03/01/2005

Pedaços de mim I

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boca

Já não sei o que me faz rir. Tenho boca apenas para comer e respirar quando o nariz está tapado. Quando falo, só declamo o silêncio e surge o eco de um nome repetido até à exaustão. Esqueci-me do que significa rir. Sorrio apenas e tento que me sorriam de volta. Tenho os lábios secos e gretados. Sinto neles um sabor salgado e desagradável. Talvez esteja a chorar… Sei que não estou a rir. Talvez só esteja a chorar porque me esqueci de como se ri.

30/12/2004

Em busca da verdade óbvia...

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Nem sempre temos consciência dos outros. Nem sempre nos apercebemos de que há outras vidas em terras longínquas onde não chegamos nem em pensamento. Às vezes, quando tento adormecer, fico sobressaltado. Àquela hora há milhões e milhões de pessoas a acordar e outros milhões e milhões vão já a meio do dia de trabalho. Todos têm vida e afazeres e personalidades tão diferentes como flocos de neve (queria tanto ver nevar...). Se essas pessoas que eu não conheço e que não me conhecem não me são insignificantes (talvez de importância relativa...), as pessoas que realmente conheço e que me conhecem são tudo, menos insignificantes.
Ou, para tentar simplificar, somos todos insignificantes até que alguém nos mostre o contrário...

27/12/2004

Nesta noite a seguir ao Natal...

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Graças a Deus que não acredito em Deus!

24/12/2004

É Natal, é Natal, lá,lá,lá,lá,lá...

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A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Na véspera de Natal pela manhã,
Ouço o despertador tocar
E há uma grande expectativa, no ar!
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Nesta manhã de véspera de Natal,
Corto a barba e tomo banho,
Estou quase a sair, feliz!
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Vou nervoso a conduzir,
A tremer e a suar,
Vou à tua procura, tão aéreo!
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Depois há cumprimentos,
Quem me dera dar-te um abraço,
Sentir o teu coração bater junto ao meu!
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Se isto acontecesse,
Nunca mais te largaria
E ficava à espera de ouvir os sinos tocar!
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós

Letra de Lúcia Carvalho, adaptada por O Estranho

3 bacci resumem o dia de amanhã (hoje...)

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A minha irmã recebeu uma caixa de bacci na empresa onde trabalha. Comi 3 pequenos bacci, que (já nem me lembrava!) trazem umas mensagens, clichés, chavões que ficam sempre bonitos!
Mas a verdade é que eles resumem as minhas acções da manhã que se aproxima:
"Viver é gostar de amar: toda a Razão está contra o Amor, mas todos os instintos levam a ele"
S. Butler
"Isto e apenas isto é a Vida: o Amor"
(anónimo)
"Nunca deixes de procurar o que amas, podes acabar por amar apenas o que encontras"
(anónimo)
Sim, são frases dignas de Paulo Coelho, mas eu já gostei de Paulo Coelho, quando ele ainda era traduzido para Português de Portugal, por isso não me causa estranheza! Só espero que a manhã corra bem e que à tarde, se me queimar enquanto frito os bolinhos de bolina ou enquanto abro o forno para ver como estão a sair o bolo-rei e o pão-de-ló, que seja por estar a pensar em alguém incrivelmente especial e não por estar triste...
É véspera de Natal! O menino Jesus está quase a nascer! Ou não...

23/12/2004

Allo, allo!

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"Oh René, quando nos casarmos, um dia, vamos rir de tudo isto, não é?"
Uma declaração de amor muito jocosa...
Faltam 30 minutos para a véspera de Natal!

Madness

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Madness
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O_Estranho.

Sinais de mudanças! Quem sabe se um dia aprendo a pôr imagens em vez de texto de apresentação?...


21/12/2004

Dar o dito por não dito!

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Na melhor tradição dos políticos e adeptos de futebol de Portugal... mudei de ideias. Vá, gozem lá à vontade! Já não vou fechar definitivamente o blog. Sim, eu sei que isto parece ridículo, mas pronto... Não deixa de ser jocoso, certo? Bem, se a "apresentação" deste blog diz "10 segundos. Talvez menos do que isso. Não é preciso mais para que tudo mude.", então o facto de ter demorado quase uma semana para mudar de ideias não é nada mau! Pois... é isso...
No fundo, eu sou só um gajo estranho que sabe bem o que quer! Na maior parte das vezes...
É a vida!

16/12/2004

É o fim

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Este blog vai ser encerrado ainda antes do Natal. Só não o encerro já para que as 4/5 pessoas que cá vêm não fiquem a pensar que a Net está com algum problema. É demasiado stressante e complicado manter um blog. Não tenho talento nem vontade de continuar. Não vou mentir, a falta de comentários de pessoas que não as tais 4/5 visitas desmotiva. Ou dizendo melhor, confirmei o que suspeitava, é melhor limitar-me a traduzir o que os outros escrevem,pode ser que pelo menos para isso tenha algum talento, por pequeno que seja. Vou continuar, na medida do possível a comentar os outros blogs assinando como Estranho, mas este é realmente o fim. Vou dedicar-me à pesca e a parar para ver acidentes ou aviões a levantar vôo.
Então adeus.

13/12/2004

Hope for the dead lovers

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Let us pretend that we are both dead. Our souls are being reassigned to new human beings and we are supposed to never see each other again. We try to make love one last time, but we cannot for our bodies are no more. It is merely our souls that touch one another and that feels like true love, intangible, eternal and beautiful. Our souls shall be separated; they are to be born in bodies a world apart from one another. But… In secrecy, we plot a plan. I am to return with the same eyes and ears, you will return with the same eyes and nose. The spell of fate and envy will be broken the minute our eyes meet! Yes, I do mean it! I am willing to question God’s orders if it means to hold you one more time in my arms. I want to, once again, feel your warm breath against my breast and your sweet tender lips pressed against my own. And let us look at the moon as it will greet us with its brightest shine and the sea will welcome us with its calmest tide and the wind will bring us the sweetest scent from other lands and maybe from other times… And we shall be happy once again… Together… Despite all eternity.


09/12/2004

Serei ninguém

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Não somos um mero amontoado de ossos. Não somos cartilagens, nem carne, nem pele, nem unhas. Não somos a roupa que vestimos ou o carro que guiamos. Nada do que é palpável define o nosso ser. Excepto talvez os olhos... Desses, é impossível fugir!
Tenho a cabeça cheia de Poe e de Vergílio Ferreira e temo que o meu corpo começa a imitar a metamorfose do Kafka. Em breve ninguém me reconhecerá. Ninguém terá coragem de ver os meus olhos. Ninguém conseguirá ouvir o que digo e serei incapaz de escrever. Em breve, serei realmente ninguém. Em breve, vaguearei por este mundo entregue aos bichos e serei eu próprio. Irei fazer medo a alguns, outros respeitar-me-ão. Ninguém me reconhecerá. Ninguém saberá que sou eu, pois eu serei ninguém e ao ser ninguém, serei toda a gente.
Ninguém é aquilo que mostra, mostramos aquilo que queremos ser e é tudo. Seria complicado demais justificar o que somos, mesmo não sendo precisa qualquer justificação. Somos ninguém porque não agimos como somos. Esperamos que o mundo nos aceite, mostrando apenas um pouco daquilo que somos. Temos toda liberdade para falar, mostrar os olhos, mas temos medo e só mostramos o reflexo dos outros. Já quase ninguém abraça a pessoa amada (já quase não há amor!) e se deixa perder na alma que tem à frente, essas janelas do infinito em que tentamos ver a nossa figura, envolta numa aura cor-de-rosa, rodeada de flores e imagens bonitas, janelas feitas da mais pura água que existe e que seria capaz de nos lavar todas as dores e imperfeições do ser que não somos.
Serei ninguém. Misturar-me-ei com todos os outros ninguém e juntos seremos felizes até que a morte nos separe e então cada um seguirá o seu caminho. Na morte, seremos diferentes, teremos diferentes valores e crenças e paraísos e reencarnações e cada um terá o seu pós-morte, pois a alma, o nosso verdadeiro EU, criará esse pós-morte único e intransmissível. Só então seremos alguém. Seremos o nosso verdadeiro EU!

05/12/2004

Mantenham-se longe da FNAC de Santa Catarina

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No dia 29 de Novembro, dois jovens, Carlos e João (os nomes são fictícios, para os proteger de represálias...), foram agredidos, depois de injustamente acusados de roubo, pelos SEGURANÇAS que a FNAC contratou. Leia mais sobre isto em http://staringatthesea.blogspot.com/, no post de "Quarta-feira, Dezembro 01, 2004" .
Pena que a gerência, que certamente não terá tido em conta que os dois jovens NÃO FORAM O PRIMEIRO CASO DE QUEIXAS DE AGRESSÃO NAQUELA LOJA, tenha afirmado que não se passou nada de anormal nesse dia e que foram os jovens que reagiram mal à acusação. PUDERA! ESTAVAM INOCENTES!

Do fundo do abismo ao topo de um prédio

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"And my soul, from out that shadow that lies floating on the floor, shall be lifted nevermore!"
E.A. Poe, The Raven
Devo admitir que sim, é verdade, tremi como varas verdes. Sim, cheguei a chorar e depois?! Qual é o problema?! SOU uma pessoa, um ser humano! Rocei o fundo, lembrei-me de tudo do passado e saltei o presente para relacionar o passado com o futuro hipotético. Sim, eu sei que é confuso! Às vezes nem eu percebo... Mas... foi um momento. Durou uma semana, só isso. Passei por lá, visitei alguns fantasmas, tive discussões filosóficas com eles (acerca do sentido, da finalidade e da utilidade da vida), despedi-me e vim-me embora. Só isso. Pode voltar a acontecer, mas não vai ser nada de grave.

"And fade out, again. "
Radiohead, Street Spirit (Fade Out)
Estou no topo de um prédio. Lá ao fundo, consigo ver a paragem onde tudo aconteceu. Há pessoas a agitar os braços, a gritar. Os bombeiros já estão a caminho. Já estou mesmo a ver como isto vai acabar... Primeiro, psicólogo, possivelmente depois, traficante de droga, vulgo psiquiatra. Ok, estou a ser muito forte, mas tenho uma atenuante: estou no cimo de um prédio! Está tudo bem, a sério! Vão-se embora e deixem-me em paz. Só vim aqui para uivar! Sim, uivar. É a minha forma de dizer: MUNDO, DEUS, EU ESTOU AQUI, SEUS IDIOTAS! FAÇAM O QUE QUISEREM, BATAM-ME COM TODA A FORÇA, EU ESTOU AQUI E AQUI VOU FICAR! EU ESTOU VIVO!!!

"Feel that water touching your lips,(...)
Feel that water burning your lips..."
The Gift, Water skin
É a chuva que cai por ti...

A noite, essa eterna amante

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Noite. O silêncio é tudo o que se ouve. Ou talvez não... Chiu! Deixem-me ouvir... Há qualquer coisa... Sim, há qualquer coisa lá fora. Que esquisito... A esta hora da noite... Lá está outra vez o mesmo barulho! O que será isto?... Será que... Será que está alguém lá fora?... Outra vez!
Que faço?! E se for um ladrão? E se for um vampiro?! Que disparate, não existem vampiros! Acho eu... Outra vez... E outra! O som está a aumentar, como se... como se se estivesse a aproximar! Que faço, que faço?! Pára, pára com esse tum-tum... tum-tum... tum-tum... PÁRA!!!
...
Que ridículo...
É o meu coração...
Já não o ouvia há algum tempo...

20/11/2004

Ainda a visão - o regresso do caos

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Enlouqueço.

Lembro-me de ti e enlouqueço a cada recordação.

Impludo de raiva pelo que fiz

E sinto a Loucura chegar.

Começa por uma vontade de chorar;

Engulo em seco, fecho os olhos e cerro os dentes.

Depois, o nó na garganta;

A vontade de berrar, de gritar, de bradar aos céus:

“O QUE É QUE TU QUERES DE MIM?!”,

Mas, sem resposta, sufoco o grito e choro,

Uma única lágrima que logo seca

Porque a cara arde, sem se ver.

Enlouqueço.

Lembro-me de ti e enlouqueço a cada recordação.

Impludo de raiva pelo que fiz

E sinto a Loucura chegar.

Apetece-me abrir o peito e arrancar o coração com as próprias mãos.

Disse-o uma vez e agora repito-o.

Sinto a Loucura chegar.

E então, acontece;

Já não consigo engolir as lágrimas;

Já não consigo sufocar o grito;

Choro, grito, por fim enlouqueço.

E nessas lágrimas toda a minha alma escorre,

Evaporando-se e tornando-se para sempre em nada,

E nesse grito mil palavras são ditas,

Mil expressões de dor vociferadas

Que tento que cheguem ao céu,

Onde Ele está, observando o Caos,

O Desespero, o Abismo que Ele próprio criou ao fim de sete dias

E com o qual agora Se diverte

E Se masturba ocasionalmente:

O Amor…


Consequences of a vision

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To plunge my soul into your heart

Would be a pleasure on my behalf.

To pass my lips through your warm, white skin

Would be a delight worthy of God.

To be held in your fragile, tender arms

Would become the dearest of the sweetest memories.

To listen to your voice, whispered close to my ear

Would be a shiver of pure, unspoiled peacefulness.

To touch your soul, to see you happy

Would make my life worthwhile.


11/11/2004

A dream called fate

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A time will come when I will feel happy. A day will come when I will be thankful for being alive. A night will come when I will fall asleep aside you. But I fear the moment when I will realize that this is but a dream…


É a vida... ou a ausência dela - Última parte

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*

Domingo à noite. Rita põe a mesa, enquanto a mãe prepara o jantar e o pai vê televisão.

- Isso é que é uma vida, duas mulheres a trabalhar para ti, enquanto vês televisão! – Rita sorri, maldosamente.

- Foi para isso que me casei e foi para isso que te tivemos! – responde, também a sorrir, o pai à provocação – Ai, meu Deus! Rita, anda cá depressa!

- O que foi?! Que se passa?!

- Aqueles não são os pais do Daniel?

- São! O que aconteceu?!

A notícia na televisão dava conta de um acidente que a polícia estava a investigar. Um carro capotara na noite anterior. Nada de extraordinário, tendo em conta a tempestade que se fizera sentir. Acreditava-se que a tempestade já teria começado a acalmar à hora do acidente, mas, com o piso molhado, bastava que dois carros se tocassem para haver um acidente. No entanto, não havia vestígios de outro carro. Não havia vestígios de que algo tivesse causado este acidente. As marcas de pneus na estrada pareciam indicar que o condutor teria, deliberadamente, conduzido contra a berma e, por isso, entrevistava-se agora os pais do sinistrado para tentar apurar motivos, já que as análises ao sangue não mostravam vestígios nem de álcool, nem de drogas. Enquanto a jornalista falava sobre estas e outras informações, há um cãozinho, a única testemunha deste acidente, que passa, de orelhas baixas e rabo entre as pernas, assustado com toda esta confusão…

Rita começa a chorar. Tenta evitar, mas não consegue. Só agora se apercebe de que ainda não esquecera Daniel. Ele significou demasiado para ela simplesmente o esquecer. É por isso que, daqui a alguns anos, nascerá um pequeno bebé e Rita dirá ao marido, sem qualquer hesitação e sem dar hipóteses de discussão, que o filho se vai chamar Daniel.

- É a vida… ou a ausência dela… - sussurra Rita, enquanto assiste ao resto da notícia, acreditando que realmente se tratou de suicídio. O que ouviu no dia anterior, durante a tarde, faz agora, na cabeça dela, todo o sentido e, por isso, repete-o - É a vida… ou a ausência dele.

.

FIM


10/11/2004

É o fim!

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O Daniel morreu. Nada voltará a ser igual e, no entanto, a vida vai seguir o seu caminho normal.
É a vida... ou a ausência dela - Última parte

07/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte V

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*

“Tenho 23 anos. Para uma criança, sou velho, para um adulto sou novo. Nem sei como me sinto, se demasiado novo para morrer, se já velho e cansado para continuar a viver. Só sei que assim não posso continuar. Assim, não!” Daniel continua a tentar ignorar o casal vizinho, mesmo quando o rapaz espreita pelo vidro. Este quer que o vejam; é um orgulho para ele estar com uma mulher, em pleno acto sexual - mesmo que não sentindo nada por ela - enquanto que o outro está sozinho.

- Bom, tenho que me decidir. Vou manter o plano: numa qualquer curva apertada, acelero o suficiente para me despistar. Assim vai parecer um acidente e ninguém fica com remorsos – no entanto, Daniel hesita - Não há razão para viver… ou será que…?

Daniel nunca conseguirá explicar o que aconteceu nesse momento. De súbito, desata a rir. Há algo dentro dele, algo que o tem andado a remoer e finalmente agora sabe o que é. A grande verdade que lhe escapara e que, no fundo, é tão simples. “Não são precisos motivos para viver. Não podemos esperar que algo nos venha tirar da cama para enfrentar a vida. A vida é feita de altos e baixos. De desilusões, de angústias, de tristezas, mas também de alegrias, de sorrisos, de elogios, de humor, de felicidade, de amizade, de exultação, de frenesim, de gargalhadas, de abraços, de beijos, de olhos e de amor, inevitavelmente, de amor. Como posso ter sido tão idiota?!” O rapaz que há pouco espreitava pelo vidro e via um Daniel triste e sisudo, vê agora um Daniel a rir com vontade e, na sua estúpida e ridiculamente baixa auto-estima, pensa que Daniel se ri dele e não consegue continuar com o que estava a fazer…

É um outro Daniel que agora mete a chave na ignição. Com cuidado, faz-se à estrada, com os limpa pára-brisas a moverem-se vagarosamente de um lado para o outro. A tempestade acalmara gradualmente, mas ainda chovia e a estrada estava molhada. O carro avança devagar por agora. “É melhor não arriscar. Com este tempo, se me aparece alguma coisa pela frente…” Ainda demora algum tempo para ir de casa de Daniel até à praia e é preciso ir por uma via rápida. “Pronto, acho que vou acelerar um bocado mais. Começo a ter sono e mal posso esperar pelo dia de amanhã. Talvez ligue à Joana…” Daniel recomeça a rir com o disparate de toda esta situação. Esta manhã acordara decidido a pôr termo à vida e agora pensa no amanhã, numa outra rapariga, num outro amor, numa outra vida. Sabe que nunca vai esquecer verdadeiramente Rita, mas sente-se calmo, até um pouco feliz. Não consegue deixar de sorrir e fecha momentaneamente os olhos, a imaginar o futuro que tem pela frente. Os instantes que se seguem não duram mais do que uns segundos. Daniel abre os olhos. Há um cão a atravessar a estrada. Sustém a respiração. Gira o volante para a direita. O carro guina em direcção à berma. Morde os lábios. Os pneus chiam. Fecha os olhos. O carro capota. Daniel morre.