03/04/2007

Vontade de haver

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Carrego no play para não te ver. No ecrã, a Natalie Portman faz um striptease para o Clive Owen. Na minha cabeça, o filme que passa agora é uma desculpa para não te ver, para não ver nada, para não sentir, para não ouvir, não pensar. Mesmo diante dos meus olhos, está uma das mais belas actrizes do mundo a despir-se diante de outro homem e eu, qual voyeur escondido atrás dos arbustos, observo tudo calmamente, como se o tempo tivesse parado no preciso momento em que uma falha de vestuário revela mais da israelita do que o contracto previa. Natalie, querida, eu juro que carreguei em pause sem querer, foi um reflexo, nada mais, dança, por favor, continua a dançar, para cá e para lá, simula até ao fim, por favor, esse orgasmo, essa explosão de prazer que culmina com o teu corpo franzino a ofegar por ar. Continua, Natalie, brilha até o filme acabar, porque até tu tens de acabar, mas por agora dança e não me deixes pensar nela. É que ao contrário de ti, ela não tem cara, nem corpo, nem alma, não é sequer um fantasma, que esses são do passado e esta só pode ser do futuro, não, esta não és tu, querida e baixa Natalie, esta não chega a ter altura de tão pequena que é, não tem sequer cabelo que me leve a guardar uma mecha num qualquer livro de relativa importância para mim. O palco é teu, minha pequena stripper de peruca cor-de-rosa, usa-o e enche-o com a tua presença, a tua beleza, pois claro, o teu corpo franzino, luzidio e suado que, como dizia o outro, apetece como um gomo. E sim, eu tenho fome, do teu corpo, dos teus seios que realmente parecem dois montinhos que amanhecem sem ter que haver madrugada, sim, tenho a fome do lobo que uiva à lua, sozinho no meio do monte, escondido por entre as sombras. E sim, vejo-te apenas para não a ver, porque não a posso ver, porque não há o que ver, nem o que sonhar, nem o que recordar, porque não há nada. Apenas a vontade de a ver.

Maldição escrita

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Ora bem, visto que há quase um mês que não escrevo aqui, deixo uma maldição aos hipotéticos leitores. Aviso-vos de que isto é arriscado e devem ler apenas se tiverem estômago e tomates para isso. Hum... Bom, estômago e tomates ou mamas para isso. Eh pá isto não vai correr nada bem, 3 linhas e já disse tomates e mamas!
Há uns dias, estava calmamente agarrado à cadeira a ver vídeos de supostos fantasmas no youtube, quando me surge um vídeo filmado em Sintra. Achei tanta piada que me dei ao trabalho de ler os comentários. A determinada altura surge um comentário tipo aquele aviso telefónico no filme "The ring": em não sei quando, uma criatura qualquer foi assassinada por outra criatura qualquer, se não colares esta mensagem em não sei quantos vídeos, dentro de não sei quantos dias a criatura assassinada aparece para te matar/enlouquecer.
Como achei giro (principalmente por causa do pessoal palerma que não só colava aquilo como ainda deixava um aviso no início para não lerem a maldição...), decidi criar eu próprio uma maldição.
Por favor, não leiam o que se segue!
Num ano qualquer, que tanto pode ter sido há dois como há três, um tipo de aspecto manhoso e cabelo oleado matou 5 top-models à chapada. Se não enviares este texto, via sms, a pelo menos 5 pessoas, elas vão aparecer junto à tua cama ao fim de cinco dias para praticarem sexo desenfreado contigo a noite toda e, de manhã, desaparecem e nem chegas a perguntar se foi bom. Cuidado, se fores mulher, elas transformam-se em indivíduos de grande porte virilhal.
Já agora, aproveitando outro mito bestial, por cada sms enviada, a Vodafone, a Optimus e a TMN dão um milhão de euros a marcianos famintos e um bónus de carregamento de 500 euros. Foste avisado.
PS: genial, genial, era daqui a um mês estar a receber esse sms no telemóvel!

08/03/2007

O tipo que enlouqueceu

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As sombras continuam a sair das paredes. Umas atrás das outras, como se brincassem à apanhada, a saltitar, a correr, aparecem e desaparecem pelo canto do olho, de frente, de todo o lado. Vejo-as agora ainda mais claramente, não sei se pelas paredes serem mais brancas do que quaisquer outras paredes brancas que vi, se pelos comprimidos que me forçam garganta abaixo todos os dias. Não me deixam escolher entre azul ou vermelho, os enfermeiros não se vestem com roupas pretas, casacos de couro e óculos de sol como me lembro do "Matrix", eu não sou o Keanu Reeves e eles não são o Lawrence Fishburne, isto não é sequer um pesadelo. E pensar que fui eu que pedi ajuda. As sombras espreitavam-me por cima do ombro e fugiam quando as confrontava; agora falam comigo, riem-se de mim, gozam com a minha figura ridícula vestido com umas calças de pijama brancas e os braços amarrados na barriga pela camisa-de-forças. Para o meu próprio bem, disseram eles. Pois, claro, não deve ter nada a ver com o facto de ter partido um braço ao enfermeiro que me apareceu numa das minhas crises… como é que era? Ah sim: “acessos temporários de loucura provocados por alucinações relacionadas com sombras vivas”. Claro que quando perceberam que ainda conseguia usar as pernas e a cabeça, começaram a dar-me pastilhinhas brancas, rebuçados “Floco de Neve”, não fosse o incrível sabor amargo e a dormência que me percorre o corpo pouco depois. E não é só o corpo que enfraquece, a minha cabeça também vai ao ar, ou ao chão, talvez seja mais correcto. É nessa altura que elas aparecem. Apontam-me o dedo, sim, porque agora são figuras completas, braços, pernas, cabeça e olhos, oh meu deus, olhos, tenebrosos, escuros, mais escuros ainda do que o resto do corpo, e falam entre elas, oiço-as comentar o fio de baba que me escorre da boca, o cabelo desgrenhado, o ombro quase deslocado por me tentar soltar da camisa, os pés em sangue de pontapear a porta, e riem-se, riem-se de mim e eu berro e grito e uivo e elas riem-se ainda mais alto como se tentassem abafar a minha angústia, como se me desafiassem a gritar acima delas, como se quisessem que eu gritasse acima delas, como se soubessem que os meus gritos enlouquecem os enfermeiros a tal ponto que, um por um, todos eles acabam por entrar nesta sala e por me espancar, de mão aberta, para não deixar marcas piores dos que as que eu deixo em mim próprio. Eles, tal como as sombras, sabem o que fazem e eu, assombrado por elas, espancado por eles, tento agarrar-me a uma pontinha de sanidade, a tentar lembrar-me de como era a vida antes de tudo isto, a declamar poemas que li, a cantarolar músicas que ouvi, a sentir o calor do sol na cara e o vento gelado na espinha, o sabor do sushi a deslizar pela garganta e a rever… a ver… as sombras… as sombras! As sombras, deus, as sombras!

07/03/2007

(algo que não costumo fazer, mas olha apetece-me)

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Desafio lançado por Pinky...
Sete coisas que faço bem:
1- gabar-me de que sou bom cozinheiro.
2- gabar-me de que sei ouvir.
3- gabar-me de que descubro o final de filmes e séries a meio dos filmes e episódios.
4- gabar-me de que sou conciliador.
5- gabar-me de que tenho jeito para biscates.
6- gabar-me de que tenho poderes de jedi.
7- gabar-me de que vejo... vultos.

Sete coisas que não posso/não sei fazer:
1- voar.
2- ler mentes.
3- manter uma cara séria em situaçãos tensas e/ou constrangedoras.
4- rezar.
5- enumerar as renas do Pai Natal.
6- deixar de ver filmes.
7- falar de mim.

Sete coisas que digo:
1- "Ahahahahahah"
2- "Merda."
3- "Já passaram 5 minutos desde a última vez que disse Carolina?"
4- "Golo!"
5- "Pois, é isso."
6- "Ya."
7- "Oh não, mais um desafio no blog..."

Sete coisas que me atraem no sexo oposto:
1- serem o sexo oposto.
2- olhos.
3- pernas.
4- seios.
5- suportarem-me.
6- aparecerem quando se marca um encontro.
7- cérebro.

Sete pessoas para serem celebridades (hein?!)
1- eu, por ainda me dar ao trabalho de aceitar estas coisas que ninguém vai ler e se alguém realmente vier a ler, vou entrar em pânico por falar de mim.
2- o meu cão, Puki, que é um sacaninha que me está sempre a ferrar nas mangas das camisolas ou a tentar reproduzir com a minha perna.
3- o meu pai, por ainda acreditar que o Pinto da Costa é inocente e nunca cometeu qualquer crime excepto o meter-se com uma alternadeira que odiava o Benfica e agora é benfiquista desde pequenina.
4- o dia 15 de Março, porque foi o primeiro dia que vi quando olhei para o calendário.
5- este questionário, porque não sei o que mais escrever.
6- ai era só pessoas?!
7- o tipo das finanças da Maia que me aconselhou a não pedir os recibos verdes em Dezembro porque o ano fiscal ia acabar e depois eu ia ter que fazer qualquer coisa que não percebi e fiquei tão embasbacado que em vez de perguntar "o quê?" só me saiu "ah ok obrigado".

Sete pessoas a quem quero passar esta maldição:
1- a Deus (que terá de provar que existe).
2- à Halle Berry (que terá de me aparecer no quarto, uma noite destas).
3- à Benedita Pereira (que terá de vir fazer companhia à Hale Berry).
4- à Capicua (que lá terá de usar os comentários para responder).
5- ao senhor do Staring at the sea (que nem sequer vai ler isto)
6- à menina do Borras (que não vai ligar nenhuma a isto)
7- ao senhor do Modern love (que encerrou o blog sem dizer nada a ninguém?!?!?!?)
8 (porque sabe sempre bem espalhar maldições!)- à Just a girl (que em princípio também terá de usar os comentários).
9- à negrovioletasuave (que é mais uma pobre alma que aparece aqui e que nem deve saber bem porque o faz)

O tipo dos olhos pretos

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O meu reflexo tem os olhos pretos. Vejo-me no vidro deste carro. Oiço ao longe uma coruja piar, o bicho da morte que anuncia mais uma partida. Os cães em todo o redor uivam. Bato à janela do lugar de passageiro para chamar a atenção do condutor, que não sei nem me interessa quem é. Estou aqui para lhe pedir boleia, mas vou ficar com algo mais. Ele olha-me espantado, o jogo do gato e do rato começou. Há qualquer coisa que não bate certo, eles apercebem-se sempre disso, mas raramente descobrem o que é e deixam-se levar. Peço-lhe que me deixe entrar, digo-lhe que fui assaltado a poucos metros dali e que tenho medo de que os ladrões voltem, que fiquem sem nada, dinheiro, telemóvel, nem sequer tenho trocos para ligar a alguém ou para me meter no metro. Por esta altura, ele, como todos os outros, já está a tremer e o sexto sentido diz-lhe que ele tem de sair dali, o mais depressa possível. É nessa altura que os olho nos olhos. Os meus olhos são pretos, sim, mas não como seria de esperar. São completamente pretos, negros como se no sítio onde deviam estar os olhos estivessem apenas dois buracos, janelas que não dão para lado nenhum, buracos negros que não reflectem nada, nem luz, nem imagens, nem emoções. É então que eles se deixam levar. Abrem-me a porta, dizem-me para entrar. E eu entro. Quase sempre consigo o que quero depois de os olhar nos olhos e aqueles que escapam raramente conseguem explicar o que lhes aconteceu. Devia sentir-me mal, envergonhado pelo que lhes faço, mas a verdade é que há muito deixei de sentir o que quer que seja e é por isso que estou aqui. Eles têm algo que eu quero e não tenho. Eles têm vida. Por agora.

10/02/2007

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A minha amiga foi para a Holanda e tudo o que eu recebi foi esta maldita saudade...

08/02/2007

Carta de amor a uma desconhecida.

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Segue-me, nem que seja com o teu olhar, a tua curiosidade já me basta para que perceba que tu e eu realmente existimos, neste mundo, neste tempo, separados apenas pela incerteza e pela indecisão, como se se tratasse de um campo de minas que temos de atravessar estando vendados, tacteando com os pés, de braços no ar, com medo de que o próprio chão nos engula e nos roube parte do ser. É a primeira vez que nos vemos, mas eu amo-te, desde sempre te amei para dizer a verdade, e não por um qualquer cliché que dizem os tipos do cinema “não havia vida antes de ti”, mas porque sempre esperei por ti como se fosses o próximo fôlego que preciso de dar para continuar a viver. Sim. Amo-te. Amo-te como se desde sempre te tivesse conhecido e finalmente, um dia, me tivesse apercebido de que não poderia nunca viver sem ti, de que não quereria nunca viver sem ti. Amo-te porque à noite as estrelas brilham e porque de dia o céu é azul. Amo-te e por isso esta noite decidi escrever-te esta carta, porque precisaria de abrir o peito com as próprias mãos para te mostrar que há muito que o meu coração bate o teu nome a cada gota de sangue, uma e outra e outra vez, como se te chamasse para que juntes o teu peito ao meu, para ouvir o teu coração chamar por mim, numa batida uníssona, como se existisse não dois, mas um único coração. E sim, não te conheço, mas amo-te, porque não preciso de te conhecer para te amar, basta existirmos os dois.

02/02/2007

A morte dos heróis

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Lembro-me bem da noite em que eles apareceram. Foi em Dezembro, uns dias antes do Natal. A cidade estava fria, claro, mas ainda assim eles vieram. Eram quatro no início. Continuavam a ser quatro no fim...
Já ninguém usa o nome original da cidade, há anos que toda a gente lhe chama Inferno, mas não foi sempre assim. Tudo piorou depois de eles desaparecerem, os crimes, os assaltos, as mortes, alguns pontos da cidade são autênticos campos de batalha nas mãos dos barões de droga e dos traficantes de armas. A polícia? A polícia manteve-se limpa num mundo de corrupção, por estranho que pareça, mas isso fez com que perdessem força, apoio, recursos, todos os políticos têm os bolsos cheios de dinheiro sujo e não interessa quem está no poder. Todos fomos obrigados a ficar, o poder central forçou a construção de um muro, Golias, como lhe chamamos, que cerca toda a cidade, “ninguém entra” foi o pretexto que usaram, mas a verdade é que “ninguém sai” e esse é o verdadeiro objectivo do maldito. Estamos isolados do resto do mundo. Mas há uns anos estivemos no topo desse mesmo mundo, fomos a primeira cidade a ter super-heróis.
Quando eles apareceram, a cidade estava enterrada na mais profunda escuridão, o excesso de população tinha completamente deitado por terra o sistema de alimentação eléctrica. Durante o dia foi engraçado ver que nada do que estávamos habituados a ter funcionava, computadores, escadas rolantes, o metro, foi talvez o dia menos produtivo e mais divertido do ano. Mas depois chegou a noite. É uma reacção estranha quando os nossos vizinhos disparam contra qualquer ruído da escuridão, por medo. O número de pais que dispararam contra os próprios filhos nessa noite seria o suficiente para preencher os jornais e telejornais de uma semana, juntamente com todas as pilhagens, violações e outros e inúmeros crimes. E foi nessa noite que eles chegaram, quando mais precisávamos deles, eles vieram. Três mulheres, um homem, um grupo que deu origem a muitas piadas, primeiro sobre a virilidade de um homem disposto a percorrer a cidade no meio de três mulheres e, mais tarde, sobre aquilo que esse mesmo homem faria às companheiras. Piadas contadas apenas como brincadeira, ninguém, nem mesmos os criminosos conseguiam deixar de ter respeito. Eles não tinham poderes mágicos, não voavam, não tinham alta tecnologia para os proteger, limitavam-se a estar onde eram precisos. E a ajudar quem precisava e foi isso que os tornou únicos. Como é óbvio, o crime desceu e a própria polícia dependeu, por vezes, da ajuda de cada um deles. As ruas pareciam mais seguras, mas, claro, o crime nunca deixou de existir realmente.
Primeiro, tememos. Depois, agradecemos. No fim, odiamos. E agora choramos. Uns anos depois de aparecerem, foram ligados a um ataque terrorista. Não cometeram qualquer crime, mas um político, corrupto, como viríamos a descobrir, lançou o mote de que o “mal” só aparecia na cidade para contrapor o “bem” que eles representavam. Os média agarraram essa ideia como se fossem náufragos agarrados a uma bóia. Supostamente, os criminosos escolhiam fustigar a cidade para os derrotar. Curiosamente, foram as milícias civis que acabaram por os matar. A Mini Cat foi empurrada de uma varanda, porque pensaram que estava a assaltar uma casa. A Pink Avenger ficou presa numa casa em chamas. O Strangeman e a J-Woman não resistiram ao linchamento quando a população finalmente os apanhou. E esse foi o fim. A cidade rejubilou com as notícias, o “bem” tinha morrido, o “mal” acabaria por voltar para a toca. Mas nada aconteceu como o esperado. O “bem” era, na verdade, como um dique que empurrava o mal para trás e quando esse dique rebentou… Tudo aconteceu muito depressa. Num mês, choraram-se cinco ataques com bomba em escritórios, lojas, escolas. A situação tornou-se propícia para o crime, o tráfico de droga, tudo o que estivesse para lá da lei e fosse rentável era visto como uma carreira de futuro. Foi então que se construiu o muro, como se se cortasse uma perna para evitar que a gangrena matasse o resto do país. E agora choramos pelos nossos heróis.

18/01/2007

O tipo que queria ganhar o Euromilhões, mas só conseguiu um 3

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A notícia deixou-me de boca aberta. Na semana passada, joguei no Euromilhões. Andava desesperado, sem emprego, só tinha algum dinheiro de lado graças a uns biscates que fui fazendo. Decidi apostar tudo no Euromilhões e tentei fazer uma daquelas apostas múltiplas. Ao todo, gastei 1512€ para poder escolher nove números e quatro estrelas. O prémio tinha de ser meu, sentia que era o meu dia e, quando anunciaram que o primeiro prémio tinha saído para Portugal, soube que era meu. Mas não era. Quando vi os números, percebi que só tinha conseguido um 3. Um mísero 3, dois números e uma estrela, o último prémio, 8€ por 1512€. Desmaiei. E, quando acordei, foi como que o começo do Inferno para mim. No dia seguinte, os meus pais descobriram essa loucura e praticamente expulsaram-me de casa pela irresponsabilidade. Não podiam continuar a dar abrigo a alguém que não respeitava o dinheiro. Não me pediram para sair, mas eu percebi a mensagem. Não havia problema, ficava em casa da minha namorada. Mas, definitivamente, as coisas não corriam bem. Ela acolheu-me, sim, mas disse que tinha de ser uma coisa temporária, em parte porque não conseguia aceitar que eu tivesse feito algo tão infantil, em parte porque se estava a apaixonar por outra pessoa. Não aceitei a esmola, o abrigo, preferia dormir na rua a ser um empecilho. E assim aconteceu. Vendi a maior parte das minhas roupas, a maior parte das minhas posses também, mas ainda assim isso não era o suficiente para alugar uma casa. Passei duas noites ao relento até que tive uma ideia. Fiz-me passar por estudante e aluguei um quarto numa casa perto de uma universidade qualquer. A vida tinha de recomeçar e, mais do que nunca, precisava de um emprego. Parecia tudo saído de um pesadelo, em menos de vinte e quatro horas perdi pais e namorada e tinha dormido num banco de jardim. Mas o pesadelo ainda não tinha acabado. Nas notícias, disseram que o prémio tinha saído a nove pessoas, uma "sociedade”, e aposto que os sacanas também jogaram como eu. Os pulhas! Aquele prémio devia ser meu, todo meu e não de uns quaisquer labregos de uma terreola qualquer. A minha revolta deve ter sido proferida alta demais e, não tendo bem a certeza do que disse, foi ouvida pelos senhorios, que não acharam piada nenhuma aos meus comentários. Fui novamente expulso. Mas, agora que sabia o que devia fazer, arranjei logo outro quarto. O pior é que só tinha dinheiro para a primeira renda. Tinha passado praticamente uma semana, no dia seguinte seria dia de Euromilhões mais uma vez, mas desta vez não tinha como fazer uma mísera aposta que fosse. Agora tinha de roubar quando tinha fome ou de pedir nas ruas. Veio sexta-feira, o dia de extracção. Acordei determinado. Com fome, a barba de uma semana, praticamente só com duas mudas de roupa que já cheiravam mal. Nessa manhã, abordei um passador de droga numa rua deserta. Fiz-me passar por drogado e, quando ele virou costas para ir buscar o produto, matei-o à pedrada. Remexi-lhe os bolsos à procura de dinheiro e de outra coisa mais, uma arma. E lá estava ela. Já matei o primeiro, agora, os nove que ganharam o prémio que devia ser meu, vão ser canja. Nem me vão ver a cara. De alguma forma vou descobrir quem são. Agora tenho de ir a casa, ou melhor, ao quarto. Talvez consiga matar os meus senhorios sem ninguém dar por isso e, com um pouco de sorte, a polícia só os vai descobrir quando já os outros nove filhos da puta estiverem mortos e aí já não interessa, eu próprio já não devo estar vivo.

11/01/2007

O tipo que descobriu um ovni

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O tipo usa óculos. É baixote, magricela e tem a cara cheia de acne. Espirra ao mínimo grão de pó e não seria capaz de levantar 10 kg, mesmo que a sua vida dependesse disso. É o típico marrão. Na porta do quarto, está um cartaz igual ao do Fox Mulder, “I want to believe” em letras gigantes e, por trás, algo que parece ser um disco voador, mas semelhante aos discos voadores dos filmes antigos. Suponho que na cabeça dos marrões quase crentes da cientologia, os extraterrestres são mais avançados do que nós, sim senhor, mas têm um sentido de estilo muito retro. Se calhar até usam afros… Mas saltemos esta parte para dizer simplesmente que, amanhã, este típico marrão pode tornar-se na pessoa mais conhecida do mundo. Tudo porque descobriu um ovni.

São 23h00 e o marrão está cansado. Esteve a tarde toda a jogar Star Wars, on-line, e depois do jantar começou a ver, pela enésima vez, a trilogia do Senhor dos Anéis. É realmente marrão, este tipo. Os olhos começam a fechar, por isso decide deitar-se, mas primeiro quer cumprir um ritual que segue desde há meses: abrir o Google Earth e procurar o carro da miúda mais gira lá do bairro. Esta história seria bem mais interessante se não estivesse cheia de clichés, mas suponho que a própria vida seja um grande e vicioso cliché, daí as frases que se repetem até à exaustão em tudo o que é acontecimento social, seja um funeral e os seus “não somos nada”, seja o casal que começa a namorar estando um deles tão bêbedo que no dia seguinte só consegue dizer “não me lembro de nada”. A vida é, portanto, um grande cliché e a deste marrão não foge à regra. Mas, dizia eu, este marrão abriu o Google Earth e procurou o próprio bairro. O hábito tornou este processo quase automático, mas hoje é diferente. Hoje, por cima da imagem da sua casa, há uma luz, ou melhor, uma bola de luz com cauda, algo semelhante a um cometa. Ora o marrão, habituado que está a ver os Ficheiros Secretos, soube imediatamente o que era aquilo: um ovni. O que raio estava um ovni a fazer nos arredores de uma cidade-arredores do Porto não interessa, aquilo é um ovni e está tudo dito e quem não acreditar é um grande Cigarette Smoking Man! Oh quantas vezes usou esta piada com os amigos marrões… Oh como todos eles se riram, como se fossem balões que se esvaziam enquanto se lhes aperta o bocal... Oh quantos deles tinham mesmo de recorrer à bomba da asma de tanta boa-disposição estridente… Oh quantos marrões não há por este país fora…

Estamos, portanto, diante da presença de um ovni. Temos um marrão, um ovni e um telefone, que entretanto se foi buscar assim do nada, mesmo à mão. E que faz o marrão? Liga, não para as notícias, mas para a miúda mais gira do bairro. Ai e tal, descobri um ovni. Tu deves é ser maluco para me ligar a esta hora com uma história dessas! A sério, é mesmo um ovni! Vai-te fod#§! E pronto acabou o telefonem do marrão e da miúda gira. Ora o marrão sente-se triste. Tanto trabalho a encontrar uma imagem que praticamente lhe surgiu do nada no monitor e a miúda gira não lhe liga nenhuma. A vida não faz sentido. E quanto a alertar as notícias, que interessa que haja vida inteligente no universo para além da nossa se a miúda gira lá do bairro não nos liga nenhuma? Nada. E foi isso que o marrão decidiu fazer: nada. Desligou o computador e deitou-se.

Já de manhã, apercebeu-se que tinha os lençóis molhados. Tinha sonhado com outra miúda gira que não a do bairro. Isto foi não só a sua primeira experiência sexual, mas também a primeira vez que traiu alguém. E quem não acredita é um grande Cigarette Smoking Man!

PS: eu não tenho nenhum poster a dizer "I want to believe", mas a verdade é que não sei o que isto é... Sugestões?

25/11/2006

A minha irmã vai casar e eu só recebi um fato estúpido!

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Sim, é verdade, a minha irmã casa hoje e estou a aproveitar para fazer um trocadilho parolo com aquelas t-shirts parolas que dizem "my [qualquer coisa] went to [um sítio qualquer] and all I got was this lousy shirt". Daqui a pouco tenho de vestir uma camisa que mais parece uma camisa de dormir DE GAJA (?!?!?!), vestir o fato, fazer o nó da gravata e calçar umas barbatanas tamanho 46 que fazem toctoctoc quando ando... É oficial, vou deixar o legado das gravatas do Astérix e do Snoopy ao meu primo... A ver vamos, ao menos, se vou de crista! Bom, pela primeira vez, vou aparecer à família com fato completo. Não riam, é uma ocasião especial, afinal de contas, a minha irmã vai sair de casa (?).
...
Vou resistir à piada fácil de dizer "YES!"
...
Não, não vou! YES!!!
Adiante...
O meu pai está na cozinha a tocar acordeão, tal é o nervoso miudinho, a minha mãe acabou de chegar da cabeleireira (estes dias são sempre iguais, certo?) e eu não consigo deixar de pensar "será que alguém tem o número da Mayra Andrade que me arranje?!" Se alguém tiver, que me faça o jeitinho, por favor, quero ser escravo dela para o resto da vida! Ainda por cima, Cabo Verde fascina-me...
Eh pá, esta miúda...

16/11/2006

diálogo sob a lua de Poe II

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O tipo está alagado em suor, quase me dá pena. Mesmo assim, meto-lhe a pistola na boca e seguro-me para ele não me ver a rir pelo disparate homossexual em que acabei de pensar.

- Tens alguma coisa a dizer? – sempre adorei o Fight Club, faço questão de usar esta frase sempre que despacho alguém – Bem me parecia que não. Mas tem calma, não te preocupes, não vai ser assim.

Ele tem as mãos atadas atrás das costas e está a um metro de mim, de joelhos e, agora que lhe tirei a pistola da boca e o voltei a amordaçar, inclinou-se, com a testa encostada ao chão. Pelo menos parou de lutar; de certeza que já ouviu falar de mim – reconhecem-me pela cicatriz do queixo – e sabe que desta noite não escapa.

- Diz-me, gostas de bifes grossos ou finos? – a pergunta deixa-o tão perplexo que se endireita rapidamente e fica a fitar-me num misto de espanto e confusão - É só para saber... – vejo este olhar sempre que faço esta pergunta. Quando me vêm, todos aqueles que caço sabem o que lhes vai acontecer, sabem o que fizeram para eu andar atrás deles e sabem que nunca ninguém me escapou, mas só as vítimas conhecem esta parte do meu trabalho e esses… digamos que não conseguem falar muito bem depois de eu tratar deles.

- Tu sabes quem eu sou, li-te isso nos olhos mal me viste e tentaste fugir. Mas tens essa vantagem sobre mim, sabes? Não faço a mais pequena ideia de quem és, do que fizeste ou de quem me contratou para te apagar. Como deves saber, quando sou contratado limito-me a discutir o pagamento – metade antes, metade depois de enviar uma prova em como o serviço está feito –, dizem-me o alvo e eu trato do assunto mal a primeira prestação entre na conta. Não faço perguntas acerca de Porquê, não me fazem exigências em termos de Quando. Às vezes tentam pedir-me o Como, mas isso depende sempre de mim. A única coisa que não sou eu que decido é o tipo de provas a apresentar. A maior parte pede umas simples fotos, mas já tive pedidos menos canónicos. Não imaginas a complicação que é enviar um coração humano pelos correios…

Ele começa a chorar e baixa de novo a cabeça. A lua cheia, amarela e melancólica, reflecte-se na cabeça húmida dele como uma auréola. O Douro ondula com a brisa que se faz sentir, chega-me o cheiro de algas e de peixe e o barulho de carros em aceleração competitiva.

- Não és muito falador, pois não? – este meu humor quase sádico é outra coisa que ninguém conhece, mas de certeza que todos suspeitam, ninguém se torna assassino a soldo só porque está desempregado – Bom, a noite já vai longa e tu já deves estar farto de mim, vou explicar o que te vou fazer. – nesta altura, todos tentam fugir. Todos. Mas este não pode. O sacana ainda tentou dar luta quando o apanhei, acertou-me um murro e tudo! Claro que sossegou quando lhe dei um tiro no pé. Ok, nos dois pés.

- Sabes, é sempre um risco matar alguém. Não sei se vês o CSI, mas os sacanas descobrem sempre tudo. Claro que se não houver corpo, não há nada para descobrir… O que eu faço é muito simples: mato-te e esquartejo-te. Calma, calma, – ele começa outra vez a debater-se mal houve a palavra esquartejar – nem sei porque estás assim! A sucessão é primeiro morres e só depois é que te esquartejo, nem chegas a sentir nada. – ele acalma-se, como todos os outros antes dele. É curioso que é sempre a ideia de dor que os assusta e não a da morte – Mas como eu dizia, depois de te esquartejar, ainda assim tenho de resolver a questão de o que raio faço com os bocados? Podia fazer uma coisa tipo Brick Top no Snatch, conheces esse filme? O Brad Pitt a falar à cigano irlandês está incrível, não achas? – não me responde, nem com um aceno – Bom, mas a verdade é que com as inspecções de higiene nas pocilgas, torna-se complicado aparecer numa quinta com 70 kgs de carne, acho que é mais ou menos isso que pesas, e dizer “Olhe, dê isto aos seus porcos e não ligue às características humanas da carne!”. Bem, descobri que é muito mais fácil vender a carne directamente a uma grande superfície. É só comprar uma carrinha frigorífica para a coisa parecer real e consigo sempre fechar negócio, eles estão sempre demasiado ocupados, quase nem olham para os certificados de qualidade falsos e acabo por passar por um desgraçado que não conseguiu vender a carne toda no talho do costume e estou a tentar fazer um dinheirinho extra. É assim simples. Claro que não lhes posso vender a cabeça, as mãos, etc, mas essas partes carbonizo, desfaço o que sobrar na picadora que viste na mala da carrinha frigorífica e basicamente espalho as cinzas no cimento de alguma obra da cidade, e obras, como se sabe, é coisa que não falta nas cidades. Nunca ninguém chega a descobrir corpo porque não há corpo.

Parou de chorar. Neste momento, sei que se lhe tirar a mordaça nem sequer tenta gritar, limita-se a rezar, sabe que não tem como escapar disto. Respiro fundo, levanto os olhos ao céu e olho, por uns segundos, a lua cheia amarela, digna de um conto de Poe. E é então que lhe aponto a pistola à testa e pergunto outra vez:

- Diz-me, gostas de bifes grossos ou finos?

04/11/2006

Depois do 24, o Lost!

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Se bem se lembram - os que aqui vêm, claro - há uns tempos pus aqui uma imagem de uma cena do 24 (primeira série) onde se via uma câmara atrás de uma das personagens. Bem, seguindo essa lógica (e visto estar com uma total branca acerca do que escrever...), aqui fica mais uma dessas pérolas, mas agora no Lost. A criatura que se vê é o Michael, que supostamente está no alto-mar (apesar de a água ser verde e se conseguir ver o fundo), numa jangada, em busca de salvamento. Mas, oh sorte, oh alegria, oh piada cósmica do destino (piada privada para quem tem o meu contacto no msn...), eis o salvamento, mesmo ali atrás, no canto superior direito, um barco "perdido" pronto a dar apoio!!! Ufa, venha de lá esse champagne...

27/10/2006

LIBERDADE!!!!!!

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Sim, é verdade, estou livre e estou a gritar como o Mel Gibson no Braveheart, mesmo antes de lhe cortarem a cabeça. Claro que a mim não acontece isso, mas, ei, eu não desato a insultar os judeus quando sou apanhado a conduzir bêbado! Bom, de qualquer maneira, estou livre, ou seja, voltei à bela profissão de doméstico, dono de casa, numa palavrinha apenas MerdaQueEstouOutraVezSemTrabalho! Mas esse lamento fica para amanhã, estou a cair para o lado com sono e além disso quase duas horas a jogar futebol deixa as suas mazelas... Ninguém tem um joelho que me empreste?

23/09/2006

23 de Setem - Bah, isto aparece logo por baixo do título!

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Nasci há 25 anos, nesta mesma casa, 5 metros à direita de onde estou sentado. Na altura, este quarto ainda não tinha sido construído; foi graças à minha infantilidade própria dos 11 anos que isso veio a acontecer. Mas isso agora não interessa. A cama onde nasci, provavelmente, já não existe, levou-a o tempo, o caruncho, os lixeiros. Parece-me que nem as paredes têm a mesma cor, mas, claro, isso são pormenores de que não me lembro. Acho que já era noite quando a minha mãe teve as primeiras contracções e eu nasci por volta das 3 da manhã, rapidamente, como quem não quer a coisa, mais ou menos a hora a que estou a escrever este texto. Segundo a Wikipedia, a 23 de Setembro de 1981 foi inaugurado o primeiro trecho da linha-férrea do TGV francês (hum… francófona…), ligando Paris a Lyon; morreu Dan George, chefe indígena e actor canadiano; e nasci eu (à falta de mais informação…), igual a tantas outras crianças, o mesmo peso, a mesma altura, a quantidade normal de pêlos. A minha mãe, claro, foi a que mais sofreu, eu só tive de mergulhar de cabeça, enquanto a parteira afastava o cordão umbilical, enrolado à volta do meu pescoço. A Rosinha, a velhinha que mora ao fundo da minha rua, estava lá, a dar apoio. E eu lá vim ver o que se passava do lado de fora, neste dia que, ainda segundo a Wikipedia, marca o equinócio de Setembro, a chegada do Outono. Nunca gostei de castanho, já não sou a criatura negra e depressiva (?) que era, já não sou tantas outras coisas que fui, que talvez nunca tenha sido, que nunca devia ter sido e que talvez nunca volte a ser, não interessa, sempre gostei e continuo a gostar do Outono. Não sei se por ter nascido há 25 anos, não sei se por ter nascido neste dia. Mas a verdade é que não percebo nada de astrologia, limito-me a ser… estranho.

22/09/2006

Utensílios de tradução (ou O grande motivo para o meu último post ter sido há duas semanas)

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Para os leigos na matéria "O Estranho", eu sou tradutor. Desempregado dirão alguns, freelancer direi eu. Tanto mais que, neste preciso momento, tenho em mãos um belo (asqueroso, aborrecido, mal-escrito, longo, etc.) livro. Ok, não vou dizer nada acerca do pagamento (É MAL PAGO!!!). De qualquer maneira:
Jovem, queres ser tradutor/a? Não sejas maluco, investe antes o teu esforço para teres uma vida melhor! Aposta na profissão de mineiro, talvez ganhes mais; não verás a luz do sol, mas como tradutor também não, por isso vai dar ao mesmo. Jovem, ainda assim queres ser tradutor?! Muito bem, foste avisado... Aqui ficam, então, alguns utensílios de que poderás precisar para traduzir um livro.
Da esquerda para a direita:
Marcador de página "Jonathan Strange e o Sr. Norrell", para marcar a página-objectivo do dia;
Marcador de página fornecido pela KFC no Festival de Paredes de Coura, para marcar página actual quando fizeres uma pausa CURTA;
Mola da roupa (com pedaço de papel para não danificar o livro), verde, para manter o livro aberto, já que as páginas teimam em fechar - fixar na parte superior do livro;
Mola de fotocópias (...), preta, para manter o livro aberto, (...) - fixar na parte inferior do livro;
Auscultadores para ouvir música enquanto se trabalha durante a noite (pois...);
Dicionário de Inglês (ou da língua que NÃO esteja a ser traduzida; o livro é em francês...), para servir de suporte e manter o livro levantado para uma leitura e tradução mais rápida;
(Não surge na fotografia) Máquina de café, tamanho industrial...

Jovem, foste avisado. Dedica-te à pesca...

08/09/2006

The Bloggers

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O século XXI tem sido atribulado. Guerras, ódio, violência, morte e fome continuam a assolar um pouco por todo o planeta. O mundo precisa de heróis. Homens e mulheres que, não sendo perfeitos, lutem por um mundo melhor. Homens e mulheres dispostos a sacrificar a vida, física e pessoal, por aquilo em que acreditam. Seres humanos completamente desprovidos de super-poderes, mas dotados de grande força de vontade e de bondade. Seres humanos... que têm um blog!

22/08/2006

O sabor a sal das memórias

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Ouve o som da água das ondas do mar enquanto o Atlântico fustiga o seu corpo, como se soubesse que se sente sujo. Caminha sozinho, as pernas perdidas e misturadas com a imensidão do líquido translúcido e com as areias desgastadas pela erosão de milhares de anos. Passa-lhe pela cabeça que as rochas que formaram aquela areia foram pisadas por dinossauros. Passa-lhe pela cabeça que, quando era pequeno, passava horas e horas enfiado no mar, até muito depois de as suas mãos se assemelharem a ameixas secas. Passa-lhe pela cabeça que, talvez, há milhões de anos também dinossauros bebés brincassem naquela mesma água até as suas patas ficarem murchas como ameixas secas. Olha em frente, para o sol que se reflecte, quebrado pela água das ondas do mar, mas que brilha com toda a intensidade de uma estrela e que encandeia todos os que se atrevem a tentar contemplar a sua grandiosidade. Sorri e mergulha, para o fundo, as mãos, o peito, a barriga, o sexo, todo o seu corpo roça no fundo do mar, nas areias, nos seixos, nas conchas. Emerge, a pele pouco arrepiada, mas sem dúvida refrescada, o sabor do mar nos lábios. A água das ondas do mar bate-lhe na cara, lembrando-o do lado cruel do deserto marinho, do lado que afoga e inunda e afunda. Mergulha uma vez mais, debatendo-se, esforçando-se por seguir em frente, tentado deslizar como um peixe, lutando contra a corrente, a maré, a força da lua. Volta a emergir, o peito a arder por ar, os pés a desesperar por terra, o bom-senso a gritar para que volte, mas ele sabe que tem de continuar, ele sabe que, como um tubarão, se parar morre, sufoca. Volta a mergulhar, sem a certeza de ter forças de conseguir prosseguir, mas tenta. Desta vez, abre os olhos debaixo de água. A limpeza da água não é suficiente para que veja muito longe, mas, na verdade, é o som que o fascina. Nada. Não há vozes ali, não há ruídos, nem sequer o bater da água das ondas do mar, nada. Fecha os olhos para ficar a ouvir todo aquele silêncio. Mas é então que ouve um eco. E volta a ouvir o mesmo eco uns segundos depois. Como se alguém gritasse do fundo de um grande armazém vazio e o som fosse devolvido vezes sem conta pelas paredes. Emerge, nada de regresso, senta-se na areia, as ondas a quebrarem junto aos pés, a cabeça assente nas mãos, o pensamento na sua luta por vencer o mar. E então percebe, o seu pensamento está dentro daquele armazém, à procura de quem gritava ainda há pouco. Percebe que a sua luta não era com o mar, era com aquele grande armazém vazio, de paredes arrefecidas que devolvem o grito de alguém perdido no seu interior. Percebe que aquele armazém é o seu coração. Percebe que tem de continuar a lutar. Lança-se ao mar uma última vez, uma despedida, um agradecimento. Olha o sol, com o sabor a sal a irritar-lhe os lábios e sorri. Percebe que desta vez não são lágrimas que lhe irritam a boca. É a água das ondas do mar.

PROCURA-SE!!!

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Ok, podem associar este post à testosterona, à libido, às hormonas, à cada vez maior proximidade dos 25 anos de idade, ao puro e simples e bom desejo sexual, o que quiserem, desde que me encontrem a rapariga (algo embriagada... ok, bêbeda!), talvez nos seus 30 anos (peço imensa desculpa se estiver a exagerar, estava escuro e eu distraí-me com os teus olhos!), olhos azuis, cabelo ondulado escuro, um pouco abaixo dos ombros, talvez com um 1,70 metros de altura. A última vez que foi vista, segurava um copo de cerveja na mão, estava na companhia de uma amiga, vestia um casaco de couro castanho escuro, com fecho a meio e estava a assistir ao concerto de !!! atrás de um tipo grande e burro que passou o concerto a trocar olhares e sorrisos com ela, mas que só se lembrou que tinha tomates para a abordar no fim do concerto e quando se virou, viu-a a desaparecer na multidão. O sujeito grande e burro estava também ele acompanhado de 2 amigos, mas só se via 1 porque o outro estava disfarçado de indivíduo não muito alto... No começo do concerto, a rapariga desaparecida gritou-nos aos ouvidos qualquer coisa como "Força!", o que nos fez virar para trás e dar de caras com a luz do palco a reflectir num par de olhos azuis intensos, obtendo como resposta "Então?! Tem que ser assim!", o que me fez sorrir e responder "Claro, força aí!" e logo a seguir fez-me pensar "«claro, força aí!»?! mas de que raio de planeta vens tu, meu anormal?! Chega-te a ela!"
Ajudem esta pobre alma a encontrar a mulher da sua vida! Obrigado.

Paredes de Coura 2006

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Ora bem, falemos então desse grande festival que é o Sudoeste. Ah não, espera lá, é o outro, Paredes de Coura… Bem, Paredes de Coura é um sítio bastante atraente, mais verde que a Zambujeira do Mar, mas mais frio, bastante mais húmido e sem aquele charme de cidade à beira-mar, charme esse provocado por meninas em biquini, mas isto já é informação a mais!

Mudando súbita e abruptamente para os concertos, dia 14, recepção ao campista foi para o tecto! Deu-se uma voltinha pelo recinto, procurou-se um sítio mais barato onde jantar e depois toca a arranjar espaço dentro das tendas para encaixar sacos e colchões de 3 tipos que, a meio da noite, quase iam uns para cima dos outros, SEM QUALQUER CONOTAÇÃO SEXUAL!

Adiante, para o dia 15… Confesso que não vi os concertos todos, os primeiros foram perdidos por causa da banhoca gelada depois de um agradável dia de praia fluvial e por causa da procura da barraquinha ideal onde jantar (portanto, a que tivesse menos gente…). De qualquer maneira, deu para apanhar o finzinho de Gomez, mas nem posso dizer nada sobre essa gente porque nessa altura ainda não tinha entrado em modo de concerto. Nos Madrugada deu-se uma espreitadela, mas, mais uma vez, muito de fugida, não despertava grande interesse e os tímpanos estavam a ser poupados para o Xôr Morissey (ou Mourixei, como dissera um grupo de jovens na tenda ao lado, quando se questionavam quem era aquele gajo…). No entanto, aqui fica um conselho, Broken Social Scene, para quem gostar de música com muitos instrumentos misturados é muito bom. Oiçam a IBI dreams of pavement (a better day) para terem uma ideia… E, finalmente, Morissey! E, finalmente, a chuva começa a cair! Ele lá vem, seguido da banda com t-shirts iguais, Morissey escrito sobre o peito. Lá cantou, por entre piropos à selecção portuguesa e agradecimentos ao público por estar à chuva, aquelas músicas tão bem conhecidas como You have killed me, First of the gang to die, Girlfriend in a coma (sim, eu sei que esta é dos Smiths, mas ele cantou várias deles), blablabla. Sempre com uma postura plena de auto-confiança, agitando o fio do microfone no ar como a Catwoman estalava o chicote, até que… O festival, de modo geral, enfrentou muitas falhas de som. Morissey queixou-se várias vezes de que não se conseguia ouvir e em diversas músicas a sua voz não se ouvia. Trocou de microfone, mas os problemas continuaram. À penúltima música, atirou o microfone ao chão. À última música, abandonou o palco, arrastando os músicos que o acompanharam e deixando a música a meio. Foi assobiado. As teorias começaram. A mais ridícula foi que ele não podia cantar as músicas dos Smiths, apesar de ter cantado várias; a mais plausível foi que se fartou dos problemas de som, quando ainda estava prevista, pelo menos mais meia-hora de concerto. Fontes externas a’O Estranho (leia-se, o Xôr Damon Durham, verdadeiro adepto de Morissey) investigaram, em sites oficiais e menos oficiais os motivos que teriam levado a isto. Certezas não há, mas pelos vistos o Xôr Morissey é uma diva temperamental e já não é a primeira vez que faz este tipo de coisas… Seguiam-se Fischerspooner… Bah, já estávamos todos na tenda a comentar o concerto, a chuva, que, como viríamos a descobrir, não parou até à noite seguinte, e a dizer coisas uns aos outros que não chegavam bem ao tímpano alheio, como por exemplo, queixar-se de dores nas costas, sugerir massagens à vez, e perceber-se massagens à verga… Passemos à frente, que, GARANTO, nada de remotamente interessante (ou homossexual) se passou nessa noite. Ah, ainda deu para não conseguir dormir por causa dos after hours…

Dia 16. Chuva, chuva e mais chuva. A colega da tenda ao lado já tinha a tenda com infiltrações, a nossa não tardava. Vamos embora? Não, desmontámos as tendas e vamos procurar sítio onde ficar. Viagem para Cerveira, outra vez (ou ainda?) encharcados, mas lá conseguimos um belo almoço quente. Pousadas da juventude e outras instâncias que tais completamente esgotadas. Pensa-se em pedir asilo político na sede do PSD. Sim, por brincadeira. Decisão, depois de diversos telefonemas para a família, que nos informou de uma tempestade MONSTRA que se aproximava, vemos os concertos de hoje, vamos embora e amanhã logo se vê. Primeiros concertos vão ao ar. Gang of Four é uma seca. SECA!!! O ponto alto do concerto foi o pobre do micro-ondas destruído a golpes de bastão de baseball, já estão a ver como foi ridículo. Mas eis que chegam os Yeah yeah yeahs! Quatro em vez dos habituais três. E que maluqueira! Que energia! Que, eh pá o texto já vai longo, e como a Pinky só queria saber do Morissey, vamos lá acabar com isto! Foi grande concerto cheio de energia punk e a vocalista, a Karen O é o Marilyn Manson com vagina (é feia a rapariga, que querem?!). Depois os Bloc Party. Outro grande concerto, o vocalista, a falar tem uma voz incrivelmente irritante, mas parece bastante simples, ainda dá gritos a agradecer o convite para o concerto e blablabla, toca mas é a música da Vodafone, que quando acabar o concerto nós temos 100km pela frente! Acho que a seguir eram os Eagle of Death Metal… Em homenagem ao nome, fomos embora. Chegar a casa às 4h da manhã e tomar um banho quente não foi mau, o pior foi o tempo que se fez sentir. Céu limpo, sem chuva, nem vento, nem trovões, apenas o pensamento de que iam ser pior do que um chuto no olho se tivéssemos feito a viagem de regresso para nada…

Dia 17. Acordo às 9h30 da manhã, abro a janela e solto um palavrão. Céu azul, poucas nuvens. GRANDE TEMPESTADE, HEIN, SENHOR METEOROLOGISTA?!?! Já de tarde, de novo a caminho do festival, com paragem em Ponte de Lima, a Praga (leia-se a capital da Rep. Checa) portuguesa para lanchinho e para perder os primeiros concertos! Catpeople, nem sequer os vi. Shout out louds, começou a chover a meio… Maduros… Oh pá, a sério, vale a pena dizer alguma coisa sobre Maduros? Só para tirar dúvidas, nem sequer olhei para o palco… Ui, mas depois… ui… UI!!! Lá apareceram os Tsc tsc tsc, os Tchu tchu tchu, os Choi choi choi, os !!! . E que senhora energia que eles têm!!! A música não me despertou particular afeição, mas aquela energia em palco!!! Provavelmente, mais ninguém dançou tanto no festival todo como o vocalista principal!!! Ok e agora uma pequena confissão. Já de seguida vou lançar um alerta para identificar uma jovem com quem troquei olhares quase o concerto todo… Bom, depois vieram os The Cramps e que bela, bem, MERDA que eles são! Se Gang of four foi uma seca, isto foi um nojo! Para mim, não se aproveita nada de nada de nada de nada de nada, já perceberam a ideia… Por fim, Bauhaus. Não é para mim. Compreendo que seja uma banda de culto, os góticos A SÉRIO adoram, ok, mas não é para mim. Principalmente se tiver passado 4 horas a levar com chuva gelada na cabeça…

Para mim, Paredes de Coura encerrou com um certo par de olhos azuis. Mas encerrou mal! E agora o alerta, num outro post, que este já enjoa!