Tempo morto
Os ponteiros movem-se, lentamente, enquanto fito os olhos azuis do Roger Rabbit. As horas que marcam são falsas; há muito que o tempo parou, e o movimento circular marca apenas uma tentativa vã de seguir em frente, de mostrar que, apesar de tudo, o passado foi e não volta. Mas parece que o passado volta sempre para nos atormentar… Não interessa. Neste momento, apetece-me ver o azul dos olhos do Roger Rabbit… Se calhar, estou a pensar nas pernas esculturais e nos seios fartos da Jessica Rabbit… Oh, e aqueles incríveis olhos verdes… Mas é mentira. Quem me dera estar a pensar numa qualquer personagem de um filme... Não estou. Estou a pensar no tempo morto. Estou a pensar na inutilidade do movimento daqueles ponteiros azuis e vermelhos. Como se eu precisasse de saber quanto tempo ficou para trás ou quanto tempo tenho pela frente. Como se eu precisasse de saber que fico acordado até tarde, demasiado tarde, porque a porcaria do passado não sabe ver as horas e, consequentemente, não sabe que o seu tempo já passou e que agora mais não é do que tempo morto! Mas não o culpo. Sou eu, que sei ver as horas, que o tento ressuscitar, qual experiência de Frankenstein, cheio de cicatrizes e dor e capaz apenas de se arrastar sobre uma das pernas, enquanto aterroriza todos por quem passa. Mas eu não sou Doutor, não percebo nada de dar vida e a experiência acaba sempre por voltar a morrer e regressar para o abismo de onde nunca devia ter saído. Mas continuo a olhar para o tempo morto. Só de vez em quando, porque, por bonito e fofinho que seja o Roger Rabbit, tenho mais do que fazer do que estar sempre a suspirar por quem não quer voltar e muito menos tenho paciência para sentir pena de mim próprio! O tempo está morto neste momento, mas lá fora há vida à minha espera!
Um dia, vou ajudar a criar vida e o meu primogénito vai ter este relógio no quarto. E o tempo nunca mais vai morrer!


