05/05/2006
04/05/2006
A Vida dos Bonecos - parte 5
Estava misturado com o fumo da lenha que ardera ao mesmo tempo que ele, de tal modo que era impossível distinguir que fumo era seu e que fumo era da lenha. Mas, subitamente, apercebeu-se de que começava a misturar-se com um fumo que nunca tinha visto, um fumo molhado, cinzento como ele agora era, mas mais limpo, fresco e dinâmico. O vento empurrava agora os três, o boneco, a lenha e este fumo desconhecido. Deslocaram-se durante horas, não sabendo sequer para onde se dirigiam, mas não tinham outro remédio. O dia acabou por nascer e foi a visão mais fascinante que o boneco teve em toda a sua vida. Estava escuro, uma imensa nuvem espalhava-se por todo o céu e tornava a cidade diante dele melancólica e soturna, mas ainda assim era maravilhoso. Finalmente via o mundo exterior. Finalmente via tudo o que estava para lá das quatro paredes que sempre o haviam prendido. Finalmente sentia-se livre, sentia-se mais do que um simples boneco de papel, incapaz de movimentos. Sentia vontade de chorar, mas já nem olhos desenhados tinha. Era apenas uma grande nuvem escura que, de vez em quando, se iluminava e emitia barulhos assustadores. Maravilhava-se com tudo aquilo que via, de tal modo que nem se apercebeu quando o seu corpo agora líquido se começou a precipitar em direcção ao solo. Já ia a meio da queda quando se apercebeu de que se separara do resto da nuvem. Passara por outra transformação; era agora uma série de gotas transparentes que caíam a uma velocidade cada vez maior em direcção à cidade que ainda há pouco o fascinara. Atingiu o chão. As gotas espalharam-se por todo o lado e voltava a sentir a mesma impotência de quando era feito de papel. Não conseguia fazer mais nada a não ser enterrar-se cada vez mais fundo na terra transformada em lama. Tivera um vislumbre do mundo exterior e agora voltava a perdê-lo.
Já quase se resignara à ideia de que não sairia dali quando chocou com um objecto estranho. Tinha o formato de uma pequena gota de água, como ele, mas era duro, castanho-escuro. Sentiu que, à medida que lhe tocava, se conseguia fundir com aquele objecto. Ao fim de alguns minutos, já penetrara completamente na sua nova casa e sentia-se, mais uma vez, a mudar. Mas esta nova transformação era diferente de todas as outras. Sentia-se crescer, a ganhar braços que se espalhavam pela terra e que tentavam subir, como que à procura de algo.
27/04/2006
A Vida dos Bonecos - parte 4
Gritaria, se tivesse boca. Gritaria para que todos pudessem ouvir a sua dor, apesar de não sentir sequer o calor das chamas. A sua existência chegava agora ao fim. Pouco vira deste mundo. O pó que o cobriu durante anos. Paredes. Escadas. Algumas pessoas. O fogo. Pouco se lembrava do Criador. Quem o criou, não demorou mais de sete dias a perder o entusiasmo, depois de devidamente cortado e pintado, e, ao sétimo dia, trocou-o por um boneco de plástico articulado com acessórios. Afinal de contas, era só um bocado de papel, mal dava para brincar com ele. Não sentia raiva pelo Criador, felizmente também não tivera tido tempo de se afeiçoar a ele. Mas havia algo de que agora se lembrava. A macieira, a árvore imponente que durante toda a sua vida o acompanhara. Lembrava-se de todas as maçãs que vira tombar, de cada folha, de cada ramo. Sabia com exactidão onde e quando a macieira espalhava a sua sombra pelo quarto. Decorara todos os movimentos provocados pelo vento. Chorara com cada poda e com cada sopro de Outono que a despia aos poucos. Suspirara de cada vez que a janela era fechada e enervara-se com cada atraso na reabertura. Invejara cada gotícula de orvalho que ousara pousar nas folhas da árvore que era o único contacto que tivera tido com o mundo exterior. Tudo isso eram agora memórias, não mais teria o prazer de sonhar em abraçar aquela árvore, de sentir o cheiro da casca e das folhas e de provar os seus frutos redondos e fascinantes.
As pernas ardiam, o tronco começava a assumir uma cor acastanhada, em breve deixaria de conseguir ver e assim terminaria a sua existência contemplativa. O fim chegara. Já não era mais do que um pequeno montículo de fuligem e uma indistinta nuvem de fumo. Precipitava-se pela chaminé escura, suja e a malcheirosa. Mais uma vez, era incapaz de controlar a sua substância, mas isso agora não tinha qualquer importância. Misturou-se com o fumo da lenha e prosseguiu a sua subida lenta, na direcção de pequenas luzes que pareciam cintilar lá muito ao longe. De repente, sentiu-se empurrado para o lado. Saíra da chaminé, mas a noite não o deixava ver o que quer que fosse, a não ser as tais luzes longínquas. Continuava a subir em direcção a elas, cada vez mais alto, sem parar, sempre, sempre a subir, enquanto era empurrado pelo vento. Achou estranho que, por muito que subisse, as luzes não parecessem ficar mais próximas, mas achou ainda mais estranho o que se passou a seguir.
21/04/2006
A Vida dos Bonecos - parte 3
Com um clique, uma porta abriu-se e entraram três pessoas. A pessoa mais pequena já lhe era familiar, mas as outras, uma de cabelos compridos e outra com cabelos na cara, não se lembrava de já as ter visto. O Criador, a mais pequena, correu na direcção de um quadrado de vidro que lhe parecia uma janela estranha, carregou num botão e sentou-se mesmo em frente quando, de repente, apareceram outras pessoas, mais pequenas, do outro lado da janela estranha. A pessoa de cabelos compridos desapareceu por uma porta e a de cabelos na cara dirigiu-se para um buraco na parede que tinha um pó cinzento que nunca tinha visto antes, pegou numa série de galhos e num quadrado castanho e aproximou um galho mais pequeno que tinha uma luz avermelhada estranha na ponta. De imediato, o quadrado castanho ficou com a mesma luz avermelhada e, pouco depois, também os galhos reluziam com a luz avermelhada. Toda aquela luz espantou o boneco, de tal maneira que nem se apercebeu quando a pessoa de cabelos na cara se afastou do buraco na parede, vindo na sua direcção. Nem sequer se preocupou quando a pessoa se deteve diante dele e, franzindo um sobrolho, pegou nele, estendeu-o na direcção do Criador e lhe disse qualquer coisa que não percebia, mas via que o Criador acenava com a cabeça como que a dizer que não. Nesse momento, foi amachucado com uma só mão, como se a sua vida de nada valesse, e atirado na direcção da luz avermelhada…
20/04/2006
Saudade
O vento sopra, pela janela, e a minha pele arrepia-se. Não me traz risos distantes, como pedi há uns tempos, via e-mail – sim, eu sei que já respondeste, é só para me situar. Não, traz-me só arrepios e o som da chuva, que, agora sim, ouço bem. Tenho um novo amigo entre os vultos, essas figuras de efeitos de luz e de sombra e talvez algo mais que poderá ou não estar só na minha cabeça, tenho uma lágrima no olho e não me apetece agora essas discussões. Este novo amigo é pequeno, aparece junto ao chão, e vem quase sempre do mesmo lado, da direcção da porta. Tem duas saliências em forma de V invertido na cabeça e é esguio e eu juro que consigo vê-lo distintamente pelo canto do olho e sei quem é. O meu coração dispara nessas alturas. Viro a cabeça depressa na ânsia de lhe ver as patitas, finas e rápidas, mas não está lá nada. Por vezes, quando estou em frente ao computador, levanto um braço e digo "anda", à espera de ouvir miar como resposta, mas o vulto desaparece, em vez de me saltar para o colo, e é nessas alturas que me lembro… Não quero saber se acreditam ou não, pouco me interessa que se riam ou que fiquem a pensar em mim como se fosse maluco. Eu vejo vultos. E agora vejo o vulto de um gato. Ou melhor, de uma gata.
- Anda…
14/04/2006
Sim, sim, é mesmo aqui!
Vá, para agradar a quem andava INCESSANTEMENTE a dizer que devia mudar o template, cá está o novo O Estranho.
Claro que, para satisfazer a vontade a quem dizia INCESSANTEMENTE que devia manter o template (a minha consciência incluída), está praticamente tudo igual...
;)
13/04/2006
A Vida dos Bonecos - parte 2
Ouvira, em tempos, alguém ler uma história acerca de um boneco de madeira que se tinha tornado num rapaz de verdade, mas isso parecia-lhe impossível. Pior do que isso, ainda que fosse possível, ele era feito de papel! Seria sorte a mais que isso acontecesse a dois bonecos tão diferentes. Ainda assim sonhava com o movimento. Via vida lá fora, onde as andorinhas cantavam e o vento soprava. De cada vez que uma maçã caía, madura demais para suportar o próprio peso, tentava esticar um braço para a apanhar, mas... era inútil. Nessas alturas, a única coisa que o alegrava era o facto de não conseguir chorar. Isso arruinar-lhe-ia o corpo!
Um dia, o abrir de uma porta criou uma lufada de ar que o atirou da prateleira em que estava esquecido. Sobressaltado, com o coração aos pulos – se o tivesse – , viu-se a pairar na direcção de uma porta que nunca antes vira que dava acesso a umas escadas com que nunca antes sonhara que desciam para uma sala que nunca antes imaginara que existia. Aterrou no último degrau, mesma na borda quase, quase a cair. Era um mundo completamente novo este agora diante dele e desejou ter pálpebras para arregalar. Ali ficou uma tarde, sem ter qualquer noção do tempo a passar, faltava-lhe a sombra da macieira para saber que o dia se aproximava do fim.
07/04/2006
A Vida dos Bonecos
(Fartei-me de esperar "aprovação", por isso começo a publicar... O parágrafo que se segue é de exclusiva responsabilidade de .J. e serviu de mote ao conto que seguirá em posts futuros - só para dar tempo a um hipotético berro de "Não publiques já!!!")
O dia cheirava a terra molhada e fruta fresca. O vento estava impregnado de calor e nele brincavam as primeiras andorinhas do ano. Era o início da Primavera, mas ele não sabia disso. Do sítio em que se encontrava via apenas o céu, o sol e uma macieira. Das duas certezas que tinha uma era que da cinta para baixo estava cheio de pó, embora todo o seu corpo estivesse coberto por uma mancha cinzenta. Uma sombra da árvore, que, diariamente, entrava pelo vidro da janela e lhe tocava ao de leve. Uma coisa sem importância se fosse outra pessoa a estar na sua pele. Mas era só ele que ali estava e já há muitos anos que não saía dali. Além disso, o seu Criador não lhe tinha concedido a graça de ter pele e ossos. Por isso, a outra certeza que ele tinha era a de que não passava de um boneco de papel, com vontades aparentemente absurdas. Por exemplo, poder esticar as pernas, sacudir o pó e comer uma maçã.
(...)
PS: Obrigado pelos comentários do post anterior. Abraços e beijinhos a todos, até para o Brasil, que não sabia minimamente o que havia de dizer...
01/04/2006
Será que os gatos têm alma?
A Fofinha era branca. Uma gata que, logo à primeira vista, se percebia ser muito dona do seu nariz. Brincava quando queria, com quem queria e como queria. Foi a senhora da casa durante 13 anos (ou talvez mais. Confesso que já não me lembro da minha idade quando a raptámos da mãe) e conheceu, ao longo da vida e à medida que eles se “sucediam”, 2 cães do tamanho dela, 1 ligeiramente maior e 1 serra da estrela bebé que já era do tamanho dela (este último da minha irmã). Bateu e arranhou todos! O Puki (o ligeiramente maior) sangrou da primeira vez que se viram, mas entrou em depressão quando tivemos de a levar ao veterinário para ser abatida.
A 26 de Novembro de 2003, escrevi um texto chamado “Adeus” que só seria “publicado” a 31 de Agosto de 2004, neste blog. Era de noite, já muito tarde e lembro-me de, na manhã seguinte, ter ido para a faculdade, com o peso do mundo nos ombros e o gelo dos pólos no coração. O Faísca, para quem se destinava o “Adeus”, tinha morrido, não chegando sequer ao primeiro aniversário. “Faísca” era um nome perfeito para ele, riscas cinzentas e um feitio arisco indomável. Atravessou a rua sem olhar. O Puki foi o primeiro a aperceber-se do berro do amigo e quase não nos deixava abrir o portão. Tive de o arrastar para a berma, enquanto ele me morria nas mãos.
Há um mês, o Matias, o gato da vizinha e melhor amigo da Pantufa, foi atropelado à porta de casa. A minha vizinha, por entres vómitos de choque e lágrimas de tristeza, pediu-me para ir ver se era mesmo ele e para o tirar da estrada. Era ele.
A Pantufa era preta (e branca por baixo). Encontrei-a hoje, estendida num caminho nas traseiras da minha casa. Também não chegou a fazer um ano de vida. Era meiga (apesar de vadia! Adorava passar o dia fora de casa.), miava muito e saltava para o colo de toda a gente, mesmo que não conhecesse. Encontrei-a já fria e dura, com moscas a rodeá-la, mas sei que morreu esta manhã, depois de, provavelmente, ter comido o que não devia: o Puki não se calava, encostado ao muro, a ladrar na direcção da amiga. Sentei-me em frente a ela, as mãos na cabeça, sem saber o que fazer nem o que dizer à minha mãe. Peguei nela e embrulhei-a num pano que a minha mãe me estendeu.
23/03/2006
Confissões pouco sérias
03/03/2006
My shadow friends
I see them clearly, though they are not there,
My dear shadow friends
Who are always there.
They bend over my shoulder,
Some smirking, other watching,
Reminding me they are there,
Showing they are beside me,
Taunting with my mind,
Testing my soul.
I turn my head quickly,
Oh, how often I do this,
Hoping to catch a glimpse
Of someone who is not there,
Only to see they moved to the other side,
From left to right and right to left,
Always eluding, always there.
Come, dear shadow friend,
The night is young and so are we,
There’s lots of time to play,
To have fun with this game of ours,
Our unique hide and seek,
You will hide and I will seek
And rest assure, for I will never find you.
Or will I? …
23/02/2006
O outro lado do espelho
Luz mexe-se, arrastando-se pelo chão enquanto Trevas observa. – “Duas almas nasceram como uma só” – Luz levanta o rosto quando sente que Trevas lhe estende a mão. Os dedos de ambos tocam-se, como se fossem um só, os mesmos dedos, a mesma pele, a mesma carne. – “O Destino de ambas, unido pela carne” – Luz ergue-se e os seus olhos irradiam alegria, agradecimento. – “Uma caminha na Luz e à Fortuna agradece” – Trevas não reage, os seus olhos mostram apenas fúria de vencer. “A outra cavalga nas Trevas e nada teme” – À volta de ambos, espalham-se centenas de pessoas, divididas em duas facções. – “Uma terá ajuda com um sorriso, A outra comandará exércitos com o olhar” – Os dois olham-se, intensamente, depois viram-se e observam o horizonte. – “O mesmo destino espera as duas” – Olham-se novamente, como um espelho que reflecte a visão. Aproximam as cabeças. O espelho parte-se. – “E, por ele, se destruirão.”
16/02/2006
5 manias?! Não me façam rir...
Muito bem, cá vão as minhas manias:
Tenha a mania de:
> demorar a escrever/ responder no blog (clara provocação à polegar... ;P )
> arregalar os olhos e dizer "Pois, é isso!" quando me dizem alguma coisa com que concordo
> passar horas a ouvir os outros, mas depois não dar conselhos porque sei que não sou eu que sofro as consequências na pele (vá, tento dizer quais as possibilidades e consequências, já não é mau!)
> não falar de mim e ser evasivo quando me fazem perguntas muito pessoais
> que sou cinéfilo e a verdade é que não percebo nada de cinema e até já me apanhei a ver um filme do steven segal (sniff, sniff, é triste, mas é verdade..)
> remoer sobre disparates que fiz mesmo que tenham passado anos desde que as fiz
> rematar com toda a força como se não houvesse amanhã quando devia tentar colocar a bola no poste mais distante
> carregar no play, ouvir a primeira música e nas seguintes já a minha cabeça percorreu sei lá quantas histórias e aventuras
> ficar a olhar para a Josie Maran
> ficar com gases quando como feijoada
> achar que a Josie Maran até ficava bem-servida comigo
> achar que sou bom tipo
> achar que sou um idiota
> breasts
> deixar que o Jeff do "Coupling" invada esta coisa das manias
> achar que se as pessoas me conhecerem bem, vão achar-me desinteressante, por isso crio "gomos" da minha vida
> ver vultos
> achar que tenho muitas manias quando na verdade até sou um tipo bastante simples
> achar que estou a chatear as pessoas por isso vou parar por aqui...
Próximas vítimas: Damon do Staring, .Joana. e Brasil do Borras, Nenuco (que está obrigada a participar a escrever 5 manias nos comentários!) e, olhem qualquer um que cá venha e queira publicidade para o seu próprio blog! E o Xôr n. do modern love só não leva com isto porque já vi que já lhe impingiram o teste... ;)
14/02/2006
Impagável
http://www.havidaemmarkl.com/havida.html
Fazer scroll até 9/2/2006: AMÁLIA, A LOCUTORA VIRTUAL (QUE MIA)
08/02/2006
NENUCO!!!!!!!!!!!!!
rais'partam a clix e a sua factura detalhada que me chibou uns míseros 16 minutos e 38 segundos de ligação para um optimus no dia 7 de Janeiro, às 18h58m30s!!! O que vale é que fui o único "sobrevivente" de uma gastroentrite que pôs de cama pai, mãe e irmã e lá tive eu de ir fazer canjinha e cházinho para toda a gente... eheheh
(pequeno aparte: quem anteriormente me imaginou a dançar sensualmente pela casa fora, imagina-me agora vestido de enfermeira...)
06/02/2006
encontro com o desconsolo
A meio d’ “O fio das missangas”, a campainha toca. Intrigado, a pensar se viriam para contar a luz ou a água, levo uma mão ao cabelo, tique vaidoso de quem não espera companhia. Da janela do andar de cima, espreito, sou apanhado por caras familiares, mas não conhecidas.
- Boa tarde.
- Sr. Estranho – começa a primeira – não sei se se lembra, mas há umas semanas deixámos aqui umas revistas para o senhor consultar e combinámos um encontro para falar sobre isso...
- Ah sim… - vêm-me à cabeça as revistas; usei-as para acender a lareira no próprio dia, enquanto pensava na minha avó e em como ela me censuraria se soubesse que queimava as preciosas revistas da religião dela… – Olhe, desculpe, mas não estou interessado. Peço desculpa por as ter feito perder tempo, mas…
- Não tem nada que pedir desculpa! – abrupta a segunda – Se não está interessado, não está interessado!
- Bom, então tenha uma boa tarde e obrigado – completa a primeira, enquanto olha uma última vez para a janela com um meio-sorriso de desconsolo. Retribuo-lhe o meio-sorriso:
- Boa tarde…
Volto para a leitura, mas não consigo. Penso na primeira, a cara dela lembra-me uma professora, das pessoas que conheço talvez a que menos acredita na existência de Deus. Não uma cobarde agnóstica, como eu, mas uma verdadeira ateísta. Tão absolutamente ateísta que nem fala em religião. Talvez tenham a mesma idade, mas a que acabou de me tocar à porta parece mais nova, sem dúvida mais calma. Tem a calma de quem confia em Deus. Por vezes, gostava de acreditar que Deus realmente existe, que toma conta de mim, que se for boa pessoa, tudo me sorrirá e que posso confiar cegamente no Seu juízo. Deve ser bom deixar o destino nas mãos de um deus omnipresente e todo-poderoso. Mas não consigo. Aos 6 anos, a inocência e a resolução próprias de uma criança dessa idade, levaram-me a acreditar que Deus não existia. Foi o primeiro e maior desgosto que dei à minha mãe, que ainda hoje me aponta o dedo (como boa católica não-praticante que é). Não consigo conceber que alguém omnipresente e todo poderoso seja tão ausente, tão impotente. Talvez a minha avó tenha razão (ainda que tenha as minhas dúvidas), talvez eu tenha mesmo o diabo no corpo, talvez a minha família e casa estejam realmente possuídas por um qualquer mal milenar que ela, na sua inocência e resolução próprias de quem chega a velho e começa a temer a morte, possa eliminar com a força da sua fé. Mas não acredito. Não posso acreditar que um punhado de textos supostamente sagrados ditem o destino da minha alma ou a de qualquer outra pessoa. Não posso acreditar que a minha avó, que mal fala para o meu avô por ele não seguir a mesma religião, que deixou de aceitar o convívio familiar em alturas de Natal e aniversário (por causa da religião), que estende a mão a alguns dos meus tios ao mesmo tempo que repele o meu pai, tenha razão. Mas lamento o meio-sorriso de desconsolo da primeira. Sente que falhou, que perdeu mais uma alma e tenho a certeza de que hoje vou estar incluído nas suas preces. E também lamento ter dito à minha avó que não acredito na existência de Deus (o Sr. Jeová para ela…) e tenho a certeza que também estou incluído nas preces dela… no final da lista, depois de todos os meus primos... Não interessa, tenho a calma e a consciência de que depende só de si.
31/01/2006
Rivais
Ele acordou. Manteve-se de olhos fechados, mas sabia que estava acordado porque ouvia a gata a miar no quarto ao lado, a pedir para a deixarem ir beber água. Levantou-se, abriu a porta do quarto ao lado e voltou a deitar-se. Algum tempo depois, um ronronar acompanhava o subir e descer da respiração do seu peito. Abriu os olhos e fez “psst!”, o que fez com que dois olhos amarelos se abrissem em frente dos seus. Lembrou-se de lhe terem falado de um documentário sobre mortes causadas por ataques de gatos e perguntou à criaturinha que agora olhava para ele se ela, por acaso, não trazia uma faca ou uma pistola à cintura, por baixo do pêlo… A única resposta foi “miau", um “miau” prolongado e muito arrastadoa ele se ela ara ele se ela e perguntou-lheos dele e serque n, quase como o balir de um cabrito! Riu-se. Dobrou as pernas, erguendo os joelhos, e o movimento súbito assustou o cabrito que miava e ficou de novo sozinho. Doía-lhe um joelho, inchado e marcado, mas sabia que, se tivesse oportunidade, nesse mesmo instante sairia de casa para se encontrar com os outros. Levantou-se, vestiu-se e tomou o pequeno-almoço. Pensou no que estaria o outro a fazer…
Ele fechou a porta do quarto. Sentia frio, mas ainda era muito cedo para se deitar. Retomou a leitura; em breve acabaria o livro com o seu nome. Não via ninguém há bastante tempo e não queria saber disso para nada. Sentia-se bem, frio e sozinho, mas bem. Passaram 2 horas antes de se aperceber de que estava cansado. Doíam-lhe as costas. Levantou-se, silenciosamente. Passou os olhos pelas estantes como que a decidir-se que livro leria a seguir. Nesse momento, apetecia-lhe escuridão, contos rápidos de macabro e esoterismo, de sombras que se revelam gatos que se revelam demónios que se revelam a própria alma da personagem principal. Preparou-se para se deitar. Lá fora, um gato miou e outro respondeu-lhe, na escuridão. Pensou no que estaria o outro a fazer…
Ele e ele nasceram no mesmo dia e à mesma hora. Nem um segundo separou o nascimento de um e de outro. Noutros tempos, em eras de magia e fantasia, uma profecia teria sido criada:
“Duas almas nasceram como uma só,
O destino de ambas, unido pela carne.
Uma caminha na Luz e à Fortuna agradece,
A outra cavalga nas Trevas e nada teme.
Uma terá ajuda com um sorriso,
A outra comandará exércitos com o olhar.
O mesmo Destino espera as duas
E, por ele, se destruirão.”
26/01/2006
MY tell-tale heart
Be still, my heart, as someone once said,
For you cannot beat as soundly as you wish.
Be still, heart of mine, for you are a child,
Beating fast and long for what you cannot have.
Be silent; cherished heart, a wiseheart you must be,
For there is no pounding where you wish to be,
Not for you, anyway, not for us.
Pace down, beloved heart,
You’ll wear yourself down;
Ramming yourself against our chest
Will not bring you the object of your desire.
Save your strengths, dear heart of mine;
Not all battles are made to be won,
Some are there to make you stronger
And, though none of us can see,
All glory we will vanquish.
Be still, my heart, my friend, be patient,
Who knows what tomorrow will bring?
360
Como muitos surfistas, skaters e malabaristas afins saberão, um 360 é uma volta completa com a prancha ou o que quer que seja que usam debaixo dos pés. Amanhã, os meus pais vão perguntar-me porque raio liguei o computador às 2 da manhã e eu vou sorrir, discretamente, com os olhos a brilhar muito, e dizer que não conseguia dormir e que fui ver se já me tinham enviado o trabalho. Vou mentir, portanto, apesar de ter prometido a mim mesmo nunca mais mentir, mas esta é pequenina…
A minha vida está numa espiral ascendente, um 360 do chão para o céu (com possibilidades de queda, é certo, mas qualquer subida implica uma descida, por isso preocupo-me quando chegar a altura. Além disso, “malhar”, como dirão os artistas já mencionados, faz parte da vida!). Durante 19 longos anos vivi amorfo. Tenho 24 anos agora, a caminho dos 25, e os últimos 5 anos têm sido, no mínimo, inconstantes. Da arrogância extrema à mais profunda convicção de inutilidade foram 2 anos. Do frenesim ao chorar num autocarro apinhado (obrigado, R., por teres tentado encobrir-me, sem saber o que fazer ou dizer) foi 1. Da culpa à aceitação outros 2. Das incertezas ao caminho que sempre se quis seguir… 4 dias! Dia 20 de Janeiro deu-me força: a hipertensão (genética e provocada pelo excesso de peso) está controlada e o meu coração bate mais descansadamente do que o do meu pai, que tem 55 anos, pratica uma hora de atletismo por dia e participa em todas as provas amadoras semanais que existem (e começo a sentir o bichinho de lhe seguir as pegadas, mas não lhe digam nada); o tratamento de imuno-alergologia começado há 5 longos anos, acabou e a reacção do meu organismo encheu o meu médico de orgulho (nas próprias capacidades. Sr. Doutor, sabe, por muito pouco que o corpo reaja, é incrivelmente latoso deixar um paciente com 15 picadas em cada braço sozinho num consultório, ainda que seja a ouvir uma qualquer senhora a cantar ópera - que, só por mero acaso, não é australiana, como disse com um sorrisinho sarcástico nos lábios, mas sim neo-zelandesa...); a entrevista no centro de emprego deu-me vontade de rir quando, depois de ficarem admirados com a média que obtive no curso de Tradução e Interpretação, me perguntaram se sabia falar alguma língua... (vale a pena comentar?); o reencontro, 1 ano e muitos textos dedicados depois, com… não vale a pena, devia lamentar esta sensação, mas a verdade é que não me aqueceu nem arrefeceu. E sei que o sentimento foi mútuo. Recordei o passado, sim, mas, oh, durassem todas as recordações e mágoas tão pouco tempo e seria um Estranho bem mais feliz! Segue a tua vida, ex-Estranha, vou fazer o mesmo sem olhar para trás. Voltei a encontrá-la, depois, no dia 23, o que só serviu para confirmar essa sensação de banho-maria, nem ferve nem arrefece. Mas, como disse o correspondente de Oxford, não deixa de ser curioso vê-la mais vezes em 4 dias do que em 2 anos!
A minha vida está numa espiral ascendente, um 360 do chão para o céu. Tenho 2 sócios com quem deverei abrir uma empresa de tradução ainda este ano, dependendo do capital e dos clientes angariados com o trabalho como freelancers. É aí que está o 360, uma volta completa e volta-se ao ponto de partida. O que sempre quis poderá realizar-se. Do chão para o céu. Estou calmo. Sei o que quero. Começo a ser feliz. Como disse à minha mãe, só me falta emprego e amor; o primeiro, se calhar, crio-o; o segundo...


