A Vida dos Bonecos - fim
Passaram-se anos. Muitos e longos anos. A cidade foi-se alterando, alargando-se e tornando-se mais suja, mas isso aconteceu longe dali. À volta do sítio onde uma pequena gota caíra e onde agora se erguia, imponente, uma macieira, foram construídas casas. A rua estava repleta de meninos que brincavam e corriam e gritavam. Mas havia uma menina que preferia ficar longe da confusão. Ficava no seu quarto, com vista para a imponente macieira, a recortar revistas e jornais para fazer bonecos. Tinha-os às dezenas, de todos os tamanhos e feitios, de todas as cores, bonecos que pareciam pessoas, bonecos que pareciam animais, bonecos que se espalhavam por todo o lado, em cima da cama, no chão, junto à janela, bonecos que fazia todos os dias quando chegava da escola e depois pedia ao pai para queimar, para que pudessem voar transformados em fumo para onde lhes apetecesse, bonecos que criava e que adorava tanto que não podia deixá-los a ganhar pó, esquecidos a um canto. Não, eles tinham de ser livres para poderem ver o mundo. A menina sentia-se feliz assim, sentia que criava algo maravilhoso, pois quase dava vida aos bonecos. Todos os dias cumpria o mesmo ritual: chegava vinda da escola, recortava o máximo de bonecos que conseguia até o pai chegar a casa, corria a abraçá-lo, iam os dois para as traseiras da casa e comiam uma maçã, enquanto viam os bonecos iniciarem a sua viagem em fumo…
Nenhum dos dois o admitia, mas ambos sentiam que a macieira se movia de forma estranha, nesta altura… Quase como se dançasse... Quase como se estivesse feliz...


