Choro, com uma dor que não é minha. Choro, não porque os outros choram, mas pelos motivos porque choram. Choro porque tenho frio, porque estou sozinho, a acompanhar alguém que chora mais alto, mais inconsolavelmente, mas com mais motivos do que eu. Choro porque sinto, porque me despeço de alguém que nunca conheci, mas por quem não consigo deixar de sentir revolta. Choro – sozinho.
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Espero o nascer do sol, como faço todos os anos, nesta noite, desde que fiquei com um quarto só para mim. Cinco metros à direita, com duas paredes pelo meio, oiço o meu pai ressonar, apesar de ele dizer que não o faz. Em frente, vejo as decorações natalícias pirosas dos meus vizinhos, mangueiras de luzes que atravessam o ar desde uma janela até ao limoeiro mesmo por baixo do meu quarto. Passo assim a noite, todos os anos, quieto, a pensar e à espera que o sol nasça. Depois de todos se deitarem, guardo na memória o ano que passou, não espero pela próxima semana, a minha passagem de ano é e sempre será o natal, a “festa da família” para evitar evocações a um deus preguiçoso e rancoroso. O sol nasce. Fecho os olhos. Adormeço.
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Está a chover. «PANTUFA!» Estou no meu jardim, a chamar pela minha gata «TUFAS, ANDA CÁ!» Ela fugiu, o meu pai deixou a porta aberta e ela, como sempre, aproveitou para se esgueirar para ir brincar. «PANTUFA!» Estou no jardim, a fugir de mais uma discussão acerca de estar desempregado, e o sangue ferve-me, apesar da chuva me enregelar a pele. Ao contrário do que os meus pais e irmã parecem pensar, eu NÃO gosto de estar em casa, de ser “doméstico”. Começo a sentir reservas de dar a minha opinião em casa, estou sempre errado. «PANTUFA, PORRA, ANDA CÁ!!!»
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Espero uma luz que me aqueça o corpo e uma voz que adormeça os sentidos. Durmo pouco, sempre dormi, mas sonho muito, demasiado. Vejo os dias passar muito devagar, a vida a andar pouco para a frente e na direcção contrária à que queria. Os dias repetem-se e fico sem saber se realmente o ontem acabou. Disfarço, ou tento disfarçar, a melancolia da cara, mas sei que os meus olhos gritam o que sinto. Não há, felizmente, muita gente a olhar para eles. Nunca gostei de me mostrar, nada mesmo. Seria incapaz de dizer o que acabei de escrever olhos nos olhos. A minha alma pertence-me a mim. Alguém, que já não existe, conheceu cada canto da minha essência, mas, tal como ela, “a pessoa que conheceste já não existe”…
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Há frases que me ficarão gravadas para sempre.