A dream called fate
A time will come when I will feel happy. A day will come when I will be thankful for being alive. A night will come when I will fall asleep aside you. But I fear the moment when I will realize that this is but a dream…
A time will come when I will feel happy. A day will come when I will be thankful for being alive. A night will come when I will fall asleep aside you. But I fear the moment when I will realize that this is but a dream…
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Domingo à noite. Rita põe a mesa, enquanto a mãe prepara o jantar e o pai vê televisão.
- Isso é que é uma vida, duas mulheres a trabalhar para ti, enquanto vês televisão! – Rita sorri, maldosamente.
- Foi para isso que me casei e foi para isso que te tivemos! – responde, também a sorrir, o pai à provocação – Ai, meu Deus! Rita, anda cá depressa!
- O que foi?! Que se passa?!
- Aqueles não são os pais do Daniel?
- São! O que aconteceu?!
A notícia na televisão dava conta de um acidente que a polícia estava a investigar. Um carro capotara na noite anterior. Nada de extraordinário, tendo em conta a tempestade que se fizera sentir. Acreditava-se que a tempestade já teria começado a acalmar à hora do acidente, mas, com o piso molhado, bastava que dois carros se tocassem para haver um acidente. No entanto, não havia vestígios de outro carro. Não havia vestígios de que algo tivesse causado este acidente. As marcas de pneus na estrada pareciam indicar que o condutor teria, deliberadamente, conduzido contra a berma e, por isso, entrevistava-se agora os pais do sinistrado para tentar apurar motivos, já que as análises ao sangue não mostravam vestígios nem de álcool, nem de drogas. Enquanto a jornalista falava sobre estas e outras informações, há um cãozinho, a única testemunha deste acidente, que passa, de orelhas baixas e rabo entre as pernas, assustado com toda esta confusão…
Rita começa a chorar. Tenta evitar, mas não consegue. Só agora se apercebe de que ainda não esquecera Daniel. Ele significou demasiado para ela simplesmente o esquecer. É por isso que, daqui a alguns anos, nascerá um pequeno bebé e Rita dirá ao marido, sem qualquer hesitação e sem dar hipóteses de discussão, que o filho se vai chamar Daniel.
- É a vida… ou a ausência dela… - sussurra Rita, enquanto assiste ao resto da notícia, acreditando que realmente se tratou de suicídio. O que ouviu no dia anterior, durante a tarde, faz agora, na cabeça dela, todo o sentido e, por isso, repete-o - É a vida… ou a ausência dele.
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O Daniel morreu. Nada voltará a ser igual e, no entanto, a vida vai seguir o seu caminho normal.
É a vida... ou a ausência dela - Última parte
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“Tenho 23 anos. Para uma criança, sou velho, para um adulto sou novo. Nem sei como me sinto, se demasiado novo para morrer, se já velho e cansado para continuar a viver. Só sei que assim não posso continuar. Assim, não!” Daniel continua a tentar ignorar o casal vizinho, mesmo quando o rapaz espreita pelo vidro. Este quer que o vejam; é um orgulho para ele estar com uma mulher, em pleno acto sexual - mesmo que não sentindo nada por ela - enquanto que o outro está sozinho.
- Bom, tenho que me decidir. Vou manter o plano: numa qualquer curva apertada, acelero o suficiente para me despistar. Assim vai parecer um acidente e ninguém fica com remorsos – no entanto, Daniel hesita - Não há razão para viver… ou será que…?
Daniel nunca conseguirá explicar o que aconteceu nesse momento. De súbito, desata a rir. Há algo dentro dele, algo que o tem andado a remoer e finalmente agora sabe o que é. A grande verdade que lhe escapara e que, no fundo, é tão simples. “Não são precisos motivos para viver. Não podemos esperar que algo nos venha tirar da cama para enfrentar a vida. A vida é feita de altos e baixos. De desilusões, de angústias, de tristezas, mas também de alegrias, de sorrisos, de elogios, de humor, de felicidade, de amizade, de exultação, de frenesim, de gargalhadas, de abraços, de beijos, de olhos e de amor, inevitavelmente, de amor. Como posso ter sido tão idiota?!” O rapaz que há pouco espreitava pelo vidro e via um Daniel triste e sisudo, vê agora um Daniel a rir com vontade e, na sua estúpida e ridiculamente baixa auto-estima, pensa que Daniel se ri dele e não consegue continuar com o que estava a fazer…
É um outro Daniel que agora mete a chave na ignição. Com cuidado, faz-se à estrada, com os limpa pára-brisas a moverem-se vagarosamente de um lado para o outro. A tempestade acalmara gradualmente, mas ainda chovia e a estrada estava molhada. O carro avança devagar por agora. “É melhor não arriscar. Com este tempo, se me aparece alguma coisa pela frente…” Ainda demora algum tempo para ir de casa de Daniel até à praia e é preciso ir por uma via rápida. “Pronto, acho que vou acelerar um bocado mais. Começo a ter sono e mal posso esperar pelo dia de amanhã. Talvez ligue à Joana…” Daniel recomeça a rir com o disparate de toda esta situação. Esta manhã acordara decidido a pôr termo à vida e agora pensa no amanhã, numa outra rapariga, num outro amor, numa outra vida. Sabe que nunca vai esquecer verdadeiramente Rita, mas sente-se calmo, até um pouco feliz. Não consegue deixar de sorrir e fecha momentaneamente os olhos, a imaginar o futuro que tem pela frente. Os instantes que se seguem não duram mais do que uns segundos. Daniel abre os olhos. Há um cão a atravessar a estrada. Sustém a respiração. Gira o volante para a direita. O carro guina em direcção à berma. Morde os lábios. Os pneus chiam. Fecha os olhos. O carro capota. Daniel morre.
*
Rita acaba de sair do banho. Está no quarto, a vestir-se, com o corpo ainda frio, quando o telemóvel toca. No visor, a palavra “DANIEL” fá-la soltar um “O que é que este quer agora?!” antes de atender.
- Estou? Que foi? Não posso falar agora.
- Não podes ou não queres?
- É a mesma coisa!
- Muito bem, não fales, mas deixa de te portar como uma idiota, cala-te e ouve! Eu quero falar e quero, principalmente, que ouças!
- Quem é que tu pensas que és?!
- Mas vais ficar calada ou não?! – Daniel nunca levantara a voz em toda a sua vida. Rita sabe disso.
- Diz o que queres – diz Rita depois de alguma hesitação.
- O que eu quero não é o mesmo que o que tenho para te dizer. O que tenho para dizer, no fundo, não são mais do que algumas reflexões e vou ser breve. Costuma-se dizer que cada pessoa é um indivíduo. No entanto, o indivíduo, homem ou mulher, passa uma vida inteira à procura da chamada cara-metade, certo? A alma gémea.
- Sim, mas... Daniel, por favor não comeces outra vez…
- Ouve. Eu disse que ia ser breve, por isso não vou começar nada, nem sequer vou dizer o que realmente quero. Como estava a dizer, um indivíduo tem uma alma gémea. Alguém que nos faz sentir vivos, não no sentido de respirar e tudo o mais, mas vivos, completos, acima de tudo, necessários. Tu és a minha alma gémea…
- Daniel, por favor, não…
- Rita, há outra reflexão que tenho para te contar. Tudo no universo, mesmo a Vida, tem sempre dois lados que se opõem. O Bem e o Mal, o Amor e o Ódio, e assim sucessivamente, certo?
- Sim – responde Rita, algo confusa – mas estás a falar de quê?
- Rita, o que eu quero dizer é que tu és a minha vida, mas como não te tenho, só me resta a tua ausência. E eu não suporto a tua ausência.
- Não estás a dizer coisa com coisa!
- Para acabar, tudo se resume numa frase: é a vida ou a ausência dela.
- O quê? Daniel…
A ligação é interrompida por Daniel, que em seguida desliga completamente o telemóvel e pede aos pais que, se alguém lhe ligar, digam que ele não está. Pede ainda o carro para sair depois do jantar. Vai sair, apesar do temporal que agora começa.
*
Rita. Rita era a única pessoa que sabia realmente quem era Daniel. Cruzaram-se na faculdade quando ele tinha 19 anos. É um ano mais velha, mas algumas disciplinas atrasadas fizeram com que se conhecessem, através de outros alunos. Ao fim de um ano, Rita apercebeu-se do casulo em que se escondia Daniel. Nessa altura, a pergunta “Já reparaste que nunca me contaste o que quer que seja acerca de ti?” apanhou-o completamente desprevenido. A verdade é que nunca ninguém tinha mostrado interesse em conhecê-lo. E então aconteceu. Daniel abriu-se. “Tenho 20 anos. Teria um irmão gémeo, se ele não tivesse morrido à nascença, o que me faz questionar se só haveria espaço para um de nós no mundo. Toda a minha vida ponderei nisso e não consigo deixar de pensar como seria ter alguém com quem partilhar a minha infância. Os meus pais sempre tiveram demasiado cuidado comigo em alguns pormenores, como as pessoas com que ando, o que acaba por me fazer sentir um bocado oprimido. Acho-me chato, desinteressante, idiota, ridículo e lamechas. E o pior de tudo é que acho que estou a apaixonar-me por ti! Era isso que querias ouvir?”. Foi a vez de Rita ser apanhada desprevenida. Engoliu em seco enquanto pensava no que havia de dizer, quando, de súbito, se apercebeu do que ouvira. Ao dizer “Desculpa, importas-te de repetir as últimas frases?”, deu início ao período mais feliz na vida de ambos. Que, infelizmente, acabou passados dois anos.
*
A decisão fora tomada há um mês, mas só esta manhã se resolveu verdadeiramente. “É hoje, já não aguento mais! Tem que ser esta noite!”. É sábado de manhã. José e Maria, os pais de Daniel, estranham que, por um lado, o filho se tenha levantado a tempo de tomar o pequeno-almoço com eles – algo raro em tempo de aulas – e, por outro, que o filho venha a cantarolar – algo que já não acontecia há mais de um mês.
- Não me digas que estás a chegar agora a casa?! – diz José, a sorrir.
- Claro, pai! Eu vou sempre de pijama quando saio à noite!
- Queres que te prepare alguma coisa?
- Não, mãe, deixa estar. Apetece-me cereais, hoje.
O resto do pequeno-almoço é passado em silêncio. A verdade é que este jovem que está sentado em frente a José e Maria é um completo estranho. Pouco sabem do filho, pouco mais além de alguns amigos e o que estuda. Isso, descobriram mal se decidiu a ir para a faculdade. “Psicologia. É isso que quero seguir.” E o assunto ficou por aí. Não é que alguma vez tenham sido negligentes com ele; nunca o maltrataram e poucas vezes lhe bateram, até porque, de resto, Daniel sempre foi uma criança sossegada. A verdade é que Daniel conseguiu sempre manter-se uma incógnita para quase todos os que o rodeiam. Era capaz de ouvir horas a fio alguém falar sobre os seus problemas, mas à pergunta “E tu? Como estás?”, respondia com um “Bem, obrigado. Viste o jogo ontem?” e desviava a conversa. O facto de Daniel ouvir e não falar era um dos motivos porque alguns dos amigos gostavam tanto dele. Era simpático, ajudava os outros, ouvia e não maçava ninguém com problemas, era o amigo perfeito!
“Sim, definitivamente, é hoje…” pensou mais uma vez, enquanto arrumava a loiça, mais tarde, depois do almoço. “Tenho que lhe ligar. Rita…”
Preparo-me para sair de casa, apesar do tempo. "Twenty years", dos Placebo, toca no computador. Assusto-me por me aperceber de que me esqueci de fazer um trabalho para amanhã. Acalmo-me porque me lembro que a aula foi adiada para quinta-feira. Mais um dia. E este "mais um dia" faz-me pensar no sabor dos morangos. Parece que foi há muito tempo, mas ainda me lembro bem do sabor dos morangos. O sabor dos morangos... Apetece-me repetir esta frase até à exaustão... Mas, enfim... é a vida... ou a ausência dela - parte II.
Chove. Chove muito. Daniel está no carro, à beira-mar. Lá fora, o vento sopra, a chuva cai e vários casais têm relações sexuais dentro dos diversos carros espalhados pelo passeio. Daniel está sozinho, à espera do momento certo. Apesar da tempestade que ruge cada vez mais alto, apercebe-se do que acontece no carro mais próximo do dele e não consegue deixar de censurar. “Que raio de sítio e momento que vocês escolheram!”, pensa ele. O clarão de um relâmpago faz com que consiga ver o mar, revolto e implacável.
- O mar enrola na areia… - começa a cantar baixinho, enquanto a sua mente começa a perder-se em recordações…
- Aquilo ali, é a constelação de Cisne e ali fica Cassiopeia e deste lado…
- Daniel?
- Sim, Rita?
- E se te calasses e me beijasses?!
Esta cena passou-se há muito tempo, há cerca de dois anos. Estava-se em pleno Verão e a praia estava deserta. Naquela noite, duas pessoas uniram-se, dois corpos fundiram-se num momento que ficou marcado nas suas almas até ao fim da vida. Amavam-se. Lia-se isso nos olhos de cada um.
- Rita, eu… amo-… A recordação interrompe-se com um trovão. Daniel sorri e pensa “Está quase na hora…”
...uma disciplina chamada "Análise e Produção de Texto". Essa disciplina, recém-nascida num curso de tradução, parece não estar, ainda, bem definida. Parece que os alunos vão analisando e escrevendo textos (quem diria...) à medida que o professor se lembra de inventar qualquer coisa. O primeiro trabalho foi um conto e, uma vez que me falta cabeça (e começa a faltar tempo, por causa de outras disciplinas não tão interessantes...), decidi aproveitar um possível prólogo de um hipotético romance para escrever o famigerado conto... O prólogo sofreu alterações, mas o Daniel ainda lá está, tal como a Rita, e agora temos a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre os dois. Para mais desenvolvimentos, esperem pelo romance, que será publicado no prazo de 10 anos! Isto é que é pensar em grande! :)
Saiu grande (em extensão!), por isso, vai ser postado às postas (sim, o trocadilho é seco!).
Ficando a aguardar comentários - PARTE I...
"Eu não sou racista, mas devo admitir que se tivesse, por exemplo, um ginecologista preto, não me ia sentir à vontade de ele estar para ali a mexer. (...) Já estive apaixonada por uma pessoa de cor preta, mas pensava como seria ter um filho preto e acho que não ia querer por causa do que ele ia passar com o que as outras pessoas iam pensar. Não sei, se calhar até estou a dar uma ideia errada de mim, mas eu não sou racista."
Telespectadora que ligou para um programa de um canal radical...
Daqui a 5 horas tenho que me levantar para ir para a escola. Suponho que primeiro tenho que me deitar antes de me levantar, mas isso tem tempo. Vim agora de uma visita geral pelas casas que conheço. Conheci um vizinho novo, acabadinho de chegar. Acho que ele promete algumas leituras interessantes. Vamos ver. Isto é a vida.
Tenho sonhado menos. Continuo a pensar, mas sonho cada vez menos. Cheguei há pouco de uma aula de duas horas de Marketing e só me perdi uma vez, durante uns míseros 5 minutos. Começo a resolver os problemas de concentração e começo a aceitar esta realidade como a minha realidade. Tenho um longo futuro pela frente. Isto são os fantasmas.
Tenho saudades tuas. Tenho uma prenda para te dar, mas sei que ainda vai ganhar pó antes de te ver. Daria tudo para te abraçar, mas sei que isso vai demorar muito tempo a acontecer, se é que voltará a acontecer.Dou-te o meu apoio incondicional, o meu carinho e afecto, um belo pontapé no traseiro (quando precisares de um), tudo o que precisares e o que deixares. Isto é o amor.
Bom, está na hora da caminha. Acho que o meu pai já se apercebeu de que tenho a luz ligada e já se está a mexer na cama. Que chatice ele ser a única pessoa no mundo capaz de acordar com a respiração dos mosquitos (isto é uma ironia...) e dormir mesmo no quarto ao lado!
Acabámos de falar. Todos nós nos olhamos de frente. Analisamo-nos. Estudamo-nos. Compreendemo-nos. Sabemos o que cada um de nós pensa e do que somos capazes.
- Eu sou o Tyler Durden.
- Eu sou o Inverno.
- Eu sou o Parvo.
- Eu sou o Tradutor de Edgar Allan Poe.
- E eu sou o Estranho.
Nós somos o criador deste blog. É através deste blog que mostramos ao mundo que existimos, que pensamos, que respiramos. É através deste blog que gritamos, que choramos, que desabafamos. Nenhum de nós se consegue exprimir de outra forma. Todos estamos a tentar corrigir essa falha. Talvez um dia nos apresentemos como um só. Talvez um dia alguém nos volte a ver como um só. Até esse dia, tratem-me por tu. Quando esse dia chegar, passem a tratar-me por amigo.
- Olá, já me apresentei? Eu sou o...
É chegada a hora! Temos de transcender, de superar, de provar tudo o que somos ou podemos ser! É chegada a hora! A guerra começa! Temos de seguir em frente! A sobrevivência do mais forte toma forma agora! É a altura de correr, saltar, lutar, tudo o que for preciso para conseguir! Prosseguir! Sobreviver! Enfrentar tudo e todos se for preciso! É chegada a hora! Criar alianças, reforçar laços, superar todos os obstáculos, passar por cima de quem nos tenta passar por cima, nem que seja Deus! É chegada a hora! Que se ouçam gritos de guerra por todo o país! Quem está comigo?! Em frente, agarremos a vida, vamos conseguir! É chegada a hora! Em frente! Para a guerra!!!
...o amanhã nunca chegasse? E se a noite se tornasse infinita, pairasse, dançasse deste momento até ao fim dos tempos? E se nós ficassemos juntos, abraçados, fundidos para sempre nesta noite? E se nunca mais fechassemos os olhos para termos a certeza de que não fugimos um do outro? E se eu estivesse preso no teu coração como tu estás presa no meu? E se tu sentisses por mim o amor que sinto por ti e nunca mais quisesses deixar de sentir esse amor por mim? E se a vida fosse um sonho e não um pesadelo?
Rita acaba de sair do banho. Está no quarto, a vestir-se, com o corpo ainda frio, quando o telemóvel toca. No visor, as palavras “DANIEL-CASA” fazem-na soltar um “O que é que este quer agora?!” antes de atender.
- Estou? Que queres? Não posso falar agora.
- Rita? É o João. Não podes mesmo falar? É importante… - ouviu-se do outro lado.
- João?! Mas… Estás a ligar de casa do Daniel?
- Sim. Eu… tenho uma coisa para te dizer… É sobre o Daniel… Podes falar?
- O que é que foi agora? Ele ainda não percebeu que não quero falar com ele?!
- Rita… O Daniel morreu.
- O quê?!
- Ele teve um acidente de carro.
- Estás a brincar!
Rita sabe que João não está a brincar. Os soluços que começa a ouvir provam-no. O Daniel morreu. Num acidente de carro. “Espera… Ele não faria isso…”
- João, desculpa, eu sei que isto não é fácil e, apesar de tudo, lamento a morte dele, mas… O Daniel ia sozinho?
- Apesar de tudo?! Mas tu estás louca?! Ele era teu amigo!
- João, ele ia sozinho ou não?!
- Ia! – João desligou assim que respondeu. Rita não sabe o que pensar. Quer sentir-se indiferente, mas a verdade é que sente uma profunda tristeza com esta notícia. “Ele ia sozinho…” Enquanto pousa o telemóvel na cama, não tem a certeza do que há-de pensar. “Ele ia sozinho…”
As únicas certezas de Rita são que o Daniel não morreu, suicidou-se, e que ela foi um dos principais motivos para o suicídio.
É a 2ª vez que ligo o computador numa hora. Da primeira vez, ainda mal tinha acabado de iniciar e já estava a receber ordem de encerramento. Para que servem os blogues? Será que se trata de uma espécie de diário? Será que são uma forma de divulgar aquilo que escrevemos e que, egocêntricos e pedantes, achamos ter qualidade? Serão uma forma de dizer o que nos vai na alma? Depois de desligar o computador, fui ler. Edgar Allan Poe. Mais um livrinho, desta vez de contos, que comprei deste senhor. Este é em português, portanto, em vez de "citar" uma tradução minha, posso usar a do senhor António Vilaça (espero que não me vá processar por isto!). Em "A Máscara da Morte Rubra", o Príncipe Próspero (não, não estou a brincar) e outras pessoas que estão num baile de máscaras encontram-se perante alguém que não conhecem e que usa uma máscara inconvenientemente assustadora. Mas, "na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do ESTRANHO não existia talento nem bom gosto. A figura era alta e esquálida, envolta dos pés à cabeça em vestes mortuárias."Para que servem os blogues?! Nunca consegui descobrir isso. Mesmo o uso que lhe dou é estranho! Muitas vezes escrevo coisas sem qualquer sentido, o que quer dizer que estou a exprimir os meus sentimentos. Mas com muita calma senão sairia uma coisa deste género kdagsnifgjelassdcdanielajhasdkljelaahsk! Não sei por que escrevo isto. Talvez por ter andado a remexer na minha gaveta e caixas de recordações. Talvez por hoje ter acordado como de costume. Talvez porque... não sei o que dizer e apetece-me encerrar O Estranho! E o estranho é eu saber, do fundo da minha alma, que isso não resolveria nada. E além do mais, seria só uma tentativa de chamar a atenção! CLR, NG, BB, JB, Nocturnidade, Sofia Ctx e um anónimo que nunca soube quem era, obrigado por terem comentado este blog. Asseguraram-me que é possível aceder aO Estranho! E o tempo voa quando nos estamos a divertir! Não percebo é por que é que este segundo demora tanto a passar!
:)
There is freedom within, there is freedom without
Try to catch the deluge in a paper cup
There's a battle ahead, many battles are lost
But you'll never see the end of the road
While you're traveling with me
Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
We know they won't win
Now I'm towing my car, there's a hole in the roof
My possessions are causing me suspicion but there's no proof
In the paper today tales of war and of waste
But you turn right over to the T.V. page
Now I'm walking again to the beat of a drum
And I'm counting the steps to the door of your heart
Only shadows ahead barely clearing the roof
Get to know the feeling of liberation and relief
Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in
They come, they come
To build a wall between us
Don't ever let them win
Música dos Crowded House, apesar de só a conhecer cantada pelos Sixpence none the Richer. Sabes, Estranha, hoje (tal como em quase todos os outros dias) acordei a pensar em ti. Acordei com saudades tuas, como de resto acordo e passo a maioria dos dias. No entanto, parece-me que ainda não percebeste bem o que quero dizer! Apesar de não perceberes muito bem inglês, pode ser que ao leres a letra desta música e me ouvires dizer o teu nome, percebas a importância que tens para mim. Alien Daorud Semog, I don't want to dream it's over. Apesar de sentir que já acabou...
Estou no quarto estranho, sozinho. Há vento lá fora, e frio, chuva, vida. De repente, ouço-te miar. Mecanicamente, abro-te a janela e tu entras, sem qualquer esforço, sacudindo a cabeça para tentar afastar a água da chuva e o frio. Mias outra vez e percebo que tens fome, por isso, pego em ti e vamos para a cozinha. Deixo-te em paz para que possas comer descansado e subo ao quarto, onde estou agora a pensar. A recordar… Voltas para a minha beira, ainda a lamber os bigodes, e os teus olhos brilham de satisfação. Deitas-te a meu lado e adormeces. Olho-te com carinho e afago-te a cabeça. Tu estremeces e mias. Como gostas de miar! Como gosto de ti… Talvez farto de mim, talvez farto de estar em casa, levantas-te, diriges-te à porta e mias. Para que queres ir lá para fora, está a chover! E mias. E eu acedo ao teu pedido. E afago-te a cabeça mais uma vez. Duas horas depois, ouço-te miar outra vez. Mas agora não estás à porta ou à janela. Estás deitado, no meio da rua, e não te consegues levantar. Foram as minhas mãos a última coisa que sentiste, enquanto te puxava para a berma da estrada. Afago-te a cabeça, pela última vez, enquanto te preparas para viajar. Não sei se continuas a miar. Não sei sequer onde estás, nem sei por onde hei-de começar a procurar-te. Sei que gostava de te ouvir neste momento, para, mecanicamente, te abrir a janela e tu entrares.
Estou no quarto estranho, sozinho. Lembro-me de como te olhei, com um sorriso nos lábios, quando estavas deitado à minha beira, quente e satisfeito. Lembro-me de como te olhei, de lágrimas nos olhos, quando estavas deitado na berma da estrada, frio e a sofrer. Penso nas palavras que nunca te disse. Adeus, Faísca…
A Terra é redonda, ligeiramente achatada nos polos, e gira à volta do sol, para além de girar sobre si própria!