Nós...
Deito-me no chão, com um dicionário debaixo da cabeça. O soalho não é suficientemente duro para me magoar o corpo e o dicionário tem a altura certa para me sentir confortável. Aliás, já há algum tempo que não me sentia tão confortável. Parei há pouco de trabalhar, mas, apesar do sono, não me apetece deitar já. Ouço os meus pais numa discussão amena sobre quem deverá/ deveria ganhar a Quinta das Celebridades e não consigo deixar de sorrir. Sinto o cheiro de cera passada há anos neste chão em que agora me deito. Fico de barriga para o ar, a contar os nós da madeira do tecto. Um, dois, três…
Tu vens, em silêncio. Deitas-te em cima de mim, “le parquet est trop dur”, queixas-te. “Pas de problème, j’aime quand nous sommes comme ça, tout proche”. Falas e percebes português, mas este é um jogo só nosso, sem vencedores, nem estratégias de competição, é só uma brincadeira. Ergues-te um pouco e pousas as mãos no meu peito, “Quero sentir ton coeur”. Afasto-te o cabelo para trás das orelhas para ver melhor o teu rosto, “E que tal te parecem as batidas?”. Sorris, mostrando a simpatia imperturbável que te caracteriza, “Il est fort, tu ne seras mort que dans 60 années!”. Puxo-te para mim e aperto-te num abraço de que não consegues nem queres escapar, “Donc j’ais encore 60 années pour t’aimer, gros ennui!”. Bates-me ao de leve num ombro, fingindo raiva pela resposta, “Embrasse moi…”
Perdi a conta aos nós do tecto, vou ter de começar tudo de novo… Um, dois, três…


