21/12/2004

Dar o dito por não dito!

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Na melhor tradição dos políticos e adeptos de futebol de Portugal... mudei de ideias. Vá, gozem lá à vontade! Já não vou fechar definitivamente o blog. Sim, eu sei que isto parece ridículo, mas pronto... Não deixa de ser jocoso, certo? Bem, se a "apresentação" deste blog diz "10 segundos. Talvez menos do que isso. Não é preciso mais para que tudo mude.", então o facto de ter demorado quase uma semana para mudar de ideias não é nada mau! Pois... é isso...
No fundo, eu sou só um gajo estranho que sabe bem o que quer! Na maior parte das vezes...
É a vida!

16/12/2004

É o fim

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Este blog vai ser encerrado ainda antes do Natal. Só não o encerro já para que as 4/5 pessoas que cá vêm não fiquem a pensar que a Net está com algum problema. É demasiado stressante e complicado manter um blog. Não tenho talento nem vontade de continuar. Não vou mentir, a falta de comentários de pessoas que não as tais 4/5 visitas desmotiva. Ou dizendo melhor, confirmei o que suspeitava, é melhor limitar-me a traduzir o que os outros escrevem,pode ser que pelo menos para isso tenha algum talento, por pequeno que seja. Vou continuar, na medida do possível a comentar os outros blogs assinando como Estranho, mas este é realmente o fim. Vou dedicar-me à pesca e a parar para ver acidentes ou aviões a levantar vôo.
Então adeus.

13/12/2004

Hope for the dead lovers

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Let us pretend that we are both dead. Our souls are being reassigned to new human beings and we are supposed to never see each other again. We try to make love one last time, but we cannot for our bodies are no more. It is merely our souls that touch one another and that feels like true love, intangible, eternal and beautiful. Our souls shall be separated; they are to be born in bodies a world apart from one another. But… In secrecy, we plot a plan. I am to return with the same eyes and ears, you will return with the same eyes and nose. The spell of fate and envy will be broken the minute our eyes meet! Yes, I do mean it! I am willing to question God’s orders if it means to hold you one more time in my arms. I want to, once again, feel your warm breath against my breast and your sweet tender lips pressed against my own. And let us look at the moon as it will greet us with its brightest shine and the sea will welcome us with its calmest tide and the wind will bring us the sweetest scent from other lands and maybe from other times… And we shall be happy once again… Together… Despite all eternity.


09/12/2004

Serei ninguém

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Não somos um mero amontoado de ossos. Não somos cartilagens, nem carne, nem pele, nem unhas. Não somos a roupa que vestimos ou o carro que guiamos. Nada do que é palpável define o nosso ser. Excepto talvez os olhos... Desses, é impossível fugir!
Tenho a cabeça cheia de Poe e de Vergílio Ferreira e temo que o meu corpo começa a imitar a metamorfose do Kafka. Em breve ninguém me reconhecerá. Ninguém terá coragem de ver os meus olhos. Ninguém conseguirá ouvir o que digo e serei incapaz de escrever. Em breve, serei realmente ninguém. Em breve, vaguearei por este mundo entregue aos bichos e serei eu próprio. Irei fazer medo a alguns, outros respeitar-me-ão. Ninguém me reconhecerá. Ninguém saberá que sou eu, pois eu serei ninguém e ao ser ninguém, serei toda a gente.
Ninguém é aquilo que mostra, mostramos aquilo que queremos ser e é tudo. Seria complicado demais justificar o que somos, mesmo não sendo precisa qualquer justificação. Somos ninguém porque não agimos como somos. Esperamos que o mundo nos aceite, mostrando apenas um pouco daquilo que somos. Temos toda liberdade para falar, mostrar os olhos, mas temos medo e só mostramos o reflexo dos outros. Já quase ninguém abraça a pessoa amada (já quase não há amor!) e se deixa perder na alma que tem à frente, essas janelas do infinito em que tentamos ver a nossa figura, envolta numa aura cor-de-rosa, rodeada de flores e imagens bonitas, janelas feitas da mais pura água que existe e que seria capaz de nos lavar todas as dores e imperfeições do ser que não somos.
Serei ninguém. Misturar-me-ei com todos os outros ninguém e juntos seremos felizes até que a morte nos separe e então cada um seguirá o seu caminho. Na morte, seremos diferentes, teremos diferentes valores e crenças e paraísos e reencarnações e cada um terá o seu pós-morte, pois a alma, o nosso verdadeiro EU, criará esse pós-morte único e intransmissível. Só então seremos alguém. Seremos o nosso verdadeiro EU!

05/12/2004

Mantenham-se longe da FNAC de Santa Catarina

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No dia 29 de Novembro, dois jovens, Carlos e João (os nomes são fictícios, para os proteger de represálias...), foram agredidos, depois de injustamente acusados de roubo, pelos SEGURANÇAS que a FNAC contratou. Leia mais sobre isto em http://staringatthesea.blogspot.com/, no post de "Quarta-feira, Dezembro 01, 2004" .
Pena que a gerência, que certamente não terá tido em conta que os dois jovens NÃO FORAM O PRIMEIRO CASO DE QUEIXAS DE AGRESSÃO NAQUELA LOJA, tenha afirmado que não se passou nada de anormal nesse dia e que foram os jovens que reagiram mal à acusação. PUDERA! ESTAVAM INOCENTES!

Do fundo do abismo ao topo de um prédio

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"And my soul, from out that shadow that lies floating on the floor, shall be lifted nevermore!"
E.A. Poe, The Raven
Devo admitir que sim, é verdade, tremi como varas verdes. Sim, cheguei a chorar e depois?! Qual é o problema?! SOU uma pessoa, um ser humano! Rocei o fundo, lembrei-me de tudo do passado e saltei o presente para relacionar o passado com o futuro hipotético. Sim, eu sei que é confuso! Às vezes nem eu percebo... Mas... foi um momento. Durou uma semana, só isso. Passei por lá, visitei alguns fantasmas, tive discussões filosóficas com eles (acerca do sentido, da finalidade e da utilidade da vida), despedi-me e vim-me embora. Só isso. Pode voltar a acontecer, mas não vai ser nada de grave.

"And fade out, again. "
Radiohead, Street Spirit (Fade Out)
Estou no topo de um prédio. Lá ao fundo, consigo ver a paragem onde tudo aconteceu. Há pessoas a agitar os braços, a gritar. Os bombeiros já estão a caminho. Já estou mesmo a ver como isto vai acabar... Primeiro, psicólogo, possivelmente depois, traficante de droga, vulgo psiquiatra. Ok, estou a ser muito forte, mas tenho uma atenuante: estou no cimo de um prédio! Está tudo bem, a sério! Vão-se embora e deixem-me em paz. Só vim aqui para uivar! Sim, uivar. É a minha forma de dizer: MUNDO, DEUS, EU ESTOU AQUI, SEUS IDIOTAS! FAÇAM O QUE QUISEREM, BATAM-ME COM TODA A FORÇA, EU ESTOU AQUI E AQUI VOU FICAR! EU ESTOU VIVO!!!

"Feel that water touching your lips,(...)
Feel that water burning your lips..."
The Gift, Water skin
É a chuva que cai por ti...

A noite, essa eterna amante

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Noite. O silêncio é tudo o que se ouve. Ou talvez não... Chiu! Deixem-me ouvir... Há qualquer coisa... Sim, há qualquer coisa lá fora. Que esquisito... A esta hora da noite... Lá está outra vez o mesmo barulho! O que será isto?... Será que... Será que está alguém lá fora?... Outra vez!
Que faço?! E se for um ladrão? E se for um vampiro?! Que disparate, não existem vampiros! Acho eu... Outra vez... E outra! O som está a aumentar, como se... como se se estivesse a aproximar! Que faço, que faço?! Pára, pára com esse tum-tum... tum-tum... tum-tum... PÁRA!!!
...
Que ridículo...
É o meu coração...
Já não o ouvia há algum tempo...

20/11/2004

Ainda a visão - o regresso do caos

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Enlouqueço.

Lembro-me de ti e enlouqueço a cada recordação.

Impludo de raiva pelo que fiz

E sinto a Loucura chegar.

Começa por uma vontade de chorar;

Engulo em seco, fecho os olhos e cerro os dentes.

Depois, o nó na garganta;

A vontade de berrar, de gritar, de bradar aos céus:

“O QUE É QUE TU QUERES DE MIM?!”,

Mas, sem resposta, sufoco o grito e choro,

Uma única lágrima que logo seca

Porque a cara arde, sem se ver.

Enlouqueço.

Lembro-me de ti e enlouqueço a cada recordação.

Impludo de raiva pelo que fiz

E sinto a Loucura chegar.

Apetece-me abrir o peito e arrancar o coração com as próprias mãos.

Disse-o uma vez e agora repito-o.

Sinto a Loucura chegar.

E então, acontece;

Já não consigo engolir as lágrimas;

Já não consigo sufocar o grito;

Choro, grito, por fim enlouqueço.

E nessas lágrimas toda a minha alma escorre,

Evaporando-se e tornando-se para sempre em nada,

E nesse grito mil palavras são ditas,

Mil expressões de dor vociferadas

Que tento que cheguem ao céu,

Onde Ele está, observando o Caos,

O Desespero, o Abismo que Ele próprio criou ao fim de sete dias

E com o qual agora Se diverte

E Se masturba ocasionalmente:

O Amor…


Consequences of a vision

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To plunge my soul into your heart

Would be a pleasure on my behalf.

To pass my lips through your warm, white skin

Would be a delight worthy of God.

To be held in your fragile, tender arms

Would become the dearest of the sweetest memories.

To listen to your voice, whispered close to my ear

Would be a shiver of pure, unspoiled peacefulness.

To touch your soul, to see you happy

Would make my life worthwhile.


11/11/2004

A dream called fate

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A time will come when I will feel happy. A day will come when I will be thankful for being alive. A night will come when I will fall asleep aside you. But I fear the moment when I will realize that this is but a dream…


É a vida... ou a ausência dela - Última parte

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*

Domingo à noite. Rita põe a mesa, enquanto a mãe prepara o jantar e o pai vê televisão.

- Isso é que é uma vida, duas mulheres a trabalhar para ti, enquanto vês televisão! – Rita sorri, maldosamente.

- Foi para isso que me casei e foi para isso que te tivemos! – responde, também a sorrir, o pai à provocação – Ai, meu Deus! Rita, anda cá depressa!

- O que foi?! Que se passa?!

- Aqueles não são os pais do Daniel?

- São! O que aconteceu?!

A notícia na televisão dava conta de um acidente que a polícia estava a investigar. Um carro capotara na noite anterior. Nada de extraordinário, tendo em conta a tempestade que se fizera sentir. Acreditava-se que a tempestade já teria começado a acalmar à hora do acidente, mas, com o piso molhado, bastava que dois carros se tocassem para haver um acidente. No entanto, não havia vestígios de outro carro. Não havia vestígios de que algo tivesse causado este acidente. As marcas de pneus na estrada pareciam indicar que o condutor teria, deliberadamente, conduzido contra a berma e, por isso, entrevistava-se agora os pais do sinistrado para tentar apurar motivos, já que as análises ao sangue não mostravam vestígios nem de álcool, nem de drogas. Enquanto a jornalista falava sobre estas e outras informações, há um cãozinho, a única testemunha deste acidente, que passa, de orelhas baixas e rabo entre as pernas, assustado com toda esta confusão…

Rita começa a chorar. Tenta evitar, mas não consegue. Só agora se apercebe de que ainda não esquecera Daniel. Ele significou demasiado para ela simplesmente o esquecer. É por isso que, daqui a alguns anos, nascerá um pequeno bebé e Rita dirá ao marido, sem qualquer hesitação e sem dar hipóteses de discussão, que o filho se vai chamar Daniel.

- É a vida… ou a ausência dela… - sussurra Rita, enquanto assiste ao resto da notícia, acreditando que realmente se tratou de suicídio. O que ouviu no dia anterior, durante a tarde, faz agora, na cabeça dela, todo o sentido e, por isso, repete-o - É a vida… ou a ausência dele.

.

FIM


10/11/2004

É o fim!

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O Daniel morreu. Nada voltará a ser igual e, no entanto, a vida vai seguir o seu caminho normal.
É a vida... ou a ausência dela - Última parte

07/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte V

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*

“Tenho 23 anos. Para uma criança, sou velho, para um adulto sou novo. Nem sei como me sinto, se demasiado novo para morrer, se já velho e cansado para continuar a viver. Só sei que assim não posso continuar. Assim, não!” Daniel continua a tentar ignorar o casal vizinho, mesmo quando o rapaz espreita pelo vidro. Este quer que o vejam; é um orgulho para ele estar com uma mulher, em pleno acto sexual - mesmo que não sentindo nada por ela - enquanto que o outro está sozinho.

- Bom, tenho que me decidir. Vou manter o plano: numa qualquer curva apertada, acelero o suficiente para me despistar. Assim vai parecer um acidente e ninguém fica com remorsos – no entanto, Daniel hesita - Não há razão para viver… ou será que…?

Daniel nunca conseguirá explicar o que aconteceu nesse momento. De súbito, desata a rir. Há algo dentro dele, algo que o tem andado a remoer e finalmente agora sabe o que é. A grande verdade que lhe escapara e que, no fundo, é tão simples. “Não são precisos motivos para viver. Não podemos esperar que algo nos venha tirar da cama para enfrentar a vida. A vida é feita de altos e baixos. De desilusões, de angústias, de tristezas, mas também de alegrias, de sorrisos, de elogios, de humor, de felicidade, de amizade, de exultação, de frenesim, de gargalhadas, de abraços, de beijos, de olhos e de amor, inevitavelmente, de amor. Como posso ter sido tão idiota?!” O rapaz que há pouco espreitava pelo vidro e via um Daniel triste e sisudo, vê agora um Daniel a rir com vontade e, na sua estúpida e ridiculamente baixa auto-estima, pensa que Daniel se ri dele e não consegue continuar com o que estava a fazer…

É um outro Daniel que agora mete a chave na ignição. Com cuidado, faz-se à estrada, com os limpa pára-brisas a moverem-se vagarosamente de um lado para o outro. A tempestade acalmara gradualmente, mas ainda chovia e a estrada estava molhada. O carro avança devagar por agora. “É melhor não arriscar. Com este tempo, se me aparece alguma coisa pela frente…” Ainda demora algum tempo para ir de casa de Daniel até à praia e é preciso ir por uma via rápida. “Pronto, acho que vou acelerar um bocado mais. Começo a ter sono e mal posso esperar pelo dia de amanhã. Talvez ligue à Joana…” Daniel recomeça a rir com o disparate de toda esta situação. Esta manhã acordara decidido a pôr termo à vida e agora pensa no amanhã, numa outra rapariga, num outro amor, numa outra vida. Sabe que nunca vai esquecer verdadeiramente Rita, mas sente-se calmo, até um pouco feliz. Não consegue deixar de sorrir e fecha momentaneamente os olhos, a imaginar o futuro que tem pela frente. Os instantes que se seguem não duram mais do que uns segundos. Daniel abre os olhos. Há um cão a atravessar a estrada. Sustém a respiração. Gira o volante para a direita. O carro guina em direcção à berma. Morde os lábios. Os pneus chiam. Fecha os olhos. O carro capota. Daniel morre.


04/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte IV

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*

Rita acaba de sair do banho. Está no quarto, a vestir-se, com o corpo ainda frio, quando o telemóvel toca. No visor, a palavra “DANIEL” fá-la soltar um “O que é que este quer agora?!” antes de atender.

- Estou? Que foi? Não posso falar agora.

- Não podes ou não queres?

- É a mesma coisa!

- Muito bem, não fales, mas deixa de te portar como uma idiota, cala-te e ouve! Eu quero falar e quero, principalmente, que ouças!

- Quem é que tu pensas que és?!

- Mas vais ficar calada ou não?! – Daniel nunca levantara a voz em toda a sua vida. Rita sabe disso.

- Diz o que queres – diz Rita depois de alguma hesitação.

- O que eu quero não é o mesmo que o que tenho para te dizer. O que tenho para dizer, no fundo, não são mais do que algumas reflexões e vou ser breve. Costuma-se dizer que cada pessoa é um indivíduo. No entanto, o indivíduo, homem ou mulher, passa uma vida inteira à procura da chamada cara-metade, certo? A alma gémea.

- Sim, mas... Daniel, por favor não comeces outra vez…

- Ouve. Eu disse que ia ser breve, por isso não vou começar nada, nem sequer vou dizer o que realmente quero. Como estava a dizer, um indivíduo tem uma alma gémea. Alguém que nos faz sentir vivos, não no sentido de respirar e tudo o mais, mas vivos, completos, acima de tudo, necessários. Tu és a minha alma gémea…

- Daniel, por favor, não…

- Rita, há outra reflexão que tenho para te contar. Tudo no universo, mesmo a Vida, tem sempre dois lados que se opõem. O Bem e o Mal, o Amor e o Ódio, e assim sucessivamente, certo?

- Sim – responde Rita, algo confusa – mas estás a falar de quê?

- Rita, o que eu quero dizer é que tu és a minha vida, mas como não te tenho, só me resta a tua ausência. E eu não suporto a tua ausência.

- Não estás a dizer coisa com coisa!

- Para acabar, tudo se resume numa frase: é a vida ou a ausência dela.

- O quê? Daniel…

A ligação é interrompida por Daniel, que em seguida desliga completamente o telemóvel e pede aos pais que, se alguém lhe ligar, digam que ele não está. Pede ainda o carro para sair depois do jantar. Vai sair, apesar do temporal que agora começa.


03/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte III

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Rita. Rita era a única pessoa que sabia realmente quem era Daniel. Cruzaram-se na faculdade quando ele tinha 19 anos. É um ano mais velha, mas algumas disciplinas atrasadas fizeram com que se conhecessem, através de outros alunos. Ao fim de um ano, Rita apercebeu-se do casulo em que se escondia Daniel. Nessa altura, a pergunta “Já reparaste que nunca me contaste o que quer que seja acerca de ti?” apanhou-o completamente desprevenido. A verdade é que nunca ninguém tinha mostrado interesse em conhecê-lo. E então aconteceu. Daniel abriu-se. “Tenho 20 anos. Teria um irmão gémeo, se ele não tivesse morrido à nascença, o que me faz questionar se só haveria espaço para um de nós no mundo. Toda a minha vida ponderei nisso e não consigo deixar de pensar como seria ter alguém com quem partilhar a minha infância. Os meus pais sempre tiveram demasiado cuidado comigo em alguns pormenores, como as pessoas com que ando, o que acaba por me fazer sentir um bocado oprimido. Acho-me chato, desinteressante, idiota, ridículo e lamechas. E o pior de tudo é que acho que estou a apaixonar-me por ti! Era isso que querias ouvir?”. Foi a vez de Rita ser apanhada desprevenida. Engoliu em seco enquanto pensava no que havia de dizer, quando, de súbito, se apercebeu do que ouvira. Ao dizer “Desculpa, importas-te de repetir as últimas frases?”, deu início ao período mais feliz na vida de ambos. Que, infelizmente, acabou passados dois anos.


02/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte II

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A decisão fora tomada há um mês, mas só esta manhã se resolveu verdadeiramente. “É hoje, já não aguento mais! Tem que ser esta noite!”. É sábado de manhã. José e Maria, os pais de Daniel, estranham que, por um lado, o filho se tenha levantado a tempo de tomar o pequeno-almoço com eles – algo raro em tempo de aulas – e, por outro, que o filho venha a cantarolar – algo que já não acontecia há mais de um mês.

- Não me digas que estás a chegar agora a casa?! – diz José, a sorrir.

- Claro, pai! Eu vou sempre de pijama quando saio à noite!

- Queres que te prepare alguma coisa?

- Não, mãe, deixa estar. Apetece-me cereais, hoje.

O resto do pequeno-almoço é passado em silêncio. A verdade é que este jovem que está sentado em frente a José e Maria é um completo estranho. Pouco sabem do filho, pouco mais além de alguns amigos e o que estuda. Isso, descobriram mal se decidiu a ir para a faculdade. “Psicologia. É isso que quero seguir.” E o assunto ficou por aí. Não é que alguma vez tenham sido negligentes com ele; nunca o maltrataram e poucas vezes lhe bateram, até porque, de resto, Daniel sempre foi uma criança sossegada. A verdade é que Daniel conseguiu sempre manter-se uma incógnita para quase todos os que o rodeiam. Era capaz de ouvir horas a fio alguém falar sobre os seus problemas, mas à pergunta “E tu? Como estás?”, respondia com um “Bem, obrigado. Viste o jogo ontem?” e desviava a conversa. O facto de Daniel ouvir e não falar era um dos motivos porque alguns dos amigos gostavam tanto dele. Era simpático, ajudava os outros, ouvia e não maçava ninguém com problemas, era o amigo perfeito!

“Sim, definitivamente, é hoje…” pensou mais uma vez, enquanto arrumava a loiça, mais tarde, depois do almoço. “Tenho que lhe ligar. Rita…”


O doce sabor dos Morangos

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Preparo-me para sair de casa, apesar do tempo. "Twenty years", dos Placebo, toca no computador. Assusto-me por me aperceber de que me esqueci de fazer um trabalho para amanhã. Acalmo-me porque me lembro que a aula foi adiada para quinta-feira. Mais um dia. E este "mais um dia" faz-me pensar no sabor dos morangos. Parece que foi há muito tempo, mas ainda me lembro bem do sabor dos morangos. O sabor dos morangos... Apetece-me repetir esta frase até à exaustão... Mas, enfim... é a vida... ou a ausência dela - parte II.

01/11/2004

É a vida... ou a ausência dela - Parte I

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Chove. Chove muito. Daniel está no carro, à beira-mar. Lá fora, o vento sopra, a chuva cai e vários casais têm relações sexuais dentro dos diversos carros espalhados pelo passeio. Daniel está sozinho, à espera do momento certo. Apesar da tempestade que ruge cada vez mais alto, apercebe-se do que acontece no carro mais próximo do dele e não consegue deixar de censurar. “Que raio de sítio e momento que vocês escolheram!”, pensa ele. O clarão de um relâmpago faz com que consiga ver o mar, revolto e implacável.

- O mar enrola na areia… - começa a cantar baixinho, enquanto a sua mente começa a perder-se em recordações…

- Aquilo ali, é a constelação de Cisne e ali fica Cassiopeia e deste lado…

- Daniel?

- Sim, Rita?

- E se te calasses e me beijasses?!

Esta cena passou-se há muito tempo, há cerca de dois anos. Estava-se em pleno Verão e a praia estava deserta. Naquela noite, duas pessoas uniram-se, dois corpos fundiram-se num momento que ficou marcado nas suas almas até ao fim da vida. Amavam-se. Lia-se isso nos olhos de cada um.

- Rita, eu… amo-… A recordação interrompe-se com um trovão. Daniel sorri e pensa “Está quase na hora…”


Era uma vez...

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...uma disciplina chamada "Análise e Produção de Texto". Essa disciplina, recém-nascida num curso de tradução, parece não estar, ainda, bem definida. Parece que os alunos vão analisando e escrevendo textos (quem diria...) à medida que o professor se lembra de inventar qualquer coisa. O primeiro trabalho foi um conto e, uma vez que me falta cabeça (e começa a faltar tempo, por causa de outras disciplinas não tão interessantes...), decidi aproveitar um possível prólogo de um hipotético romance para escrever o famigerado conto... O prólogo sofreu alterações, mas o Daniel ainda lá está, tal como a Rita, e agora temos a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre os dois. Para mais desenvolvimentos, esperem pelo romance, que será publicado no prazo de 10 anos! Isto é que é pensar em grande! :)
Saiu grande (em extensão!), por isso, vai ser postado às postas (sim, o trocadilho é seco!).
Ficando a aguardar comentários - PARTE I...

19/10/2004

Desculpe, importa-se de repetir?

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"Eu não sou racista, mas devo admitir que se tivesse, por exemplo, um ginecologista preto, não me ia sentir à vontade de ele estar para ali a mexer. (...) Já estive apaixonada por uma pessoa de cor preta, mas pensava como seria ter um filho preto e acho que não ia querer por causa do que ele ia passar com o que as outras pessoas iam pensar. Não sei, se calhar até estou a dar uma ideia errada de mim, mas eu não sou racista."

Telespectadora que ligou para um programa de um canal radical...