outras ilhas, Santo Antão e Santiago, principalmente, onde chovia e onde a paisagem era mais verde. Quando as ilhas foram descobertas, eram todas verdes, daí o “Cabo Verde”, mas depois o clima foi alterando e tiveram de se adaptar. Avisou contra o sol, que queimava mesmo, que ele próprio tinha nascido branco e que tinha sido o sol a escurecê-lo, outra piada que sabia que funcionava sempre – O sol aqui queima mesmo sem dar fé. Pra perceberem, lá em Portugal vocês têm temperaturas de 40º graus e passam mal, aqui no Verão se chega aos 30º caímos pro lado. Nós mesmo, os cabo-verdianos. – depois falou-lhes do hotel. Deu mais alguns conselhos. Por fim, falou na tal excursão, que seria daí a 4 dias. O dia acabou. – Aqui anoitece cedo e amanhece muito cedo. E o tempo custa muito a passar pra vocês.

Adão sorriu. Eva reparou.

04/05/2007

Conto em Cabo Verde - parte I

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- Uma hora. Mais uma hora e tudo se precipita. – ele remexe o saco; passa por óculos de sol, livro e maços de lenços – De que é que estou à procura? – pára um instante – De nada, quero é guardar o que tenho.

Apesar do travessão, esta frase não foi dita, foi, sim, pensada, sentida, acima de tudo. Este é o último dia das férias que passou em Cabo Verde, ironicamente, o dia mais azul e limpo da semana. O vento sopra, como de costume, mas a falta de nuvens faz com que o calor que se imagina típico de África se faça sentir com mais intensidade. Mas este é apenas um momento de um dia de uma semana de férias. A história começou vários dias antes e nenhuma história deve começar pelo fim, isso é batota.

Acordou às 05h30 de uma quinta-feira. O pai, na noite anterior, dissera-lhe que às 06h00 teria de estar a pé, o táxi apanhava-os às 06h15 para seguirem para a estação de Campanhã. Estamos, portanto, no Porto, em casa de uma família que se prepara para ir de férias para Cabo Verde, como, de resto, já tínhamos visto graças à tal batota de começar pelo fim. Acordou, com aquele nervoso miudinho de quem enfrenta um voo um pouco mais longo, quatro horas não será um tempo infinito para uma viagem de avião, mas já há muito tempo que não fazia férias prolongadas com os pais. Há coisa de oito anos, mais ou menos.

- Isto não vai correr nada bem. - disse ele para a almofada. Ao fim de alguns segundos – Vá, sabes bem que queres ir, tira o cu da cama e veste-te, amanhã já estás na praia com as mocambas! – esta palavra valera-lhe uma repreensão de um amigo e arrancara gargalhadas de uma amiga. Ao primeiro lembrou que não era racista e que aquilo era só uma brincadeira, à segunda não disse nada, simplesmente cantarolou “Diga bom dia à mocamba, mocamba, mocamba!”, imitando um qualquer anúncio de uma qualquer bebida servida ao pequeno-almoço. Vestiu-se então e, por um instante, não pensou na viagem. Desceu. Tomou o pequeno-almoço com os pais, quase sem dizer palavra, a esta hora ainda podia refugiar-se no sono. O táxi lá apareceu.

Alfa-pendular. Não se lembrava de alguma vez ter usado esse comboio específico. Em pequeno, tentando, mais uma vez, contar a história de início, enjoava ao mínimo baloiçar. Tinha vómitos quando a mãe usava cotonetes para lhe limpar os ouvidos. No carro, quando os pais visitavam amigos da região perdida de Entre-os-rios, havia uma clareira junto à estrada onde era obrigatório parar, não para respirar ar puro e apreciar a deliciosa vista sobre o Douro, mas para vomitar. Repetidamente. Sonoramente. Quase inexplicavelmente. Alfa-pendular. Meia hora depois de o comboio partir, concluiu, sem margem para dúvidas – O “pendular” é por causa da merda do baloiçar. – A adolescência, as viagens para a universidade, a capacidade de abstracção que foi adquirindo, trouxeram-lhe alívio aos problemas com o enjoo. O alfa-pendular fê-lo sentir que tinha outra vez 10 anos. Duas horas e meia de solavancos, de calores e suores frios em simultâneo, de não saber se ia melhor de pé, sentado, junto ao ar-condicionado, trancado na casa-de-banho, o comboio a abanar, a sacudir, para cá, para lá, agora arranca, agora abranda, depois acelera, sacode, esquerda, direita, abranda, esquerda, direita, acelera, esquerda, direita, cambaleia para a casa-de-banho, esquerda, vomita, direita, vomita, esquerda, lava a boca, direita, vomita. Sentia a cara e as costas geladas e os braços e as pernas a escaldar. Por fim, tudo parou. Em Lisboa, pois claro. Em Santa Apolónia, porque não? O avião estava à distância de um táxi.

No aeroporto, sentia-se um zombie. Imaginava-se amarelo, imaginava que estaria amarelo ao ponto de ouvir “Vai pra tua terra, ó chinoca!” gritado por um qualquer idiota de cabeça rapada e suástica tatuada num braço. Imaginava-se, porque não teve coragem de se ver ao espelho. Mas, seguindo, no aeroporto, às 11h00, fez-se o que se faz sempre num aeroporto, quando se vai de viagem: check-in o mais cedo possível, para fugir a confusões, algo que o pai (quase) forçava. Os passaportes. A revista em busca de objectos metálicos. O pai já a dar um ar de sua graça, a querer passar à viva força com uma garrafa de água, quando minutos antes haviam comentado que era proibido. A espera para o embarque. O embarque. O pôr a bagagem no sítio da bagagem. O sentar. O levantar voo. O olhar para o lado e ficar deslumbrado com uma passageira.

03/04/2007

Vontade de haver

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Carrego no play para não te ver. No ecrã, a Natalie Portman faz um striptease para o Clive Owen. Na minha cabeça, o filme que passa agora é uma desculpa para não te ver, para não ver nada, para não sentir, para não ouvir, não pensar. Mesmo diante dos meus olhos, está uma das mais belas actrizes do mundo a despir-se diante de outro homem e eu, qual voyeur escondido atrás dos arbustos, observo tudo calmamente, como se o tempo tivesse parado no preciso momento em que uma falha de vestuário revela mais da israelita do que o contracto previa. Natalie, querida, eu juro que carreguei em pause sem querer, foi um reflexo, nada mais, dança, por favor, continua a dançar, para cá e para lá, simula até ao fim, por favor, esse orgasmo, essa explosão de prazer que culmina com o teu corpo franzino a ofegar por ar. Continua, Natalie, brilha até o filme acabar, porque até tu tens de acabar, mas por agora dança e não me deixes pensar nela. É que ao contrário de ti, ela não tem cara, nem corpo, nem alma, não é sequer um fantasma, que esses são do passado e esta só pode ser do futuro, não, esta não és tu, querida e baixa Natalie, esta não chega a ter altura de tão pequena que é, não tem sequer cabelo que me leve a guardar uma mecha num qualquer livro de relativa importância para mim. O palco é teu, minha pequena stripper de peruca cor-de-rosa, usa-o e enche-o com a tua presença, a tua beleza, pois claro, o teu corpo franzino, luzidio e suado que, como dizia o outro, apetece como um gomo. E sim, eu tenho fome, do teu corpo, dos teus seios que realmente parecem dois montinhos que amanhecem sem ter que haver madrugada, sim, tenho a fome do lobo que uiva à lua, sozinho no meio do monte, escondido por entre as sombras. E sim, vejo-te apenas para não a ver, porque não a posso ver, porque não há o que ver, nem o que sonhar, nem o que recordar, porque não há nada. Apenas a vontade de a ver.

Maldição escrita

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Ora bem, visto que há quase um mês que não escrevo aqui, deixo uma maldição aos hipotéticos leitores. Aviso-vos de que isto é arriscado e devem ler apenas se tiverem estômago e tomates para isso. Hum... Bom, estômago e tomates ou mamas para isso. Eh pá isto não vai correr nada bem, 3 linhas e já disse tomates e mamas!
Há uns dias, estava calmamente agarrado à cadeira a ver vídeos de supostos fantasmas no youtube, quando me surge um vídeo filmado em Sintra. Achei tanta piada que me dei ao trabalho de ler os comentários. A determinada altura surge um comentário tipo aquele aviso telefónico no filme "The ring": em não sei quando, uma criatura qualquer foi assassinada por outra criatura qualquer, se não colares esta mensagem em não sei quantos vídeos, dentro de não sei quantos dias a criatura assassinada aparece para te matar/enlouquecer.
Como achei giro (principalmente por causa do pessoal palerma que não só colava aquilo como ainda deixava um aviso no início para não lerem a maldição...), decidi criar eu próprio uma maldição.
Por favor, não leiam o que se segue!
Num ano qualquer, que tanto pode ter sido há dois como há três, um tipo de aspecto manhoso e cabelo oleado matou 5 top-models à chapada. Se não enviares este texto, via sms, a pelo menos 5 pessoas, elas vão aparecer junto à tua cama ao fim de cinco dias para praticarem sexo desenfreado contigo a noite toda e, de manhã, desaparecem e nem chegas a perguntar se foi bom. Cuidado, se fores mulher, elas transformam-se em indivíduos de grande porte virilhal.
Já agora, aproveitando outro mito bestial, por cada sms enviada, a Vodafone, a Optimus e a TMN dão um milhão de euros a marcianos famintos e um bónus de carregamento de 500 euros. Foste avisado.
PS: genial, genial, era daqui a um mês estar a receber esse sms no telemóvel!

08/03/2007

O tipo que enlouqueceu

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As sombras continuam a sair das paredes. Umas atrás das outras, como se brincassem à apanhada, a saltitar, a correr, aparecem e desaparecem pelo canto do olho, de frente, de todo o lado. Vejo-as agora ainda mais claramente, não sei se pelas paredes serem mais brancas do que quaisquer outras paredes brancas que vi, se pelos comprimidos que me forçam garganta abaixo todos os dias. Não me deixam escolher entre azul ou vermelho, os enfermeiros não se vestem com roupas pretas, casacos de couro e óculos de sol como me lembro do "Matrix", eu não sou o Keanu Reeves e eles não são o Lawrence Fishburne, isto não é sequer um pesadelo. E pensar que fui eu que pedi ajuda. As sombras espreitavam-me por cima do ombro e fugiam quando as confrontava; agora falam comigo, riem-se de mim, gozam com a minha figura ridícula vestido com umas calças de pijama brancas e os braços amarrados na barriga pela camisa-de-forças. Para o meu próprio bem, disseram eles. Pois, claro, não deve ter nada a ver com o facto de ter partido um braço ao enfermeiro que me apareceu numa das minhas crises… como é que era? Ah sim: “acessos temporários de loucura provocados por alucinações relacionadas com sombras vivas”. Claro que quando perceberam que ainda conseguia usar as pernas e a cabeça, começaram a dar-me pastilhinhas brancas, rebuçados “Floco de Neve”, não fosse o incrível sabor amargo e a dormência que me percorre o corpo pouco depois. E não é só o corpo que enfraquece, a minha cabeça também vai ao ar, ou ao chão, talvez seja mais correcto. É nessa altura que elas aparecem. Apontam-me o dedo, sim, porque agora são figuras completas, braços, pernas, cabeça e olhos, oh meu deus, olhos, tenebrosos, escuros, mais escuros ainda do que o resto do corpo, e falam entre elas, oiço-as comentar o fio de baba que me escorre da boca, o cabelo desgrenhado, o ombro quase deslocado por me tentar soltar da camisa, os pés em sangue de pontapear a porta, e riem-se, riem-se de mim e eu berro e grito e uivo e elas riem-se ainda mais alto como se tentassem abafar a minha angústia, como se me desafiassem a gritar acima delas, como se quisessem que eu gritasse acima delas, como se soubessem que os meus gritos enlouquecem os enfermeiros a tal ponto que, um por um, todos eles acabam por entrar nesta sala e por me espancar, de mão aberta, para não deixar marcas piores dos que as que eu deixo em mim próprio. Eles, tal como as sombras, sabem o que fazem e eu, assombrado por elas, espancado por eles, tento agarrar-me a uma pontinha de sanidade, a tentar lembrar-me de como era a vida antes de tudo isto, a declamar poemas que li, a cantarolar músicas que ouvi, a sentir o calor do sol na cara e o vento gelado na espinha, o sabor do sushi a deslizar pela garganta e a rever… a ver… as sombras… as sombras! As sombras, deus, as sombras!

07/03/2007

(algo que não costumo fazer, mas olha apetece-me)

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Desafio lançado por Pinky...
Sete coisas que faço bem:
1- gabar-me de que sou bom cozinheiro.
2- gabar-me de que sei ouvir.
3- gabar-me de que descubro o final de filmes e séries a meio dos filmes e episódios.
4- gabar-me de que sou conciliador.
5- gabar-me de que tenho jeito para biscates.
6- gabar-me de que tenho poderes de jedi.
7- gabar-me de que vejo... vultos.

Sete coisas que não posso/não sei fazer:
1- voar.
2- ler mentes.
3- manter uma cara séria em situaçãos tensas e/ou constrangedoras.
4- rezar.
5- enumerar as renas do Pai Natal.
6- deixar de ver filmes.
7- falar de mim.

Sete coisas que digo:
1- "Ahahahahahah"
2- "Merda."
3- "Já passaram 5 minutos desde a última vez que disse Carolina?"
4- "Golo!"
5- "Pois, é isso."
6- "Ya."
7- "Oh não, mais um desafio no blog..."

Sete coisas que me atraem no sexo oposto:
1- serem o sexo oposto.
2- olhos.
3- pernas.
4- seios.
5- suportarem-me.
6- aparecerem quando se marca um encontro.
7- cérebro.

Sete pessoas para serem celebridades (hein?!)
1- eu, por ainda me dar ao trabalho de aceitar estas coisas que ninguém vai ler e se alguém realmente vier a ler, vou entrar em pânico por falar de mim.
2- o meu cão, Puki, que é um sacaninha que me está sempre a ferrar nas mangas das camisolas ou a tentar reproduzir com a minha perna.
3- o meu pai, por ainda acreditar que o Pinto da Costa é inocente e nunca cometeu qualquer crime excepto o meter-se com uma alternadeira que odiava o Benfica e agora é benfiquista desde pequenina.
4- o dia 15 de Março, porque foi o primeiro dia que vi quando olhei para o calendário.
5- este questionário, porque não sei o que mais escrever.
6- ai era só pessoas?!
7- o tipo das finanças da Maia que me aconselhou a não pedir os recibos verdes em Dezembro porque o ano fiscal ia acabar e depois eu ia ter que fazer qualquer coisa que não percebi e fiquei tão embasbacado que em vez de perguntar "o quê?" só me saiu "ah ok obrigado".

Sete pessoas a quem quero passar esta maldição:
1- a Deus (que terá de provar que existe).
2- à Halle Berry (que terá de me aparecer no quarto, uma noite destas).
3- à Benedita Pereira (que terá de vir fazer companhia à Hale Berry).
4- à Capicua (que lá terá de usar os comentários para responder).
5- ao senhor do Staring at the sea (que nem sequer vai ler isto)
6- à menina do Borras (que não vai ligar nenhuma a isto)
7- ao senhor do Modern love (que encerrou o blog sem dizer nada a ninguém?!?!?!?)
8 (porque sabe sempre bem espalhar maldições!)- à Just a girl (que em princípio também terá de usar os comentários).
9- à negrovioletasuave (que é mais uma pobre alma que aparece aqui e que nem deve saber bem porque o faz)

O tipo dos olhos pretos

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O meu reflexo tem os olhos pretos. Vejo-me no vidro deste carro. Oiço ao longe uma coruja piar, o bicho da morte que anuncia mais uma partida. Os cães em todo o redor uivam. Bato à janela do lugar de passageiro para chamar a atenção do condutor, que não sei nem me interessa quem é. Estou aqui para lhe pedir boleia, mas vou ficar com algo mais. Ele olha-me espantado, o jogo do gato e do rato começou. Há qualquer coisa que não bate certo, eles apercebem-se sempre disso, mas raramente descobrem o que é e deixam-se levar. Peço-lhe que me deixe entrar, digo-lhe que fui assaltado a poucos metros dali e que tenho medo de que os ladrões voltem, que fiquem sem nada, dinheiro, telemóvel, nem sequer tenho trocos para ligar a alguém ou para me meter no metro. Por esta altura, ele, como todos os outros, já está a tremer e o sexto sentido diz-lhe que ele tem de sair dali, o mais depressa possível. É nessa altura que os olho nos olhos. Os meus olhos são pretos, sim, mas não como seria de esperar. São completamente pretos, negros como se no sítio onde deviam estar os olhos estivessem apenas dois buracos, janelas que não dão para lado nenhum, buracos negros que não reflectem nada, nem luz, nem imagens, nem emoções. É então que eles se deixam levar. Abrem-me a porta, dizem-me para entrar. E eu entro. Quase sempre consigo o que quero depois de os olhar nos olhos e aqueles que escapam raramente conseguem explicar o que lhes aconteceu. Devia sentir-me mal, envergonhado pelo que lhes faço, mas a verdade é que há muito deixei de sentir o que quer que seja e é por isso que estou aqui. Eles têm algo que eu quero e não tenho. Eles têm vida. Por agora.

10/02/2007

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A minha amiga foi para a Holanda e tudo o que eu recebi foi esta maldita saudade...

08/02/2007

Carta de amor a uma desconhecida.

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Segue-me, nem que seja com o teu olhar, a tua curiosidade já me basta para que perceba que tu e eu realmente existimos, neste mundo, neste tempo, separados apenas pela incerteza e pela indecisão, como se se tratasse de um campo de minas que temos de atravessar estando vendados, tacteando com os pés, de braços no ar, com medo de que o próprio chão nos engula e nos roube parte do ser. É a primeira vez que nos vemos, mas eu amo-te, desde sempre te amei para dizer a verdade, e não por um qualquer cliché que dizem os tipos do cinema “não havia vida antes de ti”, mas porque sempre esperei por ti como se fosses o próximo fôlego que preciso de dar para continuar a viver. Sim. Amo-te. Amo-te como se desde sempre te tivesse conhecido e finalmente, um dia, me tivesse apercebido de que não poderia nunca viver sem ti, de que não quereria nunca viver sem ti. Amo-te porque à noite as estrelas brilham e porque de dia o céu é azul. Amo-te e por isso esta noite decidi escrever-te esta carta, porque precisaria de abrir o peito com as próprias mãos para te mostrar que há muito que o meu coração bate o teu nome a cada gota de sangue, uma e outra e outra vez, como se te chamasse para que juntes o teu peito ao meu, para ouvir o teu coração chamar por mim, numa batida uníssona, como se existisse não dois, mas um único coração. E sim, não te conheço, mas amo-te, porque não preciso de te conhecer para te amar, basta existirmos os dois.

02/02/2007

A morte dos heróis

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Lembro-me bem da noite em que eles apareceram. Foi em Dezembro, uns dias antes do Natal. A cidade estava fria, claro, mas ainda assim eles vieram. Eram quatro no início. Continuavam a ser quatro no fim...
Já ninguém usa o nome original da cidade, há anos que toda a gente lhe chama Inferno, mas não foi sempre assim. Tudo piorou depois de eles desaparecerem, os crimes, os assaltos, as mortes, alguns pontos da cidade são autênticos campos de batalha nas mãos dos barões de droga e dos traficantes de armas. A polícia? A polícia manteve-se limpa num mundo de corrupção, por estranho que pareça, mas isso fez com que perdessem força, apoio, recursos, todos os políticos têm os bolsos cheios de dinheiro sujo e não interessa quem está no poder. Todos fomos obrigados a ficar, o poder central forçou a construção de um muro, Golias, como lhe chamamos, que cerca toda a cidade, “ninguém entra” foi o pretexto que usaram, mas a verdade é que “ninguém sai” e esse é o verdadeiro objectivo do maldito. Estamos isolados do resto do mundo. Mas há uns anos estivemos no topo desse mesmo mundo, fomos a primeira cidade a ter super-heróis.
Quando eles apareceram, a cidade estava enterrada na mais profunda escuridão, o excesso de população tinha completamente deitado por terra o sistema de alimentação eléctrica. Durante o dia foi engraçado ver que nada do que estávamos habituados a ter funcionava, computadores, escadas rolantes, o metro, foi talvez o dia menos produtivo e mais divertido do ano. Mas depois chegou a noite. É uma reacção estranha quando os nossos vizinhos disparam contra qualquer ruído da escuridão, por medo. O número de pais que dispararam contra os próprios filhos nessa noite seria o suficiente para preencher os jornais e telejornais de uma semana, juntamente com todas as pilhagens, violações e outros e inúmeros crimes. E foi nessa noite que eles chegaram, quando mais precisávamos deles, eles vieram. Três mulheres, um homem, um grupo que deu origem a muitas piadas, primeiro sobre a virilidade de um homem disposto a percorrer a cidade no meio de três mulheres e, mais tarde, sobre aquilo que esse mesmo homem faria às companheiras. Piadas contadas apenas como brincadeira, ninguém, nem mesmos os criminosos conseguiam deixar de ter respeito. Eles não tinham poderes mágicos, não voavam, não tinham alta tecnologia para os proteger, limitavam-se a estar onde eram precisos. E a ajudar quem precisava e foi isso que os tornou únicos. Como é óbvio, o crime desceu e a própria polícia dependeu, por vezes, da ajuda de cada um deles. As ruas pareciam mais seguras, mas, claro, o crime nunca deixou de existir realmente.
Primeiro, tememos. Depois, agradecemos. No fim, odiamos. E agora choramos. Uns anos depois de aparecerem, foram ligados a um ataque terrorista. Não cometeram qualquer crime, mas um político, corrupto, como viríamos a descobrir, lançou o mote de que o “mal” só aparecia na cidade para contrapor o “bem” que eles representavam. Os média agarraram essa ideia como se fossem náufragos agarrados a uma bóia. Supostamente, os criminosos escolhiam fustigar a cidade para os derrotar. Curiosamente, foram as milícias civis que acabaram por os matar. A Mini Cat foi empurrada de uma varanda, porque pensaram que estava a assaltar uma casa. A Pink Avenger ficou presa numa casa em chamas. O Strangeman e a J-Woman não resistiram ao linchamento quando a população finalmente os apanhou. E esse foi o fim. A cidade rejubilou com as notícias, o “bem” tinha morrido, o “mal” acabaria por voltar para a toca. Mas nada aconteceu como o esperado. O “bem” era, na verdade, como um dique que empurrava o mal para trás e quando esse dique rebentou… Tudo aconteceu muito depressa. Num mês, choraram-se cinco ataques com bomba em escritórios, lojas, escolas. A situação tornou-se propícia para o crime, o tráfico de droga, tudo o que estivesse para lá da lei e fosse rentável era visto como uma carreira de futuro. Foi então que se construiu o muro, como se se cortasse uma perna para evitar que a gangrena matasse o resto do país. E agora choramos pelos nossos heróis.

18/01/2007

O tipo que queria ganhar o Euromilhões, mas só conseguiu um 3

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A notícia deixou-me de boca aberta. Na semana passada, joguei no Euromilhões. Andava desesperado, sem emprego, só tinha algum dinheiro de lado graças a uns biscates que fui fazendo. Decidi apostar tudo no Euromilhões e tentei fazer uma daquelas apostas múltiplas. Ao todo, gastei 1512€ para poder escolher nove números e quatro estrelas. O prémio tinha de ser meu, sentia que era o meu dia e, quando anunciaram que o primeiro prémio tinha saído para Portugal, soube que era meu. Mas não era. Quando vi os números, percebi que só tinha conseguido um 3. Um mísero 3, dois números e uma estrela, o último prémio, 8€ por 1512€. Desmaiei. E, quando acordei, foi como que o começo do Inferno para mim. No dia seguinte, os meus pais descobriram essa loucura e praticamente expulsaram-me de casa pela irresponsabilidade. Não podiam continuar a dar abrigo a alguém que não respeitava o dinheiro. Não me pediram para sair, mas eu percebi a mensagem. Não havia problema, ficava em casa da minha namorada. Mas, definitivamente, as coisas não corriam bem. Ela acolheu-me, sim, mas disse que tinha de ser uma coisa temporária, em parte porque não conseguia aceitar que eu tivesse feito algo tão infantil, em parte porque se estava a apaixonar por outra pessoa. Não aceitei a esmola, o abrigo, preferia dormir na rua a ser um empecilho. E assim aconteceu. Vendi a maior parte das minhas roupas, a maior parte das minhas posses também, mas ainda assim isso não era o suficiente para alugar uma casa. Passei duas noites ao relento até que tive uma ideia. Fiz-me passar por estudante e aluguei um quarto numa casa perto de uma universidade qualquer. A vida tinha de recomeçar e, mais do que nunca, precisava de um emprego. Parecia tudo saído de um pesadelo, em menos de vinte e quatro horas perdi pais e namorada e tinha dormido num banco de jardim. Mas o pesadelo ainda não tinha acabado. Nas notícias, disseram que o prémio tinha saído a nove pessoas, uma "sociedade”, e aposto que os sacanas também jogaram como eu. Os pulhas! Aquele prémio devia ser meu, todo meu e não de uns quaisquer labregos de uma terreola qualquer. A minha revolta deve ter sido proferida alta demais e, não tendo bem a certeza do que disse, foi ouvida pelos senhorios, que não acharam piada nenhuma aos meus comentários. Fui novamente expulso. Mas, agora que sabia o que devia fazer, arranjei logo outro quarto. O pior é que só tinha dinheiro para a primeira renda. Tinha passado praticamente uma semana, no dia seguinte seria dia de Euromilhões mais uma vez, mas desta vez não tinha como fazer uma mísera aposta que fosse. Agora tinha de roubar quando tinha fome ou de pedir nas ruas. Veio sexta-feira, o dia de extracção. Acordei determinado. Com fome, a barba de uma semana, praticamente só com duas mudas de roupa que já cheiravam mal. Nessa manhã, abordei um passador de droga numa rua deserta. Fiz-me passar por drogado e, quando ele virou costas para ir buscar o produto, matei-o à pedrada. Remexi-lhe os bolsos à procura de dinheiro e de outra coisa mais, uma arma. E lá estava ela. Já matei o primeiro, agora, os nove que ganharam o prémio que devia ser meu, vão ser canja. Nem me vão ver a cara. De alguma forma vou descobrir quem são. Agora tenho de ir a casa, ou melhor, ao quarto. Talvez consiga matar os meus senhorios sem ninguém dar por isso e, com um pouco de sorte, a polícia só os vai descobrir quando já os outros nove filhos da puta estiverem mortos e aí já não interessa, eu próprio já não devo estar vivo.

11/01/2007

O tipo que descobriu um ovni

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O tipo usa óculos. É baixote, magricela e tem a cara cheia de acne. Espirra ao mínimo grão de pó e não seria capaz de levantar 10 kg, mesmo que a sua vida dependesse disso. É o típico marrão. Na porta do quarto, está um cartaz igual ao do Fox Mulder, “I want to believe” em letras gigantes e, por trás, algo que parece ser um disco voador, mas semelhante aos discos voadores dos filmes antigos. Suponho que na cabeça dos marrões quase crentes da cientologia, os extraterrestres são mais avançados do que nós, sim senhor, mas têm um sentido de estilo muito retro. Se calhar até usam afros… Mas saltemos esta parte para dizer simplesmente que, amanhã, este típico marrão pode tornar-se na pessoa mais conhecida do mundo. Tudo porque descobriu um ovni.

São 23h00 e o marrão está cansado. Esteve a tarde toda a jogar Star Wars, on-line, e depois do jantar começou a ver, pela enésima vez, a trilogia do Senhor dos Anéis. É realmente marrão, este tipo. Os olhos começam a fechar, por isso decide deitar-se, mas primeiro quer cumprir um ritual que segue desde há meses: abrir o Google Earth e procurar o carro da miúda mais gira lá do bairro. Esta história seria bem mais interessante se não estivesse cheia de clichés, mas suponho que a própria vida seja um grande e vicioso cliché, daí as frases que se repetem até à exaustão em tudo o que é acontecimento social, seja um funeral e os seus “não somos nada”, seja o casal que começa a namorar estando um deles tão bêbedo que no dia seguinte só consegue dizer “não me lembro de nada”. A vida é, portanto, um grande cliché e a deste marrão não foge à regra. Mas, dizia eu, este marrão abriu o Google Earth e procurou o próprio bairro. O hábito tornou este processo quase automático, mas hoje é diferente. Hoje, por cima da imagem da sua casa, há uma luz, ou melhor, uma bola de luz com cauda, algo semelhante a um cometa. Ora o marrão, habituado que está a ver os Ficheiros Secretos, soube imediatamente o que era aquilo: um ovni. O que raio estava um ovni a fazer nos arredores de uma cidade-arredores do Porto não interessa, aquilo é um ovni e está tudo dito e quem não acreditar é um grande Cigarette Smoking Man! Oh quantas vezes usou esta piada com os amigos marrões… Oh como todos eles se riram, como se fossem balões que se esvaziam enquanto se lhes aperta o bocal... Oh quantos deles tinham mesmo de recorrer à bomba da asma de tanta boa-disposição estridente… Oh quantos marrões não há por este país fora…

Estamos, portanto, diante da presença de um ovni. Temos um marrão, um ovni e um telefone, que entretanto se foi buscar assim do nada, mesmo à mão. E que faz o marrão? Liga, não para as notícias, mas para a miúda mais gira do bairro. Ai e tal, descobri um ovni. Tu deves é ser maluco para me ligar a esta hora com uma história dessas! A sério, é mesmo um ovni! Vai-te fod#§! E pronto acabou o telefonem do marrão e da miúda gira. Ora o marrão sente-se triste. Tanto trabalho a encontrar uma imagem que praticamente lhe surgiu do nada no monitor e a miúda gira não lhe liga nenhuma. A vida não faz sentido. E quanto a alertar as notícias, que interessa que haja vida inteligente no universo para além da nossa se a miúda gira lá do bairro não nos liga nenhuma? Nada. E foi isso que o marrão decidiu fazer: nada. Desligou o computador e deitou-se.

Já de manhã, apercebeu-se que tinha os lençóis molhados. Tinha sonhado com outra miúda gira que não a do bairro. Isto foi não só a sua primeira experiência sexual, mas também a primeira vez que traiu alguém. E quem não acredita é um grande Cigarette Smoking Man!

PS: eu não tenho nenhum poster a dizer "I want to believe", mas a verdade é que não sei o que isto é... Sugestões?

25/11/2006

A minha irmã vai casar e eu só recebi um fato estúpido!

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Sim, é verdade, a minha irmã casa hoje e estou a aproveitar para fazer um trocadilho parolo com aquelas t-shirts parolas que dizem "my [qualquer coisa] went to [um sítio qualquer] and all I got was this lousy shirt". Daqui a pouco tenho de vestir uma camisa que mais parece uma camisa de dormir DE GAJA (?!?!?!), vestir o fato, fazer o nó da gravata e calçar umas barbatanas tamanho 46 que fazem toctoctoc quando ando... É oficial, vou deixar o legado das gravatas do Astérix e do Snoopy ao meu primo... A ver vamos, ao menos, se vou de crista! Bom, pela primeira vez, vou aparecer à família com fato completo. Não riam, é uma ocasião especial, afinal de contas, a minha irmã vai sair de casa (?).
...
Vou resistir à piada fácil de dizer "YES!"
...
Não, não vou! YES!!!
Adiante...
O meu pai está na cozinha a tocar acordeão, tal é o nervoso miudinho, a minha mãe acabou de chegar da cabeleireira (estes dias são sempre iguais, certo?) e eu não consigo deixar de pensar "será que alguém tem o número da Mayra Andrade que me arranje?!" Se alguém tiver, que me faça o jeitinho, por favor, quero ser escravo dela para o resto da vida! Ainda por cima, Cabo Verde fascina-me...
Eh pá, esta miúda...

16/11/2006

diálogo sob a lua de Poe II

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O tipo está alagado em suor, quase me dá pena. Mesmo assim, meto-lhe a pistola na boca e seguro-me para ele não me ver a rir pelo disparate homossexual em que acabei de pensar.

- Tens alguma coisa a dizer? – sempre adorei o Fight Club, faço questão de usar esta frase sempre que despacho alguém – Bem me parecia que não. Mas tem calma, não te preocupes, não vai ser assim.

Ele tem as mãos atadas atrás das costas e está a um metro de mim, de joelhos e, agora que lhe tirei a pistola da boca e o voltei a amordaçar, inclinou-se, com a testa encostada ao chão. Pelo menos parou de lutar; de certeza que já ouviu falar de mim – reconhecem-me pela cicatriz do queixo – e sabe que desta noite não escapa.

- Diz-me, gostas de bifes grossos ou finos? – a pergunta deixa-o tão perplexo que se endireita rapidamente e fica a fitar-me num misto de espanto e confusão - É só para saber... – vejo este olhar sempre que faço esta pergunta. Quando me vêm, todos aqueles que caço sabem o que lhes vai acontecer, sabem o que fizeram para eu andar atrás deles e sabem que nunca ninguém me escapou, mas só as vítimas conhecem esta parte do meu trabalho e esses… digamos que não conseguem falar muito bem depois de eu tratar deles.

- Tu sabes quem eu sou, li-te isso nos olhos mal me viste e tentaste fugir. Mas tens essa vantagem sobre mim, sabes? Não faço a mais pequena ideia de quem és, do que fizeste ou de quem me contratou para te apagar. Como deves saber, quando sou contratado limito-me a discutir o pagamento – metade antes, metade depois de enviar uma prova em como o serviço está feito –, dizem-me o alvo e eu trato do assunto mal a primeira prestação entre na conta. Não faço perguntas acerca de Porquê, não me fazem exigências em termos de Quando. Às vezes tentam pedir-me o Como, mas isso depende sempre de mim. A única coisa que não sou eu que decido é o tipo de provas a apresentar. A maior parte pede umas simples fotos, mas já tive pedidos menos canónicos. Não imaginas a complicação que é enviar um coração humano pelos correios…

Ele começa a chorar e baixa de novo a cabeça. A lua cheia, amarela e melancólica, reflecte-se na cabeça húmida dele como uma auréola. O Douro ondula com a brisa que se faz sentir, chega-me o cheiro de algas e de peixe e o barulho de carros em aceleração competitiva.

- Não és muito falador, pois não? – este meu humor quase sádico é outra coisa que ninguém conhece, mas de certeza que todos suspeitam, ninguém se torna assassino a soldo só porque está desempregado – Bom, a noite já vai longa e tu já deves estar farto de mim, vou explicar o que te vou fazer. – nesta altura, todos tentam fugir. Todos. Mas este não pode. O sacana ainda tentou dar luta quando o apanhei, acertou-me um murro e tudo! Claro que sossegou quando lhe dei um tiro no pé. Ok, nos dois pés.

- Sabes, é sempre um risco matar alguém. Não sei se vês o CSI, mas os sacanas descobrem sempre tudo. Claro que se não houver corpo, não há nada para descobrir… O que eu faço é muito simples: mato-te e esquartejo-te. Calma, calma, – ele começa outra vez a debater-se mal houve a palavra esquartejar – nem sei porque estás assim! A sucessão é primeiro morres e só depois é que te esquartejo, nem chegas a sentir nada. – ele acalma-se, como todos os outros antes dele. É curioso que é sempre a ideia de dor que os assusta e não a da morte – Mas como eu dizia, depois de te esquartejar, ainda assim tenho de resolver a questão de o que raio faço com os bocados? Podia fazer uma coisa tipo Brick Top no Snatch, conheces esse filme? O Brad Pitt a falar à cigano irlandês está incrível, não achas? – não me responde, nem com um aceno – Bom, mas a verdade é que com as inspecções de higiene nas pocilgas, torna-se complicado aparecer numa quinta com 70 kgs de carne, acho que é mais ou menos isso que pesas, e dizer “Olhe, dê isto aos seus porcos e não ligue às características humanas da carne!”. Bem, descobri que é muito mais fácil vender a carne directamente a uma grande superfície. É só comprar uma carrinha frigorífica para a coisa parecer real e consigo sempre fechar negócio, eles estão sempre demasiado ocupados, quase nem olham para os certificados de qualidade falsos e acabo por passar por um desgraçado que não conseguiu vender a carne toda no talho do costume e estou a tentar fazer um dinheirinho extra. É assim simples. Claro que não lhes posso vender a cabeça, as mãos, etc, mas essas partes carbonizo, desfaço o que sobrar na picadora que viste na mala da carrinha frigorífica e basicamente espalho as cinzas no cimento de alguma obra da cidade, e obras, como se sabe, é coisa que não falta nas cidades. Nunca ninguém chega a descobrir corpo porque não há corpo.

Parou de chorar. Neste momento, sei que se lhe tirar a mordaça nem sequer tenta gritar, limita-se a rezar, sabe que não tem como escapar disto. Respiro fundo, levanto os olhos ao céu e olho, por uns segundos, a lua cheia amarela, digna de um conto de Poe. E é então que lhe aponto a pistola à testa e pergunto outra vez:

- Diz-me, gostas de bifes grossos ou finos?