Será que os gatos têm alma?
A Fofinha era branca. Uma gata que, logo à primeira vista, se percebia ser muito dona do seu nariz. Brincava quando queria, com quem queria e como queria. Foi a senhora da casa durante 13 anos (ou talvez mais. Confesso que já não me lembro da minha idade quando a raptámos da mãe) e conheceu, ao longo da vida e à medida que eles se “sucediam”, 2 cães do tamanho dela, 1 ligeiramente maior e 1 serra da estrela bebé que já era do tamanho dela (este último da minha irmã). Bateu e arranhou todos! O Puki (o ligeiramente maior) sangrou da primeira vez que se viram, mas entrou em depressão quando tivemos de a levar ao veterinário para ser abatida.
A 26 de Novembro de 2003, escrevi um texto chamado “Adeus” que só seria “publicado” a 31 de Agosto de 2004, neste blog. Era de noite, já muito tarde e lembro-me de, na manhã seguinte, ter ido para a faculdade, com o peso do mundo nos ombros e o gelo dos pólos no coração. O Faísca, para quem se destinava o “Adeus”, tinha morrido, não chegando sequer ao primeiro aniversário. “Faísca” era um nome perfeito para ele, riscas cinzentas e um feitio arisco indomável. Atravessou a rua sem olhar. O Puki foi o primeiro a aperceber-se do berro do amigo e quase não nos deixava abrir o portão. Tive de o arrastar para a berma, enquanto ele me morria nas mãos.
Há um mês, o Matias, o gato da vizinha e melhor amigo da Pantufa, foi atropelado à porta de casa. A minha vizinha, por entres vómitos de choque e lágrimas de tristeza, pediu-me para ir ver se era mesmo ele e para o tirar da estrada. Era ele.
A Pantufa era preta (e branca por baixo). Encontrei-a hoje, estendida num caminho nas traseiras da minha casa. Também não chegou a fazer um ano de vida. Era meiga (apesar de vadia! Adorava passar o dia fora de casa.), miava muito e saltava para o colo de toda a gente, mesmo que não conhecesse. Encontrei-a já fria e dura, com moscas a rodeá-la, mas sei que morreu esta manhã, depois de, provavelmente, ter comido o que não devia: o Puki não se calava, encostado ao muro, a ladrar na direcção da amiga. Sentei-me em frente a ela, as mãos na cabeça, sem saber o que fazer nem o que dizer à minha mãe. Peguei nela e embrulhei-a num pano que a minha mãe me estendeu.



