12/07/2006

desejo

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Tocas-me a pele como um arrepio, ao de leve, eriçando-me os pelos de prazer e eu respondo, acariciando-te os seios com ternura. Prendo-te com os braços, num abraço forte de que não queres nem tentas fugir. Encosto o meu peito ao teu e deixo que os nossos mamilos se toquem, se beijem, se amem. Depois afasto-te um pouco de mim, segurando-te pelas costelas e afagando-te a barriga com os polegares, para que sintas que continuo a desejar-te. Olho-te, de alto a baixo. Estás nua, mas são os teus olhos que estão realmente nus, mais nus do que nós, mais nus do que qualquer outra pessoa no mundo que esteja a fazer amor neste momento. Estremeces, talvez de frio, talvez de uma súbita e ridícula vergonha, sentes-te nua, e é exactamente assim que te quero, porque eu também me sinto nu, e é exactamente assim que tu me queres. E agora agarras-me tu, com uma só mão agarras-me, todo, por completo, submetes-me à tua vontade num simples apertar de mão, cinco dedos que valem mais do que todos os meus músculos concentrados numa única acção. Não importa, o músculo que agarras neste momento não quer mais do que amar-te. Levanto-te pelas coxas como se não tivesses peso, para mim não tens peso, apenas o peso do amor e esse, agora, tem o peso de um pedaço de nuvem que desceu para nos refrescar a pele, para nos humedecer enquanto nos guiamos na direcção um do outro, enquanto nos fundimos, enquanto nos tornamos num só. E é nesse estado de fusão que nos sentimos como se nunca tivéssemos sido mais do que uma só pessoa, nem eu, nem tu, apenas nós, e beijamos e olhamos e sentimos e respiramos como um só, como sempre devia ter sido, como se fossemos realmente um só. Mas não interessa. Finalmente é. Finalmente somos. Um só.

10/07/2006

Ups...

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E não é que me esqueci do aniversário d'O Estranho?! Se calhar, é porque VOU TRADUZIR UM LIVRO!!! Também pode ser por achar que há uma certa pessoa que não me sai da cabeça, mas quase de certeza que é porque VOU TRADUZIR UM LIVRO!!! E vamos ser sinceros, entre uma possível paixão e o facto de que VOU TRADUZIR UM LIVRO(!!!), quem paga é blog...
Mas pronto, lembrei-me agora e com certeza que o autor do blog me perdoa, quem quer que ele seja... VOU TRADUZIR UM LIVRO!!! e quem sabe se não estou a apaixonar-me...

PS: como disse ontem a amigos, na minha opinião, que vale o que vale, a poesia em Portugal tem de ser dividida em dois grandes períodos: a fase pré-Floribella e a fase pós-Floribella. "Não tenho nada, mas tenho, tenho tudo!" Pá, simplesmente genial.

04/07/2006

Queen of Winter fairies

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Open your eyes, my darling,

And guide me in my path

Through the misty, dark road;

Spread your green windows,

Fill my soul of light and life,

I miss listening to the sound of

My own heart pounding,

Ramming against my chest,

Fighting to break free from

The chains it was locked in.

Come, my darling,

Though they say

Your heart is cold as Winter,

A spear of frigid, cold ice,

Come, my darling,

For I see the warmth in you,

Even if

That’s my jacket around your shoulders,

Protecting you

From the freezing wind blowing.

Look, at me, my darling,

As you never looked before,

See in my eyes that reflection that is you,

And though you may be the Queen of Winter fairies,

I was once Winter itself.

28/06/2006

Às vezes...

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Às vezes, mandamos o coração seguir numa direcção, apontamos-lhe o caminho, dizemos-lhe que é mais seguro e explicamos-lhe porquê. Às vezes, acordamos calmos, sossegados, o espírito leve, a consciência tranquila. Às vezes, passamos o dia a olhar para o céu, sentimos o cheiro de cada flor por que passamos, ouvimos todos os pássaros que voam lá no alto. Às vezes, deitamo-nos sem pressas na cama, fazemos amor durante horas, adormecemos ao menor toque com a almofada. Às vezes, somos felizes. Às vezes, o coração não obedece, prega-nos partidas. Às vezes, apetece-me fechar os olhos e esquecer-me de como se respira.

24/06/2006

The human and the beast

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I stand there, watching him lose control, and I do nothing to stop him. The violence he unleashes is his true nature, a wild, fearless animal, eager to destroy all in its path. And I do nothing to stop him. For years I chained him, prevented him from setting foot in this world, but now he stands before me, clearing a path of blood and carnage amidst a city of dreams and light and he is forcing me to watch, he will not allow my soul to rest. I am to blame for any death at his hands, for it was I who allowed him to live, even after hearing his roar, even after seeing his eyes, I still allowed him to live, and my hands have the blood of his victims and as I lick my fingers and taste the flavour of human blood, as I discover the sweet-bitter taste of human flesh, I feel more alive then any of us ever felt. I am happy, relieved that he got free, and so, I do nothing to stop him…

22/06/2006

diálogo sob a lua de Poe

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Ele abre a porta para a varanda do bar flutuante. A noite está fria, não tem o casaco vestido, mas apeteceu-lhe sair um pouco da multidão, da festa. Debruça-se sobre o corrimão, os olhos postos no rio, na outra margem, no horizonte onde brilha, ao longe, uma lua amarela, melancólica, daquelas que assombram os contos de Poe. Pousa a cerveja, pega no maço de cigarros e acende um. Enche os pulmões e suspende a respiração. Fica quieto, a olhar para o fumo que sobe do cigarro, a porta abre-se atrás de si. Expira, não se volta, reconhece o perfume...

Ela debruça-se também sobre o corrimão, quase encostada a ele.

- Começaste a fumar! – admira-se ela.

Ele puxa mais uma passa do cigarro, trava.

- Hum-um… – responde ele.

Calam-se.

- Está frio… – tenta ela.

- Hum-um… – responde ele.

Calam-se.

- Está tudo bem contigo? – tenta ela, mais uma vez.

- Hum-um… – responde ele, mais uma vez.

- Importas-te de me responder em vez de te fazeres de vítima?! – quase berra ela.

Ele vira-se, devagar, fita-a nos olhos – ela desvia o olhar –, puxa mais uma golfada de fumo, vira a cara para expirar e começa, calmamente:

- Eu não me estou a fazer de vítima. Nunca gostei de me fazer de vítima, tu sabes isso. Aliás, se houve alguma vítima no que nos aconteceu, foste tu. Fui eu que acabei, fui eu que me afastei, fui eu o culpado de não ter dado certo. Não me estou a fazer de vítima, só não sei o que dizer.

Calam-se.

- Ouve, – recomeça ele – eu lamento o que fiz. Passaste um mau bocado por minha causa. Mas aproveitaste bem demais o teu direito de me magoar. Nunca, por uma vez sequer, te traí, nem a tua amizade, nem o teu amor. Nunca, acredites ou não. É claro que olhava para outras mulheres, é claro que as desejava, mas nunca fiz o que quer que seja com essas mulheres. No final do dia, era contigo que eu estava, era contigo que confidenciava, era contigo que dormia. Estraguei tudo, ok, mas tu não tinhas o direito de me tratar como lixo, eu nunca te fiz isso, nem quando acabei tudo. Era isto que querias ouvir?

Ele coça a barba, ela afaga os braços, arrepiados. Ele espreita para dentro do bar, abana a cabeça.

- Sempre achei que ias acabar por ficar com um idiota, um parvalhão, e aquele cretino que está lá dentro, meio bêbedo, a atirar-se à nossa amiga, a tua grande amiga – lembras-te? – prova que tinha razão…

Dá uma última passa, atira a ponta para o rio, pega na cerveja e vira-se, na direcção da porta.

- Tenho pena de ti. – começa ele.

- Não preciso que tenh-

- Pára! Pára, eu reformulo. Lamento. Lamento o teu azar com os homens. Só te calham idiotas. E lamento também que isso te tenha tornado numa cabra…

Ele abre a porta, volta à festa.

Ela fica sozinha, debaixo de uma lua que, mal sabe ela, pertence a Poe...

19/06/2006

O dragão do fundo do lago

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Há uma montanha de pedra e neve perdida no mundo. No meio dessa montanha, escondido por entre árvores gigantes que tocam o céu, há um lago de águas quentes. A água deste lago é escura, lamacenta. Segundo a lenda, há um dragão adormecido no fundo, repousando, à espera de ocupar o seu lugar no mundo. O seu aspecto feroz desvanece-se perante a doçura do seu olhar, a dureza das suas escamas é ignorada pela delicadeza dos seus gestos, a sua força destrutiva assombrada pela melancolia do seu rugido. O dragão dorme, quase desde o princípio dos tempos, à espera, sempre à espera, sonhando com um mundo para o qual poderá despertar e voar, livre, sobre a terra, mostrando a sua cor, o seu brilho, o seu porte altivo, o orgulho próprio de uma criatura, de um ser único, único como uma estrela.

09/06/2006

And then there was none

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The room, dark, empty, cold, the film begins, eyes set forward, the screen, the road, deserted, long, straight, speeding up, 2nd, 3rd, 4th, 5th shift, 150 km per hour, 2 characters, 1 in fact, 2 souls born to the same flesh, a struggle, for power, for control, for the right to exist, a curve, 100 km per hour, windshield barely reflecting the full moon, a couple, an argument, 5 meters between them, he takes the lead, she stays behind, a car approaching, to kill takes less time then writing these lines, to die takes less time then writing these lines, a pain, the arm, the heart, the coma, no one around to help, no one in sight, the final curve, home just up ahead, the speed, the loss of control, the crash, and then there was none.

07/06/2006

Charada

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Ninguém sabe aquilo que vê,
Quando se olha ao espelho,
Não é a imagem do ser,
É o reflexo do espelho.

Almas fictícias II - Tom Welles, de 8 mm

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Esta rapariga que estou à procura é só mais um nome. Uma miúda que talvez tenha sido morta por causa de um filme. A fita foi encontrada no cofre de um ricaço que morreu há pouco. A viúva quer saber o que aconteceu. Talvez receie chantagem, talvez seja peso na consciência por viver num palácio enquanto outros cá fora têm de sofrer para viver. Na verdade, isso não me interessa. Pagam-me para seguir ou encontrar pessoas, é isso que faço, sem perguntas e muito menos respostas.

(…)

Mary Ann Mathews. É o nome dela. Visitei a mãe há pouco, uma quarentona solitária à espera que lhe salte para cima e a faça esquecer, por uma hora que seja, a porcaria do mundo em que vive. Estou de saída…

(…)

Hollywood é uma cidade suja, horrível. Aspirantes a actores em todo o lado, homens e mulheres, não, rapazes e raparigas, crianças que sonham em vez de viver. À noite percorrem os passeios a vender o corpo. Não estou interessado, procuro uma rapariga, mas sou eu quem recebe dinheiro se a encontrar… Isto é inútil!

(…)

Uma pista, finalmente. Filmes snuff. Filmes pornográficos do mais hardcore. Geralmente, a vítima é violada e assassinada. Geralmente, ficção. Não é o caso da Mary Ann. Quanto mais vejo a fita, mais acredito que é real. Um homem, gordo e grande, esfaqueia-a a sangue frio. Depois viola-a. Tudo em grande plano. Ele tem uma máscara de couro, como a dos sadomasoquistas. Descobri uma silhueta a um canto; um voyeur assistiu a tudo… O Max, um tipo habituado a lidar com o submundo de Hollywood e que me tem ajudado – pelo preço certo, é claro - , disse-me uma coisa engraçada. Como era? Ah sim, “quando danças com o diabo, o diabo não muda, o diabo muda-te a ti”. Percebo o que ele quer dizer. Já há algum tempo que não me incomodam as merdas que temos visto, filmes com tortura de mulheres, sexo com animais, coisas muito além do suportável. Pornografia infantil é do mais leve...

(…)

Já há muito tempo que não ligo à Amy…

(…)

Tudo aponta para Nova Iorque. Um tipo qualquer que se considera um deus do cinema hardcore. Aliás, o bondage, o sadomasoquismo, é tudo brincadeira de crianças para ele. Diz-se que, pelo preço certo, ele filma qualquer coisa, e o assassínio de uma gaja… é qualquer coisa. Um amigo do Max arranjou-nos um encontro com o tipo e o cheiro a dinheiro convenceu-o a aceitar filmar para mim. Só pus duas condições: ele deixa-me ver e o tipo gordo da máscara – figura fetiche dos filmes dele – tem de entrar. Descubro que o gajo se chama Machine. Giro. Pelos vistos, a Mary Ann não foi a primeira. Nem a última...

(…)

Merda! Fui descoberto! Avisei o Max para voltar para Hollywood, mas agora é tarde demais! Tenho de fugir! Sem olhar para trás. Sem pensar no que aconteceu naquele armazém. O guru dos snuffs está morto. Um acidente oportuno.

O voyeur daqui a pouco vai segui-lo, eu certifico-me disso…

(…)

A viúva pediu-me para ir a casa dela depois de lhe contar tudo por telefone. Foi o marido que encomendou o filme. Já calculava isto, só ainda não sabia porquê. Agora está tudo claro. Sou recebido pelo mordomo. A cabra matou-se! Deixou-me um bilhete, a dizer que os esquecesse, e dinheiro. A minha família está a salvo. Tenho de encontrar o Machine antes que ele me encontre a mim

(…)

Matei-o. À porta de casa dele, ou melhor da mãe dele. Ele não era nenhum monstro por baixo da máscara, não era a vítima de uma família disfuncional, não tinha sido violado em criança, como estava à espera. Era só um tal de George. Um tipo igual a tantos outros, miúpe, peso a mais, queda de cabelo… Vi muitos como ele, quando trabalhava no escritório…

26/05/2006

Gaita, pá, isto assim não dá!

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Portanto, estava eu descansadinho, a conversar msn-amente com um amigo, a relaxar depois de uma semana de tradução intensiva e a pensar que ia poder estar porreirinho da vida por uns dias, quando ele se sai com uma notícia no mínimo preocupante. Podem ler tudo aqui www.savelivesinmay.com , mas basicamente um tipo qualquer previu um maremoto com ondas de 200 metros no oceano Atlântico para o dia... 25 de Maio de 2006... Mas calem-se os risos descrentes, há janela de 48 horas para que o cataclismo aconteça (o que é absolutamente normal, porque esta coisa de prever catástrofes não é tarefa fácil e muito menos exacta).
Muito bem, caros leitores, preparem-se, corram para as colinas (numa adaptação fácil de "run for the hills!") ou escondam-se debaixo de uma mesa, o grande tsunami de 25 de Maio de 2006 vem aí - com uma janela de 48 horas...
PS: bolas! logo agora que fiquei cheio de curiosidade em saber como é que alguém pode ter olhos amarelos!

10/05/2006

A Vida dos Bonecos - fim

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Passaram-se anos. Muitos e longos anos. A cidade foi-se alterando, alargando-se e tornando-se mais suja, mas isso aconteceu longe dali. À volta do sítio onde uma pequena gota caíra e onde agora se erguia, imponente, uma macieira, foram construídas casas. A rua estava repleta de meninos que brincavam e corriam e gritavam. Mas havia uma menina que preferia ficar longe da confusão. Ficava no seu quarto, com vista para a imponente macieira, a recortar revistas e jornais para fazer bonecos. Tinha-os às dezenas, de todos os tamanhos e feitios, de todas as cores, bonecos que pareciam pessoas, bonecos que pareciam animais, bonecos que se espalhavam por todo o lado, em cima da cama, no chão, junto à janela, bonecos que fazia todos os dias quando chegava da escola e depois pedia ao pai para queimar, para que pudessem voar transformados em fumo para onde lhes apetecesse, bonecos que criava e que adorava tanto que não podia deixá-los a ganhar pó, esquecidos a um canto. Não, eles tinham de ser livres para poderem ver o mundo. A menina sentia-se feliz assim, sentia que criava algo maravilhoso, pois quase dava vida aos bonecos. Todos os dias cumpria o mesmo ritual: chegava vinda da escola, recortava o máximo de bonecos que conseguia até o pai chegar a casa, corria a abraçá-lo, iam os dois para as traseiras da casa e comiam uma maçã, enquanto viam os bonecos iniciarem a sua viagem em fumo…

Nenhum dos dois o admitia, mas ambos sentiam que a macieira se movia de forma estranha, nesta altura… Quase como se dançasse... Quase como se estivesse feliz...

05/05/2006

Esta é...

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...provavelmente a fotografia mais bonita que já vi da Isabel Figueira...

04/05/2006

A Vida dos Bonecos - parte 5

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Estava misturado com o fumo da lenha que ardera ao mesmo tempo que ele, de tal modo que era impossível distinguir que fumo era seu e que fumo era da lenha. Mas, subitamente, apercebeu-se de que começava a misturar-se com um fumo que nunca tinha visto, um fumo molhado, cinzento como ele agora era, mas mais limpo, fresco e dinâmico. O vento empurrava agora os três, o boneco, a lenha e este fumo desconhecido. Deslocaram-se durante horas, não sabendo sequer para onde se dirigiam, mas não tinham outro remédio. O dia acabou por nascer e foi a visão mais fascinante que o boneco teve em toda a sua vida. Estava escuro, uma imensa nuvem espalhava-se por todo o céu e tornava a cidade diante dele melancólica e soturna, mas ainda assim era maravilhoso. Finalmente via o mundo exterior. Finalmente via tudo o que estava para lá das quatro paredes que sempre o haviam prendido. Finalmente sentia-se livre, sentia-se mais do que um simples boneco de papel, incapaz de movimentos. Sentia vontade de chorar, mas já nem olhos desenhados tinha. Era apenas uma grande nuvem escura que, de vez em quando, se iluminava e emitia barulhos assustadores. Maravilhava-se com tudo aquilo que via, de tal modo que nem se apercebeu quando o seu corpo agora líquido se começou a precipitar em direcção ao solo. Já ia a meio da queda quando se apercebeu de que se separara do resto da nuvem. Passara por outra transformação; era agora uma série de gotas transparentes que caíam a uma velocidade cada vez maior em direcção à cidade que ainda há pouco o fascinara. Atingiu o chão. As gotas espalharam-se por todo o lado e voltava a sentir a mesma impotência de quando era feito de papel. Não conseguia fazer mais nada a não ser enterrar-se cada vez mais fundo na terra transformada em lama. Tivera um vislumbre do mundo exterior e agora voltava a perdê-lo.

Já quase se resignara à ideia de que não sairia dali quando chocou com um objecto estranho. Tinha o formato de uma pequena gota de água, como ele, mas era duro, castanho-escuro. Sentiu que, à medida que lhe tocava, se conseguia fundir com aquele objecto. Ao fim de alguns minutos, já penetrara completamente na sua nova casa e sentia-se, mais uma vez, a mudar. Mas esta nova transformação era diferente de todas as outras. Sentia-se crescer, a ganhar braços que se espalhavam pela terra e que tentavam subir, como que à procura de algo.

27/04/2006

A Vida dos Bonecos - parte 4

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Gritaria, se tivesse boca. Gritaria para que todos pudessem ouvir a sua dor, apesar de não sentir sequer o calor das chamas. A sua existência chegava agora ao fim. Pouco vira deste mundo. O pó que o cobriu durante anos. Paredes. Escadas. Algumas pessoas. O fogo. Pouco se lembrava do Criador. Quem o criou, não demorou mais de sete dias a perder o entusiasmo, depois de devidamente cortado e pintado, e, ao sétimo dia, trocou-o por um boneco de plástico articulado com acessórios. Afinal de contas, era só um bocado de papel, mal dava para brincar com ele. Não sentia raiva pelo Criador, felizmente também não tivera tido tempo de se afeiçoar a ele. Mas havia algo de que agora se lembrava. A macieira, a árvore imponente que durante toda a sua vida o acompanhara. Lembrava-se de todas as maçãs que vira tombar, de cada folha, de cada ramo. Sabia com exactidão onde e quando a macieira espalhava a sua sombra pelo quarto. Decorara todos os movimentos provocados pelo vento. Chorara com cada poda e com cada sopro de Outono que a despia aos poucos. Suspirara de cada vez que a janela era fechada e enervara-se com cada atraso na reabertura. Invejara cada gotícula de orvalho que ousara pousar nas folhas da árvore que era o único contacto que tivera tido com o mundo exterior. Tudo isso eram agora memórias, não mais teria o prazer de sonhar em abraçar aquela árvore, de sentir o cheiro da casca e das folhas e de provar os seus frutos redondos e fascinantes.

As pernas ardiam, o tronco começava a assumir uma cor acastanhada, em breve deixaria de conseguir ver e assim terminaria a sua existência contemplativa. O fim chegara. Já não era mais do que um pequeno montículo de fuligem e uma indistinta nuvem de fumo. Precipitava-se pela chaminé escura, suja e a malcheirosa. Mais uma vez, era incapaz de controlar a sua substância, mas isso agora não tinha qualquer importância. Misturou-se com o fumo da lenha e prosseguiu a sua subida lenta, na direcção de pequenas luzes que pareciam cintilar lá muito ao longe. De repente, sentiu-se empurrado para o lado. Saíra da chaminé, mas a noite não o deixava ver o que quer que fosse, a não ser as tais luzes longínquas. Continuava a subir em direcção a elas, cada vez mais alto, sem parar, sempre, sempre a subir, enquanto era empurrado pelo vento. Achou estranho que, por muito que subisse, as luzes não parecessem ficar mais próximas, mas achou ainda mais estranho o que se passou a seguir.

21/04/2006

A Vida dos Bonecos - parte 3

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Com um clique, uma porta abriu-se e entraram três pessoas. A pessoa mais pequena já lhe era familiar, mas as outras, uma de cabelos compridos e outra com cabelos na cara, não se lembrava de já as ter visto. O Criador, a mais pequena, correu na direcção de um quadrado de vidro que lhe parecia uma janela estranha, carregou num botão e sentou-se mesmo em frente quando, de repente, apareceram outras pessoas, mais pequenas, do outro lado da janela estranha. A pessoa de cabelos compridos desapareceu por uma porta e a de cabelos na cara dirigiu-se para um buraco na parede que tinha um pó cinzento que nunca tinha visto antes, pegou numa série de galhos e num quadrado castanho e aproximou um galho mais pequeno que tinha uma luz avermelhada estranha na ponta. De imediato, o quadrado castanho ficou com a mesma luz avermelhada e, pouco depois, também os galhos reluziam com a luz avermelhada. Toda aquela luz espantou o boneco, de tal maneira que nem se apercebeu quando a pessoa de cabelos na cara se afastou do buraco na parede, vindo na sua direcção. Nem sequer se preocupou quando a pessoa se deteve diante dele e, franzindo um sobrolho, pegou nele, estendeu-o na direcção do Criador e lhe disse qualquer coisa que não percebia, mas via que o Criador acenava com a cabeça como que a dizer que não. Nesse momento, foi amachucado com uma só mão, como se a sua vida de nada valesse, e atirado na direcção da luz avermelhada…

20/04/2006

Saudade

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O vento sopra, pela janela, e a minha pele arrepia-se. Não me traz risos distantes, como pedi há uns tempos, via e-mail – sim, eu sei que já respondeste, é só para me situar. Não, traz-me só arrepios e o som da chuva, que, agora sim, ouço bem. Tenho um novo amigo entre os vultos, essas figuras de efeitos de luz e de sombra e talvez algo mais que poderá ou não estar só na minha cabeça, tenho uma lágrima no olho e não me apetece agora essas discussões. Este novo amigo é pequeno, aparece junto ao chão, e vem quase sempre do mesmo lado, da direcção da porta. Tem duas saliências em forma de V invertido na cabeça e é esguio e eu juro que consigo vê-lo distintamente pelo canto do olho e sei quem é. O meu coração dispara nessas alturas. Viro a cabeça depressa na ânsia de lhe ver as patitas, finas e rápidas, mas não está lá nada. Por vezes, quando estou em frente ao computador, levanto um braço e digo "anda", à espera de ouvir miar como resposta, mas o vulto desaparece, em vez de me saltar para o colo, e é nessas alturas que me lembro… Não quero saber se acreditam ou não, pouco me interessa que se riam ou que fiquem a pensar em mim como se fosse maluco. Eu vejo vultos. E agora vejo o vulto de um gato. Ou melhor, de uma gata.

- Anda…

14/04/2006

Sim, sim, é mesmo aqui!

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Vá, para agradar a quem andava INCESSANTEMENTE a dizer que devia mudar o template, cá está o novo O Estranho.
Claro que, para satisfazer a vontade a quem dizia INCESSANTEMENTE que devia manter o template (a minha consciência incluída), está praticamente tudo igual...
;)

13/04/2006

A Vida dos Bonecos - parte 2

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Ouvira, em tempos, alguém ler uma história acerca de um boneco de madeira que se tinha tornado num rapaz de verdade, mas isso parecia-lhe impossível. Pior do que isso, ainda que fosse possível, ele era feito de papel! Seria sorte a mais que isso acontecesse a dois bonecos tão diferentes. Ainda assim sonhava com o movimento. Via vida lá fora, onde as andorinhas cantavam e o vento soprava. De cada vez que uma maçã caía, madura demais para suportar o próprio peso, tentava esticar um braço para a apanhar, mas... era inútil. Nessas alturas, a única coisa que o alegrava era o facto de não conseguir chorar. Isso arruinar-lhe-ia o corpo!

Um dia, o abrir de uma porta criou uma lufada de ar que o atirou da prateleira em que estava esquecido. Sobressaltado, com o coração aos pulos – se o tivesse – , viu-se a pairar na direcção de uma porta que nunca antes vira que dava acesso a umas escadas com que nunca antes sonhara que desciam para uma sala que nunca antes imaginara que existia. Aterrou no último degrau, mesma na borda quase, quase a cair. Era um mundo completamente novo este agora diante dele e desejou ter pálpebras para arregalar. Ali ficou uma tarde, sem ter qualquer noção do tempo a passar, faltava-lhe a sombra da macieira para saber que o dia se aproximava do fim.

07/04/2006

A Vida dos Bonecos

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(Fartei-me de esperar "aprovação", por isso começo a publicar... O parágrafo que se segue é de exclusiva responsabilidade de .J. e serviu de mote ao conto que seguirá em posts futuros - só para dar tempo a um hipotético berro de "Não publiques já!!!")

O dia cheirava a terra molhada e fruta fresca. O vento estava impregnado de calor e nele brincavam as primeiras andorinhas do ano. Era o início da Primavera, mas ele não sabia disso. Do sítio em que se encontrava via apenas o céu, o sol e uma macieira. Das duas certezas que tinha uma era que da cinta para baixo estava cheio de pó, embora todo o seu corpo estivesse coberto por uma mancha cinzenta. Uma sombra da árvore, que, diariamente, entrava pelo vidro da janela e lhe tocava ao de leve. Uma coisa sem importância se fosse outra pessoa a estar na sua pele. Mas era só ele que ali estava e já há muitos anos que não saía dali. Além disso, o seu Criador não lhe tinha concedido a graça de ter pele e ossos. Por isso, a outra certeza que ele tinha era a de que não passava de um boneco de papel, com vontades aparentemente absurdas. Por exemplo, poder esticar as pernas, sacudir o pó e comer uma maçã.

(...)

PS: Obrigado pelos comentários do post anterior. Abraços e beijinhos a todos, até para o Brasil, que não sabia minimamente o que havia de dizer...