Fogo e água
O cheiro a papel queimado faz-me comichão no nariz enquanto o fumo se espalha à minha volta. Nesta lareira, onde outrora arderam velas, acesas para criar ambiente propício ao amor, arde um bloco cujas linhas contêm a minha alma. Parte dela, pelo menos. Há um ano que não lhe mexia. Então, como agora, estava quase a fazer anos, mas então, ao contrário de agora, aquele bloco que agora arde era tudo a que me agarrava para não perder a alma. Lembro-me de uma das frases que agora arde – “Muita coisa muda num ano” – e sorrio ao pensar que tenho ouvido essa frase vezes sem conta neste último ano. Uma lágrima escorre-me pela cara, mas apresso-me a limpá-la. Sei que tenho o fogo reflectido na água dos meus olhos, mesmo depois de ele se apagar. Espalho as cinzas, para que pareça que nada ardeu recentemente e devolvo os vasos ao seu respectivo lugar. Agora há uma bola que bate contra a parede. Estou descalço, na garagem, com o fogo e as lágrimas ainda nos olhos e chuto uma bola com toda a força contra a parede, uma e outra e outra vez, com a certeza de que não resolvo nada, mas com a necessidade de apagar o fogo dos olhos. Paro. Não sei se por cansaço das pernas, se pelo sangue que escorre agora do sítio onde devia estar uma unha. Mas paro apenas por um momento, ainda sinto demasiado fogo a consumir-me por dentro, um fogo que só se vê pelos meus olhos, porque o meu rosto é uma pedra e a minha voz nada diz sobre mim. Encolho-me, no chão, as mãos atrás da cabeça, estou desarmado e de olhos fechados, mas levanto-me logo em seguida e agora agito os braços, desferindo murros no ar até que ele caia, inerte, sem sentidos, porque o odeio, porque o ar atiça o fogo.
Deito-me na banheira, cheia de água fria que me arrepia a pele. Só tenho a cabeça e os dedos dos pés de fora. Aqui debaixo não há ar, aqui debaixo não há fogo. Encosto a cabeça para trás, de olhos fechados. Começo a afundar-me. Sinto que me afundo cada vez mais, à medida que bolhinhas de ar se escapam pelo nariz. O calor que agora sinto nos pulmões não é do fogo que arde sem se ver, é do meu corpo que grita por ar. Mas eu não posso respirar, aqui debaixo não há ar. Chego ao fundo, sinto-o nas costas, enquanto as pernas se debatem. Não, ainda não é altura de regressar, se é que isso vai acontecer. Aqui não há peixes nem algas. Não há tubarões, espero eu. Não, aqui não há nada, só o meu corpo e água. E então abro os olhos. Consigo ver movimento à superfície, mas ninguém se apercebe de que estou aqui. Sinto a água, que agora entra nos pulmões, já não preciso de ar, já não tenho fogo reflectido nos olhos, agora sim, estou em paz. E já não sei se quero voltar. Mas uma mão vem na minha direcção e agita-se na água como se me procurasse. Hesito. Estico-me para a agarrar e ela puxa-me para fora.
Acordo, encharcado em suor. Adormeci, debruçado sobre a secretária, com os dedos ainda cheios de fuligem. Estive a sonhar com a vida e agora preciso de tomar banho. Olho para o lado. Sorrio quando vejo a Tv7dias aberta na página 109. Fico feliz. Olho para o outro lado. Vejo a capa de imitação de cabedal que arranquei de um caderno que se esvaiu em fumo. Fico... vivo.
Vai ficar tudo bem.
(Capicua, nem toda a sabedoria do mundo faria com que dispensasse os teus comentários)


