Sorrio, enquanto lágrimas me escorrem pela cara. Já quase não vejo nada, mas sinto uma leve comichão que começa a surgir no canto do olho (isto não é uma evocação de nenhuma música…). Mas estou a sorrir. Enquanto ouço a chuva escorrer pelas janelas (finalmente um pouco de chuva! Os bomtempo-dependentes que me perdoem, mas, BOLAS! Que saudades de ver o dia um pouco menos claro!) não consigo deixar de pensar que irónica que é a vida… Enquanto os meus olhos se fecham lentamente, fartos do ardor provocado por uma idiotice chamada ExOcin (hum… acho melhor tentar descobrir porque é que o rótulo diz “estéril” num canto…), sinto que a alma, mais uma vez, se abre. Mais do que abrir, ela flutua! Neste estado, não sinto dor. Consigo ver-me sentado numa cadeira em frente a um monitor; vejo também os vultos que sempre me rodeiam (agora percebo o que querem e porque não me deixam em paz…); vejo a minha mãe a começar a preparar o jantar e o meu cão à beira dela, na esperança de que caia alguma coisa para mostrar que é mais rápido do que a dona… Paro um pouco no telhado. Sento-me nas telhas molhadas, fecho os olhos e deixo que a chuva me caia pela cabeça. Lá se vai o penteado! Como se isso fosse importante… Reabro os olhos e, diante de mim… a vida. Vejo um pássaro, ao longe, desesperado por cobrir o ninho. Vejo uma árvore que dança ao som do vento. Vejo a silhueta de uma jovem que se veste em frente à janela e vejo também o vizinho que ela tenta seduzir. Sorrio ainda. Levanto-me, olho para cima, fixo uma nuvem mesmo por cima de mim. Distingo uma gota no preciso momento em que ela se desprende das outras gotas que formam esses pedaços de algodão flutuantes. Acompanho o seu trajecto até à minha testa. O seu toque desperta-me os sentidos como o beijo da mulher amada ao acordar. Lentamente, começo a minha viagem. Ergo-me cada vez mais nos céus. Vejo as casas de velhos amigos, algumas agora desabitadas, e vejo as casas de amigos de agora. Vejo a casa emprestada de uma amiga e imagino onde estarão as outras três oficiais (que complicada é a vida de filhos de pais separados…). Vejo as cidades onde essas pessoas moram, vejo o país onde estão essas cidades, constatando, com um misto de pena e sarcasmo, que Portugal está tão perto de Espanha. Enquanto subo mais e mais, confirmo que o meu país, o nosso país realmente faz parte da Europa… vejo África logo abaixo e ao lado, imaginem!, começa o Oriente, o dos Árabes e o dos Asiáticos, e, acreditem ou não, do outro lado ficam as Américas, e nos topos só se vê neve e, OLHA!, pinguins! Que engraçados… Atravesso agora a camada de ozono, começa a ficar mais frio… Começo a ver a Terra em toda a sua largura… Ouvi dizer que o planeta ficou mais redondo depois da tragédia do maremoto, mas não noto diferença… Pouso na Lua, sento-me numa das suas crateras e volto o meu olhar para a minha casa. O meu corpo ainda lá está, em frente ao monitor. O meu pai chegou a casa e beijou a minha mãe, como sempre fez em 26 anos… O planeta Terra parece-me tão pequeno agora… Tão imóvel e sossegado… Sorrio. Apetece-me cá ficar por uns tempos. Até já. Devia ter trazido as gotas para os olhos...